Charinus spelaeus é uma espécie de amblípigo da família dos carinídeos (Charinidae) e do gênero Charinus. É endêmica do Brasil e conhecida exclusivamente da caverna Lapa d’Água, no município de Presidente Juscelino, em Minas Gerais. Foi descrita em 2017 por Ana Caroline Oliveira Vasconcelos e Rodrigo Lopes Ferreira, sendo a quarta espécie do gênero Charinus registrada para Minas Gerais e uma das espécies troglóbias brasileiras do grupo. Caracteriza-se pela redução acentuada dos olhos medianos e laterais, pela despigmentação e por outros traços associados à vida subterrânea, distinguindo-se de congêneres por uma combinação particular de caracteres morfológicos, incluindo a disposição dos tricobótrios da quarta perna e a estrutura dos gonópodos.
A espécie habita exclusivamente os setores mais profundos e úmidos da caverna Lapa d’Água, onde foi observada sobre o piso e as paredes da cavidade, provavelmente predando pequenos invertebrados. Sua distribuição extremamente restrita, a ausência de registros em cavernas vizinhas e a presença de adaptações típicas de organismos cavernícolas indicam tratar-se de um microendemismo subterrâneo. Embora a descrição original tenha sugerido seu enquadramento como espécie criticamente em perigo, a avaliação nacional conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade classificou-a como vulnerável (VU) devido à ocorrência em uma única localidade e à suscetibilidade a alterações ambientais, especialmente aquelas relacionadas ao regime hídrico da caverna e às atividades humanas em seu entorno.
Taxonomia
Charinus spelaeus é uma espécie de amblípigo da família dos carinídeos (Charinidae), pertencente ao gênero Charinus. Foi descrita em 2017 por Ana Caroline Oliveira Vasconcelos e Rodrigo Lopes Ferreira, com base em exemplares coletados na caverna Lapa d’Água, no município de Presidente Juscelino, em Minas Gerais. Na descrição original, foi apresentada juntamente com Charinus santanensis, outra espécie cavernícola brasileira do mesmo gênero. Charinus spelaeus foi a quarta espécie de Charinus descrita para Minas Gerais e a sexta espécie troglóbia do gênero registrada para o Brasil. O epíteto específico spelaeus deriva do latim e significa "caverna", em referência ao habitat cavernícola da espécie. Em sua revisão sistemática mundial da família dos carinídeos, Miranda, Giupponi, Prendini e Scharff reconheceram Charinus spelaeus como uma espécie válida e mantiveram sua posição no gênero Charinus, corroborando os caracteres diagnósticos apresentados na descrição original.
Diagnóstico
O holótipo é uma fêmea coletada em 31 de janeiro de 2015 na caverna Lapa d’Água, em Presidente Juscelino, Minas Gerais, nas coordenadas 18°33'46.68"S, 44°7'40.01"W. O material foi coletado por Rodrigo Lopes Ferreira e depositado na Seção de Invertebrados Subterrâneos da Coleção de Zoologia da Universidade Federal de Lavras, sob o número ISLA 12788. A série-tipo inclui ainda sete fêmeas e três machos parátipos, todos provenientes da mesma localidade e data de coleta do holótipo. Charinus spelaeus distingue-se das demais espécies do gênero pela combinação de olhos medianos reduzidos a pequenas manchas oculares, com tubérculo indistinto, olhos laterais subdesenvolvidos, segundo e terceiro segmentos do esterno mais largos que longos, distitíbia da perna IV com 16 tricobótrios, gonópodos femininos do tipo ventosa, com uma fenda em cada estrutura gonopodal na porção oposta à margem do opérculo, e gonópodos masculinos com processo interno e primeiro lobo lateral em forma de garra. A espécie apresenta ainda garra queliceral com seis a nove dentes, fêmur do pedipalpo com três ou quatro espinhos dorsais e quatro ou cinco ventrais, patela com cinco ou seis espinhos dorsais e três ou quatro ventrais, tarso do pedipalpo com dois espinhos dorsais e séries sc e sf da distitíbia da quarta perna compostas por cinco tricobótrios cada. Na chave de identificação das espécies brasileiras de Charinus apresentada pelos autores, C. spelaeus é separado de C. montanus pela redução dos olhos medianos e pela presença de 13 tricobótrios distais na distitíbia da perna IV, em contraste com olhos medianos desenvolvidos e 15 tricobótrios distais em C. montanus.
