thumb|upright=1.5|Mapa antigo da Sicília (cerca de 1600)

A Sicília é a maior das ilhas do mar Mediterrâneo, separada da Calábria, na península Itálica, pelo estreito de Messina, que possui apenas três quilômetros de largura. Devido à sua posição geográfica, a Sicília sempre teve um papel de importância nos eventos históricos que tiveram como protagonistas os povos do Mediterrâneo.

A vizinhança de múltiplas civilizações enriqueceu a Sicília de assentamentos urbanos, de monumentos e de vestígios do passado que fazem da região um dos lugares privilegiados onde a história pode ser revista através das imagens dos sinais que o tempo não apagou. Trata-se de uma região riquíssima em monumentos antigos e sítios de interesse arqueológico (Agrigento, Selinunte, Siracusa, Segesta e Taormina).

A Pré-história e a Antiguidade thumb|Ruínas do Templo da Concórdia em Agrigento

Durante o III e , a Sicília foi povoada pelos sicanos, elímios e sículos. No , os fenícios fundaram entrepostos de comércio no oeste da ilha. Estrabão escreveu também de um outro povo que visse na ilha, os morgetes.Estrabão, Geografia, VI, 257 e 260

No , os gregos colonizaram as costas leste e sul, região que se tornou conhecida como Magna Grécia, fundando prósperas colônias de comércio. Siracusa, fundada por Corinto por volta do ano 734 a.C., foi a principal cidade da ilha, sobre a qual exerceu sua hegemonia.

A Sicília acabou se tornando uma das regiões mais importantes do Império cartaginês. Entre os séculos V e , conflitos entre Cartago e os gregos (liderados por Siracusa) caracterizaram a história da ilha.

Ao fim da primeira guerra púnica, Roma conquistou a Sicília e a converteu em sua principal produtora de trigo. Augusto instalou as colônias de Palermo, Siracusa, Catânia etc. O banditismo e a pirataria, entretanto, aceleraram o declínio da ilha, que chegou a ser uma das províncias mais ricas de Roma, no tempo da República.

A Idade Média Sicília vândala (440 - 493) A ilha esteve totalmente sob controle romano, até a invasão dos vândalos em 440 que dominaram a ilha até a chegada dos ostrogodos.

A dominação vândala da Sicília iniciou-se em 440, com a conquista pelo rei Genserico, e concluiu-se entre 484 e 496, sob o reino de Guntamundo, que perdeu a última cidade vândala na ilha, Lilibeo (atual Marsala).

Genserico tornou-se rei em 428, com a morte de seu irmão Gunderico. Depois de ter conquistado todo o norte da África, em 440 uniu-se aos berberes. Em Cartago, sua base, organizou uma grande frota com a qual, no mesmo ano, desembarcou na Sicília. Os vândalos começaram a assaltar a ilha, destruindo Palermo e impedindo também os navios bizantinos de Teodósio II de aportar para combater os bárbaros.

Em 442, o que restava do Império Romano do Ocidente reconheceu as conquistas vândalas e foi assim constituído um Estado verdadeiro. Em 476, Odoacro, rei dos hérulos, iniciou uma sangrenta guerra contra os vândalos, recuperando quase toda a Sicília com um tributo. Lilibeo permaneceu como a única fortaleza vândala.

Sob Gutemondo, neto de Genserico, entre 484 e 496, a Sicília foi conquistada inteiramente pelos ostrogodos.

Sicília ostrogoda (493-555) Depois da queda do Império Romano do Ocidente, os ostrogodos, ao dominarem toda a península Itálica, acrescentaram a Sicília aos seus domínios por mais de meio século. Em 468, sob o rei Genserico, os vândalos vindos da África conquistaram a Sicília, e a Sardenha. Os vândalos restituíram a ilha a Odoacro mediante o pagamento de grande tributo, porém mais tarde o rei não manteve o acordo. A dominação ostrogoda encerrou-se com a conquista bizantina definitiva sob Narses.

