Vampirismo na Literatura Alemã
Século XVIII A literatura alemã desempenhou um papel importante na transformação do vampiro folclórico em figura literária. Durante o século XVIII, relatos sobre o vampirismo no Leste e Sudeste Europeu despertaram grande interesse nos territórios de língua alemã, onde o tema passou a ser discutido em textos científicos, religiosos e literários. Poetas como Heinrich August Ossenfelder, Gottfried August Bürger e Johann Wolfgang von Goethe incorporaram elementos dessas tradições à poesia alemã, contribuindo para a formação de características que posteriormente seriam associadas ao vampiro literário.
O Vampiro, de Ossenfelder A introdução do vampiro na literatura criativa é frequentemente atribuída ao escritor, advogado e poeta alemão Heinrich August Ossenfelder (Dresden, 28 de agosto de 1725 – Frankfurt am Main, 6 de maio de 1801), autor do poema curto Der Vampir (O Vampiro), publicado em 1748.
O poema foi escrito por encomenda para a revista científica Der Naturforscher (O Naturalista), na edição n.º 48, de 25 de maio de 1748, para acompanhar uma matéria sobre relatos de vampiros.miniaturadaimagem|250x250px|Der Naturforscher (O Naturalista), na edição n.º 48, de 25 de maio de 1748, Página inicial.
Neste curto poema considerado hoje o primeiro exemplar do gênero, o eu lírico propõe um brinde de vinho aos vampiros e promete vingar-se sugando o sangue da jovem que o rejeitara por imposição de sua mãe, que temia o ataque do desmortos.miniaturadaimagem|Poema original publicado em 1748.Der Vampir
Mein liebes Mägdchen glaubet
Beständig steif und feste,
An die gegebnen Lehren
Der immer frommen Mutter;
Als Völker an der Theyse
An tödtliche Vampiere
Heyduckisch feste glauben.
Nun warte nur Christianchen,
Du willst mich gar nicht lieben;
Ich will mich an dir rächen,
Und heute in Tockayer
Zu einem Vampir trinken.
Und wenn du sanfte schlummerst,
Von deinen schönen Wangen
Den frischen Purpur saugen. O Vampiro
Minha querida donzela, acredita
Sempre com firmeza e convicção,
Nos ensinamentos transmitidos
Pela mãe sempre piedosa;
Assim como os povos às margens do Tejo
Acreditam firmemente, à maneira dos húngaros,
Nos vampiros mortais.
Agora, espere só, Christianchen,
Você nem quer me amar;
Vou me vingar de você,
E hoje, em Tockayer,
Vou me transformar em vampiro.
E quando você estiver dormindo tranquilamente,
Das suas belas bochechas
Vou sugar o rubro fresco.
Lenore, de Bürger esquerda|miniaturadaimagem|Lenore e Wilhelm, por volta de 1800. Do pintor e desenhista alemão Johann David Schubert.
Outro exemplo é o poema narrativo Lenore, escrito em 1773 e publicado em 1774 pelo poeta alemão Gottfried August Bürger (Molmerswende, 31 de dezembro de 1747 – Göttingen, 8 de junho de 1794). Lenore
„Ach! wolltest hundert Meilen noch
Mich heut ins Brautbett tragen?
Und horch! es brummt die Glocke noch,
Die elf schon angeschlagen.“ –
„Sieh hin, sieh her! der Mond scheint hell.
Wir und die Toten reiten schnell.
Ich bringe dich, zur Wette,
Noch heut ins Hochzeitbette.“
A balada narra a história de Lenore, cujo noivo, Wilhelm, não retorna da guerra. Desesperada e convencida de que ele morreu, ela entra em conflito com a mãe e questiona a misericórdia de Deus. Mais tarde, durante a noite, Wilhelm aparece diante de sua porta e a convence a acompanhá-lo em uma cavalgada para o que descreve como seu leito nupcial. Durante a viagem, Lenore é progressivamente confrontada com imagens associadas à morte e ao sobrenatural, enquanto Wilhelm revela sua natureza como um morto retornado. A cavalgada termina em um cemitério, onde o suposto leito nupcial revela-se um túmulo.miniaturadaimagem|Les Morts vont vite (A Balada de Lenore), 1839. Do pintor francês Horace Vernet."Ah! Ainda queres percorrer cem milhas
Para levar-me hoje ao leito nupcial?
