Companhia Industrial Santa Matilde foi uma indústria mecânica brasileira. Fundada em 1926, como sucessora da Companhia Brasileira de Minas Santa Matilde (fundada em 1916), teve sede em Petrópolis e fábricas nas cidades de Três Rios e Conselheiro Lafaiete produzindo vagões, carros de passageiros e demais componentes ferroviários, tratores e automóveis (desde 1978), produto pelo qual ficou mais conhecida. A empresa tentou produzir carrocerias de ônibus em 1985–86, mas desistiu da ideia. A Santa Matilde foi fechada em 1988. Em 1997 existiu uma tentativa (frustrada) de se reativar sua produção de automóveis. Em outubro de 2005 a Justiça decretou a falência da empresa.
História thumb|right|250px|Instalações da Cia. Santa Matilde em Conselheiro Lafaiete, c.1925. Biblioteca Nacional do Brasil. Após ter fundado a Companhia Brasileira de Minas Santa Matilde em 14 de março de 1916 para explorar minas de manganês nos arredores de Conselheiro Lafaiete, Humberto Pimentel da Fonseca passou a investir em equipamentos ferroviários e em um ramal de 22 quilômetros para transportar o manganês até o quilômetro 462 da Linha do Centro da Estrada de Ferro Central do Brasil.Com o advento da Primeira Guerra Mundial, as peças de locomotivas e vagões que eram importadas passaram a rarear até desaparecerem do mercado. Assim, o governo federal incentivou (pela primeira vez) a fabricação de algumas peças e a montagem de vagões importados para evitar o colapso dos transportes ferroviários.
Em 1926, Fonseca fundou a Companhia Industrial Santa Matilde em Conselheiro Lafaiete e passou a se dedicar a produção de algumas peças e montagem de vagões importados. No ano seguinte, o governo de Minas Gerais promulga a Lei Estadual 993, autorizando o estado a adquirir o ramal da Santa Matilde, que possuía 22 quilômetros. A aquisição, porém só foi efetuada em 1930.
Com a venda do seu ramal para o estado, a empresa anunciou em 1928 que passaria a realizar serviços de reparação e fabricação de material rodante, construção de arados e equipamentos para usinas de cana.
A Segunda Guerra Mundial trouxe uma nova restrição para a importação de peças e equipamentos ferroviários. Com isso, a produção da indústria cresce e novas empresas são formadas como a Cobrasma e a FNV em 1943 e a Mafersa em 1944. Apesar de estar no mercado desde a década de 1920, a Santa Matilde é pouco favorecida pelo estado num primeiro momento (ao contrário das demais empresas). Apenas em 1959 o estado concedeu um terreno para a construção de uma nova fábrica em Três Rios, além de incentivar a produção de implementos agrícolas pela Santa Matilde.
Com a concordata da Mafersa em 1962, a Santa Matilde cresceu e passou a operar duas plantas industriais em Lafaiete e em Três Rios. Para conseguir atender a demanda do mercado ferroviário, a empresa buscou financiamento de 2 milhões de dólares do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais para implantar uma forjaria em Lafaiete, com capacidade inicial de produção de 1200 toneladas de peças forjadas por ano e início das operações previsto para 1966. thumb|thumb|right|250px|Na década de 1970 a Santa Matilde fabricou tubos de aço para adutoras de água. Acima tubos da Santa Matilde na adutora Mirante-Mooca da Sabesp, 1976. Como forma de diversificar sua produção, a Santa Matilde passou a produzir equipamentos para a indústria do petróleo e torres metálicas galvanizadas, embora o custo do aço no Brasil na década de 1960 fizesse com que os preços dos produtos nacionais custassem até 50% mais que os importados.
