miniaturadaimagem|Joana d'Arc no Cerco de Orléans (1886-1890), de Jules Eugène Lenepveu.
Cerco, assédio ou sítio é um método de estratégia militar onde unidades militares cercam o inimigo ou uma edificação, como as praças-fortes, onde se abriga o inimigo, com o intuito de não permitir a sua evasão ou o seu recebimento de provisões. Geralmente, nessa estratégia, é comum o uso de armas de assédio para a destruição de edificações. A técnica do cerco, tanto a de defesa como a do ataque, chama-se poliorcética. Exemplos históricos
Existem vários eventos históricos importantes em que houve o cerco de cidades, tais como: Cerco de Massada (73-74); Cerco de Paris (845); Cerco de Lisboa em 1147, que levou à conquista da cidade, em 20 de Outubro de 1147, pelas forças portuguesas e por cruzados sob o comando de D. Afonso Henriques; Batalha de Pequim, em 1214, nas campanhas do general mongol Gengis Khan contra a Dinastia Jin; Cerco de Barcelona (1713-1714); Grande Cerco de Gibraltar; Cerco a Leninegrado; Cerco de Homs (2011-2014). Táticas Ofensivas O primeiro ato de um atacante num cerco pode ser um ataque surpresa, com a finalidade de derrotar o inimigo antes que ele esteja preparado ou mesmo consciente da ameaça. Foi assim que William de Forz capturou o castelo de Fotheringhay em 1221.
A prática mais comum de cerco, no entanto, é cercar e esperar pela rendição do inimigo, ou pela traição de alguém dentro da cidade sitiada. Durante a Idade Média, frequentemente ocorriam negociações no período inicial do cerco. O atacante, consciente do grande custo do cerco em termos de tempo, dinheiro e vidas, podia oferecer compensações se o defensor rendesse-se rapidamente. Por exemplo, podia ser permitido que o defensor abandonasse a cidade ileso, porém desarmado. Se, no entanto, um chefe militar rapidamente se rendesse, ele poderia ser condenado por traição pelos seus pares.
Conforme o cerco prosseguia, o exército agressor poderia fazer escavações no terreno (linha de circunvalação) para cercar o alvo completamente, impedindo que água, comida e outros suprimentos chegassem à cidade. Se a população da cidade ficasse suficientemente desesperada, ela começaria a comer qualquer coisa: cavalos, animais de estimação, couro dos sapatos e até a si mesma.
Doença também é uma arma efetiva de sítio, embora os atacantes fiquem tão vulneráveis quanto os sitiados. Catapultas ou armas similares podem ser usadas para arremessar animais doentes sobre a cidade, numa forma primitiva de guerra biológica. O sitiante ainda pode exigir um pagamento e, em troca, deixar a cidade intacta.
Várias armas de cerco foram desenvolvidas ao longo da história. Escadas podem ser usadas para escalar as muralhas. Aríetes e ganchos de assédio podem forçar muralhas e portões, enquanto catapultas, balistas, trabucos, manganelas e onagros podem ser usados para lançar projéteis para destruir as fortificações da cidade e matar os seus habitantes. Uma torre de cerco, uma construção de altura igual ou maior que a muralha da cidade, possibilita que se lancem projéteis sobre os defensores e que se escale a muralha com menos perigo que com o uso de escadas.
Também era comum as bases das fortificações serem minadas, causando, assim, o seu colapso. Isso podia ser feito escavando-se um túnel sob os fundamentos da muralha e, então, colapsando o túnel ou o explodindo. Esse procedimento é conhecido como guerra de túnel. Os defensores poderiam construir contratúneis para invadir os túneis dos atacantes e colapsá-los prematuramente.
Frequentemente, fogo era usado no ataque a fortificações de madeira. O império Bizantino usava fogo grego, que continha aditivos que tornavam difícil extingui-lo. Combinado com um primitivo lança-chamas, ele provou ser uma eficiente arma de ataque e defesa. Defensivas O método universal para defender-se contra cercos é o uso de fortificações, principalmente muralhas e valas, para suplementar as defesas naturais. Um estoque suficiente de água e alimento também é importante para derrotar o método mais simples de cerco: a inanição. Eventualmente, a cidade sitiada pode expulsar alguns habitantes para reduzir a demanda por água e comida.
