Lacanianismo ou psicanálise lacaniana é um sistema teórico que explica a mente, o comportamento e a cultura através de uma extensão estruturalista e pós-estruturalista da psicanálise clássica, iniciada pelo trabalho de Jacques Lacan das décadas de 1950 a 1980. As perspectivas lacanianas afirmam que o mundo da linguagem, o Simbólico, estrutura a mente humana e enfatizam a importância do desejo, que é concebido como perpétuo e impossível de satisfazer. O lacanianismo contemporâneo é caracterizado por uma ampla gama de pensamentos e um extenso debate entre os lacanianos.

O lacanianismo tem sido particularmente influente no pós-estruturalismo, na teoria literária e na teoria feminista, bem como em vários ramos da teoria crítica, incluindo a teoria queer. Da mesma forma, foi criticado pelos pós-estruturalistas Deleuze e Guattari e por várias teóricas feministas. A sua relevância clínica é limitada e fora da França não teve influência na psiquiatria. Há uma vertente lacaniana na política de esquerda, incluindo o pós-anarquismo de Saul Newman e Duane Rousselle, o marxismo estrutural de Louis Althusser e os trabalhos de Slavoj Žižek e Alain Badiou. Figuras influentes no lacanianismo incluem Slavoj Žižek, Julia Kristeva e Serge Leclaire.

Visão geral Os lacanianos veem a estrutura da mente como definida pela entrada do indivíduo, ainda criança, no mundo da linguagem, o Simbólico, por meio de um processo edipiano. Tal como outras abordagens pós-estruturalistas, o lacanianismo considera o sujeito como uma ilusão criada quando um indivíduo é significado (representado na linguagem). Porém, essa significação inicial é incompleta, pois sempre há algo no sujeito que não pode ser devidamente representado na linguagem, o que significa que a significação também divide o sujeito. O Simbólico é definido pelo Outro, aquelas partes do mundo exterior com as quais o sujeito não consegue se identificar, que é o lugar onde os significantes recebem significado. A linguagem é, portanto, um discurso do Outro, fora do controle consciente.

A mente inconsciente é constituída por uma rede de significantes vazios que ressurgem na linguagem — particularmente sonhos e atos freudianos — e a prática clínica lacaniana concentra-se estreitamente nas palavras precisas usadas pelo analisando (paciente), o que Lacan caracterizou como um retorno a Freud. A análise concentra-se principalmente no desejo. Os lacanianos afirmam que o desejo não pode ser satisfeito, pois o objeto e a causa do desejo é um objeto inalcançável, o objet petit a, que o sujeito associa continuamente a diferentes coisas que eles acreditam erroneamente que irão satisfazer seu desejo. O objeto a existe como consequência da divisão do sujeito em significação, então diz-se que o desejo resulta de uma falta insolúvel no âmago do sujeito.

O lacanianismo postula que todas as pessoas pertencem a uma das três estruturas clínicas e são psicóticas, perversas ou, mais comumente, neuróticas. Os sujeitos neuróticos — isto é, a maioria das pessoas — são sempre histéricos ou obsessivos. As três estruturas clínicas descrevem a relação do sujeito com o Outro e estão cada uma associada a um mecanismo de defesa diferente: os psicóticos usam a foraclusão, uma rejeição da autoridade do pai no complexo de Édipo que resulta na falha na formação de um inconsciente Simbólico; os pervertidos usam a negação, não aceitando que a falta causa o desejo e nomeando um objeto específico como sua causa, seu fetiche; e os neuróticos usam o recalque.

A realidade psíquica é constituída pelo Simbólico, pelo Imaginário, pelo Real, e para os lacanianos que seguem Kristeva, pela Semiótica.

