Filme B ou Série B (uso em Portugalhttps://www.publico.pt/2002/09/27/jornal/tarados-da-serie-b-174846) é um termo usado originalmente para se referir a filmes de Hollywood destinados a serem a "outra metade" de uma sessão dupla, que geralmente apresentava dois filmes do mesmo gênero, como faroeste, gangsters ou horror.
Nos tempos dos maiores estúdios de cinema, a terminologia era oficialmente usada para este fim, que também forneceu a nomenclatura de atores "A" ou "B". Ronald Reagan, o 40º presidente dos Estados Unidos, fez carreira atuando em filmes B. As principais produtoras tinham unidades próprias para esse tipo de filme, mas também havia pequenos estúdios como PRC, Consolidated, Ajax, Mascot, Puritan, Monogram, Principal, especializadas no tipo.
Tais estúdios eram referidos como pertencentes ao Poverty Row (Cinturão ou linha de Pobreza), termo usado para designar coletivamente as companhias localizadas numa região de Hollywood chamada Gower Street, que produziam filmes com orçamentos extremamente reduzidos. Eles eram capazes de rodar um faroeste de uma hora em apenas dois dias e meio, gastando somente oito mil dólares. Vários deles, entre eles Mascot e Monogram, fundiram-se em 1934 e formaram a Republic Pictures. Apesar de ter produzido alguns filmes de orçamento considerável, a Republic nunca perdeu a fama de estúdio de segunda classe, sendo a "Rainha dos filmes B".
O fim da chamada "Era de Ouro de Hollywood", que se estendeu dos anos 1920 até os anos 1950, resultou não só no fechamento de tais companhias, como também no fim dos próprios filmes B, independentemente de terem sido produzidos por grandes ou pequenos estúdios. A maior parte dos cinemas drive-in fechou e as exibições duplas rarearam. Hoje a distinção entre "Filme Classe A" e "Filme B" é feita levando-se em conta outros critérios que vão além do orçamento.
Histórico
A partir de 1931, o cinema holywoodiano começou a sentir os efeitos da Grande Depressão de 1929, com a queda do número de espectadores, de 80 milhões em 1930, para 55 milhões em 1932, o que provocou o fechamento, em 1933, de um terço das salas de cinema norte-americanas, além da diminuição progressiva do preço dos ingressos. Aliado a esses fatores, o custo dos filmes falados era mais elevado, o que aventou a possibilidade de falência de muitas companhias cinematográficas.
Numa tentativa de evitar a bancarrota, as cinco maiores companhias da época se reorganizaram, de forma integrada e interdependente, em uma associação comercial denominada MPPDA (Motion Picture Producers and Distributors of América), que dominava conjuntamente o mercado cinematográfico por meio da produção, distribuição e exibição de filmes. As cinco companhias eram a MGM, Paramount, Warner Brothers, 20th Century Fox e RKO Pictures. Em torno delas giravam outras de porte médio, como a Columbia Pictures, a Universal Pictures e a United Artists, além de algumas semi-independentes, como as de Walt Disney, Samuel Goldwyn e David O. Selznick. Por sua vez, as pequenas produtoras realmente independentes, tais como a Republic Pictures e a Monogram, eram subjugadas pelas grandes, sob condições de sobrevivência ditadas por elas.
Os exibidores independentes, na tentativa de aumentar a frequência, começaram a usar várias estratégias, tais como o oferecimento de “duas entradas pelo preço de uma”, “sessões gratuitas para senhoras”, “prêmios” e, finalmente, desenvolveram o “programa duplo”, com a apresentação de dois filmes pelo preço de um, partindo daí o conceito de “filme B”. Assim, as grandes companhias, vendo-se obrigadas, mediante as exigências do público em aderir ao programa duplo, ofereciam geralmente a exibição de um filme principal classe A, e um filme mais barato, classe B. Os filmes B das grandes companhias supriam as necessidades de exibição de suas cadeias de cinema, além de ajudar a cobrir as despesas gerais. Enquanto os filmes A custavam em torno de 400 mil dólares, e possuíam duração de 90 minutos ou mais, os filmes B tinham o custo entre 50 e 200 mil dólares, e a duração entre 55 e 70 minutos. Tal estratégia influenciava a política de preços, pois enquanto os filmes A tinham uma receita imprevisível, dependendo de sua aceitação, os filmes B tinham uma previsibilidade de lucro garantida, auxiliando o panejamento orçamentário das companhias.
