O Reino da Espanha (em espanhol: Reino de España) é também referido pela historiografia contemporânea como Espanha borbônica ou Espanha dos Bourbons no período que se estende de 1700 a 1808 e que corresponde ao predomínio de monarcas espanhóis oriundos da Casa de Bourbon. A vida política da Espanha adentrou uma nova era histórica após a morte de Carlos II de Espanha em 1700 se deixar herdeiros legítimos ao trono espanhol e encerrando, desta forma, o reinado da Casa de Habsburgo após aproximadamente dois séculos.
Carlos II, no entanto, havia selecionado Filipe, Duque de Anjou como seu herdeiro o que não foi aceito por pretendentes reais da Casa de Habsburgo. A subsequente Guerra da Sucessão Espanhola foi um dos principais conflitos armadas do continente europeu nos séculos XVII e XVIII principalmente por ter envolvido uma grande quantidade de nações monárquicas em duas frentes de combate. O subsequente Tratado de Utreque de 1715 reconheceu a vitória e o direito dinástico de Filipe de Anjou, dando início oficialmente ao reinado de monarcas da Casa de Bourbon no trono espanhol.
Durante o reinado de cinco monarcas consecutivos, a Espanha vivenciou um período de intensas reformas estruturais e renovação de valores políticos e culturais apesar do marcante declínio vivenciado por seu seu vasto Império colonial. A Espanha foi um centro germinador dos ideais do Iluminismo, os quais exportou para suas colônias americanas ao longo do século XVIII. Entretanto, a disseminação de ideias iluministas entre a classe burguesa colonial somada à destituição dos monarcas borbônicos pela invansão de Napoleão Bonaparte em 1808 acarretou no enfraquecimento do poderio colonial espanhol e no consequente processo de independência de suas colônias ao longo da primeira metade do século XIX.
Apesar do termo historiográfico "Espanha Borbônica" ser referente especificamente a este período da história espanhola no século XVIII, a Espanha voltou a ser governada por monarcas da Casa de Bourbon em 1814 até 1868, quando a Revolução Gloriosa Espanhola estabeleceu no trono os monarcas da Casa de Saboia. Posteriormente, a Dinastia Bourbon foi restaurada ao poder e reinou novamente de 1874 a 1931, quando foi instaurada Segunda República Espanhola. Desde a década de 1970, após o período de transição e redemocratização, a Espanha têm sido governada por um sistema monárquico constitucional liderado pela Casa de Bourbon.
História Ascensão de Filipe V (1701)
thumb|230px|left|Desde o século XVI, a Espanha vinha estabelecendo um extenso império colonial alicerçado principalmente na sobrepujança de sua marinha de guerra. Os últimos anos de reinado do Habsburgo Carlos II de Espanha, considerado deficiente mental e sem herdeiros ao trono, foram tomados pelas negociações políticas acerca de sua eventual sucessão dinástica. A Espanha, imersa numa potencial crise política, tornava-se um império global em decadência e muito mais fraca em comparação aos países vizinhos. A ausência de herdeiros legítimos ao trono espanhol e suas limitações físicas impediam Carlos II de liderar as questões políticas de seu reinado com a mesma eficácia de seus antecessores. Uma combinação de desafios econômicos, um Estado severamente burocratizado e as sucessivas derrotas militares nos embates contra a França no final do século XVII tornavam a Espanha um império global declinante.
Ao longo dos séculos anteriores, a vastidão territorial e as riquezas angariadas pelo império ultramarino espanhol através de suas colônias no Novo Mundo e no Pacífico juntamente com sua poderosa frota marítima haviam tornado a Espanha uma grande potência política europeia e parte significante dos arranjos de poder no continente. Havia, portanto, um temor por parte de alguns grupos políticos de que o trono espanhol fosse assumido por um membro da Casa de Bourbon e gerasse, então, um tipo de união pessoal entre os dois países favorecendo inigualavelmente os monarcas franceses. Por outro lado, a manutenção de um reinado espanhol pelos membros austríacos da Casa de Habsburgo seria favorável à permanência das condições políticas e econômicas do reino. O cenário político europeu do século XVII foi dominado principalmente pela questão sucessória espanhola e seu impacto no equilíbrio de poder entre as grandes potências europeias. thumb|right|250px|A Família do Grande Delfim (1687), por Pierre Mignard, retrata Luís, o Grande Delfim com Filipe, Duque de Anjou e seus demais filhos.
