Charinus eleonorae é uma espécie de amblípigo da família dos carinídeos (Charinidae) e do gênero Charinus. É endêmica do Brasil e restrita a cavernas do município de Itacarambi, no norte de Minas Gerais. Foi descrita em 2003 por Rafael Lourenço Cunha Baptista e Alessandro Ponce de Leão Giupponi com base em exemplares coletados na Gruta Olhos d’Água, no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu. O epíteto específico homenageia a biospeleóloga Eleonora Trajano, responsável pela primeira coleta conhecida da espécie. Atualmente, C. eleonorae é incluída no grupo de espécies de Charinus brasilianus, que reúne representantes distribuídos principalmente pelo leste da América do Sul. É considerada uma espécie troglóbia, apresentando diversas adaptações associadas à vida subterrânea.

A espécie mede cerca de oito milímetros de comprimento e distingue-se por características troglomórficas, como a redução dos olhos medianos e laterais, além da despigmentação parcial do corpo. Também apresenta um número incomumente elevado de cerdas na margem anterior da carapaça e pedipalpos relativamente alongados. Sua distribuição conhecida restringe-se às cavernas Gruta Olhos d’Água, Lapa do Cipó e Lapa d’Água João Ferreira, inseridas na região cárstica da Província Espeleológica do Bambuí. Os indivíduos habitam exclusivamente a zona afótica das cavernas, onde utilizam fendas e pequenas cavidades das paredes rochosas como refúgio.

Predador de hábitos predominantemente noturnos, C. eleonorae integra uma comunidade subterrânea especializada que inclui outros artrópodes troglóbios e espécies endêmicas da região. Estudos populacionais indicaram uma população reduzida e de baixa mobilidade, estimada em cerca de 148 indivíduos em um trecho da Gruta Olhos d’Água. Em avaliação nacional realizada em 2018, a espécie foi classificada como Em Perigo (EN) devido à sua distribuição extremamente restrita e às ameaças associadas à alteração do regime hídrico subterrâneo, incluindo captação de água, construção de barramentos, redução do aporte de matéria orgânica e mudanças no padrão regional de precipitação. A espécie ocorre em áreas protegidas e está contemplada por ações oficiais de conservação da fauna cavernícola brasileira.

Taxonomia

Charinus eleonorae é uma espécie de amblípigo da família dos carinídeos, pertencente ao gênero Charinus. Foi descrita em 2003 por Rafael Lourenço Cunha Baptista e Alessandro Ponce de Leão Giupponi, com base em exemplares coletados na Gruta Olhos d’Água, no município de Itacarambi, no noroeste de Minas Gerais. Na época da descrição, o gênero Charinus, em sentido amplo, incluía 23 espécies neotropicais descritas, das quais sete eram conhecidas do Brasil. C. eleonorae foi apresentada como a oitava espécie brasileira do gênero e a segunda espécie troglomórfica conhecida no país, após C. troglobius, descrita de cavernas da Serra do Ramalho, no sudoeste da Bahia. O epíteto específico eleonorae homenageia a biospeleóloga brasileira Eleonora Trajano, que foi a primeira pessoa a coletar exemplares da espécie. Segundo os autores, C. eleonorae pertence a Charinus em sentido estrito por apresentar a basitíbia da perna IV dividida em quatro pseudoartículos, além do corpo relativamente grande e da presença de vestígios dos olhos medianos. O holótipo é um macho coletado em 26 de junho de 2001 na Gruta Olhos d’Água, em Itacarambi, Minas Gerais, por Rafael Lourenço Cunha Baptista e Alessandro Ponce de Leão Giupponi, e depositado no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob o número MNRJ 9070. A série de parátipos inclui sete machos, seis fêmeas, dois machos imaturos, duas fêmeas imaturas e dois jovens coletados na mesma localidade e data, depositados sob o número MNRJ 9033, além de um macho depositado no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo e um macho nas Coleções Zoológicas do Instituto de Ecologia e Sistemática, em Havana, em Cuba. Também foram incluídos como parátipos uma fêmea coletada por Eleonora Trajano em 10 de julho de 1993, sob o número MNRJ 9024, e uma fêmea e um jovem coletados por Pedro Gnaspini e Eleonora Trajano entre 30 de março e 2 de abril de 1994, sob o número MNRJ 9023.