Algumas vezes ocorria, também de um filme B obter tal sucesso de crítica e de público que acabava sendo considerado filme A, como ocorreu com “A Man to Remember” (“Um Benemérito”), de 1938, que se tornou uma referência da obtenção de qualidade com baixo orçamento.
Faroestes B thumb|left|200 px|Justus D. Barnes numa famosa imagem do western pioneiro The Great Train Robbery, de 1903, em que o pistoleiro atirava em direção à câmera, assustando o público. Os filmes B eram direcionados, em sua grande maioria, para cinemas e público específicos, o que se percebe em particular com os Westerns, voltados ao público infanto-juvenil das matinês. A proliferação dos westerns, nos anos 1930 e 1940, correspondeu à sua popularidade junto ao público jovem. Frederick Elkin observou que westerns B agradavam predominantemente as crianças, e que elas “participavam deles ativa e emocionalmente”, o que garantiu a produção de dezenas de séries e seriados, com personagens padronizados, característicos e comuns a vários filmes, além de enredos pré-determinados dentro da expectativa dessa faixa etária.
Nos anos 1930, portanto, os westerns B dominaram o gênero e, apesar de terem sido filmados com fórmulas simplórias, sob a preocupação única de agradar o público, muitos deles foram realizados com valores de produção e boas seqüências de ação.
A maioria dos filmes B dos anos 1930 e de boa parte da década seguinte era composta, portanto, por faroestes. A história do faroeste B se confunde com a própria história do faroeste em geral. Já em 1908 surgiu aquele que é considerado o primeiro herói dos faroestes: Broncho Billy, interpretado por G. M. Anderson em Broncho Billy and the Baby, e depois em diversos outros filmes.
Seguiram-se William S. Hart, Hoot Gibson, Tom Mix, Lane Chandler, Buddy Roosevelt e muitos outros. No entanto, esses ainda eram tempos do cinema mudo e nem todos os filmes desses atores se encaixavam no que usualmente se classifica como faroeste B. A partir do cinema falado, no entanto, Bob Steele, Buck Jones, Tom Tyler, Tim McCoy, Ken Maynard e outros passaram a estrelar faroestes cujos orçamentos eram inferiores a cinqüenta mil dólares, duravam entre cinquenta e sessenta minutos, privilegiavam a ação e eram produzidos principalmente pelos estúdios do Poverty Row. Estava assim estabelecida a fórmula do faroeste B, que reinou absoluto nos anos 1930 e, com menor intensidade, também nos anos 1940. thumb|left|200px|Poster do filme “King of the Rodeo”, de 1929 No entanto, com o aumento dos custos, o fantasma da cada vez mais onipresente televisão e a falta de visão dos estúdios, que não conseguiram descobrir caras novas e ao mesmo tempo carismáticas, o gênero sucumbiu juntamente com todas as outras formas de filmes B. O último faroeste B produzido foi Pistoleiro por Equívoco (Two Guns and a Badge), com Wayne Morris, em 1954. Antigos astros, como Gene Autry e Roy Rogers se refugiaram na televisão; outros amargaram o esquecimento, juntaram-se a circos itinerantes ou foram aproveitados como coadjuvantes por Hollywood.
thumb|right|170px|Cartaz do filme Pals of the Saddle (1938),filme da série The Three Mesquiteers estrelado por John Wayne, Ray Corrigan e Max Tehune.
Outros grandes nomes do faroeste B são os cowboys Johnny Mack Brown, William Boyd (Hopalong Cassidy), Tim Holt, Allan "Rocky" Lane, Charles Starrett (Durango Kid), Rex Allen, Monte Hale, Fred Thomson, George O’Brien, Buster Crabbe, Kermit Maynard e Bill Elliott.
