Batista Custódio dos Santos (Caiapônia, 9 de abril de 1935 – Goiânia, 24 de novembro de 2023) foi um renomado jornalista e editorialista brasileiro, figura central na imprensa goiana e nacional, conhecido por sua escrita incisiva e posicionamento crítico.

Nascido em uma família tradicional de pecuaristas em Caiapônia, sudoeste de Goiás, sua infância foi marcada por experiências em uma grande fazenda, onde conviveu com viajantes e tropeiros. Desde cedo, demonstrou um caráter forte e independente, influenciado por eventos históricos como a passagem da Coluna Prestes por sua cidade natal, e pelos ensinamentos de padres republicanos espanhóis refugiados, que moldaram sua visão humanista e anticlerical. Em junho de 1943, o jovem Batista testemunhou um evento histórico em sua cidade: aviões DC-3 da FAB pousaram em Caiapônia no âmbito da “Operação Roncador-Xingu”, parte da política de Getúlio Vargas de interiorização do desenvolvimento (Marcha para o Oeste), estreitando laços familiares com o então tenente João Alberto Lins de Barros.

Ao longo de sua carreira, Batista Custódio destacou-se por sua atuação no jornal Cinco de Março, onde publicou uma série de artigos que refletiam seu olhar aguçado sobre a política e a sociedade brasileira. Seus textos abordavam desde críticas contundentes à corrupção e à inoperância governamental, como nas crônicas “Vacas Magras”Custódio, Batista, “Vacas Magras”, Cinco de Março, 13 de janeiro de 1969. Hemeroteca IHGG. e “A Nação dos Ilha-Grandenses”Custódio, Batista, “A Nação dos Ilha-Grandenses”, Cinco de Março, 17 de fevereiro de 1969. Hemeroteca IHGG., até reflexões sobre a dignidade humana, a justiça social e a liberdade de imprensa. Ele defendia uma imprensa independente, combatendo o favoritismo e as “mazelas” da vida pública, chegando a desafiar figuras políticas e empresariais em nome da moralidade e da transparência.

Sua escrita era marcada pela espontaneidade e pela convicção, como expresso em “Lobo no Galinheiro”Custódio, Batista, “Lobo no Galinheiro”, Cinco de Março, 10 de fevereiro de 1969. Hemeroteca IHGG.., onde afirma que “não abrirei mão da sinceridade de propósitos e, ainda que alheio ao cortejamento das multidões e na incompreensão destas, fecharei a vida escrevendo apenas o que não me envergonhe assinar”. Ele também se notabilizou por sua postura firme diante de ameaças e processos, recusando-se a recuar em suas denúncias contra a corrupção em órgãos públicos e a impunidade de poderosos, conforme evidenciado em sua “Carta Confidencial”Custódio, Batista, “Carta Confidencial”, Cinco de Março, 10 de março de 1969 (Carta de Batista Custódio a Jacy de Assis). Hemeroteca IHGG. a Jacy de Assis. Batista Custódio não se limitava a críticas, mas também propunha reflexões sobre o papel da liderança e a importância da continuidade administrativa, como em “Do Tamanho de Uma Carapuça”Custódio, Batista, “Do Tamanho de Uma Carapuça”, Cinco de Março, 28 de abril de 1969. Hemeroteca IHGG., onde citava o ministro Costa Cavalcanti. Seu legado é o de um jornalista que, com coragem e integridade, utilizou sua voz para fiscalizar o poder, defender os valores democráticos e lutar por uma sociedade mais justa.

Infância e Formação Filho de família goiana tradicional, foi criado em uma grande fazenda de pecuária, onde desde cedo conviveu com viajantes e tropeiros que passavam pela região sudoeste de Goiás. Uma das histórias marcantes de sua infância envolve sua avó, que chegou a pegar em armas contra os integrantes da Coluna Prestes ao confundi-los inicialmente com invasores – até que o próprio capitão Luís Carlos Prestes evitou o confronto e esclareceu a situação, ganhando o respeito da família pelo idealismo do movimento rebelde. Na infância, Batista foi coroinha na igreja e conviveu com padres republicanos espanhóis refugiados da Guerra Civil (expulsos da Espanha pelo regime de Franco). Deles aprendeu lições valiosas – como a máxima: “Não há nada mais burro que o sectarismo ideológico e o fanatismo religioso” –, influência que moldaria sua visão humanista no campo político e sua visão crítica em relação a hipocrisia na conduta religiosa.