Morfologia
Charinus spelaeus possui corpo pequeno e achatado, de coloração marrom-clara em vida, com abdome amarelado e quelíceras avermelhadas; em álcool, o corpo torna-se marrom-amarelado. O comprimento total médio dos exemplares examinados foi de 7,14 milímetros, variando de 5,69 a 8,69 milímetros. A carapaça mediu em média 2,30 milímetros de comprimento e 3,03 milímetros de largura. Os pedipalpos apresentaram fêmur com média de 2,16 milímetros, patela com 2,46 milímetros, tíbia com um milímetro, distitarso com 0,75 milímetro e garra com 0,63 milímetro. A carapaça é achatada, com razão entre comprimento e largura de aproximadamente 3/4, margem anterior arredondada e seis cerdas fortes projetadas para cima, embora um dos exemplares tenha apresentado cinco. O processo frontal é triangular, com ápice agudo, mais longo que largo e visível dorsalmente em alguns espécimes. Os olhos medianos são reduzidos a pequenas manchas, situadas em uma pequena depressão, e os olhos laterais são subdesenvolvidos, sem pigmentação, acompanhados por uma pequena cerda posterior. A fóvea é arredondada e localizada posteriormente ao centro da carapaça. O esterno é trissegmentado, com todos os segmentos esclerotizados e convexos. O tritosterno projeta-se anteriormente, é alongado e cônico, com pares de cerdas fortes e diversas setículas na base. O tetrasterno é mais largo que longo e possui uma cerda forte em cada canto superior; o pentasterno é mais achatado que o segundo segmento e também possui uma cerda forte em cada canto superior. As quelíceras apresentam sulco com quatro dentes internos no segmento basal; o dente distal é bífido, com cúspide distal maior que a proximal, e a garra possui de seis a nove dentículos. Os pedipalpos são densamente setosos e armados com espinhos. O fêmur possui geralmente quatro espinhos dorsais e quatro ventrais, embora alguns parátipos apresentem três espinhos dorsais ou cinco ventrais. A patela apresenta geralmente seis espinhos dorsais e três ventrais, com variação em alguns exemplares. A tíbia possui dois espinhos dorsais, sendo o segundo quase duas vezes maior que o primeiro, e um espinho ventral situado na metade distal. O órgão de limpeza ocupa cerca de metade do comprimento do distitarso, e a garra é longa, com ápice agudo e curvado. As pernas são densamente setosas, com comprimentos femorais na sequência I > III > II > IV. A perna I possui tíbia com 23 artículos e tarso com 41 artículos. A perna IV apresenta basitíbia com quatro pseudoartículos e distitíbia com 16 tricobótrios. A presença de olhos reduzidos, cutícula clara e vida restrita ao ambiente subterrâneo foi interpretada pelos autores como evidência de troglomorfismo.
Distribuição e habitat
Charinus spelaeus é endêmica do Brasil e conhecida apenas da caverna Lapa d’Água, no município de Presidente Juscelino, em Minas Gerais. A caverna é uma cavidade calcária associada ao grupo geológico Bambuí, inserida no Cerrado e na sub-bacia do Alto São Francisco. Possui aproximadamente 660 metros de projeção horizontal e um único conduto atravessado por um riacho intermitente. Cerca de 50 metros após a entrada, há uma constrição no conduto que torna a porção interna da caverna mais úmida e termicamente mais estável, mesmo durante períodos secos e frios. Os espécimes foram encontrados após essa constrição, tornando-se mais abundantes nas áreas mais profundas da cavidade. Durante a visita dos autores à caverna, pelo menos 20 indivíduos foram observados. A área externa ao redor da caverna foi considerada bem preservada, e, devido ao difícil acesso à cavidade, não havia sinais de visitação humana. Pelo menos cinco outras cavernas da região foram amostradas, mas nenhum exemplar de C. spelaeus foi encontrado, indicando que a espécie provavelmente é restrita à Lapa d’Água. Uma revisão sistemática posterior da família dos carinídeos manteve esse padrão de distribuição e registrou que a espécie continuava conhecida exclusivamente da localidade-tipo. Os autores reiteraram que os exemplares foram encontrados apenas na porção interna da caverna, além da constrição situada aproximadamente 50 metros após a entrada, reforçando a hipótese de que C. spelaeus seja um microendemismo subterrâneo restrito à Lapa d’Água.