Durante o Período dos Estados Combatentes na China (481–221 a.C.), os cercos perderam a aura nobre que possuíam no Período das Primaveras e Outonos e passaram a ser mais pragmáticos. A invenção chinesa da besta durante esse período revolucionou a guerra, aumentando a importância da infantaria e da cavalaria e diminuindo a importância dos tradicionais carros de guerra.
Os moístas pacifistas seguidores de Mozi do século V a.C. buscavam ajudar os estados chineses menores contra os ataques dos estados maiores. Para tal, eles inventaram muitos dispositivos de cerco, como catapultas, balistas, uma rampa de assédio com rodas e ganchos chamada de "ponte de nuvem", além de carrinhos com ganchos e rodas para derrubar muralhas.
Quando inimigos tentavam escavar túneis para derrubar as muralhas ou invadir a cidade, os defensores chineses usavam grandes foles para jogar fumaça nos túneis e sufocar os invasores.
O desenvolvimento dos cercos na Antiguidade e na Idade Média levou ao desenvolvimento também de medidas defensivas. Em particular, as fortificações medievais tornaram-se, progressivamente, mais fortes — por exemplo, o advento do castelo concêntrico no período das cruzadas — e mais perigosos para os atacantes — com o uso de mata-cães, buraco assassino e substâncias quentes ou incendiárias. Seteiras, portas laterais e poços de água profundos também eram usados como mecanismos de defesa. Era dada particular atenção à defesa das entradas, com portões protegidos por ponte levadiça, rastrilho e barbacã. Fossos e outras defesas aquáticas, naturais ou aumentadas, também eram vitais para os defensores.
Na Idade Média europeia, virtualmente todas as grandes cidades tinham muralhas — Dubrovnik, na Dalmácia, é um exemplo bem-preservado —, e as mais importantes possuíam cidadelas, fortes e castelos. Era feito grande esforço para abastecer de água as cidades durante os cercos. Às vezes, eram construídos longos túneis para trazer água para a cidade. Complexos sistemas de túneis foram usados para armazenamento e comunicação em cidades medievais como Tábor, na Boémia, similares aos que seriam usados posteriormente na Guerra do Vietnã.
Até a invenção das armas baseadas na pólvora (e os consequentes projéteis de maior velocidade), o equilíbrio de poder e logística definitivamente favorecia os defensores. Com a invenção da pólvora, os métodos tradicionais de defesa contra cercos tornaram-se menos eficientes. Era da pólvora A introdução da pólvora e do canhão trouxe uma nova era para os cercos. Os canhões foram usados pela primeira vez na dinastia Sung, na China, no começo do século XIII, mas só se tornaram armas importantes aproximadamente 150 anos depois. Nas primeiras décadas, os canhões pouco podiam fazer contra castelos e fortalezas poderosos, não gerando mais do que fumaça e fogo. Por volta do século XVI, no entanto, eles já eram um elemento essencial e regular de qualquer exército em campanha, ou da defesa de um castelo.
A maior vantagem dos canhões sobre outras armas de cerco é a sua capacidade de disparar projéteis mais pesados, a maior velocidade e a maior distância do que as armas anteriores. Eles também podiam disparar projéteis em linha reta, destruindo as bases de altas muralhas. Então, as muralhas de velho estilo — isto é, altas e relativamente finas — tornaram-se ótimos alvos, facilmente demolíveis. Em 1453, as grandes muralhas de Constantinopla, a capital do império Bizantino, foram postas abaixo pelos 62 canhões do exército de Maomé II, o Conquistador, em apenas seis semanas.
Entretanto, novas fortificações desenhadas para resistir a ataques de armas com pólvora logo foram construídas por toda a Europa. Durante o Renascimento e a Idade Moderna, os cercos continuaram a dominar as guerras na Europa.
