Maysa Figueira Monjardim (Rio de Janeiro, 6 de junho de 1936 – Niterói, 22 de janeiro de 1977), mais conhecida como Maysa Matarazzo ou simplesmente Maysa, foi uma cantora, intérprete, compositora, instrumentista e atriz brasileira. Fez grande sucesso nas décadas de 1950 e 1960 sendo uma das precursoras do samba-canção, passando a ser uma grande expoente deste gênero e a representar uma nova estética musical como cantora, filtrando a dramaticidade exagerada do samba-canção em letras obviamente românticas; tornou-se também uma figura importante na cultura popular brasileira.
A carreira musical de Maysa começou de forma banal quando o produtor Roberto Corte-Real a convidou para gravar um disco durante uma reunião familiar, em 1956. Ela então gravou um disco em caráter beneficente com renda revertida para a campanha contra o câncer, o que vetava qualquer possibilidade de carreira profissional, quando o disco começou a fazer sucesso no eixo Rio-São Paulo.
Biografia
Maysa nasceu numa família tradicional do Espírito Santo. Era filha de Alcebíades Guaraná Monjardim e Inah Figueira Monjardim. Ela tinha apenas um irmão. A cantora era neta do barão de Monjardim, que foi presidente da província do Espírito Santo por cinco vezes, e bisneta do comendador José Francisco de Andrade e Almeida Monjardim, que presidiu a província do Espírito Santo por treze vezes e foi membro da junta governativa capixaba de 1822-1824."A sensível e visceral, Maysa", no site DM Sua família, os Monjardim (de origem genovesa), eram donos da histórica Fazenda Jucutuquara, em Vitória, no Espírito Santo, cuja sede hoje é o Museu Solar Monjardim, no bairro Jucutuquara. Seu proprietário era o capitão-mor Francisco Pinto Homem de Azevedo, trisavô de Maysa. A filha e herdeira do capitão-mor, Ana Francisca Maria da Penha Benedito Homem de Azevedo, casou-se com o comendador José Francisco de Andrade e Almeida Monjardim, passando a fazenda a ser propriedade da família Monjardim. Ela também era prima do dublador Mário Monjardim.
Maysa nasceu e foi criada em uma mansão no tradicional bairro carioca de Botafogo. Em 1947, a família mudou-se para Bauru, no interior paulista, devido à transferência de posto de trabalho de seu pai. Posteriormente, em 1950, mudaram-se para a cidade de São Paulo, onde Maysa estudou, na adolescência, no Ginásio Ofélia Fonseca. Anteriormente, desde os sete anos foi matriculada no Colégio Assunção e, em seguida no internato do tradicional colégio de freiras Sacré-Coeur de Marie.
Desde criança sonhava em ser cantora. Se apresentava cantando e tocando violão apenas para os familiares. Com aptidão natural para a música, só estudou canto para se aperfeiçoar. Era uma jovem à frente de seu tempo. Gostava de beber e fumar em público, além de usar cabelos curtos e calças, hábitos considerados masculinos na época, o que causava atritos familiares. Apesar disto, era extremamente vaidosa e romântica, gostando de escrever músicas, poemas e cartas de amor. Aos dezoito anos casou-se com empresário André Matarazzo, antigo amigo de sua família e dezessete anos mais velho que a cantora, por quem ela era secretamente apaixonada desde a adolescência. A cerimônia ocorreu na Igreja da Sé. Após o matrimônio, passou a assinar Maysa Monjardim Matarazzo. Seu marido era membro do importante ramo ítalo-brasileiro da família Matarazzo, donos de uma fortuna bilionária e das Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo, que foi, durante décadas o maior complexo industrial da América Latina."O maior do Brasil, um dos maiores do mundo", no site da Revista Exame Com pouco tempo de casados, nasceu Jayme Monjardim Matarazzo, hoje diretor de cinema e de telenovelas.