Vários astros do cinema iniciaram suas carreiras nesses pequenos filmes: John Wayne fez inúmeros faroestes B, inclusive com o trio Western The Three Mesquiteers, antes de estrelar No Tempo das Diligências (Stagecoach, 1939), de John Ford. Rita Hayworth, com o nome de Rita Cansino, esteve em fitas de Tom Keene (Rebelião/Rebellion, 1936 e Traição/Old Louisiana, 1937) , The Three Mesquiteers (Soberanos da Sela/Hit the Saddle, 1937) e do cowboy cantor Tex Ritter (Confusão no Texas/Trouble in Texas, 1937); Robert Mitchum iniciou a carreira fazendo papel de bandido no filme A Trilha Solitária (The Lone Star Trail, 1943) da série de Johnny Mack Brown e em sete produções da série com Hopalong Cassidy.
Todavia, o contrário também ocorreu: enquanto estrelava seus modestos faroestes, Tim Holt interpretava papéis de destaque em filmes importantes como Soberba (The Magnificent Ambersons, 1942), de Orson Welles, Paixão de Fortes (My Darling Clementine, 1946), de John Ford e O Tesouro de Sierra Madre (The Treasure of the Sierra Madre, 1948), de John Huston, entre outros.
Seriados
thumb|right|200px|Cena de “The Adventures of Kathlyn”, considerado o primeiro seriado a utilizar o cliffhanger, em 1913. Os seriados podem ser considerados uma espécie de filme B, mediante os clichês e fórmulas que conduziam suas tramas artisticamente pouco flexíveis. Os seriados podem ser considerados uma espécie de filme B, sob o domínio dos clichês e ingredientes básicos que determinavam a trama. O herói, a heroína, o assistente do herói, o vilão, os capangas, o prêmio, o cliffhanger e os perigos faziam parte desse universo, muitas vezes sob o mistério de identidades secretas, reveladas apenas no final da trama, no último capítulo. A Republic Pictures, considerada por muitos como a maior produtora de seriados, desenvolvia todo um projeto anual para suas obras. Foram, portanto, um tipo de filme B com várias características próprias:
Cada seriado tinha entre dez e quinze episódios;
Cada episódio durava entre quinze e vinte minutos e era exibido nas matinês de sábado. O final sempre mostrava uma situação de perigo, o chamado "gancho" (cliffhanger), para obrigar o espectador a voltar na semana seguinte;
Segundo o estudioso William C. Cline, em In The Nick Of Time: Motion Picture Sound Serials, os ingredientes obrigatórios de um seriado eram:
um Herói, com quem a platéia podia se identificar; uma Heroína, bonita e vulnerável; um Vilão, ameaçador e cruel; seus Capangas; um Prêmio, ardorosamente desejado pelo vilão: um mapa, um documento secreto, uma arma, uma fórmula química etc; e os Perigos, diabolicamente concebidos, insidiosamente perpetrados, destrutivamente fatais e aparentemente inescapáveis;
Assuntos, temas e personagens recorrentes incluiam: aventuras nas selvas, viagens interplanetárias, super-heróis dos quadrinhos, invasões por discos voadores, a Polícia Montada canadense, agentes secretos, o "perigo oriental", foras-da-lei (principalmente Jesse James), o FBI, mocinhos e bandidos mascarados, pilotos de aviões e a Guarda Costeira estadunidense. Segundo o autor A. C. Gomes de Mattos, "era um mundo fantástico de cidades perdidas e tesouros escondidos, passagens secretas e armadilhas traiçoeiras, perseguições eletrizantes e perigos fatais, vilões misteriosos e heróis mascarados -- puro escapismo, sim, mas irresistível";
Apesar de ter existido desde os tempos do cinema mudo, o seriado teve sua fase áurea nas décadas de 1930 e 1940. Entre 1929 e 1956 foram produzidos duzentos e trinta e um desses filmes B, a maioria nos estúdios da Republic, Columbia e Universal;
O primeiro seriado sonoro foi O Ás da Scotland Yard (The Ace of Scotland Yard, 1929, Universal), com dez episódios. Nele, o Herói Inspetor Blake, interpretado por Crawford Kent, enfrenta mil Perigos ao combater a Vilã Rainha dos Diamantes, que planeja roubar um precioso anel (o Prêmio), por sorte pertencente à sua noiva, a Heroína;