thumb|351x351px|Maria Callcott, retratada por seu segundo marido, Sir August Callcott. Maria Dundas Graham Callcott (Papcastle, 19 de julho de 1785 — Kensington Gravel Pits, 28 de novembro de 1842), mais conhecida no Brasil como Maria Graham, foi uma pintora, desenhista, escritora e historiadora britânica. Esteve no Brasil em três ocasiões, sendo uma delas como acompanhante da Família Real, incluindo a Princesa Leopoldina e Dom Pedro I.PORTO, Denise G. MARIA GRAHAM: UM OLHAR PARA O BRASIL OITOCENTISTA-1821-1824.
Biografia Nascimento Maria Dundas, como foi batizada, nasceu na Inglaterra. Não teve muito contato com o pai durante a infância e a juventude. O pai era, como muitos outros membros do clã escocês Dundas, oficial da Marinha Britânica: George Dundas (1756-1814), que em 1803 recebeu o comando do HMS Elephant, navio de 74 canhões que fora a nau capitânia de Horatio Nelson na Batalha de Copenhague e o conduziu até à Jamaica, a fim de patrulhar as águas caribenhas. Permaneceu nessa missão até 1806.
Casamento Em 1808, os anos de patrulhamento marítimo de George Dundas terminaram e ele foi designado para comandar os serviços de um estaleiro naval da Companhia Britânica das Índias Orientais em Bombaim, na Índia. Levou consigo Maria, com 23 anos. Durante a viagem, Maria apaixonou-se por um jovem oficial naval escocês, Thomas Graham, terceiro filho de Robert Graham, o último senhor de Fintry, Escócia. Casaram-se na Índia, em 1809.
Em 1811, o casal retornou para a Inglaterra, onde Maria publicou seu primeiro livro, Journal of a Residence in India (Diário de uma Residência na Índia), seguido por Letters on India (Cartas sobre a Índia).
Poucos anos depois seu pai foi nomeado comissário do estaleiro naval na Cidade do Cabo, onde morreu em 1814, aos 58 anos. Tinha sido promovido a contra-almirante dois meses antes.
Residência na Itália Como as esposas de oficiais da Marinha, passou muitos anos em terra firme, vendo raramente o marido. Residia habitualmente em Londres. Enquanto as esposas dos demais oficiais passavam o tempo nos afazeres domésticos, Maria trabalhou como tradutora e editora de livros.
Em 1819 residiu na Itália, o que resultou no livro Three Months Passed in the Mountains East of Rome, during the Year 1819 (Três meses passados nas montanhas a leste de Roma, durante o ano de 1819). Muito interessada pelas artes, escreveu um livro sobre o pintor francês barroco Nicolas Poussin, Memoirs of the Life of Nicholas Poussin (Memórias da Vida de Nicholas Poussin), em 1820.
Viúva no Chile Em 1821, Maria foi convidada a acompanhar o marido a bordo do HMS Doris, fragata de 36 canhões sob seu comando. O destino era o Chile. Tinha ele a missão de proteger os interesses mercantis britânicos. Em abril de 1822, após o navio ter contornado o Cabo Horn, o marido morreu de febre, tendo a embarcação aportado a Valparaíso com a atormentada viúva a bordo.
Embora os oficiais da Marinha destacados naquele porto, de bandeira britânica, chilena ou mesmo norte-americana tentassem ajudá-la (um capitão norte-americano chegou mesmo a oferecer levá-la de volta para a Inglaterra), Maria estava determinada a administrar sua dor sozinha. Alugou uma pequena cabana e, voltando as costas para a colônia inglesa (Não falo sobre os ingleses daqui, porque não os conheço exceto alguns poucos civis muito vulgares, com uma ou duas exceções, escreveu mais tarde), viveu entre os chilenos todo um ano. Mais tarde, em 1822, ela esteve presente durante um dos piores terremotos da história do Chile, e relembrou seus efeitos em detalhes – algo que ninguém tinha feito antes.
Influência e Papel na Independência do Brasil Inserida no campo de estudos da história das mulheres e de gênero, a pesquisa de Maria Graham é importante, pois a coloca no centro de debates da historiografia brasileira do processo de independência, como a única mulher viajante que deixou registros sobre os conflitos e debates e como a entrada de mulheres na politica era reduzida.DA SILVA, Isadora Eckardt. Maria Graham e a influência britânica no Brasil do século XIX. Instrumento: Revista de Estudo e Pesquisa em Educação, v. 11, n. 1, 2009.