Separou-se do marido em 1957: Ele não aceitava a vocação de cantora da esposa, não apoiando seu sonho, dizendo que uma Matarazzo deveria ser dona de casa e não trabalhar fora, muito menos cantando na noite. Não suportando as humilhações do marido, e por não se dar bem com sua sogra, optou por sair de casa. Havia muito preconceito com atrizes e cantoras na época, sendo julgadas como mulheres vulgares e que não eram "de família". Mesmo sofrendo por amar o marido, não teve medo de correr riscos e enfrentar preconceitos, e decidiu seguir sua vontade e saiu de casa com o filho, indo morar novamente com seus pais, um grande escândalo para aquela época conservadora. Após o desquite, voltou a usar seu sobrenome de solteira, Figueira Monjardim, ficando furiosa quando havia alguma matéria jornalística que ligasse seu nome ao sobrenome Matarazzo, de quem nunca quis nada, nem pensão para se manter.
Com apenas um disco gravado, seu repertório foi um sucesso, recebendo convites para shows em todo o mundo. Seu disco vendeu milhares de cópias e o sucesso bateu a sua porta, porém, isto pesou na criação de Jayme, seu filho. Maysa teve que escolher entre o filho e a carreira. Para lhe dar um futuro melhor, optou pela carreira, e seu filho passou parte de sua infância sendo criado pelo pai e por sua nova esposa.
Em sua agitada vida de cantora, marcada por muitas viagens e também por muitos amores, Maysa teve vários relacionamentos, entre eles, com o compositor Ronaldo Bôscoli, e com o empresário espanhol Miguel Azanza, com quem casou, depois manteve um caso com o maestro Julio Medaglia, quando viajou para Buenos Aires, depois namorou o ator Carlos Alberto, de quem depois foi esposa, entre vários outros. Ficou também conhecida por suas explosões temperamentais, suas crises depressivas e constantes queixas anotadas em seu diário sobre a solidão que sentia, que se expressavam claramente nas letras que escrevia. Possuía vício em álcool, cigarros, calmantes, pois tinha insônia, e anfetaminas, pois era muito vaidosa e obcecada com sua imagem, sempre insatisfeita com seu peso. Ficou conhecida por grandes brigas e confusões que se envolvia, sendo capa de jornais não só por seu talento, mas por escândalos envolvendo brigas violentas com seus namorados, traições, nudez explícita, e suas diversas tentativas de suicídio. Em suas anotações, considerava-se intensa demais para pessoas que dizia serem superficiais demais, e por isso nunca entenderiam seus sonhos e sentimentos. Quando seu ex-marido faleceu, sofreu muito, tanto que, mesmo desquitada dele, passou a se considerar a sua viúva. Nesta época, estava casada com Miguel e vivia em Madrid, na Espanha. Levou o filho para lá, que ficou morando com a mãe e o padrasto por alguns meses, mas como Maysa e Miguel sempre tinham que viajar a trabalho, não tinham tempo de ficar com o menino. A cantora não queria que o filho morasse com os avós e tivesse uma educação simples no Brasil, e então, pensando num futuro melhor para a criança, optou por deixá-lo num colégio interno em Madrid, onde raramente visitava o menino. Isto foi motivo de muitas brigas entre ela e seus pais, que queriam ter ficado com o neto, o que futuramente foi motivo de muitas brigas entre ela e o próprio filho. Após terminar o casamento com Miguel, uma união cheia de altos e baixos, envolvendo agressões, humilhações, traições e escândalos de ambas as partes, Maysa voltou sozinha para o Brasil, e comprou um apartamento em Copacabana, onde passou a morar. Com uma vida pessoal conturbada, Maysa não voltou mais para a Espanha para visitar o filho, e ligava para o colégio interno uma vez por ano para saber sobre ele.
Na década de 70, Maysa se aventurou pelo mundo das telenovelas e do teatro participando de produções como O Cafona, Bel-Ami e o espetáculo Woyzeck de Georg Büchner.
