A língua ainu (em ainu: アイヌ イタク, aynu itak; AFI: ['ʔaj.nu ʔi.'tak̚]) é uma língua isolada, falada pelo grupo étnico ainu da ilha de Hokkaido, no Japão. É a única língua não-japônica falada no país.

O ainu é dividido em três grupos dialetais: de Hokkaido, de Sacalina e das Ilhas Curilas. Os dialetos de Sacalina e das Curilas são extintos. Eles diferem bastante no vocabulário, mas análises comparativas detalhadas são limitadas pela escassez de registros. Documentos indicam que registros da língua iniciaram-se no século XVI.

Em 2023, 11.450 pessoas se identificaram como ainu, e o povo também é oficialmente reconhecido pela administração japonesa desde 2008. Todavia, o idioma foi classificado pela UNESCO como "em perigo crítico", resultado de um longo processo de discriminação racial e assimilação cultural imposto pelo governo local. Como consequência, muitos dialetos tornaram-se extintos e a língua deixou de ser usada no cotidiano. Desde a década de 1980, o uso da língua tem aumentado, acompanhado por um forte movimento de revitalização cultural ainu. A quantidade exata de falantes nativos é incerta; estimava-se entre 10 e 30 adultos em 2006.

Assim como outras línguas do nordeste asiático, o ainu é uma língua aglutinante e com ordem SOV. Por outro lado, ela é uma das únicas línguas polissintéticas da região, comumente formando novas palavras pela adição de afixos. Outra característica incomum do ainu é a marcação de núcleo, algo raro entre os idiomas do nordeste da Ásia. A língua também possui uma variedade de vozes, incluindo uma voz causativa "indefinida" considerada rara. Historicamente, o idioma nunca possuiu um sistema de escrita próprio, mas tem uma literatura oral bem documentada. Houve tentativas de criar uma ortografia com o alfabeto latino, o cirílico e o katakana japonês. O cirílico foi utilizado apenas por pesquisadores russos, enquanto o katakana e o latino foram posteriormente adotados para a escrita comum.

Etimologia O etnônimo ainu, ou aynu, significa "pessoa" ou "homem" na língua. O a palavra aynu itak (アイヌ イタク, em katakana), portanto, é formado por aynu e itak, que traduz para "língua" ou "palavra". Embora aynu seja o nome mais utilizado, alguns preferem o termo utari ("companheiros" ou "pessoas"), devido à conotação negativa com a palavra aynu no Japão.

Distribuição Além de Hokkaido, a língua ainu também era falado na região de Tohoku, nas Ilhas Curilas e na Ilha de Sacalina. Alguns pesquisadores acreditam que a língua também esteve presente na península de Kamchatka. Com o tempo, o uso da língua nesses territórios diminuiu, e os falantes passaram a se concentrar em Hokkaido. Em 2013, foi registrado que aproximadamente 70% da população ainu identificada vivia nas províncias de Hidaka e Iburi. Alguns ainus também vivem em outros países, como Estados Unidos.

Dialetos miniaturadaimagem|Distribuição das línguas ainu pré-1945: Dialetos de Hokkaido Dialetos de Sacalina Dialetos das Curilas|upright=1Os dialetos ainu dividem-se em três principais grupos, conforme as regiões em que eram falados: as variantes faladas na ilha de Hokkaido, as faladas na Ilha de Sacalina, e as faladas nas Ilhas Curilas. Os dialetos de Sacalina e das Curilas são considerados extintos.

As variedades ainda não possuem uma classificação bem definida. Alguns autores, como a linguista Anna Bugaeva, se referem ao idioma como parte de uma família linguística própria, onde os grupos citados são as respectivas subfamílias. Uma possível divisão de dialetos e subdialetos pode ser feita da seguinte forma: Língua ainu Hokkaido Dialetos do Nordeste Dialetos do norte Sōya: Falado no extremo norte de Hokkaido. É o dialeto mais similar aos de Sacalina, sendo distante dos outros dialetos de Hokkaido. Dialetos centrais Asahikawa/Ishikari: Falado na região da bacia hidrográfica do rio Ishikari, localizada no centro de Hokkaido. Compartilha diversas características com outros dialetos, além de ter correspondência lexical frequente com o dialeto de Nayoro. Nayoro: Falado na região da bacia hidrográfica do rio Nayoro. Características lexicais são próximas da variante de Ishikari. Dialetos do leste Obihiro Kushiro: Falado na região da bacia hidrográfica do rio Kushiro. Bihoro: Falado na região da cidade de Bihoro. Vocabulário básico difere do dialeto de Kushiro, além de ter diferenças fonéticas com outros dialetos. Samani: Falado na região da cidade de Samani. Tokachi: Falado na região da bacia hidrográfica do rio Tokachi e da planície de Tokachi. Apresenta similaridades de léxico com os dialetos de Kushiro e Bihoro. Shizunai: Falado na região da cidade de Shinhidaka, localizada nos arredores da bacia hidrográfica do rio Shizunai. Possui características próximas à variante de Tokachi, tanto na gramática quanto no léxico. Dialetos do Sudoeste Dialetos do sul Biratori/Saru: Falado na região da bacia hidrográfica do rio Saru. Apresenta diferenças em léxico e gramática dos outros dialetos, exceto o de Chitose. Possui uma forma incomum de marcação de pessoa. Nukibetsu Niikappu: Falado na região da antiga vila de Niikappu, localizada nos arredores da bacia hidrográfica do rio Niikappu. Se localiza entre as regiões dos dialetos de Saru e Shizunai, compartilhando características lexicais com ambos. Mukawa: Falado na região da cidade de Mukawa. Vocabulário extremamente parecido com as variantes de Chitose e Saru, porém possui pequenas diferenças fonológicas. Chitose: Falado na região da cidade de Chitose. Compartilha traços gramaticais com a variante de Saru, tendo uma possível relação histórica próxima do dialeto. Dialetos do oeste Yakumo: Falado na região da cidade de Yakumo. Possui diversas diferenças fonéticas com outros dialetos. Oshamambe: Falado na região da cidade de Oshamambe. Horobetsu: Falado na região da cidade de Noboribetsu. Vocabulário básico é bem próximo dos dialetos de Saru e Chitose, mas difere das variantes em outros aspectos. Sacalina † Dialetos do norte Nairo Dialetos centrais Ochiho Maoka Shiraura Raichishka: Este era o dialeto utilizado por Take Asai, a última falante dos dialetos desse grupo. É dito que as diferenças entre as falas de crianças e de idosos são bem distintas. Dialetos do sudoeste Tarantomari Dialetos do nordeste Taraika: Possui semelhanças com os dialetos do sul de Hokkaido. Ilhas Curilas † Dialetos do norte: Falado em todas as ilhas ao norte. Esses dialetos são distintos comparados aos de Hokkaido. Shumshu Dialetos do sul: Falado nas ilhas de Kunashir, Shikotan, Etorofu, e Urup. Alguns relatos afirmam que a língua é similar aos dialetos de Hokkaido, enquanto outros dizem que ela é parecida com os dialetos do norte das Curilas. Possui semelhanças com os dialetos do leste de Hokkaido em fonologia, vocabulário e gramática. miniaturadaimagem|Mulher falando a língua ainu, dialeto não especificado. (2016)|upright=1Os dialetos de Sacalina são mais similares com os de Hokkaido, e os das Curilas são bem diferentes dos outros dois grupos. As variedades de Sacalina e de Hokkaido geralmente não são mutuamente inteligíveis. Similar às vilas ainu, os dialetos seguem os cursos dos rios, estendendo-se de jusante a montante de bacias hidrográficas. Não há diferenças dialetais notáveis dentro das regiões, mas pode-se constatar alguma diferença até ao longo de um mesmo rio e entre vilas.