A França borbônica e a Áustria habsburga e seus respectivos aliados travaram um extenso conflito para determinar o sucessor de Carlos II ao trono espanhol. A consequente Guerra da Sucessão Espanhola se estendeu de 1701 a 1714 e foi vencida em termos militares pelos franceses. No entanto, o Tratado de Utreque (1715) encerrou oficialmente o conflito determinando novos arranjos territoriais que reduziram a presença espanhola no continente europeu e impedindo uma eventual união dinástica entre monarcas espanhóis e franceses. A ascensão de Filipe V de Espanha em 1701 deu início ao reinado da Dinastia Bourbon no trono espanhol e uma ramificação de espanhóis na Casa de Bourbon. O período subsequente foi marcado por um alinhamento político entre as duas nações uma vez que avô e neto governavam França e Espanha, respectivamente. Sob o reinado de Filipe V - o herdeiro escolhido pelo próprio Carlos II - a presença espanhola na Europa foi reduzida à própria Península Ibérica após a cessão de territórios espanhóis na Península Itálica, a captura de Gibraltar e Minorca pela Grã-Bretanha em 1704 e a transferência dos Países Baixos ao Império Austríaco em 1714.
Reinado de Filipe V (1701-1724) Reformas administrativas thumb|right|220px|Seguindo o perfil monárquico de seu avô, Luís XIV, Filipe V adotou uma política centralizada e unificada em todo o Império Espanhol. Filipe V assumiu a posição de um administrador fortalecido, centralizando o poder político espanhol ao suspender o sistema de cortes regionais que vigoravam desde pelo menos a Unificação espanhola no século XV. O monarca também deu início à uniformização das leis nas várias regiões do Império Espanhol ao eliminar a aplicação dos fueros. Através dos Decretos de Nova Planta (1716), a Espanha aboliu o sistema de monarquia composta e passou a ser governada diretamente da corte real em Madrid. Um dos efeitos imediatos da centralização do poder em Madrid foi o enfraquecimento de levantes regionais por grupos que ainda apoiavam o direito austríaco ao trono espanhol, movimento muito difundido ainda em regiões como Aragão. Os Decretos de Nueva Planta eliminaram essa autonomia regional e sufocaram eventuais revoltas contra o reinado da Casa de Bourbon. "A conquista mais duradoura do reinado de Filipe V foi estabelecer, pela primeira vez desde os romanos, uma política única e unitária." thumb|left|250px|Divisões administrativas espanholas (Intendencias del Reino) na década de 1720. A ascensão da Dinastia Bourbon também eliminou o sistema de governo conciliar dos Habsburgos, substituindo os conselhos de Estado por quatro secretarias de Estado que, posteriormente, foram ampliadas para os Ministérios da Coroa: Ministério de Estado e Negócios Estrangeiros, Ministério de Caridade e Justiça; Ministério de Exército e Marinha e Ministério das Índias (que administrava o governo das colônias ultramarinas do Império Espanhol). Os quatro Ministros de Estado formavam um "conselho de gabinete" e reportavam-se diretamente ao monarca. As demais reformas administrativas incluíram a divisão da Espanha em oito Intendências do Reino chefiadas por um oficial militar (Intendente) e foi estabelecida uma audiência para a administração das questões judiciais em cada uma delas. Os administradores a nível local (corregedores) - que já existiam desde o Reino de Castela - foram nomeados para os demais reinos. Na reforma tributária, alguns títulos emitidos pela Coroa espanhola foram suspensos enquanto outros tiveram suas taxas de juros rebaixadas.