Em junho de 1943, o jovem Batista testemunhou um evento histórico em sua cidade: aviões DC-3 da FAB pousaram em Caiapônia no âmbito da “Expedição Roncador-Xingu”, parte da política de Getúlio Vargas de interiorização do desenvolvimento (Marcha para o Oeste). Nesse contexto, a família de Batista estreitou laços com o então tenente João Alberto Lins de Barros (ex-integrante da Coluna Prestes), designado para chefiar a Fundação Brasil Central em Caiapônia – fato que marcou a memória do garoto e aumentou seu interesse por assuntos nacionais.

Na adolescência e juventude, Batista Custódio revelou inclinação pelas letras e pela política. Mudou-se para Goiânia para completar os estudos e envolveu-se intensamente no movimento estudantil local. Estudou no Lyceu de Goiânia. Chegou a dividir quarto em uma república de estudantes com Iris Rezende Machado, que mais tarde se tornaria importante líder político goiano. Em 1956, aos 21 anos, Batista iniciou sua vida profissional: formou-se no curso técnico de agrimensura (topografia) no antigo Instituto Federal de Tecnologia e, nesse mesmo ano, fundou seu primeiro jornal, um pequeno tabloide intitulado A Luneta. Essa publicação embrionária refletia sua vocação jornalística precoce e serviu de laboratório para suas ideias. Poucos anos depois, ele estaria no centro de um dos eventos definidores de sua geração.

Fundação do Cinco de Março e a Década de 1960 O ano de 1959 marcou profundamente a trajetória de Batista Custódio. Em 5 de março daquele ano, estudantes secundaristas de Goiânia organizaram manifestações contra o aumento das tarifas de transporte coletivo e das mensalidades escolares, protestos que foram violentamente reprimidos pela polícia do governador José Feliciano. O resultado trágico foi a morte de um estudante durante uma passeata pacífica em frente ao antigo Mercado Central de Goiânia (local onde hoje é o edifício Parthenon Center). Batista Custódio, então com 23 anos, participou ativamente desse movimento estudantil ao lado de colegas como Consuelo Nasser, Telmo de Faria, Javier Godinho, Valterli Guedes e Zoroastro Artiaga. Indignados com o episódio sangrento, o grupo realizou reuniões – muitas na casa do político Alfredo Nasser (tio de Consuelo) – e decidiu fundar um jornal que eternizasse a data do massacre estudantil em seu nome. Assim nasceu, ainda em 1959, o semanário Cinco de Março, lançado com a missão de denunciar injustiças e defender a liberdade, trazendo como lema a frase emblemática: “Nem Washington, nem Moscou, nem Roma: Tudo pelo Brasil”. O título do periódico era uma homenagem direta à data do protesto reprimido, para que nunca se esquecesse daquele 5 de março.

Batista Custódio assumiu o comando da redação do Cinco de Março junto com Telmo de Faria, enquanto Consuelo Nasser – que cursava Direito no Rio de Janeiro – articulou os meios de viabilizar o jornal, conseguindo com seu tio Alfredo a doação das oficinas tipográficas do extinto Jornal de Notícias, além de máquinas gráficas adicionais cedidas pelo aliado Randal Ferreira. Consuelo retornou definitivamente a Goiânia em 1962, formada em Direito, e passou a atuar como redatora-chefe do Cinco de Março a convite de Batista. Nascia ali uma parceria profissional (e pessoal) muito frutífera: Consuelo Nasser – que mais tarde se casaria com Batista Custódio – tornou-se seu “braço direito” no jornal, editando textos, pautando reportagens e revisando o material dos repórteres com esmero. Ambos imprimiram no semanário um jornalismo combativo e de vanguarda para a época.