Estágio de espelho A primeira contribuição oficial de Lacan para a psicanálise foi o estágio de espelho, que ele descreveu como "formativo da função do eu revelada na experiência psicanalítica". No início da década de 1950, ele passou a considerar o estágio do espelho como mais do que um momento na vida da criança; em vez disso, fazia parte da estrutura permanente da subjetividade. Na ordem imaginária, a própria imagem do sujeito o captura e cativa permanentemente. Lacan explica que “a fase do espelho é um fenômeno ao qual atribuo um duplo valor. Em primeiro lugar, tem valor histórico porque marca uma viragem decisiva no desenvolvimento mental da criança. Em segundo lugar, tipifica uma relação libidinal essencial com a imagem corporal”.Lacan, J., "Some Reflections on the Ego" in Écrits

À medida que este conceito se desenvolveu, a ênfase recaiu menos no seu valor histórico e mais no seu valor estrutural.Dylan Evans, An Introductory Dictionary of Lacanian Psychoanalysis Em seu quarto seminário, La relation d'objet, Lacan afirma que “o estágio do espelho está longe de ser um mero fenômeno que ocorre no desenvolvimento da criança. Ele ilustra a natureza conflituosa da relação dual”.

O estágio do espelho descreve a formação do ego através do processo de objetificação, sendo o ego o resultado de um conflito entre a aparência visual percebida e a experiência emocional. Essa identificação é o que Lacan chamou de alienação. Aos seis meses, o bebê ainda não tem coordenação física. A criança é capaz de se reconhecer no espelho antes de obter controle sobre seus movimentos corporais. A criança vê a sua imagem como um todo e a síntese dessa imagem produz uma sensação de contraste com a falta de coordenação do corpo, que é percebido como um corpo fragmentado. A criança experimenta este contraste inicialmente como uma rivalidade com a sua imagem, porque a totalidade da imagem ameaça a criança com a fragmentação — assim, o estágio do espelho dá origem a uma tensão agressiva entre o sujeito e a imagem. Para resolver esta tensão agressiva, a criança identifica-se com a imagem: esta identificação primária com a contraparte forma o ego.Dylan Evans, An Introductory Dictionary of Lacanian Psychoanalysis Lacan entendeu esse momento de identificação como um momento de júbilo, pois conduz a um sentido imaginário de domínio; contudo, quando a criança compara seu precário senso de domínio com a onipotência da mãe, uma reação depressiva pode acompanhar o júbilo.Lacan, J., "La relation d'objet" in Écrits.

Lacan chama a imagem especular de ortopédica, pois leva a criança a antecipar a superação de sua “real prematuridade específica de nascimento”. A visão do corpo como integrado e contido, em oposição à experiência real de incapacidade motora da criança e à sensação do seu corpo como fragmentado, induz um movimento da insuficiência para a antecipação.Lacan, J., "The Mirror Stage as Formative of the Function of the I", in Écrits: a selection, London, Routledge Classics, 2001; p. 5 Em outras palavras, a imagem espelhada inicia e depois auxilia, como uma muleta, o processo de formação de um senso integrado de identidade.

No estágio do espelho, um mal-entendido (méconnaissance) constitui o ego — o eu ( moi ) torna-se alienado de si mesmo através da introdução de uma dimensão imaginária ao sujeito. O palco do espelho também possui uma dimensão simbólica significativa, pela presença da figura do adulto que carrega o bebê. Tendo assumido jubilosamente a imagem como sua, a criança vira a cabeça para esse adulto, que representa o grande Outro, como se quisesse apelar ao adulto para ratificar esta imagem.Lacan, Tenth Seminar, "L'angoisse," 1962–1963

Desejo O conceito de desejo de Lacan está relacionado ao Begierde de Hegel, um termo que implica uma força contínua e, portanto, de alguma forma difere do conceito de Wunsch de Freud.Macey, David, "On the subject of Lacan" in Psychoanalysis in Contexts: Paths between Theory and Modern Culture (London: Routledge 1995). O desejo de Lacan refere-se sempre ao desejo inconsciente porque é o desejo inconsciente que constitui a preocupação central da psicanálise.

