O autorretrato feminino na pintura é a representação de uma pessoa feminina pintada por ela mesma.
Embora utilize técnicas pictóricas e responda às motivações do autorretrato em geral, o autorretrato feminino difere do masculino por aspectos relativos à fisionomia, à anatomia e fisiologia do sujeito representado, ou relacionados à sua psicologia.
O autorretrato, como gênero artístico, tem desempenhado um papel fundamental ao longo da história da arte, servindo como um meio através do qual os artistas exploram sua própria identidade, reflexões interiores e sua relação com o mundo exterior. Entretanto, quando mulheres se retratam, o autorretrato adquire significados adicionais, muitas vezes subvertendo normas sociais e artísticas. Para as mulheres artistas, a prática do autorretrato historicamente representou um território de reivindicação de espaço em um mundo predominantemente masculino, no qual suas contribuições frequentemente eram ignoradas ou marginalizadas.
Desde os primeiros exemplos no Renascimento até as inovadoras abordagens contemporâneas, o autorretrato feminino se revela como uma forma de resistência, introspecção e reinterpretação do feminino no campo das artes visuais. Artistas como Sofonisba Anguissola, Artemisia Gentileschi, Frida Kahlo, Cindy Sherman e muitas outras, através de seus autorretratos, não apenas registram sua aparência, mas também comentam sobre suas experiências pessoais, sociais e políticas. A prática do autorretrato permitiu que essas artistas expressassem suas identidades de maneira complexa e multifacetada, enfrentando os desafios impostos pelas normas de gênero, pelas restrições sociais e pela visão patriarcal do corpo e da mente feminina.Frances Borzello. Seeing Ourselves: Women's Self-Portraits. Thames & Hudson, 2016. ISBN 0500239460
Neste sentido, a historiadora Griselda Pollock afirma que a história da arte, como disciplina, foi estruturada a partir de perspectivas patriarcais e eurocêntricas, que marginalizaram e silenciaram as contribuições femininas, foi moldada por um sistema de poder que reforça uma hierarquia de gênero, onde o masculino é associado ao poder e à criação, e o feminino é muitas vezes relegado a objeto de representação, e não como agente criador.Vision and Difference. Feminism, Femininity and Histories of Art. London: Routledge, 2015. ISBN 9780429235689
De fato, ao consultar um famoso e conceituado dicionário de artistas, do início ao fim, constata-se quão poucas mulheres estão ali representadas, apesar de ter sido republicado no final do século XX.Laurrousse Dictionary of Painters. London: Hamlyn Publishing Group, 1981
Lugar do Autorretrato Feminino O autorretrato feminino há muito é considerado uma variedade menor de retrato. Da famosa coleção de autorretratos exposta no Corredor Vasari em 1973, apenas 21 (5%) eram de mulheres.«Self-portraits of women in the Uffizi collection Nos catálogos de exposições e nas obras dedicadas aos autorretratos publicados entre 1936 e 2016, na maioria das vezes assinados por autores do sexo masculino, o lugar dos autorretratos femininos na pintura é muitas vezes ainda inferior a 5%,Frédéric Birr et Jean Diez (préf. Roger Garaudy), Les Peintres par eux-mêmes : de Giotto à Miró, Nouvelle Librairie de France, 1986, 207 p.Ludwig Goldscheider, Fünfhundert Selbstporträts : Von der Antike bis zu Gegenwart, Vienne, Phaidon, 1936, 528 p.Stéphane Guégan, Laurence Madeline, Thomas Schlesser et Henri Soldani, L'autoportrait dans l'histoire de l'art : de Rembrandt à Warhol, l'intimité révélée de 50 artistes, Beaux Arts, 2009, 255 p. (ISBN 978-2-84278-689-2)Michelangelo Masciotta, Portraits d'artistes par eux-mêmes : xive – xxe siècle, Milan, Electa, coll. « Sphæra », 1955, 319 p.Joëlle Moulin, L'autoportrait au XXe siècle : dans la peinture, du lendemain de la Grande Guerre jusqu'à nos jours, Adam Biro, 1999, 143 p.Marie-Paule Vial, Claire Bernardi, Guillaume Ambroise et Guy Cogeval, Autoportraits, Paris, Flammarion/Musée d'Orsay, 2015, 128 p. (ISBN 978-2081370388) ou de 5 a 10%,Julian Bell (trad. Pierre Clertant et Erol Ok), 500 autoportraits, Paris, Phaidon, 2005, 548 p. (ISBN 978-0714893907)Pascal Bonafoux, Les peintres et l'autoportrait, Genève, Skira, coll. « Le métier de l'artiste », 1984, 157 p. (ISBN 978-2605000395)Pascal Bonafoux et Caroline Laroche, Autoportraits du XXe siècle, Paris, Gallimard, coll. « Hors série Découvertes », 2004, np (ISBN 978-2070313662)Michael Koortbojian, Autoportraits, Paris, RMN, 1992, 64 p. (ISBN 2-7118-2533-7)Sylvie Ramond et Stéphane Paccoud, Autoportraits : de Rembrandt au selfie, Cologne, Snoeck, 2016, 288 p. (ISBN 978-3-86442-140-2)Ernst Rebel et Norbert Wolf (dir.), Autoportraits, Paris, Taschen, 2008, 96 p. (ISBN 978-3-8228-5461-7)Agnès Rosenstiehl, Peintres : autoportraits, Paris, Autrement, 