Luís Malheiro Peixoto de Lemos e VasconcelosO nome aparece com variantes nas fontes: Luís Malheiro Peixoto de Lemos e Vasconcelos em Zuquete e na Resenha de Silveira Pinto, Luís Malheiro Peixoto Lemos e Vasconcellos no catálogo de Nepomuceno, e Luiz Malheiro de Lemos Peixoto de Mello e Vasconcellos no dicionário corográfico de 1884. A procuração autógrafa de 1852 subscreve-se Luiz Malheiro Peixoto de Lemos Melo e Vasconcelos, forma também usada nos livros mestres do Arquivo Histórico Militar, que registam ainda o título na forma Barão de Castro de Aire. (Lisboa, 31 de maio de 1811 – 12 de novembro de 1878A Resenha de Silveira Pinto (1883) dá a morte em outubro de 1878; segue-se aqui a data precisa registada por Zuquete.) foi um oficial do Exército Português, deputado da Nação e proprietário, 1.º e único Barão de Castro Daire, título que lhe foi concedido por D. Maria II por Decreto de 23 de maio de 1840. A paginação é idêntica na reedição das Edições Zairol, Lisboa, 2000.

Tomou parte activa nas Guerras Liberais ao serviço da causa liberal e, durante a Patuleia, comandou forças da junta provisória do Porto em Trás-os-Montes e no Douro. Serviu depois na administração militar central, como chefe de repartição na Secretaria de Estado dos Negócios da Guerra, atingindo o posto de coronel em 1873. Foi presidente da Câmara Municipal de Castro Daire no ano da sua morte.

Família Era filho único de Luís de Lemos Malheiro de Melo e Vasconcelos, fidalgo cavaleiro da Casa Real por alvará de 25 de janeiro de 1781, major de infantaria do Exército e senhor do Morgado de Veludo, do Colégio da Beata e da Coutada de Sanguinhedo, e de sua mulher D. Ana Leocádia de Faria Peixoto, filha de Silvério António de Faria Peixoto e de D. Josefa Leocádia de Faria e França.

Pelo lado paterno era neto de João Ferreira Ribeiro de Lemos e Vasconcelos (1750 – 22 de novembro de 1794), natural da vila de Castro Daire, fidalgo da Casa Real, bacharel formado em Leis, cavaleiro professo na Ordem de Cristo, desembargador dos Agravos da Casa da Suplicação, juiz dos Feitos da Coroa, conselheiro do Conselho da Real Fazenda e do Conselho da rainha D. Maria I, e senhor do Morgado de Santa Bárbara, casado com D. Doroteia Joaquina de Melo Malheiro, senhora do Morgado de Veludo, do Colégio da Beata e da Coutada de Sanguinhedo, filha de Luís Carneiro de Melo e de D. Luísa Clara de Melo, natural de Resende, comarca de Lamego.

A geração anterior remonta a João Ferreira Ribeiro de Lemos, natural da freguesia de Moledo, comarca de Viseu, fidalgo da Casa Real, senhor do Morgado de Santa Bárbara e abastado proprietário, casado com D. Joana Teresa de Vasconcelos Pereira, natural da freguesia de Lazarim, e, mais atrás, a António Ferreira de Abreu, proprietário em Moledo, casado com D. Maria Ribeiro, natural de Castro Daire.

Um tio, Manuel de Vasconcelos Pereira (Castro Daire, 1786 – Lisboa, 25 de agosto de 1864), foi 1.º Barão de Lazarim, vice-almirante da Armada Nacional, par do Reino por carta régia de 5 de março de 1853, vogal do Supremo Conselho de Justiça Militar, deputado da Nação em várias legislaturas e grã-cruz da Ordem Militar de São Bento de Avis, falecendo solteiro e sem geração.

Um tio-avô, D. Manuel de Vasconcelos Pereira (1731–1786), irmão do seu avô paterno, foi bispo de Lamego, do Conselho de D. José I, inquisidor da Mesa do Santo Ofício e deputado da Mesa Censória, e mandou construir o Palacete das Carrancas, em Castro Daire, destinado à habitação familiar.

Carreira militar Guerras Liberais Assentou praça em Infantaria 3 a 30 de março de 1833, como aspirante a oficial, e tomou parte activa na Guerra Civil ao serviço da causa liberal. Integrou a expedição do duque da Terceira ao Algarve e combateu em Tavira, Alcácer do Sal, Setúbal, Cova da Piedade e Cacilhas, nas Linhas de Lisboa, na conquista de Leiria, na acção de Pernes e na batalha de Almoster, terminando a guerra já promovido a alferes.