E escuta! O sino ainda ressoa,
Pois já bateu onze horas. " –
"Olha aqui, olha ali! A lua brilha intensamente.
Nós e os mortos cavalgamos depressa.
Aposto que ainda hoje,
Eu te levarei ao leito de núpcias."
Embora Lenore não apresente características propriamente vampíricas, sua importância para a literatura vampírica está no motivo do morto que retorna ao mundo dos vivos. Wilhelm, morto durante a guerra, retorna para buscar Lenore e conduzi-la consigo para a morte.
Esse motivo, associado às tradições europeias sobre mortos retornados ou revenants, antecede e se relaciona com a representação posterior dos vampiros na literatura. A popularidade de Lenore também contribuiu para a difusão desse imaginário sobrenatural na literatura europeia do final do século XVIII e início do século XIX.
A popularidade de Lenore também se refletiu em adaptações musicais e novas edições. Uma edição de 1782, publicada em Berlim, apresenta o poema de Bürger em uma versão musicada por Johann André e é identificada como uma “segunda edição, melhorada”. miniaturadaimagem|Lenore, de Gottfried August Bürger. Posta em música por Johann André. Segunda edição, corrigida/melhorada. Impresso por Friedrich Maurer, em Berlim em 1782.|centro
A Noiva de Corinto, de Goethe
Mais um poema alemão posterior que explorava o mesmo tema, agora com um elemento vampírico mais proeminente, foi Die Braut von Korinth (A Noiva de Corinto), publicado em 1797.
Escrito por Johann Wolfgang von Goethe (Cidade Livre de Frankfurt, 28 de agosto de 1749 – Weimar, 22 de março de 1832), a obra é considerada um de seus poemas mais importantes e foi posteriormente descrita como uma Vampyrballade (Balada Vampírica).
O poema narra a história de uma jovem que, após morrer antes de se casar com seu noivo, retorna do túmulo para beber seu sangue e consumar os desejos amorosos que haviam sido interrompidos por sua morte: Die Braut von Korinth
Aus dem Grabe werd’ ich ausgetrieben, Noch zu suchen das vermißte Gut,
Noch den schon verlornen Mann zu lieben
Und zu saugen seines Herzens Blut.
Ist’s um den gescheh’n,
Muß nach andern geh’n,
Und das junge Volk erliegt der Wut. —A Noiva de Corinto
Da sepultura serei expulsa, Para ainda buscar o bem perdido,
Para ainda amar o homem já perdido
E sugar o sangue de seu coração.
Se já é tarde demais para ele,
É preciso partir em busca de outros,
E a juventude sucumbe à fúria. —
Embora a palavra Vampir não apareça no poema, posteriormente Goethe em um de seus diários descreveu a balada como um Vampyrisches Gedicht (Poema Vampírico).
O Vampiro, de Ignaz No início do século XIX, o vampirismo passou a aparecer com maior frequência na literatura em prosa.
Em 1801, Ignaz Ferdinand Arnold (Erfurt, 4 de abril de 1774 - Erfurt, 13 de outubro de 1812) publicou o romance Der Vampyr (O Vampiro) em três volumes. O romance é considerado por alguns estudiosos como a primeira narrativa longa em prosa dedicada ao vampirismo embora a obra seja atualmente considerada perdida, não sendo conhecido nenhum exemplar de seu texto, conforme um estudo de Clemens Ruthner. “Der viel früher entstandene deutsche Roman Der Vampyr (3 Bde., Schneeberg 1801) von Ignaz Ferdinand Arnold (1774-1812) ist uns indes leider nicht erhalten geblieben, so daß wir über seinen Inhalt nur Mutmaßungen anstellen können.”“O romance alemão Der Vampyr (3 volumes, Schneeberg, 1801), de Ignaz Ferdinand Arnold (1774-1812), escrito muito antes, infelizmente não chegou até nós, de modo que só podemos fazer suposições sobre seu conteúdo.”
O Vampiro, ou: O Casamento Sangrento com a Bela Croata Em 1812, foi publicado em Erfurt o romance anônimo Der Vampyr oder die blutige Hochzeit mit der schönen Kroatin (O Vampiro ou o Casamento Sangrento com a Bela Croata), cujo texto não parece ter sobrevivido ou não se encontra atualmente disponível. A obra é conhecida principalmente por registros bibliográficos e referências posteriores.
