O caso Wakefield foi a publicação — bem como suas consequências e posterior retratação — de um artigo de pesquisa fraudulento no periódico britânico The Lancet que alegava ter identificado ligações causais entre a vacina contra sarampo, caxumba e rubéola (SCR) e a colite, bem como entre a colite e o autismo.
A fraude foi exposta em uma longa investigação do Sunday Times resultando na retratação do artigo em fevereiro de 2010 e da desacreditação e perda da licença médica de Andrew Wakefield, o autor principal, três meses depois. A fraude envolveu seleção e manipulação de dados, e dois conflitos de interesse não revelados.
O consenso científico é que não há conexão causal entre a vacina tríplice viral, ou qualquer outra vacina, e o autismo.
Artigo na revista The Lancet de 1998 Em fevereiro de 1998, um grupo liderado pelo médico Andrew Wakefield publicou um artigo intitulado Ileal-lymphoid-nodular hyperplasia, non-specific colitis, and pervasive developmental disorder in children (Hiperplasia ileal-linfoide-nodular, colite inespecífica e transtorno generalizado do desenvolvimento em crianças) na revista médica britânica Lancet, e realizou uma coletiva de imprensa no Royal Free Hospital em Londres, onde a investigação fora realizada. O artigo consistia em um estudo de caso sobre doze crianças com distúrbios de desenvolvimento encaminhadas ao hospital e descrevia uma gama de sintomas intestinais, juntamente com laudos de endoscopia e biópsia, que seriam evidências de uma nova "síndrome" que Wakefield mais tarde chamaria de "enterocolite autista". O artigo descreveu a vacinação tríplice viral (SCR) como o "gatilho aparente", afirmando que os pais de oito das doze crianças teriam associado o surgimento dos sintomas com a vacinação, sugeriu que a ligação entre o autismo e as patologias gastrointestinais era "real" e sugeria mais pesquisas.
Na coletiva de imprensa que acompanhou a publicação do artigo, evento que viria a ser criticado como "ciência por coletiva de imprensa ", Wakefield disse que considerava prudente utilizar vacinas únicas em vez da tríplice viral até que esta pudesse ser descartada como um gatilho ambiental. Em um comunicado de imprensa em vídeo emitido pelo hospital para as emissoras antes da coletiva de imprensa, ele pediu que a vacina SCR fosse "suspensa em favor das vacinas únicas". Estas sugestões não foram apoiadas nem pelos coautores de Wakefield nem por qualquer evidência científica.
Controvérsia sobre a vacina tríplice viral (SCR) Vários estudos subsequentes não encontraram qualquer ligação entre a vacina SCR, a colite e o autismo. Em março de 1998, um painel de 37 especialistas criado pelo Conselho de Investigação Médica, liderado pelo Professor Sir John Pattison, não encontrou "nenhuma evidência que indicasse qualquer ligação" entre a vacina SCR e a colite ou o autismo em crianças.Official letter
O artigo, a coletiva de imprensa e o vídeo provocaram um grande susto de saúde no Reino Unido. Como resultado do susto, a confiança total na vacina tríplice viral caiu de 59% para 41% após a publicação da pesquisa de Wakefield. Em 2001, 26% dos médicos de família consideraram que o governo não conseguiu provar que não havia ligação entre a vacina tríplice viral e o autismo e as doenças intestinais. No seu livro Bad Science, Ben Goldacre descreve o susto da vacina SCR como uma das "três histórias científicas falsas clássicas de todos os tempos" dos jornais britânicos (as outras duas são o caso Arpad Pusztai sobre culturas geneticamente modificadas e Chris Malyszewicz e a farsa do MRSA ).
A preocupação pública a respeito das alegações de Wakefield sobre uma possível ligação entre a vacina tríplice viral e o autismo ganhou força em 2001 e 2002, depois que ele publicou mais artigos sugerindo que o programa de imunização não era seguro. Tratava-se de um artigo de revisão sem novas evidências publicado em um periódico de menor importância, e dois artigos descrevendo análise laboratorial em que ele afirmava mostrar que o vírus do sarampo havia sido encontrado em amostras de tecido coletadas de crianças com autismo e problemas intestinais. Houve ampla cobertura da mídia, incluindo relatos de pais angustiados.
A repercussão política resultou em ataques aos serviços de saúde pública e ao governo. Em seu auge, houve exigências de que o então primeiro-ministro Tony Blair revelasse se seu filho pequeno, Leo, havia tomado a vacina. Foi a maior história científica de 2002, com 1257 artigos escritos principalmente por comentaristas não especializados. No período de janeiro a setembro de 2002, 32% das histórias escritas sobre a vacina SCR mencionaram Leo Blair, em oposição a apenas 25% que mencionaram Wakefield. Menos de um terço das histórias mencionou a evidência esmagadora de que a vacina é segura.
O governo inglês salientou que o uso da vacina combinada em vez de vacinas individuais diminui o risco de crianças contraírem as doenças enquanto aguardam a cobertura vacinal completa. As duas injeções da vacina combinada causam menos dor e sofrimento à criança do que as seis injeções que seriam necessárias para vacinas separadas, e a necessidade de maior número de visitas clínicas para vacinações separadas aumentam a probabilidade de algumas serem adiadas ou completamente esquecidas. Ressaltou também que a adesão à vacinação aumentou significativamente quando a vacina tríplice viral foi introduzida em 1988. Os profissionais de saúde criticaram duramente a cobertura mediática da controvérsia por desencadear um declínio nas taxas de vacinação. Não foi encontrada nenhuma base científica para a preferência por vacinas separadas ou para usar qualquer intervalo específico entre elas.SCR vs três vacinas individuais:
Em 2001, Mark Berelowitz, um dos co-autores do artigo, disse: "Certamente não tenho conhecimento de nenhuma evidência convincente para a hipótese de uma ligação entre a vacina SCR e autismo". A Sociedade Pediátrica Canadense, Also published in . o CDC dos Estados Unidos, o Instituto de Medicina da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, e o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido concluíram que não existe qualquer ligação entre a vacina SCR e o autismo, e um artigo de jornal de 2011 descreveu a ligação entre a vacina e o autismo como "a farsa médica mais prejudicial dos últimos 100 anos".