Durante anos chegou-se a especular que Consuelo escreveria artigos para Batista apenas assinar, mas jornalistas próximos desmentem: embora ela frequentemente revisasse os textos, Batista sempre escreveu por conta própria – e escrevia muito bem, com artigos bem informados e estilo próprio. O Cinco de Março rapidamente ganhou fama em Goiás pela sua postura crítica e investigativa. Numa época em que a imprensa local tendia ao conservadorismo, o semanário de Batista destacava-se por denunciar corrupção e abusos de poder “incomodando a Deus e ao mundo”, como resumiria um pesquisador.

Com circulação sempre às segundas-feiras, o jornal era avidamente disputado nas bancas; dizia-se que Goiânia “tremia” a cada nova edição, tamanha a repercussão de suas matérias. Em pouco tempo, a publicação atingiu tiragens expressivas – chegou a vender 60 mil exemplares em 1965, um recorde para a imprensa goiana da época. Vários textos do Cinco de Março tornaram-se icônicos pela coragem das denúncias. Entre eles destaca-se uma reportagem investigativa que revelou um desfalque de Cr$ 5 milhões nos cofres da Polícia Militar de Goiás, indicando que policiais teriam rifado armas e munições para cobrir o rombo antes que fosse descoberto. A revelação causou forte reação: logo nas primeiras horas após o jornal circular, dois jipes da PM cercaram a sede do periódico e empastelaram o local – os policiais atiraram e depredaram as instalações, forçando o semanário a suspender sua impressão por um mês. A violência contra o jornal provocou protestos em nível nacional; ainda que Batista tenha recorrido à Justiça, o Cinco de Março nunca foi indenizado pelos prejuízos sofridos.

Esses episódios consolidaram a reputação de Batista Custódio como um editor destemido e independente, disposto a enfrentar interesses poderosos. Em reconhecimento à qualidade e impacto de seu jornalismo, o Cinco de Março recebeu inclusive o Prêmio Esso de 1964, ano em que o semanário decidiu enfrentar de vez o recém-instaurado regime militar.

Confronto com a Ditadura Militar (1964–1979) Com o golpe militar de 1964, as atividades jornalísticas de Batista Custódio entraram em um período ainda mais perigoso. Mesmo sob a censura e repressão crescentes, ele manteve o Cinco de Março firme em sua linha editorial de denúncia contra políticos corruptos e da ditadura, transformando o jornal num bastião da liberdade de imprensa em Goiás. Essa postura teve custos pessoais: o semanário sofreu diversas formas de ataque e intimidação por parte dos governantes militares ao longo dos anos 60 e 70. Em 1970, cerca de cinco anos após o auge do jornal, Batista Custódio foi preso pelo regime, acusado de “crime de opinião” por suas críticas públicas. Ele ficou encarcerado por oito meses como preso político.

Durante sua prisão, Consuelo Nasser assumiu a administração do jornal e liderou uma cruzada pela libertação do esposo, mobilizando colegas e contatos em sua defesa. A campanha pela soltura de Batista ganhou força; seu caso chegou ao Supremo Tribunal Federal, onde o habeas corpus em seu favor foi lido em plenário como um verdadeiro grito de liberdade contra a opressão vigente. Batista Custódio finalmente conquistou a liberdade, mas o episódio deixou marcas: Consuelo, exaurida pelo esforço, teve um esgotamento nervoso e afastou-se do trabalho jornalístico por algum tempo após 1970. Ainda assim, o Cinco de Março continuou circulando durante toda a década de 1970, sempre driblando a censura e publicando matérias contundentes. O jornal resistiu até 1979, quando encerrou suas atividades após 20 anos ininterruptos de história na imprensa brasileira. A última fase do semanário coincidiu com o início da abertura política no país, e Batista já vislumbrava novos rumos para sua atuação jornalística com a iminente redemocratização.