Mesmo assim, a situação da empresa era precária. Em 1967, a Santa Matilde ameaçou fechar as portas por conta de uma dívida de 800 mil cruzeiros novos da Rede Ferroviária Federal (RFFSA) com a empresa. Essa seria a primeira de muitas ameaças de fechamento da empresa em busca de apoio governamental para conseguir capital de giro. No ano seguinte, foi iniciada a produção de colheitadeiras. A empresa obteve recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) para nacionalizar esses equipamentos, com licença da J.I Case.
O BNDE também direcionou para a Santa Matilde a produção de equipamentos para as Centrais Elétricas de Goiás S.A. (Celg). Com isso, a Santa Matilde chegou ao final da década de 1960 com capital de giro suficiente para ampliar suas operações, além de incentivos fiscais para ampliar o quadro de funcionários (de 600 pessoas em 1967 para 1600 em 1972).
Após receber vários aportes do BNDE para gerar capital de giro diante da ociosidade da fábrica, o controle acionário da empresa foi brevemente assumido pelo banco em 1970. Uma das medidas para ampliar o capital foi a entrada no mercado de capitais, por meio da compra e venda de ações da empresa na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, a Santa Matilde ameaçou desativar a unidade de Lafaiete para se concentrar na de Três Rios, causando protestos da comunidade mineira.
Com a promessa de investimentos nos trens de carga (através do Plano Nacional de Logística e Transportes) e de subúrbios da RFFSA no Rio de Janeiro e em São Paulo, a Santa Matilde celebrou acordos tecnológicos com a empresa alemã MAN AG em 1975. A concorrência para a aquisição de 120 novos trens-unidade para a RFFSA ocorreu apenas no final de 1977. Nela, a Santa Matilde foi contemplada com o dobro de encomendas (60 trens) que as outras duas empresas nacionais concorrentes (Cobrasma e Mafersa, com 30 trens cada). Para atender a essa encomenda, a empresa investiu na modernização de suas instalações. Ao mesmo tempo ingressou na indústria automobilística, o que se revelaria um erro anos mais tarde. Outra medida visando ampliar sua arrecadação foi a entrada na indústria naval (1977), fornecendo peças para navios construídos pelos diversos estaleiros nacionais, a maioria localizada no Rio de Janeiro.
A década de 1980 foi iniciada com a empresa trabalhando em diversos projetos e com baixa ociosidade. Isso não impediu atrasos em salários e problemas de qualidade nos trens-unidade fornecidos para a RFFSA (os 19 primeiros entregues foram devolvidos para a fábrica para reparos severos). Apesar dos esforços dos sindicatos em negociar, a empresa se recusou ao diálogo e ocorreram várias greves. A resposta da empresa foi a realização de centenas de demissões em massa em 1982 e a priorização de investimentos na produção de automóveis. A unidade de Conselheiro Lafaiete operou de forma irregular até 1984 quando se encontrava sem encomendas e praticamente fechada.
O contrato para a construção de 100 carros para o metrô do Recife e projetos de fabricação de ônibus trouxeram um novo fôlego para a empresa, que os direcionou para a unidade de Três Rios. Mas a situação de crise econômica e má administração voltou a trazer problemas e em 1987 estourou a maior greve da empresa, quando mais de 3 mil operários de Três Rios cruzaram os braços por falta de pagamentos. O governo federal, por sua vez, não realizou pagamentos de dívidas referentes à encomendas feitas pela RFFSA e pela EBTU (incluindo a problemática Série 800). Isso agravou a crise financeira da fábrica.
Apesar da intervenção de políticos e sindicalistas e da oferta de empresas alemãs, japonesas e brasileiras (o dono da empresa Humberto Pimentel afirmou à imprensa que "não venderia, alugaria ou arrendaria a empresa") a má administração e problemas econômicos advindos desta fizeram a empresa encerrar sua produção de equipamentos ferroviários em 1988, deixando de operar de “facto”.