Primeira dominação ostrogoda thumb|O Reino Ostrogótico

Em 476, Genserico, rei dos vândalos, derrotado nas guerras contra Odoacro, decidiu ceder a ilha em troca de um tributo. Permaneceu sob controle vândalo a cidade de Lilibeu (atual Trapani). Em 493, Odoacro foi morto por Teodorico, o Grande, rei dos ostrogodos, que assim dominou toda a Itália. Sob o reino de Teodorico, ocorreu o ápice do poder ostrogodo na península, pois logo depois o Império Bizantino iniciou uma longa guerra de reconquista (Guerra Gótica).

Em 535, Justiniano II ordenou a Belisário que atacasse os ostrogodos. O general, com 15 000 soldados conquistou rapidamente a ilha e penetrou na Itália peninsular.

Segunda dominação ostrogoda Até 549, a ilha foi dominada pelos bizantinos, mas a guerra desses contra o Império Búlgaro desviou a atenção da guerra na Itália e os ostrogodos reconquistaram o território perdido. Tótila, com o assédio de Roma no outono de 549, reconquistou a Itália. O seu domínio, porém, durou muito pouco. Justiniano enviou à Itália o general Narses, que infligiu várias derrotas aos ostrogodos graças a uma invasão de surpresa pelo norte.

Em 552, entre Gualdo Tadino e Gubbio, os exércitos de Tótila e de Narses se enfrentaram numa grande batalha. Tótila morreu na batalha. Substituído por Teia, seu reino durou só o tempo de ser derrotado definitivamente pelos bizantinos na Batalha de Mons Lactarius, ao sul de Nápoles, em outubro de 552 ou início de 553.

Sicília bizantina (535-1043) e Sicília árabe (827-1091)

No decorrer das Guerra Gótica, Belisário anexou a ilha ao Império Bizantino em 535, um domínio que durou até o .

Conquista bizantina No início do , a Sicília tornou-se um tema por ordem do imperador Heráclio, o Tema da Sicília. Ainda no , os árabes iniciaram incursões na Sicília, considerada por eles um ponto estratégico, de onde se podia controlar todo o mar Mediterrâneo.

Primeira tentativa de invasão árabe thumb|esquerda|Belisário por François André Vincent, 1776. Belisário, o conquistador da Itália, cego e mendicante, é reconhecido por um de seus soldados

A desagregação do Império Bizantino e sua debilidade se faziam sentir na Sicília, alimentando um descontentamento, em uma área que sempre, seja politicamente seja culturalmente, se sentia mais vizinha e atraída por Roma e pelo Império Romano do Ocidente que por Constantinopla e pelo Império Bizantino.

Entre 803 e 820, a eficiência bizantina no quadrante central do Mediterrâneo começou a decrescer vistosamente, na época do governo da imperatriz Irene de Atenas. O turmarca da frota bizantina Eufêmio de Messina, que havia tomado o poder na Sicília com a ajuda de vários nobres pede ajuda aos árabes em 825 para apoiar seu domínio sobre a ilha. Os bizantinos reagiram duramente sob a liderança de Fotino e Eufêmio, derrotado em Siracusa, escapou a Ifríquia. Lá encontrou refúgio sob o emir aglábida de Cairuão, , a quem pediu ajuda para realizar um desembarque na Sicília e caçar os odiados bizantinos.

Os Aglábidas eram então dotados de um agudo contraste que contrapunha a componente indígena berbere, islamizada a seguir às primeiras conquistas islâmicas do e conduzida por Almançor Altumbudi, ao exército árabe que se juntava em Ifríquia (na atual Tunísia) à época da instituição do emirado, por vontade do califa Harune Arraxide com o primeiro emir Ibraim ibne Alaglabe.

Os muçulmanos, que talvez já tivessem planejado uma invasão da Sicília, preparavam uma frota de 70 navios, chamando ao jiade marítimo o maior número de voluntários, oficialmente para atender a uma obrigação moral mas de fato para afastar de Ifríquia o maior número possível de súditos facínoras que criavam graves tensões, tanto entre a população árabe quanto entre os berberes, com graves problemas para a população civil.

Conquista árabe thumb|Portal no Castelo Sarraceno em Taormina, testemunho da presença árabe A invasão teve início em 17 de junho de 827 e a massa em grande parte berbere, mas sob liderança árabe ou persa, foi creditada ao cádi de Cairuão, Açade ibne Alfurate, grande jurista maliquita autor da famosa Asadiyya. O desembarque ocorreu em Capo Granitola, próximo a Mazara del Vallo e foi ocupada Marsala (, o porto de ‘Alī ou Marsa Allāh, o porto de Deus) e os centros foram fortificados e usados como cabeça de ponte e base de atracamento para os navios.