Posteriormente, C. eleonorae foi incluída por Miranda et al. (2016) no grupo de espécies de Charinus brasilianus, conforme a classificação proposta por Weygoldt (2005). Esse grupo reúne espécies distribuídas principalmente pelo leste da América do Sul, além de uma espécie registrada em Omã, incluindo C. asturius, C. acaraje, C. brasilianus, C. bromeliaea, C. caatingae, C. eleonorae, C. iuiu, C. jibaossu, C. montanus, C. mysticus, C. potiguar, C. taboa, C. troglobius e C. dhofarensis. Os autores destacaram que C. eleonorae pode ser distinguida de Charinus ruschii pela redução dos olhos medianos e do tubérculo ocular, estruturas que são bem desenvolvidas em C. ruschii. Também observaram que C. eleonorae apresenta um número excepcionalmente elevado de cerdas na margem frontal da carapaça, com dez cerdas, enquanto as demais espécies conhecidas do grupo apresentam no máximo seis. Em revisão taxonômica posterior, Miranda et al. (2021) ampliaram a diagnose da espécie e destacaram uma combinação de caracteres que inclui o tubérculo ocular mediano indistinto, olhos laterais reduzidos com lentes achatadas, dez cerdas na margem anterior da carapaça, tíbia da perna I dividida em 23 artículos, tarso I com 40 ou 41 artículos e basitíbia da perna IV dividida em quatro pseudoartículos. Os autores também registraram gonópodos femininos pequenos, de aspecto ventosiforme, e uma garra queliceral portando entre nove e doze dentes, características que auxiliam na distinção da espécie em relação a outros representantes do gênero.

Diagnóstico

Charinus eleonorae distingue-se das demais espécies brasileiras do gênero por uma combinação de caracteres morfológicos associados ao troglomorfismo e à morfologia dos pedipalpos e das pernas. O corpo mede cerca de 7,8 milímetros em machos e fêmeas, com variação de 7,0 a 9,1 milímetros nos machos e de 7,3 a 8,3 milímetros nas fêmeas. A carapaça é pouco mais curta que quatro quintos de sua largura, proporção compartilhada apenas parcialmente com C. mysticus, enquanto a maioria das demais espécies apresenta carapaça proporcionalmente mais larga. Os cantos da margem anterior da carapaça são fracamente desenvolvidos, formando pequena saliência arredondada. O tubérculo dos olhos medianos é indistinto, geralmente com apenas duas manchas oculares muito pequenas, embora alguns exemplares não apresentem vestígios desses olhos. Os olhos laterais estão presentes, mas são reduzidos e apresentam lentes achatadas. As placas esternais são estreitas, convexas e arredondadas, com o tritosterno pouco mais de três vezes mais longo que largo. Os espinhos dos pedipalpos são muito mais longos que os das demais espécies conhecidas, exceto C. troglobius. O fêmur do pedipalpo possui três espinhos dorsais e três espinhos ventrais principais, além de um espinho ventral adicional; o distitarso possui dois espinhos longos de tamanho aproximadamente igual. O canto ventral prolateral das pernas locomotoras é espiniforme. A basitíbia e a distitíbia da perna IV apresentam, em conjunto, 18 tricobótrios, sendo um na basitíbia e 17 na distitíbia. O basitarso IV é pouco mais de duas vezes mais longo que o distitarso IV.