A sua progressão na carreira está documentada nos livros mestres do Arquivo Histórico Militar, que o registam como alferes, como tenente e, num terceiro assento, já como coronel, com indicação de combates e condecorações, sempre com a filiação em Luís de Lemos [Melo e Vasconcelos] e naturalidade de Lisboa. Ver também os registos PT/AHM/G/LM/B-01/24/0014 (tenente) e PT/AHM/G/LM/B-09/11/0013 (alferes), com a mesma filiação e naturalidade.

Era fidalgo cavaleiro da Casa Real, por sucessão a seus maiores, por alvará de 15 de abril de 1823, e senhor dos vínculos do morgado de Veludo, do Colégio da BeataAssim na Resenha de Silveira Pinto; Zuquete e Armando Castro grafam «Colégio da Baeta». e da coutada de Sanguinhedo. Entre as suas condecorações contavam-se a comenda da Ordem Militar de São Bento de Avis, o grau de oficial da Ordem da Torre e Espada e a comenda da Ordem de Isabel a Católica, de Espanha, bem como a Medalha das Campanhas da Liberdade, algarismo 2, a medalha de ouro de bons serviços e a de prata de valor militar e comportamento exemplar. Foi deputado da Nação em duas legislaturas.

Patuleia Durante a Patuleia serviu a junta provisória do Governo Supremo do Reino, instalada no Porto, comandando o Batalhão de Castro-Daire. A junta organizara uma divisão sob o comando do general visconde de Sá da Bandeira, que partiu em perseguição do barão, depois conde, do Casal, seguindo pela Régua e Sabrosa até Chaves, onde o inimigo se abrigou. Obrigado a cercar a praça, e na expectativa de que os caçadores e a cavalaria do Casal se sublevassem, Sá da Bandeira mandou ocupar Murça pelo Barão de Castro Daire, que comandava a esse tempo bastantes forças populares e recebia diariamente reforços vindos espontaneamente de vários pontos da província. Citando Manuel Pinheiro Chagas, História de Portugal, tomo VIII, p. 365.

Conserva-se no Arquivo Histórico Militar uma carta que lhe foi dirigida a 4 de novembro de 1846 por António Joaquim Pinto Ferreira, sobre movimentos do Exército em Trás-os-Montes, incluindo comunicação de José Teixeira Leite de Castro dando conta de que os barões do Casal e de Vinhais eram esperados em Vila Pouca de Aguiar.

A 15 de novembro de 1846 o general simulou uma retirada sobre Valpaços, para atrair o inimigo fora da praça e lhe oferecer batalha; as forças do Casal avançaram sobre a divisão da junta, que acabou batida, recolhendo Sá da Bandeira ao Porto a 20 de novembro. O combate ficou conhecido como o desastre de Valpaços.

Em dezembro de 1846 encontrava-se estacionado na região de Mesão Frio, com autoridade sobre a navegação no Douro, então proibida por determinação da junta do Porto. A 6 desse mês recebeu o negociante e cartógrafo britânico Joseph James Forrester, que ali chegara para defender os seus vinhos retidos em Porto Manso e foi escoltado até si por dois soldados; concedeu-lhe autorização para navegar até ao Roncão e para deslocar duas embarcações carregadas de cascos, tendo o barco de Forrester largado rio acima a 7 de dezembro. Em carta ao amigo Robert Woodhouse, Forrester descreveu-o como homem de vasta cultura, com influência em Lamego e descendente de uma família de Castro Daire, afecto à junta e comandando à data 1500 homens. A autora cita a correspondência de Forrester a Robert Woodhouse através do texto datilografado de Ramiro Mourão, O último Barão de Forrester e o seu trabalho em Portugal, Arquivo Ferreirinha, em parte tradução de Charles Sellers, Oporto Old and New (1899).