1997, 45 p. (ISBN 978-2862607344) às vezes de 10 a menos de 20%; Anthony Bond, Joanna Woodall (en), T. J. Clark, Ludmilla Jordanova et Joseph Leo Koerner (en), Self Portrait : Renaissance to Contemporary, Londres, National Portrait Gallery Publications, 2005, 224 p. (ISBN 978-1-85514-357-9)Pascal Bonafoux (dir.) et David Rosenberg, Moi ! Autoportraits du XXe siècle, Paris, Skira, 2004, 294 p. (ISBN 978-8884918543)Yves Calméjane, Histoire de moi : histoire des autoportraits, Paris, Thalia, 2006, 251 p. (ISBN 978-2352780144)Christian Demilly, Autoportraits, Palette, 2010, 72 p. (ISBN 9782358320153)Philippe Renard, Portraits et autoportraits d'artistes au XVIIIe siècle, Tournai, La Renaissance du Livre, coll. « Références », 2003, 189 p. (ISBN 978-2804608163)Liz Rideal (en) et Julian Bell (trad. Pierre Clertant, Jean-Bernard Gouillier et Erol Ok), 500 autoportraits, Paris, Phaidon, 2018, 587 p. (ISBN 978-0714876214) entretanto, um trabalho mais recente (2021) lhe confere quase paridade.Natalie Rudd (trad. Camille Fort), L'autoportrait, Paris, Flammarion, coll. « L'art en poche », 2021, 171 p. (ISBN 978-2-08-023691-3)
Dependendo da época e do género dos autores ou curadores das exposições, a participação do autorretrato feminino na pintura é avaliada de forma muito variável; o aumento recente não é consequência de uma atividade renovada dos artistas em causa, mas de uma reavaliação positiva, a partir da década de 1970, do contributo das mulheres na pintura. No entanto, tendo em conta o fato de o autorretrato feminino ter surgido mais de um século depois do autorretrato masculino, e de que durante muito tempo houve menos artistas femininas, pareceria bastante razoável situar a proporção num máximo de 15 a 20%. Este valor dificilmente deverá variar no futuro próximo, porque o autorretrato na pintura diminuiu acentuadamente durante o século XX, marcado por novos movimentos pictóricos que conduziram ao que se tem chamado de “desaparecimento da figura”, ou “crise da representação mimética”, e pela ascensão da fotografia e depois da arte digital.Linda Nochlin, « Why Have There Been No Great Women Artists [archive] » [« Pourquoi n'y a-t-il pas eu de grandes artistes femmes ? »], ARTnews, janvier 1971 (consulté le 4 octobre 2022), p. 22Anne Sutherland Harris et Linda Nochlin (trad. Claude Bourguignon, Pascale Germain, Julie Pavesi et Florence Verne), Femmes peintres 1550-1950, Paris, des femmes, 1981, 366 p. (ISBN 9782721002082)Marie-Jo Bonnet, Les Femmes dans l'art : Qu'est-ce que les femmes ont apporté à l'art, Paris, La Martinière, coll. « Patrimoine », 2004, 256 p. (ISBN 978-2732430874)Laure Adler et Camille Viéville, Les femmes artistes sont dangereuses, Paris, Flammarion, 2018, 159 p. (ISBN 978-2-0814-1628-4)Lucinda Gosling, Hilary Robinson et Amy Tobin (trad. Caroline de Hugo), L'Art du féminisme : les images qui ont façonné le combat pour l'égalité, 1857-2017, Paris, Hugo Image, 2019, 272 p. (ISBN 978-2755641189)Katy Hessel (trad. Anna Souillac et Aurélien Blanchard), Histoire de l'art sans les hommes, Paris, Michel Lafon, 2022, 512 p. (ISBN 978-2-7499-5138-6) « Lady Diana Spencer, autoportrait en muse Terpsichore As Artistas Celebridades As artistas que aparecem no “Top 5” das obras acima referenciadas são Sofonisba Anguissola, Artemisia Gentileschi, Frida Kahlo, Angelica Kauffmann e Élisabeth Vigée Le Brun, seguidas de Rosalba Carriera, Lavinia Fontana, Paula Modersohn-Becker, Helene Schjerfbeck e Suzanne Valadon. Embora tenham produzido poucos autorretratos, as impressionistas Berthe Morisot e Mary Cassatt são frequentemente citadas, assim como a pioneira Catarina van Hemessen e a icônica Tamara de Lempicka.10 Most Famous Self-Portraits by Female Artists - DailyArt.
As Aristocratas Uma singularidade do autorretrato feminino é o encontro de artistas provenientes de famílias principescas, reais e imperiais, principalmente nos séculos XVII e XVIII. Enquanto os filhos destas famílias nobres eram treinados para a guerra ou ao clero, as meninas recebiam uma educação artística completa, na música, nas letras e belas artes. Equipadas com essa formação, algumas se tornaram pintoras talentosas. É nomeadamente o caso de Ulrica Leonor da Dinamarca, Ana de Hanôver, Condessa Ludovika von Thürheim, Leonor de Almeida Portugal, Marquesa de Alorna, Carolina Luísa de Hesse-Darmstadt, Condessa Julie von Egloffstein, Princesa Carlota Bonaparte, Ernestine Charlotte von Nassau-Siegen, que se retrata como Santa Cacilda, Isabel Cristina de Brunsvique-Volfembutel-Bevern como jardineira, Lady Diana Beauclerk como Terpsícore, Luísa Holandina do Palatinado como uma alegoria da pintura, Amalia Wilhelmina von Königsmarck e Maria Antónia da Baviera com paleta e pincéis.
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