Últimos momentos
A cantora vivia isolada em sua casa de praia em Maricá, desde 1972, em depressão, doença contra a qual lutava havia muitos anos e que piorou muito e levou-a ao isolamento social quando terminou seu casamento com Carlos Alberto, naquele mesmo ano, com quem vivia. Suas crises de ciúme e agressividade, e o fato de inventar uma gestação para ele continuar ao seu lado foram decisivas para o término. Em 1974 sua depressão agravou-se, pois seu filho havia acabado de voltar da Espanha e não queria mais vê-la nem falar com ela. Acusava-a de tê-lo abandonado no colégio interno quando tinha apenas oito anos de idade, que nunca quis saber dele, e que nem foi buscá-lo no aeroporto ao chegar ao Rio, e por raiva, o jovem evitava ver e falar com a mãe. Isto fez Maysa lutar contra sua depressão, e criar forças para procurar o filho no Rio, na casa de seus pais, avós do rapaz, mesmo ele se recusando a recebê-la. Após três anos sofrendo para se reaproximar do filho, pedindo perdão pelo que fez com ele, e por estar arrependida de tudo, eles, enfim, se reconciliaram: por intermédio dos avós e da noiva, Jayme conseguiu perdoar o abandono materno e entender os motivos de sua mãe. Mesmo após estarem de bem, eles ainda chegaram a brigar outras vezes, principalmente por Maysa ser contra o casamento do filho, considerando-o jovem demais, mas enfim acabou aceitando.
Morte
No fim da tarde do dia de casamento do seu filho, em 1977, Maysa pegou seu carro e na volta para Maricá, onde morava havia alguns anos, sofreu um acidente automobilístico na Ponte Rio-Niterói que deu fim à sua vida. Em exames necroscópicos foi constatado que a cantora estava sóbria no momento do acidente. Em uma de suas últimas anotações no diário que ela mantinha desde a adolescência, registrou:
Do carro de Maysa, sumiu uma quantia equivalente a R$ 2-3 mil (em valores corrigidos para 2017), que lhe havia sido confiada pelo amigo e futuro vizinho Ricardo Cravo Albin para que fosse entregue aos pedreiros que finalizavam a construção de sua casa.
Carreira Anos 50 e o início da carreira esquerda|miniaturadaimagem|Maysa, 1956. Arquivo Nacional.|272x272px Em 1956, Maysa foi convidada pelo produtor Roberto Côrte-Real para gravar um disco, durante uma reunião familiar. O álbum Convite para ouvir Maysa (todo preenchido com composições próprias) foi gravado logo após o nascimento de seu único filho, Jayme Monjardim. O disco gravado apenas em caráter beneficente (toda sua renda fora destinada ao Hospital do Câncer de Dona Carmen Annes Dias Prudente) logo começou a fazer sucesso, tocando nas rádios paulistas e cariocas. Pouco a pouco, a carreira de Maysa foi adquirindo um caráter profissional, o que descontentou seu marido André Matarazzo e logo levou seu casamento à ruína. Já em 1957 (ainda não desquitada), Maysa era contratada da TV Record paulista, com um programa só seu, patrocinado pela Abrasivos Bombril, tendo acabado de gravar seu segundo disco, de 10 polegadas, intitulado Maysa.
Em 1957, com menos de um ano de carreira, no julgamento anual dos cronistas de Rádio de São Paulo, para a escolha de Os Melhores do Ano de 1956, Maysa foi apontada como A maior revelação feminina, O melhor compositor e O melhor letrista. O Clube dos Cronistas de Discos concedeu-lhe o título de A maior cantora do ano. No ano seguinte, foi premiada com o disputado Troféu Roquette Pinto de A melhor cantora de 1958. No ano anterior, ela já havia recebido o mesmo prêmio como cantora revelação de 1957. O jornal O Globo, que em 1957 havia conferido a ela o Disco de Ouro de cantora revelação, agora também a premiava como a principal voz feminina do país. Também seria de Maysa naquele ano o Troféu Chico Viola, para o melhor disco de 1958. miniaturadaimagem|316x316px|Maysa, 1958. Arquivo Nacional.