Investigação jornalística
Conflitos de interesses A compreensão pública das alegações mudou drasticamente em fevereiro de 2004 com as revelações do The Sunday Times sobre um conflito de interesses não revelado por parte de Wakefield. Dois anos antes da publicação do artigo na Lancet, Wakefield havia sido abordado por Richard Barr, um advogado da Justice, Awareness and Basic Support, que estava procurando um perito judicial para iniciar uma ação coletiva sobre supostos "danos causados pela vacina". Barr contratou Wakefield por £150 a hora mais despesas, e, só então, as doze crianças foram recrutadas para o estudo, sendo que foram ativamente procurados pais de casos que pudessem implicar uma ligação entre a vacina e autismo. Barr e Wakefield obtiveram £ 55.000 para financiar o estágio inicial da pesquisa com o Legal Aid Board, uma organização governamental do Reino Unido que oferecia apoio financeiro a pessoas de baixa renda para lhes possibilitar acesso à justiça. Segundo o jornalista Brian Deer, o projeto tinha como objetivo criar provas para o processo judicial, mas isso só se tornou público seis anos após o artigo no Lancet, com as primeiras divulgações do jornal.
Com base nas evidências de Deer, o editor-chefe do Lancet, Richard Horton, disse que o artigo de Wakefield nunca deveria ter sido publicado porque seus achados eram "totalmente falsos". Os editores do Lancet consideraram, também, que a fonte de financiamento deveria ter sido revelada no estudo. Horton escreveu: "Parece óbvio agora que se tivéssemos apreciado o contexto completo em que o trabalho relatado no artigo do Lancet de 1998 por Wakefield e colegas foi feito, a publicação não teria ocorrido." Vários dos coautores de Wakefield também criticaram fortemente a falta de transparência.The Sunday Times 2004:
Ausência de aprovação ética Entre as primeiras alegações relatadas por Deer estava a de que, ao contrário do declarado no artigo, a pesquisa de Wakefield sobre as 12 crianças foi conduzida sem qualquer autorização do conselho de ética da instituição - uma alegação rapidamente negada em fevereiro de 2004 pelos autores do artigo e pela Lancet. No artigo constava o texto: "Aprovação e consentimento éticos. As investigações foram aprovadas pelo Comitê de Práticas Éticas do Royal Free Hospital NHS Trust, e os pais deram consentimento informado." A disputa sobre isso foi judicializada, tendo sido decidida pelo Tribunal Superior Inglês em março de 2012, onde um juiz sênior deu ganho de causa a Deer. Em sua decisão, o juiz Mitting escreveu: “Esta declaração era falsa e não deveria ter sido incluída no artigo”.
Retratação parcial Em março de 2004, após a notícia das alegações de conflito de interesses, dez dos doze coautores de Wakefield e retrataram de uma interpretação presente no artigo da Lancet onde alegavam terem identificado possíveis gatilhos ambientais levando a uma doença gastrointestinal associada a uma regressão no desenvolvimento cognitvo de crianças. Mesmo assim, insistiam que a possibilidade de uma condição gastrointestinal distinta em crianças com autismo merecia uma investigação mais aprofundada. Um estudo posterior, que investigou especificamente crianças com distúrbios gastrointestinais, não encontrou nenhuma diferença com relação à presença de RNA do vírus do sarampo no intestino entre crianças com e sem transtornos do espectro autista; também não encontrou evidência de correlação temporal da aplicação da vacina SCR com o início dos sintomas, praticamente eliminando a hipótese da vacina como gatilho ambiental.
Em 2004, a investigação do jornal também descobriu que Wakefield tinha outro conflito de interesses na forma de uma patente para uma vacina única contra o sarampo, que ele havia manipulado evidências, e violado outros códigos éticos. O artigo da Lancet foi sofreu retratação parcial em 2004 e total em 2010, quando o editor-chefe do Lancet, Richard Horton, o descreveu como "completamente falso" e disse que a revista havia sido enganada. Wakefield foi considerado culpado pelo Conselho Médico Geral de violação grave do código de ética médica revogou sua licença médica em maio de 2010, o que significa que não poderia mais exercer a profissão no Reino Unido. Em 2011, Deer forneceu mais informações sobre as práticas de pesquisa impróprias de Wakefield ao British Medical Journal, o qual publicou um editorial que descreveu o artigo original como fraudulento.
Deer apresentou outros achados de suas investigações em um episódio chamado MMR: What They Didn't Tell You, no programa Dispatches transmitido pelo Channel 4. Este documentário relatou que Wakefield havia solicitado patentes para uma vacina única contra o sarampo, supostamente uma potencial rival da vacina tríplice viral, e que ele tinha conhecimento de resultados de testes de seu próprio laboratório no Royal Free Hospital que contradiziam as alegações feitas no artigo do Lancet. O pedido de patente de Wakefield também foi mencionado no livro de Paul Offit, Autism's False Prophets, publicado em 2008.
Em janeiro de 2005, Wakefield processou o canal, a produtora e Brian Deer, que apresentaram o programa Dispatches. Entretanto, após dois anos de litígio e a revelação de mais de £400.000 em pagamentos não revelados feitos por advogados a Wakefield, ele desistiu da ação e pagou todos os custos judiciais dos réus.