Com o desenvolvimento dos canhões de cerco, as técnicas de cerco tornaram-se padronizadas. Inicialmente, o exército atacante rodeava a cidade. Então, ele pedia que esta se rendesse. Se a resposta fosse negativa, o exército construía fortificações temporárias ao redor da cidade para impedir que o exército fosse atacado pelos habitantes da cidade, ou que chegassem reforços à cidade. Então, o exército atacante construiria uma linha de trincheiras paralela à muralha, porém fora do alcance da artilharia da cidade. Em seguida, o exército construiria uma trincheira em zigue-zague na direção da cidade, para evitar que ela ficasse em fila diante do fogo inimigo. Uma vez que estivesse ao alcance da artilharia inimiga, o exército construiria uma segunda linha de trincheiras paralela à muralha, guarnecendo-a com canhões.
Se necessário, o exército poderia repetir o processo até chegar próximo o bastante das muralhas para conseguir abrir uma brecha nela. Seriam, então, construídas novas trincheiras, tanto em zigue-zague na direção da cidade quanto paralelas à muralha, para apoiar os primeiros grupos invasores da cidade. Em cada etapa do processo, seria oferecida a rendição aos habitantes da cidade. Mas, se os primeiros grupos invasores conseguissem penetrar na cidade, não seria oferecida mais qualquer clemência aos habitantes. Teorias Se os castelos antes eram obstáculos formidáveis, com o advento dos canhões, passaram a ser facilmente invadidos. Por exemplo: na Espanha, o exército recém-equipado com canhões dos Reis Católicos pôde conquistar as fortalezas dos mouros em Granada em 1482–92 após estas terem resistido por séculos.
No início do século XV, o arquiteto italiano Leon Battista Alberti escreveu um tratado intitulado De Re aedificatoria, o qual teorizava sobre métodos de construção de fortificações capazes de resistir às novas armas. Alberti propôs que as muralhas fossem "construídas em linhas irregulares, como os dentes de uma serra". Ele também propôs fortalezas em formato de estrela, com muralhas baixas e grossas.
Poucos governantes, entretanto, deram valor às suas palavras. Somente no fim da década de 1480, umas poucas cidades na Itália começaram a construir no novo estilo. Todavia, foi apenas com a invasão francesa da península italiana em 1494–95 que as novas fortificações foram construídas em larga escala. Carlos VIII de França invadiu a Itália com um exército de 18 mil homens e uma arma de cerco puxada por cavalos. Como resultado, ele podia virtualmente derrotar qualquer cidade ou estado, não importa o quanto fosse bem defendido. Em pânico, a estratégia militar foi completamente repensada nos estados italianos de então, com uma forte ênfase em novas fortificações que pudessem resistir às novas estratégias de cerco. Novas fortalezas A maneira mais efetiva de proteger muralhas contra o fogo de canhões provou ser a grossura e o ângulo das muralhas (que fazia com que estas só pudessem ser atingidas em um ângulo oblíquo). Inicialmente, as muralhas foram abaixadas e reforçadas, por trás e pela frente, com terra. As torres foram transformadas em bastiões triangulares. Esse desenho evoluiu para a chamada fortificação abaluartada. Essas fortificações em formato de estrela envolvendo cidades provaram ser muito difíceis de ser invadidas, mesmo para exércitos bem equipados. Fortalezas construídas nesse estilo por todo o século XVI não se tornaram completamente obsoletas até o século XIX e ainda estavam em uso durante a Primeira Guerra Mundial (1914–1918) (embora estivessem adaptadas para a guerra no século XX). Durante a Segunda Guerra Mundial (1939–1945), as fortificações abaluartadas ainda ofereciam considerável resistência. Por exemplo: nos últimos dias da guerra, durante a batalha de Berlim, os soviéticos não tentaram atacar a cidadela de Spandau (construída entre 1559 e 1594), mas preferiam circundá-la e negociar a sua rendição.