A expedição que pretendia com toda probabilidade (além do lendário imaginário cristão) efetuar uma penetração profunda na ilha, não se ilude de poder superar as formidáveis defesas de Siracusa, a capital bizantina da ilha, mas a substancial debilidade bizantina, há pouco saída de uma duro conflito contra o usurpador Tomás o Eslavo, fez Açade pensar na concreta possibilidade que a inicial tentativa estratégica pudesse ser mudada a uma expedição de verdadeira conquista.

Foi assim possível aos muçulmanos, que já haviam tomado Girgenti (atual Agrigento, sempre com a grande maioria berbere), tomar, em agosto e setembro 831, Palermo, eleita capital da Sicília islâmica (Siqilliyya), depois Messina, Módica (845) e Ragusa, enquanto Castrogiovanni (atual Enna) foi tomada somente em 859. Resistia Siracusa, sede do estratego da qual dependiam tanto o drungariato de Malta quanto os ducados de Calábria, de Otranto e, ao menos teoricamente, de Nápoles.

thumb|esquerda|Igreja de São João dos Eremitas, em Palermo, com cúpulas em estilo árabe

Foi necessário mais de uma década para vencer a resistência dos habitantes do solo Val di Mazara e para apoderar-se entre 841 e 859 de Val di Noto e Val Dèmone. Siracusa, superado o bloqueio imposto em 872-873 por Cafaja ibne Sufiane ibne Sauadane, caiu em 21 de maio de 878, a meio século do primeiro desembarque, ao término de um implacável assédio que se conclui com o massacre de habitantes e com a escravização dos sobreviventes, resgatados somente muitos anos mais tarde.

A última fortaleza importante da resistência bizantina a ceder foi Tauromênio (atual Taormina) em 1 de agosto de 902 sob o ataque do emir Ibraim ibne Amade. O último pedaço de terra a resistir aos muçulmanos foi Rometta que capitulou somente em 963.

Ibraim II na sua vontade de prosseguir a jiade, tentou alcançar a Itália para depois chegar, se disse com grande fantasia, até Constantinopla. Passou portanto o estreito de Messina e percorreu na direção norte para a Calábria. Não encontrou particular resistência mas sua marcha parou nas imediações de Cosença que talvez tenha sido a primeira cidade a opor uma certa resistência ao invasor. Porém a parada ocorreu mais por desordens com as quais as operações militares foram envolvidas e pela carência de condução militar e de resultados concretos. Ademais Ibraim, com disenteria, morreu e suas tropas, no limite da desordem, se retiraram. Assim se conclui a tentativa de conquista da "Terra grande" (al-arḍ al-kabīra).

Tentativa de reconquista bizantina thumb|upright|As conquistas de Jorge Maniace na Sicília em vermelho tracejado Sabe-se que Basílio II Bulgaróctono em 1025 tinha planejado a reconquista da Sicília. Mas não pode iniciá-la porque morreu no mesmo ano. O plano de Basílio foi esquecido por alguns anos, mas depois o imperador Miguel IV, o Paflagônio, reencontrando as cartas do projeto de Basílio, e tão logo os viu se entusiasmou, e quis iniciar logo esta campanha de reconquista, que foi confiada ao grande general bizantino Jorge Maniaces.

Durante o , houve na Sicília muçulmana uma profunda crise política que opôs o imã fatímida aos governadores Kalbidi, que ao final foram vencidos. Do conflito se aproveitaram os bizantinos que, em 1038, empreenderam um efêmero intento de reconquista da ilha.

Ao comando da expedição bizantina estava Estêvão, irmão do imperador Miguel IV, enquanto o comando militar das tropas era confiado ao general Maniace. As tropas eram formadas de numerosos lombardos comandados por Arduíno d'Ivrea e por uma companhia de normandos comandados pelo futuro rei da Sicília Guilherme.

thumb|esquerda|Imagem representando o exército bizantino que desembarca na Sicília comandado por Jorge Maniaces.Da crônica de João Escilitzes, no manuscrito conhecido como "Escilitzes de Madrid"