Erotica é o quinto álbum de estúdio da artista musical estadunidense Madonna, lançado em 19 de outubro de 1992 através das gravadoras Maverick e Sire Records. Foi lançado simultaneamente ao livro Sex, que contém fotografias explícitas da cantora. Ambos marcaram o primeiro lançamento da Maverick, sua própria empresa de entretenimento multimídia que consiste em produções audiovisuais. Descrito como um álbum conceitual sobre sexo e romance, em sua divulgação a intérprete apresentou o alter ego Mistress Dita, inspirada na atriz alemã Dita Parlo. Já outras canções adquirem um tom mais confessional e pessoal, inspirado principalmente pela perda de dois de seus amigos em decorrência do vírus da imunodeficiência humana (HIV).
Gravado entre outubro de 1991 e agosto de 1992, Erotica é um álbum predominantemente dance-pop que funde elementos de diversos gêneros em sua composição, incluindo hip-hop, house, techno e o new jack swing. Para a produção, Madonna colaborou com Shep Pettibone e André Betts, enquanto trabalhava em outros projetos como Sex e o filme A League of Their Own. Quando a cantora estava em Chicago, Pettibone enviou-lhe uma fita cassete com três gravações demos do qual ela gostou, e em outubro de 1991 começaram a gravar o material para o disco no apartamento do produtor em Nova Iorque. Nas sessões, ambos tiveram problemas com o sequenciador, e como resultado Pettibone tentou acelerar o processo mais rápido possível, pois não queria que Madonna perdesse o interesse por seu trabalho. Segundo ele, as composições da intérprete eram sérias e intensas — e fez com que a sua direção criativa os dirigissem para um território profundamente pessoal. O mesmo detalhou a produção da obra em um artigo intitulado "Erotica Diaries", publicado pela revista Icon.
Após o seu lançamento, Erotica recebeu críticas favoráveis de profissionais especializados, que o consideraram um dos álbuns mais ousados de Madonna e elogiaram sua abordagem por temas tabus e AIDS. Comercialmente, no entanto, obteve a recepção mais modesta de um disco da artista até então, liderado as tabelas de poucos países, como Austrália, Brasil, Finlândia e França. Nos Estados Unidos, obteve a segunda como melhor ocupação na Billboard 200, tornando-se o primeiro álbum de estúdio da cantora a não liderar a tabela desde sua estreia (1982). O material recebeu certificação de platina dupla pela Recording Industry Association of America (RIAA) e British Phonographic Industry (BPI). Atualmente, registra seis milhões de unidades faturadas ao redor do mundo.
Seis músicas foram lançadas como singles de Erotica, com destaque para os dois primeiros, a faixa-título e "Deeper and Deeper", que listaram-se nas dez primeiras posições da estadunidense Billboard Hot 100. Como forma de divulgação, Madonna apresentou-se em premiações e programas televisivos e deu início a quarta turnê de sua carreira, a The Girlie Show World Tour, que visitou cidades da América do Norte e Latina, Ásia, Europa e Oceania em 1993. Ofuscado devido à polêmica em torno de Sex, Erotica é considerado um dos trabalhos mais subestimados do catálogo da artista. Em retrospecto, foi listado como um dos 500 melhores álbuns da década de 1980 pela Slant Magazine e um dos mais revolucionários de todos os tempos pelo Hall da Fama do Rock and Roll. Diversos críticos o citaram como influência para cantoras como Britney Spears, Christina Aguilera e Janet Jackson.
Antecedentes thumb|esquerda|Madonna executando "Deeper and Deeper" durante sua The Girlie Show World Tour, em 1993. Dez anos depois de assinar seu primeiro contrato de gravação com a Sire Records, em 1992, Madonna fundou sua própria empresa de entretenimento multimídia, a Maverick, consistindo em uma gravadora (Maverick), uma produtora de filmes (Maverick Films), e divisões associadas à lançamentos musicais e de livros, radiodifusão e publicidade. O acordo foi uma joint venture com a Time Warner, que pagou a cantora um adiantamento de 60 milhões de dólares e lhe deu 20% de royalties em seus empreendimentos musicais, uma das taxas mais altas do setor, igualada na época apenas pela de Michael Jackson, que foi criada um ano antes com a Sony. Madonna mencionou que imaginava a empresa como um "laboratório de ideias artístico" e a comparou a um cruzamento entre o Bauhaus, o "inovador" instituto de artes alemão formado em Weimar em 1919, e o The Factory, estúdio de gravação pertencente a Andy Warhol com sede em Nova Iorque; a este respeito, a cantora afirmou: "Começou como uma vontade de ter mais controle. Há um grupo de escritores, fotógrafos, diretores e editores que conheci ao longo da minha carreira e que quero levar comigo aonde quer que eu vá. Quero incorporá-los à minha pequena fábrica de ideias. Também entrei em contato com muitos jovens talentos que sinto que têm algo empreendedor a seu favor". Os dois primeiros projetos da empresa foram Erotica, seu quinto álbum de estúdio, e um livro de mesa com fotos dela nua, intitulado, Sex.
