O xarelete-carvoeiro (nome científico: Caranx ruber), também conhecido popularmente como xaréu-carvoeiro, garajuba, guaraiúba, guarajuba, xarelete-azul ou guaricema, é um peixe carangiforme da família dos carangídeos (Carangidae).

Etimologia

Xarelete é uma palavra composta de xaréu + -ete, onde -u- foi assumido como -l-. Seu primeiro registro foi em 1911, como xerelete. Xaréu tem origem obscura, mas segundo Antenor Nascentes pode ter origem ameríndia. Foi registrado em 1654 como xarèo e em 1831 como charéo. Garajuba, e suas variantes guarijuba e guarajuba, derivam do tupi gwara'yuba ou wara'yuba no sentido de "peixe". Guaricema, ou sua variante guaracema, deriva do tupi gwara'sïma com o sfentido de "espécie de xaréu". O nome genérico Caranx deriva do francês carangue, que é utilizado na região do Caribe para se referir aos peixes do grupo.

Taxonomia e sistemática

O xarelete-carvoeiro foi cientificamente descrito pela primeira vez com o nome de Scomber ruber por Marcus Bloch, em 1793, com base num espécime coletado na costa leste da América, que foi designado como holótipo. A espécie faz parte da família dos carangídeos (Carangidae) e subfamília dos carangíneos (Caranginae). Bloch incluiu a espécie entre as cavalinhas do gênero Scomber, o que era comum na época, já que o gênero Caranx e a família dos carangídeos só foram criados em 1801 por Bernard Germain de Lacépède. Desde 1801, a espécie tem sido colocada alternadamente nos gêneros Carangoides ou Caranx, permanecendo com status taxonômico algo ambíguo. Um dos motivos para essa confusão reside na dificuldade de distinguir as espécies desses gêneros em sua área de distribuição no oceano Atlântico. No momento, as principais bases de dados taxonômicas classificam-no dentro de Caranx: Integrated Taxonomic Information System (ITIS), World Register of Marine Species (WoRMS) FishBase e Encyclopedia of Life (EOL). É morfologicamente similar ao xarelete-amarelo (Caranx bartholomaei). Um estudo recente sobre a sistemática molecular dos carangídeos, utilizando sequências do citocromo b mitocondrial, confirmou que o xarelete-carvoeiro e o xarelete-amarelo possuem forte relação com outros membros conhecidos de Caranx e apenas um parentesco distante com qualquer outra espécie de Carangoides.

Descrição

O xarelete-carvoeiro é uma espécie de tamanho moderadamente grande. O comprimento total máximo registrado é de 590 milímetros (59 centímetros) para machos e 690 milímetros (69 centímetros) para fêmeas, sendo mais comuns exemplares com cerca de 500 milímetros (50 centímetros). O peso máximo publicado é de 8,2 quilogramas. Apresenta forma corporal típica da maioria dos carangídeos, com um corpo alongado, moderadamente profundo e comprimido, com os perfis dorsal e ventral aproximadamente com a mesma convexidade. A nadadeira dorsal é dividida em duas seções: a primeira com oito raios espinhosos e a segunda com um espinho seguido de 26 a 30 raios moles. A nadadeira anal possui dois espinhos anteriores isolados, seguidos por um espinho e de 23 a 26 raios moles, sendo que os lóbulos das nadadeiras anal e dorsal mole são ligeiramente alongados. As nadadeiras peitorais são falciformes e mais longas que a cabeça, com 19 a 21 raios moles. A linha lateral é moderadamente arqueada na parte anterior, com 17 a 104 escamas, incluindo de 23 a 29 escudetes posteriormente, além de possuir quilhas caudais emparelhadas bilateralmente. O peito é completamente coberto por escamas, o que o diferencia facilmente do xaréu-branco, Caranx hippos. O focinho é moderadamente pontudo, com ambas as mandíbulas apresentando faixas estreitas de dentes viliformes, que se alargam na parte anterior. A mandíbula superior também contém uma fileira externa de dentes recurvados e aumentados. Existem de 10 a 14 rastros branquiais no ramo superior, de 31 a 38 no ramo inferior e um total de 24 vértebras.

upright=1.1|miniaturadaimagem|Cardume sobre um recife raso

A coloração do xarelete-carvoeiro varia de cinza a azul-acinzentado na parte superior do corpo, com um brilho prateado, esmaecendo ventralmente para um ventre branco. Como indicado pelo seu nome comum, os adultos apresentam uma faixa horizontal ao longo do dorso, que se estende pelo lobo inferior da nadadeira caudal. Essa faixa varia do marrom-dourado ao preto, frequentemente acompanhada por uma faixa azul-elétrica logo abaixo dela. As demais nadadeiras são de cor pálida, entre acinzentadas e hialinas. Os juvenis apresentam até seis faixas escuras ao longo do corpo e um lobo inferior da cauda mais escuro que o superior, prenunciando a faixa que se desenvolverá posteriormente. Nesses estágios iniciais, são difíceis de distinguir do xarelete-amarelo, sendo a contagem dos rastros branquiais o melhor critério de identificação. Foi observado que todo o corpo pode mudar de coloração para um tom enegrecido quando o peixe se alimenta próximo ao fundo.