História

miniaturadaimagem|upright=1|Extensão histórica das línguas ainu. Área historicamente confirmada (território) e lugares com possíveis topônimos de origem ainu (círculos) Possível antiga área baseado em evidências toponômicas As origens da língua ainu ainda são incertas. Alguns acreditam que o japonês e o ainu têm um ancestral em comum, porém isso não é comprovado. Sugere-se que ele tenha pertencido a uma família linguística maior no passado, sobrevivendo após ser disseminado para Hokkaido e outras regiões. Outra hipótese é que o ainu reduziu a diversidade linguística do arquipélago, absorvendo ou substituindo outras línguas à medida que adentrava o norte.

Origens A língua ancestral do ainu é associada com a primeira onda migratória para o Japão, ocorrida há mais de 30 mil anos. Na segunda onda, há 3 mil anos atrás, agricultores de arroz que falavam japonês vieram da península coreana, movimento que continuou durante os períodos de Yayoi e Kofun. Com isso, todas as línguas da região foram substituídas, exceto o ainu. Por volta de 1000 EC, a língua se espalhou de Honshu para Hokkaido, seguindo em 1300 EC para as ilhas Curilas e em 1500-1600 EC para a Sacalina. O surgimento da língua no sul de Hokkaido se conecta com a cultura Satsumon, que posteriormente se expandiu para o nordeste e confrontou aqueles da cultura Okhotsk na região, supostos falantes da língua nivkhe. Até o final do século XIII, os Satsumon substituíram os Okhotsk, marcando o início da cultura ainu já documentada.

O proto-ainu, um antecessor hipotético da língua, formou-se ao longo dos últimos mil anos. Ele possuía um inventário fonológico elaborado, tendo 17 consoantes. Autores divergem ao discutir se a língua tinha vogais longas e/ou tonicidade. A tabela a seguir mostra alguns exemplos de palavras em proto-ainu comparadas com o dialeto asahikawa:miniaturadaimagem|upright=1|Pintura de uma cerimônia iomante ainu. (1875) +Comparação com o proto-ainuProto-ainuAinu (dialeto de Asahikawa)Tradução*nöm.ii-nomi"Realizar um festival"*Etuetu"Nariz"*nOnnon"Saliva"*opasupas"Neve"*nomnunnun"Sugar/Infiltrar"*gop-nEhup-ne"Estreito"

História documentada Até o século XV, os ainus realizavam trocas com os japoneses, sem registro de conflitos. Contudo, em 1604, a ilha de Hokkaido, então chamada de Ezo, foi concedida ao clã Matsumae.O clã monopolizou as trocas com os ainus, e assim marca-se o início da colonização da região. miniaturadaimagem|Habitação ainu nas Ilhas Curilas. (1899)|upright=1

Em 1807, após o xogunato Tokugawa tomar controle do norte de Hokkaido, os ainus foram incentivados a aprender o japonês. Em outubro de 1871, quatro decretos foram emitidos para a população ainu, sendo um deles incentivando o esforço para aprender a ler e escrever o japonês. Esses decretos visavam promover a japonização do povo, restringindo seus costumes e impondo normas culturais. Em 1872, uma escola provisória foi aberta no templo de Zōjō-ji, em Tóquio. Foram enviados 38 indivíduos ainu para lá, a fim de estudarem a língua japonesa e terem treinamento agrícola. Ao longo do projeto, alunos expressavam o desejo de voltar para seus locais de origem, resistindo à assimilação cultural. Por esse motivo, a escola foi posteriormente transferida para Sapporo, e os resultados da escola foram considerados "mal-sucedidos".