Madonna colaborou principalmente com Shep Pettibone para o álbum. Ambos começaram a trabalhar juntos durante a década de 1980, fazendo remixes para vários de seus singles. Mais tarde, ele co-escreveu e co-produziu a principal música de trabalho do álbum I'm Breathless, "Vogue", que liderou a tabela estadunidense Billboard Hot 100 em 1990. No mesmo ano, Pettibone trabalhou com Madonna em sua coletânea de grandes sucessos, The Immaculate Collection, no qual co-produziu a música inédita "Rescue Me" e remixou suas canções anteriores usando a tecnologia de áudio QSound. Dois anos depois a dupla se reuniu novamente para gravar "This Used to Be My Playground", produzida durante as sessões de Erotica e utilizada nos créditos finais do filme A League of Their Own, estrelado pela cantora. Tornou-se o seu décimo número um na Billboard Hot 100, fazendo dela a artista feminina com a maior quantidade de músicas nessa posição na época. Juntamente com Pettibone, Madonna contou com a ajuda do produtor André Betts, que anteriormente co-produziu "Justify My Love" para The Immaculate Collection. Ela explicou que estava interessada em trabalhar com eles devido às suas capacidades de permanecerem ligados ao underground; "Eles vêm de extremos opostos em termos de estilo musical e abordagem lírica, mas ambos estão ligados às ruas e ainda são jovens e criativos".
Desenvolvimento
Após o lançamento de The Immaculate Collection, em meados de 1991, Pettibone começou a trabalhar em novas músicas: "Eu sabia que poderia fazer algo ótimo depois de 'Vogue' e 'Rescue Me', então comecei a montar faixas com meu assistente, Tony Shimkin". Ele e Shimkin criaram uma fita demo com três canções e a enviou para Madonna, que estava em Chicago filmando A League of Their Own; ela a ouviu e gostou de todas as músicas. Em outubro, após o término das filmagens, Madonna encontrou Pettibone na cidade de Nova Iorque para começar a trabalhar em mais demos. Anthony Shimkins lembrou que a cantora trouxe consigo um "livro cheio de letras e ideias de melodia". Petibone criava às músicas e ela as letras. Shimkin programaria um computador Macintosh para tocar partes de percussão e sintetizador e as transferiria para um gravador; então, Madonna gravaria seus vocais. De acordo com o autor Mark Bego, no primeiro lote de músicas em que trabalharam estava a faixa-título, "Deeper and Deeper", "Bad Girl", "Thief of Hearts" e "Rain". O produtor descreveu seu horário de trabalho como "esporádico", porque a cantora dividia seu tempo com outras atividades: ela estava trabalhando com Steven Meisel em Sex e às vezes saía por duas semanas; ocasionalmente, ela também se encontrava com o produtor André Betts. No início, Madonna não gostou do primeiro grupo de músicas que gravou. De acordo com Mark Landeros, da revista Classic Pop, "a produção imaculada e brilhante de Pettibone foram a antítese do que [ela] imaginou" para Erotica. Ela queria que tivesse um "toque cru", como se tivesse sido gravado em um beco no Harlem.
Também surgiram problemas com o sequenciador que estava sendo utilizado; os processos informáticos demorariam demasiado e atrasariam as gravações. Pettibone teve que manter as coisas andando o mais rápido possível, pois não queria que Madonna perdesse o interesse pelas músicas. Também neste ponto, elas estavam ficando "um pouco melancólicas" ao oposto das ideias de letras "muito mais sérias e intensas" que a cantora estava tendo. Foi ideia dele escrever uma canção para o amigo de Madona, Martin Burgoyne, que havia falecido de HIV/AIDS, e que veio com os acordes de "In This Life"; ela escreveu a letra em 15 minutos. A faixa-título passou por "numerosas mudanças radicais" durante o processo de gravação, com quatro versões diferentes sendo gravadas; a intérprete primeiro cantava de uma maneira e depois decidia apagar tudo e recomeçar. Shimkin afirmou que a versão original não era "tão furtiva, sexy, suja e vulgar", até o processo de mixagem; nessa fase, a faixa ainda era uma "experimentação", mas quando perceberam que seria o single principal, uma "vibração diferente e mais sombria" foi assumida. Enquanto gravava Erotica, Madonna também trabalhava em Sex; para o livro, ela incorporou um alter ego com personalidade dominatrix chamado Mistress Dita, fortemente inspirado na atriz alemã Dita Parlo. Depois de ver o livro, Pettibone sugeriu que a cantora incorporasse o tema dominatrix na letra da canção: "'Você tem todas essas ótimas histórias [no livro]', eu disse a ela: 'Por que você não as usa na música?'". Madonna saiu do estúdio com uma cópia de Sex nas mãos, voltou e gravou seus vocais para "Erotica" de forma "muito fria"; Pettibone então percebeu que a canção "nunca mais seria a mesma". O refrão e a ponte foram totalmente alterados e a "psique" da música tornou-se "mais sexy, mais direta ao ponto".