Durante a década de 1990 ocorreram tentativas de se reativar a produção. Por conta de dívidas trabalhistas, a Justiça entregou o controle da planta de Três Rios ao Sindicato dos Metalúrgicos local. Em 1998 a planta de Três Rios foi arrendada para a empresa T'Trans, que a utiliza desde então, embora com uma operação menor. A planta de Conselheiro Lafaiete, fechada desde 1984 foi brevemente reativada entre 2001 e 2009 (vide seção Cooperativa industrial). Em outubro de 2005, após 79 anos de fundação, a justiça decretou a falência da Companhia Industrial Santa Matilde. A crise e o subsequente fechamento da empresa impactaram fortemente a economia de Três Rios. Após leilão judicial, parte das instalações da Santa Matilde em Três Rios foram adquiridas pela empresa Açotel.
Cooperativa industrial
Em 2001, 680 ex-funcionários da unidade de Conselheiro Lafaiete fundaram a Cooperativa Mineira de Equipamentos Ferroviários (Coomefer) e arrendaram a antiga fábrica da Santa Matilde na cidade com o intuito de reformar e produzir vagões. A operação durou até 2006 quando, após a falência da Santa Matilde, a Justiça do Trabalho determinou que a Coomefer era herdeira do passivo trabalhista da Santa Matilde. Após uma batalha judicial, a cooperativa encerrou suas atividades em 2009.
Produtos Ferroviários O primeiro grande serviço de reparação foi contratado em junho de 1929, quando 50 vagões da Estrada de Ferro Central do Brasil passaram por este serviço a um preço de 450:00$000. Em 1934 participou de um consórcio para reparação de 56 carros de passageiro e 85 vagões de carga, ao lado da filial brasileira da Pullman Car, Companhia Sorocabana de Material Ferroviário (Soma) e da Companhia Geral de Material Rodante (antiga Trajano de Medeiros).
Os primeiros vagões construídos pela Santa Matilde (empregando peças de vagões acidentados em sua maior parte) foram entregues à Central em dezembro de 1942. Nas décadas seguintes a empresa produziu milhares de vagões de diversos tipos (passageiros, cargas, manutenção, etc) para o mercado nacional e para exportação. Os últimos vagões construídos pela fábrica foram entregues ao metrô de Recife em 1987.
Equipamentos agrícolas Em 1959 o governo federal incentivou a nacionalização de equipamentos agrícolas, tendo concedido uma área em Três Rios para a Santa Matilde fabricar equipamentos. Naquele ano a empresa lançou grades rebocadas para tratores sob licença da empresa Rome Plow Company. Após um acordo com a empresa estadunidense J.I.Case em 1968, a Santa Matilde passou a fabricar colheitadeiras de médio/grande porte. Em 1980 a produção de colheitadeiras alcançou o auge e atingiu 700 veículos produzidos. Na década de 1980 a empresa passou a investir na fabricação de tratores e na modernização das colheitadeiras (contratando o Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia para desenvolver novos produtos), esperando um crescimento de 54% no mercado em 1984. Até então, a Santa Matilde representava menos de 1% do mercado nacional de tratores de rodas em 1982.
Problemas econômicos, erros de gestão (como o de investir na produção de automóveis) e má gestão fizeram com que a produção de equipamentos agrícolas fosse extremamente baixa até o fechamento da fábrica em 1988.
Automóveis
Entre 1978 e 1997 a Santa Matilde produziu mais de 900 automóveis esportivos baseados em motores Chevrolet. A produção de automóveis obrigou a empresa a investir em mão-de-obra e equipamentos especializados. Apesar dos investimentos, o automóvel Santa Matilde vendeu poucas unidades, por conta do seu alto custo (sendo o automóvel mais caro do Brasil, custando o equivalente a dois Chevrolet Opala) e fez com que a empresa deixasse de lado seu principal produto (equipamento ferroviário). Com isso, a situação financeira da empresa se agravou, contribuindo para sua falência.
Ônibus thumb|right|250px|Propaganda da prefeitura de Natal sobre o programa de ônibus bicombustível. Foram utilizados dois veículos construídos pela Santa Matilde com mecânica e chassi Chevrolet.