História natural
Charinus spelaeus foi registrado no piso e nas paredes da caverna Lapa d’Água por meio de busca visual. Os exemplares foram encontrados exclusivamente na porção interna da cavidade, além de uma constrição localizada cerca de 50 metros após a entrada, setor caracterizado por maior estabilidade térmica e elevada umidade. A espécie torna-se mais abundante nas áreas mais profundas da caverna, onde pelo menos 20 indivíduos foram observados durante os levantamentos realizados. Potenciais presas registradas no mesmo ambiente incluem grilos juvenis do gênero Endecous, baratas e mariposas. A espécie é considerada troglóbia, isto é, restrita ao ambiente subterrâneo, em razão de sua distribuição aparentemente limitada à caverna Lapa d’Água e da presença de caracteres troglomórficos. Entre essas adaptações destacam-se a forte redução dos olhos medianos, os olhos laterais reduzidos e despigmentados e a cutícula relativamente clara. Segundo Vasconcelos e Ferreira, essas características estão entre as modificações mais frequentemente observadas em amblipígios cavernícolas especializados, refletindo a redução de estruturas pouco úteis em ambientes permanentemente escuros. A revisão sistemática da família dos carinídeos também reconheceu C. spelaeus como uma das espécies troglóbias do gênero registradas no Brasil, ressaltando que a combinação de redução ocular e cutícula clara constitui evidência consistente de adaptação ao ambiente subterrâneo. De acordo com a avaliação nacional conduzida pelo ICMBio, a espécie não apresenta comportamento migratório conhecido. Sua ocorrência está associada aos setores mais úmidos e estáveis da caverna, indicando dependência de condições microclimáticas específicas mantidas no ambiente subterrâneo.
Conservação
Charinus spelaeus foi considerado espécie criticamente em perigo (CR) por Vasconcelos e Ferreira, com base nos critérios B1ab(iii)+2ab(iii) da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). A espécie é conhecida apenas da caverna Lapa d’Água e não foi encontrada em outras cavernas amostradas na região, sugerindo distribuição extremamente restrita. Os autores destacaram que espécies de Charinus apresentam elevado grau de endemismo, condição que as torna particularmente vulneráveis a ameaças ao habitat, sobretudo no caso das espécies troglóbias. Embora a área externa da Lapa d’Água estivesse bem preservada e a caverna não apresentasse sinais de visitação humana no momento do estudo, os autores ressaltaram que cavidades naturais são habitats altamente suscetíveis à destruição e a alterações ambientais. A descrição de espécies endêmicas de cavernas foi considerada importante para ampliar o reconhecimento da relevância biológica dessas cavidades e contribuir para sua conservação. A revisão sistemática mundial da família dos carinídeos publicada em 2021 manteve C. spelaeus como uma espécie válida e registrou que ela permanecia conhecida exclusivamente da localidade-tipo. Os autores ressaltaram que a permanência desse padrão de distribuição reforça seu caráter de microendemismo subterrâneo, aumentando sua vulnerabilidade a perturbações ambientais locais. A combinação de distribuição extremamente restrita, aparente ausência em cavernas vizinhas e especialização ao ambiente subterrâneo indica que a conservação da caverna Lapa d’Água é fundamental para a manutenção da espécie.