Morfologia

A carapaça de C. eleonorae é achatada e mais larga que longa, com razão entre comprimento e largura um pouco inferior a 4/5. A margem anterior possui geralmente dez pequenas cerdas rígidas projetadas, embora alguns exemplares apresentem nove ou oito. Há uma depressão mediana anterior, no centro da qual se localizam os vestígios dos olhos medianos, e um sulco mediano fino que se estende dessa depressão até um pequeno sulco transversal, às vezes ausente, situado aproximadamente no nível do primeiro par de depressões laterais. A carapaça possui ainda uma elevação frontal baixa em cada lado, iniciada à frente dos olhos laterais e estendida quase até o primeiro par de depressões. Os cantos da margem anterior são fracamente desenvolvidos em pequena saliência arredondada. A carena inicia-se nesses cantos, alarga-se posteriormente a partir da coxa II, atinge sua maior largura sobre as coxas III e IV e alcança a margem posterior. A superfície apresenta pequenas pontuações, mais abundantes na região frontal, dispostas em linhas e manchas irradiadas a partir da fóvea e intercaladas por áreas glabras. A carapaça apresenta três pares de sulcos profundos e uma fóvea pentagonal muito profunda, cujos ângulos formam os pontos de origem do segundo e terceiro pares de sulcos e de um sulco posterior mediano baixo. O primeiro par de sulcos situa-se logo atrás das elevações frontais e não alcança a linha mediana. Há quatro pares laterais de depressões, dos quais apenas o terceiro não se localiza sobre os sulcos. O tubérculo ocular mediano é indistinto e geralmente possui apenas duas manchas oculares muito pequenas, achatadas e arredondadas, com grau variável de redução. Alguns exemplares apresentam apenas uma mancha ocular não pareada em um dos lados, uma única mancha maior e fundida no centro, ou nenhum vestígio dos olhos medianos. Os olhos laterais estão presentes, porém reduzidos, com lentes achatadas. O olho mais interno das tríades laterais é reduzido a uma pequena mancha pigmentada, enquanto os outros dois variam de lentes bem definidas, com escudos pigmentares distintos, a lentes muito pequenas e achatadas, sem delimitação clara entre as áreas pigmentadas. O processo frontal é bem desenvolvido, muito mais longo que largo e possui ápice pontiagudo.

O esterno é formado por três peças, todas esclerotizadas e convexas. O tritosterno possui base arredondada e projeta-se anteriormente entre as coxas dos pedipalpos como um tubérculo alongado e bifurcado, pouco mais de três vezes mais longo que largo, com duas cerdas apicais, uma em cada ramo da bifurcação, duas cerdas medianas e duas basais. A peça mediana é arredondada e convexa, com duas cerdas nos cantos da porção mediana superior e algumas setículas dispersas. A terceira peça também é arredondada e convexa, mas menor, mais baixa e com cerdas menores que as da peça mediana. Os esternitos são separados entre si por pouco mais que o diâmetro da peça mediana. O abdome é oblongo, com pontuação quase indistinguível e mais fina que a da carapaça. As quelíceras apresentam sulco queliceral com quatro dentes internos; o dente distal é bífido, com a primeira cúspide maior que a segunda. O quarto dente é cerca de um terço mais longo que o primeiro, e a sequência de comprimento dos dentes é IV > Ia > Ib = II > III. A garra queliceral possui de dez a onze dentículos, sendo os três basais maiores. Nos pedipalpos, o trocânter possui uma grande apófise ventral distal espiniforme, com muitas cerdas fortes e ápice rombo voltado para frente, além de dois espinhos subiguais na face prolateral, um no terço mediano e outro na extremidade distal. O fêmur possui três espinhos dorsais de tamanho médio situados nos terços mediano e distal, às vezes com um espinho adicional diminuto próximo ao ápice distal, e dois tubérculos setíferos no terço basal. Ventralmente, apresenta três espinhos primários alongados, mais longos que os dorsais e decrescentes em tamanho em direção distal, além de um espinho adicional próximo ao canto basal. A tíbia possui quatro espinhos dorsais, com fórmula de tamanho III > II > I > IV, situados na metade distal, e três espinhos ventrais, sendo o mediano muito maior que os demais. O basitarso possui dois espinhos dorsais originados de uma mesma área saliente no fim da metade basal e um espinho ventral na metade distal. O distitarso possui dois pequenos espinhos na metade basal, sendo o segundo ligeiramente maior, e o órgão de limpeza ocupa cerca de metade do comprimento do artículo. A garra é longa, com ápice agudo e curvado.