O Vampiro, ou: A Noiva Morta, de Hildebrand Em 1828, o escritor alemão Theodor Hildebrand (Erlangen, 21 de janeiro de 1794 - Munique, 6 de janeiro de 1859), publicou o romance Der Vampyr, oder: Die Todtenbraut (O Vampiro, ou: A Noiva Morta), ambientado na Boêmia. A narrativa acompanha o coronel Alfred Lobenthal e sua esposa Helene, que deixam Berlim após dificuldades financeiras e passam a viver em uma região rural próxima a Praga. A tranquilidade da família é perturbada pelo reaparecimento de Lodoiska, uma jovem da Valáquia ligada ao passado de Alfred. alt=Escrito por Theodor Hildebrand, publicado em 1828.|miniaturadaimagem| Der Vampyr, oder: Die Todtenbraut (O Vampiro, ou: A Noiva Morta)|centro Anos antes, Alfred havia conhecido Lodoiska durante uma campanha militar e se apaixonado por ela, chegando a prometer-lhe casamento. Após abandonar a jovem e retornar à Alemanha, porém, Alfred constituiu uma nova família. Lodoiska posteriormente reaparece, e o romance gradualmente revela sua natureza sobrenatural e sua relação com os acontecimentos que passam a ameaçar a família Lobenthal. Ela é apresentada como uma figura vampírica associada à morte, à vingança e ao desejo, tornando-se a principal manifestação do vampirismo na narrativa.
O vampirismo é introduzido inicialmente como uma crença popular. Os habitantes da região passam a temer que existam vampiros na paróquia, enquanto outros personagens procuram explicar essas histórias como superstição. O coronel Lobenthal chega a questionar como os relatos sobre os vampiros, associados às histórias da Hungria e da Grécia, teriam chegado à região. Em outro momento, o vampiro é descrito como um ser que anseia pelo sangue humano e ao qual são atribuídas mortes misteriosas.
A narrativa também apresenta descrições explícitas de ataques vampíricos. Uma personagem relata ser perseguida durante o sono por um monstro que se deita sobre ela, toca sua boca e lhe suga o sangue das veias, identificando-o como um vampiro. Esses relatos fazem com que a crença no vampirismo deixe de ser apenas uma superstição mencionada pelos personagens e passe a constituir uma ameaça concreta dentro da narrativa.
O romance apresenta diferentes discussões sobre a existência dos vampiros. Em determinado momento, o coronel Lobenthal reage à notícia de que a população local acredita na presença de vampiros:„— Vampyre! Hier sollen Vampyre sein? rief der Oberst. Wer kann die scheußlichen Mährchen Ungarns und Griechenlands hierher verbreitet haben?““— Vampiros! Aqui haveria vampiros? — exclamou o coronel. — Quem poderia ter espalhado até aqui as horríveis histórias da Hungria e da Grécia?”„Einem Unglücklichen, der nicht mehr am Leben ist, verdanken wir den in dieser Gegend verbreiteten Schrecken. Ihr Bedienter Werner erzählte seinen Freunden die Geschichte von diesen Unholden, welche nach dem menschlichen Blute dürsten...““Pois bem! Seja fraqueza, superstição ou qualquer outra causa, basta dizer que me parece que todas as noites sou perseguida por um terrível monstro que se deita sobre mim, toca minha boca com sua boca horrível e fétida e assim suga o sangue de minhas veias. Em suma, sou atormentada por um vampiro.”„Nun wohlan! Sei es nun Schwäche, oder Aberglauben, oder irgend eine andere Ursache, genug, es scheint mir, als wenn ich alle Nächte von einem schrecklichen Ungeheuer verfolgt werde, das sich über mich hinlegt, mit seinem häßlichen stinkenden Munde den meinigen berührt, und mir so das Blut aus den Adern saugt. Kurz, ich werde von einem Vampyre gequält.““É a um infeliz, que já não está mais entre os vivos, que devemos o terror que se espalhou por esta região. Seu servo Werner contou aos amigos a história desses demônios, que têm sede de sangue humano...”
A personagem Lodoiska ocupa, portanto, uma posição central na construção do vampiro de Hildebrand: uma mulher ligada ao protagonista por um amor interrompido, que retorna associada à morte e à vingança. O título alternativo Die Todtenbraut (A Noiva Morta) reforça essa associação entre a figura feminina, a morte e o vampirismo.
Die Todtenbraut, de Laun