O objetivo da psicanálise é levar o analisando a reconhecer seu desejo e, ao fazê-lo, descobrir a verdade sobre seu desejo. No entanto, isso só é possível se o desejo for articulado na fala: “Só quando é formulado, nomeado na presença do outro, é que o desejo aparece no sentido pleno do termo”.Lacan, J., The Seminar of Jacques Lacan: Book I: Freud's Papers on Technique 1953–1954(W. W. Norton & Company, 1988), Fink, Bruce, The Lacanian Subject: Between Language and Jouissance (Princeton University Press, 1996), E ainda em O Ego na Teoria de Freud e na Técnica da Psicanálise: “o que importa é ensinar o sujeito a nomear, a articular, a fazer existir o desejo. O sujeito deverá passar a reconhecer e nomear seu desejo. Mas não se trata de reconhecer algo que poderia ser inteiramente dado. Ao nomeá-lo, o sujeito cria, traz à tona uma nova presença no mundo".Lacan, J., The Seminar of Jacques Lacan: Book II: The Ego in Freud's Theory and in the Technique of Psychoanalysis 1954-1955(W. W. Norton & Company, 1988), A verdade sobre o desejo está de alguma forma presente no discurso, embora o discurso nunca seja capaz de articular toda a verdade sobre o desejo; sempre que o discurso tenta articular o desejo, há sempre uma sobra ou um excedente.Lacan, J., "The Direction of the Treatment and the Principles of Its Powers" in Écrits: A Selection translated by Bruce Fink (W. W. Norton & Company, 2004),

Lacan distingue desejo de necessidade e de demanda. A necessidade é um instinto biológico onde o sujeito depende do Outro para satisfazer as suas próprias necessidades: para obter a ajuda do Outro, a necessidade deve ser articulada em demanda. Mas a presença do Outro não só garante a satisfação da necessidade, mas também representa o amor do Outro. Consequentemente, a demanda adquire uma dupla função: por um lado, articula a necessidade e, por outro, atua como uma demanda de amor. Mesmo depois de satisfeita a necessidade articulada na demanda, a demanda de amor permanece insatisfeita, uma vez que o Outro não consegue fornecer o amor incondicional que o sujeito busca. “O desejo não é o apetite de satisfação, nem a exigência de amor, mas a diferença que resulta da subtração do primeiro do segundo”.Lacan, J., "The Signification of the Phallus" in Écrits O desejo é um excedente, uma sobra, produzido pela articulação da necessidade com a demanda: “o desejo começa a se formar na margem em que a demanda se separa da necessidade”. Ao contrário da necessidade, que pode ser satisfeita, o desejo nunca pode ser satisfeito: é constante na sua pressão e eterno. A realização do desejo não consiste em ser realizado, mas na sua reprodução como tal. Como diz Slavoj Žižek, “a raison d'être do desejo não é realizar o seu objetivo, encontrar a satisfação plena, mas reproduzir-se como desejo”.Žižek, Slavoj, The Plague of Fantasies (London: Verso 1997), p. 39.

Lacan também distingue entre desejo e pulsões: o desejo é um e as pulsões são muitas. As pulsões são manifestações parciais de uma única força chamada desejo.Lacan, J. The Seminar: Book XI. The Four Fundamental Concepts of Psychoanalysis, 1964 (W. W. Norton & Company, 1998), O conceito de Lacan de objet petit a é o objeto do desejo, embora esse objeto não seja aquele para o qual o desejo tende, mas sim a causa do desejo. O desejo não é uma relação com um objeto, mas uma relação com uma falta (manque).

Nos Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise, Lacan argumenta que “o desejo do homem é o desejo do Outro”. Isto implica o seguinte:

O desejo é o desejo do desejo do Outro, ou seja, que o desejo é objeto do desejo do outro e que o desejo é também desejo de reconhecimento. Aqui Lacan segue Alexandre Kojève, que segue Hegel: para Kojève o sujeito deve arriscar a própria vida se quiser alcançar o prestígio desejado.Kojève, Alexandre, Introduction to the Reading of Hegel, translated by James H. Nichols Jr. (New York: Basic Books 1969), p. 39. Esse desejo de ser objeto do desejo do outro é melhor exemplificado no complexo de Édipo, quando o sujeito deseja ser o falo da mãe.