No final de dezembro de 1846 as suas forças combateram nas proximidades de Vila Real, com o objectivo de submeter a vila à autoridade da junta do Porto; nesta operação o acompanhou o jornalista e setembrista Silva e Castro. Segundo a parte oficial, datada da vila a 28 de dezembro de 1846 e assinada por um oficial subordinado, o inimigo foi encontrado às quatro horas da tarde nas posições de Parada e Relva, tendo sido desalojado sucessivamente até se empenhar combate nas pontes de Parada e da Ribeira, forçadas pouco depois; o fogo durou hora e meia e obrigou a empenhar as reservas antes da entrada na vila. O inimigo teve cinco mortos e oitenta prisioneiros armados, contra duas baixas do lado atacante. A parte registava que o barão daria em separado o relato detalhado do combate. Parte datada de Vila Real, 28 de dezembro de 1846.

Por portaria da junta provisória de 20 de dezembro de 1846, atendendo a que a força do batalhão havia aumentado consideravelmente, foi este elevado à categoria de regimento, sendo nomeado coronel da nova unidade o Barão de Castro Daire, à data capitão da 3.ª Secção do Exército e comandante do batalhão.A nomeação foi feita pela junta do Porto, em nome da Nação e da Rainha. Não se conhece confirmação posterior deste posto, que Zuquete não registra.

Numa nota autobiográfica publicada em 1889 recorda-se a morte em combate de José António T. C. de Melo e Nisa, sargento de infantaria 13, num recontro das tropas do Porto sob o comando do Barão de Castro Daire.

Secretaria da Guerra e reforma Consta entre os sócios inscritos na Liga Promotora dos Interesses Materiais do País a partir da sessão de 6 de agosto de 1848, associação de carácter cívico e económico que reunia proprietários, comerciantes e homens públicos de várias tendências políticas com o objectivo de promover o desenvolvimento material do país, e que o Governo do marechal duque de Saldanha mandou encerrar em março de 1849. 2.ª série. Especialmente p. 605.

Entre pelo menos 1867 e 1869 exercia as funções de major, chefe de repartição na Secretaria de Estado dos Negócios da Guerra, subscrevendo com o seu título, na qualidade de conforme, despachos ministeriais expedidos para as províncias ultramarinas, entre eles avisos relativos a promoções de oficiais em comissão em Macau, Timor e no Estado da Índia.

Ainda em 1877 era descrito como oficial do Exército empregado em comissão na Secretaria da Guerra e como parente do bispo de Lamego D. Manuel de Vasconcelos.

Foi subindo sucessivamente na hierarquia militar, atingindo o posto de coronel a 5 de novembro de 1873, no qual passou à reforma. Citando a entrada «Castro Daire» de Maria Mota Almeida na Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, Edição Século XXI, Editorial Verbo, 1998, vol. 6, pp. 353–357.As fontes divergem quanto ao posto final. Zuquete dá o de coronel, atingido em 1873, no qual passou à reforma, e os livros mestres do Arquivo Histórico Militar registam-no igualmente como coronel; a Resenha de Silveira Pinto (1883), o dicionário corográfico de 1884, os Estudos de História de Portugal (1983) e a Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura (1998) dizem-no general de brigada.

Outras actividades A 8 de fevereiro de 1852 assistiu, no Arsenal da Marinha, em Lisboa, a uma experiência de mergulho no Tejo realizada por um homem de apelido Terceira, por meio de uma máquina de sua invenção. O mergulhador não deu sinal de si ao cabo de alguns minutos e, içado o aparelho, foi encontrado sem vida. Segundo o ofício do inspector do Arsenal ao ministro da Marinha e Ultramar, Fontes Pereira de Melo, o Barão de Castro Daire, que acompanhava a experiência com Vicente Coradine, deu parte do sucedido ao Arsenal, sendo depois ambos enviados ao Hospital de São José, com o cirurgião da Armada Matos, para declararem o modo como o mergulhador entrara na máquina. Transcreve ofício do inspector do Arsenal da Marinha ao ministro da Marinha e Ultramar, de 8 de fevereiro de 1852.

Sobrevivem dois autógrafos seus, subscritos em Lisboa a 21 de setembro de 1836 e a 23 de novembro de 1858, catalogados no final do século XIX numa livraria lisboeta. Item n.º 2631.

Castro Daire A casa da família em Castro Daire era o Palacete das Carrancas, mandado construir no século XVIII pelo bispo de Lamego D. Manuel Vasconcelos Pereira e transmitido por via de parentesco aos continuadores da casa. Em 1873 e 1875 o palácio do Barão de Castro Daire, com jardim, quinta e mata, era apontado como um dos melhores edifícios particulares da vila, a par dos palácios dos Aguilares e de José Correia.