Em 21 de setembro de 1821, acompanhada de seu então marido, Thomas Graham, Maria chega ao Brasil, vinda da Inglaterra, a bordo do navio de guerra da Marinha Britânica (Fragata Dóris) que veio para proteger os interesses dos ingleses no Brasil e no Chile, ancorando na cidade do Recife. A partir de sua estadia no Brasil entre 1821 e 1825, é possível observar o quanto a Inglaterra se consolidou como uma grande influência em nosso país. Registrou em seu diário momentos como o povo, a natureza e os costumes do brasil, em geral, e de Pernambuco, onde viu movimentos como os constitucionalistas de 1821 e a Confederação do Equador, em 1824. Assim, que embarcou em Recife, a cidade já lhe parecia uma verdadeira beleza, adequada para o comércio, pois possuía um porto que era rodeado por águas, servindo tanto para transporte, quanto para a defesa da praça. Circulou por diversos espaços da sociedade política brasileira, mantendo sua presença nos debates políticos a partir de sua influência com a elite portuguesa e a Família Real. Se encontrou com Luís Do Rego e sua esposa e com nativos rebeldes. Graham foi apresentada a membros da junta que queriam assumir o governo, alegavam que a causa era justa e não se consideravam rebeldes, pois estavam sob a bandeira de Portugal.SILVA, Flaviana. DIÁRIO DE UMA VIAGEM AO BRASIL: a narrativa de Maria Graham sobre o processo de independência (1821-1823). Revista Historiar, v. 14, n. 27, p. 55-75, 2022.
Enxergava o processo de independência como uma luta entre portugueses e brasileiros, que os portugueses eram os vilões da narrativa e os brasileiros, insatisfeitos com a administração lusa, se mostravam dignos da independência, esse conflito aparece durante toda a sua narrativa. Graham entendia que existiam vários tipos de "portugueses" e "brasileiros", os portugueses da Europa, residentes do Império, e os "brasileiros da cidade".SILVA, ANY MARRY. MARIA GRAHAM: O PANORAMA DA MULHER VIAJANTE SOBRE BRASIL DA INDEPENDÊNCIA.
Agiu como mediadora nas negociações entre as postulações do governo de D. Pedro I e as lideranças da Confederação do Equador, cabendo a Maria o acordo de armistício e rendição do comandante da Confederação, Manuel de Carvalho Paes de Andrade. Os interesses ingleses naquela época estavam em alta, se tornando muito importantes, pois davam privilégios especiais no Brasil, e um tratamento diferenciado com a mais alta consideração pelos governantes.«Maria Graham: testemunha e agente da História do Brasil nos tempos da Independência – Blog da BBM». 14 de dezembro de 2022. Consultado em 15 de dezembro de 2023
Em seus textos ela sempre trazia a narrativa da independência como figura central de sua escrita, e acredita que esse "movimento revolucionário positivo" iria transformar o território e levá-lo ao progresso, reforçando a imagem de D Pedro I para a concretização da Independência e a formação de um novo império, afirmando que ele seria o governante ideal para a construção da nova nação.
