miniaturadaimagem|230x230px|Lula utilizando um boné com a sigla CPX durante campanha eleitoral em comunidade do Rio de Janeiro (2022)CPX é uma abreviação da palavra Complexo, utilizada em referência a complexos de favelas do Rio de Janeiro. A sigla ganhou notoriedade nacional durante o segundo turno da eleição presidencial de 2022, após o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva utilizar um boné estampado com o termo, recebido do ativista Rene Silva durante ato de campanha no Complexo do Alemão.
Após a repercussão do episódio, aliados de Jair Bolsonaro passaram a difundir publicações que associavam a sigla ao crime organizado, interpretação contestada por agências de checagem e veículos de imprensa. Em outubro de 2022, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou a remoção de postagens que vinculavam Lula e moradores de comunidades ao significado distorcido do termo.
A controvérsia provocou aumento repentino na demanda pelos bonés, que passaram a ser utilizados por apoiadores de Lula ao longo da campanha e se consolidaram como símbolo político durante a posse do petista como 39º presidente do Brasil.
Origem e uso da sigla O uso de CPX como abreviação da palavra Complexo foi amplamente documentado em redes sociais, contexto em que era informalmente empregada para simplificar referências a conjuntos de favelas e comunidades urbanas do Rio de Janeiro. Assim a sigla tornou-se amplamente utilizada por moradores dessas localidades para se referir a complexos como o da Penha, o Lemos de Brito e o São Carlos.
Antes de 2022, a sigla já aparecia em publicações oficiais de órgãos públicos estaduais do Rio. Em postagem em 2017, o perfil da Polícia Militar do Rio de Janeiro no Twitter mencionou o “CPX da Penha” ao informar um curto-circuito em um alojamento da Unidade de Polícia Pacificadora da Vila Cruzeiro. Já no resumo da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2023 do Rio, o termo “CPX da Maré” foi usado como referência ao Complexo da Maré.
Segundo Rene Silva, fundador do jornal comunitário Voz das Comunidades, a sigla também se popularizou no contexto do movimento funk e dos bailes realizados em comunidades cariocas nas décadas de 1990 e 2000. O termo aparece em produções musicais do gênero, a exemplo das canções lançadas no projeto Poesia Acústica.
No episódio de 2022, aliados de Jair Bolsonaro vincularam CPX a um significado distorcido do termo "cupincha", por vezes escrito erradamente como "cupinxa", que significa "amigo" ou "camarada", conforme o dicionário Michaelis da Língua Portuguesa.
Desinformação eleitoral e repercussão pública upright=0.8|miniaturadaimagem|Publicações e declarações de Jair Bolsonaro sobre a sigla CPX foram alvo de decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante as eleições de 2022 O boné oferecido a Lula como lembrança da visita ao Complexo do Alemão tornou-se posteriormente o principal elemento da controvérsia envolvendo a sigla, após aliados de Jair Bolsonaro passarem a associá-la ao termo "cupincha", expressão enganosamente apresentada como referência a grupos criminosos e traficantes ligados ao crime organizado do Rio de Janeiro.
A associação foi posteriormente impulsionada por perfis do próprio Bolsonaro, bem como pelo então candidato a vice, Walter Braga Netto, e por parlamentares como Flávio Bolsonaro, Carla Zambelli e Nikolas Ferreira, entre outros. Agências de checagem e veículos de imprensa contestaram as alegações, apontando que CPX era uma abreviação já utilizada como referência a comunidades cariocas e aparecia em publicações de moradores e em perfis institucionais do Rio de Janeiro.
Posteriormente, em ato de campanha no Piauí, Jair Bolsonaro voltou a ironizar a visita do petista ao Complexo do Alemão. Em discurso, fez referência à controvérsia ao afirmar que Lula teria governado para "amigos, cupinxas e CPX", além de chamar o adversário de "mentiroso", "sem caráter" e "ladrão".
Durante debate promovido pela TV Globo no segundo turno das eleições, Bolsonaro retomou o episódio ao dizer que Lula teria ido se encontrar com “chefes do narcotráfico” e que no Complexo do Alemão "ninguém entra [...] sem a polícia". Em resposta, a frase "Favelado não é bandido" entrou nos assuntos mais comentados do Twitter, com publicações de Rene Silva ganhando destaque na mídia após o ativista classificar a postura do presidenciável como "criminosa". Para ele, que viveu no Alemão, as falas do ex-presidente reforçaram estigmas contra os moradores e ignoraram o caráter comunitário da visita de Lula, articulada por lideranças periféricas.
Decisões judiciais Em outubro de 2022, o ministro Paulo de Tarso Sanseverino, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou a remoção de publicações que associavam CPX a facções criminosas e ao tráfico de drogas, atendendo a pedido da campanha de Lula. No entendimento do magistrado, as postagens extrapolaram o debate político ao disseminarem desinformação capaz de afetar o processo eleitoral.
Ao justificar a decisão, Sanseverino afirmou que os conteúdos propagavam informações inverídicas e negativas que foram amplamente compartilhadas, produzindo, segundo ele, um "sensacionalismo" capaz de comprometer a lisura do processo eleitoral e ferir princípios constitucionais relacionados à cidadania e à liberdade do voto. Entre outros fundamentos, citou normativas voltadas à proteção da honra dos candidatos, ao combate à desinformação e à garantia da integridade do processo eleitoral.
Em fevereiro de 2025, a 6ª Vara Eleitoral de São Paulo aceitou denúncia do Ministério Público Eleitoral contra o deputado federal Mário Frias por disseminação de desinformação eleitoral durante a campanha presidencial de 2022. A ação teve como base publicação na qual Frias publicou foto de Lula utilizando o boné e associou CPX ao termo "cupinxa" e ao crime organizado. O conteúdo integrou a série de publicações impulsionadas por aliados de Jair Bolsonaro e posteriormente removidas por decisão do Tribunal Superior Eleitoral. Caso condenado, Mário Frias pode ficar inelegível e perder o mandato.miniaturadaimagem|William Bonner recebe de Rene Silva produtos estampados com CPX durante visita ao Complexo do Alemão (2023)
Símbolo político e demanda por bonés Após a repercussão política e as explicações sobre o verdadeiro significado de CPX, os responsáveis pela confecção do boné usado por Lula registraram um aumento repentino na demanda pelo produto. Segundo relatos, os pedidos passaram a chegar de diferentes regiões do Brasil, levando ao aumento no número de funcionários e à extensão da produção até a madrugada.
O acessório passou então a ser utilizado por apoiadores de Lula e consolidou-se como símbolo político, aparecendo em eventos públicos, na posse presidencial e em aparições de artistas e personalidades nacionais e internacionais. Diante da alta procura, Rene Silva organizou uma campanha de arrecadação de alimentos em troca dos bonés, iniciativa que resultou na doação de cestas básicas para famílias de comunidades cariocas.
Em novembro de 2022, durante cerimônia na Câmara dos Deputados em que recebeu o título de cidadão honorário brasileiro, o piloto britânico de Fórmula 1 Lewis Hamilton foi presenteado por Rene Silva com um boné CPX.
Em 2023, durante visita ao Complexo do Alemão, o jornalista William Bonner recebeu do ativista itens com a estampa CPX. Na ocasião, declarou ter se emocionado com o presente e ressaltou a importância simbólica e histórica da sigla no contexto político e midiático brasileiro.
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