Conflitos militares thumb|right|230px|Maquete do navio Nuestra Señora de la Santísima Trinidad no Museu Naval de Madrid. O fortalecimento da Armada Espanhola foi uma das prioridades dos reinados de Filipe V e Carlos III. A política do reinado de Filipe V foi dominada basicamente pela influência de sua segunda consorte, Isabel Farnésio. Filipe V adotou uma política externa agressiva que envolveu a Espanha em uma série de guerras custosas ao longo de seu reinado. A perda de grande parte dos territórios europeus prometidos à Casa de Bourbon pelo testamento de Carlos II e sua ambição pessoal resultaram em uma série de contestações indiretas ao Tratado de Utreque. Oriunda da casa ducal de Parma, Isabel Farnésio aliou-se ao Ministro-chefe da Espanha Cardeal Giulio Alberoni em busca de reaver os territórios espanhóis perdidos na Guerra de Sucessão. Entretanto, um esforço conjunto de britânicos e holandeses durante as décadas seguintes impediu que a Espanha obtivesse seus objetivos expansionistas.
Em 1717, Filipe V invadiu a Sardenha, um dos territórios cedidos para a Áustria após a Guerra da Sucessão Espanhola. A invasão da Sicília, no entanto, levou à formação da chamada "Quádrupla Aliança" entre Grã-Bretanha, França, Áustria e Países Baixos. Em 1720, envergonhado pelo fracasso da Armada Espanhola nos conflitos marítimos e as derrotas do exército espanhola na Guerra da Quádrupla Aliança (1718-1720), Filipe V dispensou o Cardeal Alberoni e assinou um tratado de paz com a Áustria que reconhecia definitivamente as disposições do Tratado de Utreque.
Os espanhóis novamente tentaram recuperar parte de seus territórios perdidos durante a Guerra Anglo-Espanhola de 1727-1729. Através de uma aliança estratégica com os austríacos, a Espanha tentou retomar suas antigas bases navais no Mediterrâneo - especialmente Minorca e Gibraltar - dos britânicos. Como reação, o Secretário do Exterior britânico Visconde Townshend liderou uma aliança com França e Países Baixos que eventualmente impediu uma segunda anexação do Mediterrâneo pelos espanhóis. A França, por sua vez, invadiu o País Basco enquanto holandeses e britânicos investiram contra as colônias espanholas no Novo Mundo, interferindo fortemente na remessa de metais preciosos e riquezas destas regiões para a Espanha. Em 1729, isolado no conflito e sem grande alternativas de alianças militares, Filipe V abandonou suas reivindicações territoriais. A Espanha, porém, ainda conseguiu reaver os ducados italianos de Parma e Placência e Toscana. thumb|left|230px|A Guerra da Orelha de Jenkins, travada entre 1739 e 1748, foi um embate direto entre os interesses coloniais de Espanha e Grã-Bretanha. Após as derrotas militares em 1729, a Espanha reduziu consideravelmente sua política expansionista e passou a buscar maior apoio de nações vizinhas como a França. Durante a Guerra da Sucessão Polaca, Filipe V buscou uma maior aliança com os membros franceses da Casa de Bourbon e garantiu a conquista dos reinos de Nápoles e Sicília para seu filho Carlos, Duque de Parma. A partir de 1733, o Pacto de Família (Pacte de Famille) firmado com seu primo Luís XV aproximou os dois ramos da Casa de Bourbon pela primeira vez após os conflitos da Quádrupla Aliança. A disputa de predomínio colonial com a Grã-Bretanha, acirrada ainda mais pela Guerra da Orelha de Jenkins (1739-1741), levou Filipe V a apoiar os franceses em seus conflitos europeus. No eclodir da Guerra de Sucessão Austríaca (1740-1748), a Espanha adentrou como uma frente secundária em apoio à França buscando paralelamente retomar seus territórios no norte da Itália. O sucesso de Filipe V nestes conflitos ao lado da França restaurou a Espanha como uma potência regional e territorial, culminando no acréscimo de territórios que não pertenciam anteriormente aos espanhóis.
Ministério Ensenada