Distribuição e habitat

O xarelete-carvoeiro está presente na América do Norte (Estados Unidos (Nova Jérsei) e México), América Central (Belize, Costa Rica, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Panamá e Porto Rico), Caribe (Anguila, Antígua e Barbuda, Aruba, Baamas, Barbados, Bermudas, Bonaire, Santo Eustáquio, Saba, ilhas Caimã, Cuba, Curaçau, Domínica, República Dominicana, Granada, Guadalupe, Haiti, Jamaica, Martinica, Monserrate, São Bartolomeu, São Cristóvão e Neves, Santa Lúcia, São Martinho (francês), São Vicente e Granadinas, São Martinho (neerlandês), Trindade e Tobago, Ilhas Turcas e Caicos, Ilhas Virgens Britânicas e Ilhas Virgens Americanas), América do Sul (Brasil, Colômbia, Suriname e Venezuela), Santa Helena, Ascensão e Tristão da Cunha. No Brasil, existem registros no Parque Estadual Marinho do Parcel de Manuel Luís, na ilha da Trindade e no arquipélago de São Pedro e São Paulo e nos estados do Maranhão, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina.

upright=1.1|esquerda|miniaturadaimagem|Indivíduo sobre a areia na ilha de São Salvador, nas Baamas

O xarelete-carvoeiro habita águas tropicais e subtropicais. Vive geralmente em ambientes de águas rasas e claras, predominantemente ao redor de recifes de coral, em profundidades de até cerca de 18 metros. Estudos com marcação eletrônica demonstram que a espécie é altamente móvel, não permanecendo por muito tempo sobre um recife específico e movendo-se frequentemente entre recifes, atravessando extensas áreas de fundo arenoso. Frequentemente adentra lagunas a partir de recifes externos, preferindo movimentar-se sobre substratos arenosos nessas águas rasas, muitas vezes formando cardumes junto a barracudas, arraias e tubarões. Diferente de muitas espécies que usam tanto a laguna quanto o recife, o xarelete não apresenta partição etária no uso desses habitats, com juvenis e adultos entrando na laguna para forragear. Registros de exemplares capturados em Santa Helena provêm de montes submarinos em águas com profundidade superior a 100 metros, indicando que a espécie também habita águas pelágicas mais afastadas da costa. Juvenis são frequentemente encontrados sob tapetes flutuantes de sargaço (Sargassum), utilizando as algas como proteção. Também habitam áreas ao redor de docas e pilares de sustentação. Os juvenis podem ser capturados com o uso de equipamentos .

Ecologia

A dieta e a biologia reprodutiva do xarelete-carvoeiro são relativamente bem documentadas, com a maioria dos estudos concentrados nas águas de Cuba durante a década de 1980, sendo quase toda essa pesquisa publicada originalmente em língua russa na revista Voprosy Ikhtiologii, posteriormente traduzida para o inglês como Journal of Ichthyology. Os deslocamentos da espécie entre diferentes áreas de recife também foram estudados, conforme descrito anteriormente. O xarelete é frequentemente predado por vários outros grandes carangídeos, bem como por dourados-do-mar (Coryphaena), cavalinhas, marlins e diversas espécies de aves marinhas.

miniaturadaimagem|upright=1.1|Xareletes-carvoeiros pastoreando um cardume de peixes forrageiros miniaturadaimagem|upright=1.1|Indivíduo forrageando ao lado de um bodião-papagaio num recife de coral

Dieta

O xarelete-carvoeiro é um predador bentopelágico, capturando suas presas tanto na coluna d'água quanto ao longo do fundo marinho. Sua dieta consiste principalmente de peixes ósseos, representando até 90% da alimentação em alguns estudos, sendo que crustáceos planctônicos e pequenos cefalópodes (polvos, lulas e sépias) são consumidos em volumes menores. Há uma mudança significativa na dieta com o crescimento, observada em peixes estudados em Cuba, o que pode reduzir a competição intraespecífica na espécie. Os jovens preferem organismos planctônicos, predominantemente decápodes e larvas de peixes; os indivíduos que atingem a maturidade sexual passam a se alimentar de camarões e pequenos peixes, enquanto os adultos alimentam-se quase exclusivamente de peixes de pequeno porte. As espécies de peixes preferidas pelo xarelete parecem ser, principalmente, pequenos habitantes de fundos arenosos, como blênios e gobídeos, ou habitantes de recifes, como labrídeos, peixes-borboleta e peixes-lixa, sendo que o consumo destes últimos pode levar ao acúmulo de toxina de origem coralínea (ciguatera) na carne do xarelete. Outros itens consumidos em menor quantidade incluem gastrópodes, nematoides, algas bentônicas e diversos crustáceos.

A intensidade da alimentação varia ao longo do ano e está fortemente correlacionada com mudanças na precipitação e nos ventos, durante ciclos climáticos sazonais. Peixes jovens tendem a se alimentar de forma intensa durante todo o ano, mas apresentam picos de consumo na primavera e no outono, enquanto os adultos intensificam a alimentação durante as estações seca e chuvosa, com declínio nos períodos intermediários (inverno e início do verão). Durante os períodos de alimentação intensa, a ingestão diária chega a 3–7% da massa corporal dos peixes, enquanto nos períodos de declínio varia entre 0,5–2%, resultando em um consumo anual total entre 1000% e 1500% do peso corporal. Em um artigo de 1993, Troy Baird descreveu uma associação de forrageamento entre xareletes e Halichoeres radiatus, na qual um xarelete seguia um único labrídeo enquanto este forrageava. Essas associações eram iniciadas por ambos os peixes, com pouca evidência de roubo de presas descobertas, sugerindo um benefício mútuo. Durante o forrageamento com o labrídeo, o xarelete aumenta sua capacidade de detecção de presas, o que é vantajoso para uma espécie mais especializada em caça pelágica, permitindo maior eficiência nesse modo menos comum de obtenção de alimento.

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