Retratos da Escravidão aos olhos de Maria Assim que desembarca em Pernambuco no ano de 1821, um aspecto a chama atenção, em que descreve como funciona o mercado de escravos: "Não tínhamos dado cinquenta passos no Recife quando ficamos inteiramente perturbados com a primeira impressão de um mercado de escravos. Era a primeira vez que tanto os rapazes quanto eu estávamos num país de escravidão, e por mais que os sentimentos sejam penosos e fortes quando em nossa terra imaginamos a servidão, não são nada em comparação com a visão tremenda de um mercado de escravos. O espetáculo nos fez voltar ao navio com o coração pesado e com a resolução “não ruidosa, mas profunda” de que tudo o que pudéssemos fazer no sentido da abolição ou da atenuação da escravatura seria considerado pouco". Sua viagem acontece em um momento de grandes discussões sobre a politica de escravos promovida pela Inglaterra, para a abolição de escravizados e a quantidade de pessoas vivas e mortas, sendo transportados por navios negreiros.CERDAN, Marcelo Alves. Maria Graham e a escravidão no Brasil: entre o olhar e o bico de pena e os leitores do diário de uma viajante inglesa do século XIX. História Social, n. 10, p. 121-148, 2003.Maria Graham: testemunha e agente da História do Brasil nos tempos da Independência – Blog da BBM»
Preceptora de uma princesa no Brasil Em janeiro de 1823, Maria deixou o Chile para sua segunda visita ao Brasil, acompanhada de Lorde Cochrane, chegando no Rio de Janeiro em 13 de março. No ano anterior, os brasileiros tinham declarado sua independência de Portugal e proclamado imperador o príncipe herdeiro português, residente no país. Em sua segunda estadia no Rio foi apresentada ao Imperador D. Pedro I (1822-1834) e a sua família. Ficou acertado na ocasião que Maria seria a preceptora da jovem princesa D. Maria da Glória. Em 21 de outubro de 1823 embarcou de volta à Inglaterra. Tão logo chegou a Londres, entregou para publicação os manuscritos de seus dois novos livros, Journal of a Residence in Chile during the Year 1822. And a Voyage from Chile to Brazil in 1823 (Diário de uma residência no Chile durante o ano de 1822. E uma viagem do Chile para o Brasil em 1823) e Journal of a Voyage to Brazil, and Residence There, During Part of the Years 1821, 1822, 1823 (Diário de uma viagem ao Brasil, e residência lá, durante os anos 1821, 1822 e 1823), ilustrados por ela, juntou material didático suficiente e retornou ao Brasil em 1824.IMPÉRIO, O. BRASIL. MARIA GRAHAM E MARIA LEOPOLDINA: CONFIDÊNCIAS DA IMPERATRIZ DO BRASIL A SUA AMIGA VIAJANTE. Iniciação Científica em História: Pesquisas no Ensino Médio Integrado, 2021.NEVES, Júlia Braga. Uma Segunda Estrangeira: Memórias de Lady Callcott (Maria Graham) sobre Dom Pedro I. Ilha do Desterro, v. 74, p. 169-188, 2021.BELCHIOR, Lourdes de Almeida Barreto; DEL PRIORE, Mary. ENTRE ANTIGOS E NOVOS PRINCÍPIOS POLÍTICOS: DILEMAS DE LEOPOLDINA, A PRINCESA DA INDEPENDÊNCIA. Revista da Escola Superior de Guerra, v. 37, n. 80, p. 113-125, 2022.
No seu diário, se por um lado elogia a beleza do Rio ("A extrema beleza desta terra é tal que é impossível deixar de falar e pensar nela para sempre; não há curva que não apresente algum panorama tão belo quanto novo") e a simpatia do povo ("Onde quer que estejam brasileiros, dos mais importantes aos mais ínfimos, devo dizer que sempre encontrei a maior amabilidade; desde o fidalgo, que me procura em trajes de corte, até o camponês, ou o soldado comum, todos têm-me dado oportunidade de admirar-lhes a cortesia e de lhes ser grata"), não poupa críticas à instituição da escravidão: "Vi hoje o Valongo. É o mercado de escravos do Rio. Quase todas as casas desta longuíssima rua são um depósito de escravos. Passando pelas suas portas à noite, vi na maior parte delas bancos colocados rente às paredes, nos quais filas de jovens criaturas estavam sentadas, com as cabeças raspadas, os corpos macilentos, tendo na pele sinais de sarna recente. Em alguns lugares as pobres criaturas jazem sobre tapetes, evidentemente muito fracos para sentarem-se". Maria Graham aborda também em detalhes os acontecimentos políticos da nação recém-independente. Aliás, a Introdução do diário apresenta um esboço da história do Brasil desde seu descobrimento, que atribui ao espanhol Vicente Yáñez Pinzón, e não a Cabral.SILVA, F. DIÁRIO DE UMA VIAGEM AO BRASIL: a narrativa de Maria Graham sobre o processo de independência (1821-1823). Revista Historiar, [S. l.], v. 14, n. 27, p. 55–75, 2022. Disponível em: //historiar.uvanet.br/index.php/1/article/view/434. Acesso em: 17 fev. 2024.