Raul Astolfo Marques, mais conhecido como Astolfo Marques (São Luís, 11 de abril de 1876 - São Luís, 20 de maio de 1918) foi um jornalista, cronista, ficcionista, ensaísta e tradutor brasileiro.

Origens e Primeiros Anos Nascido em São Luís, Maranhão, Astolfo Marques veio de uma família negra livre, porém de poucos recursos. Sua mãe, Delfina Maria da Conceição Marques, descendente de africanos, sustentava a casa como lavadeira e passadeira. Ela criou Astolfo e seus irmãos praticamente sozinha, em um ambiente matriarcal típico das famílias afro-maranhenses livres do fim do século XIX. Astolfo Marques era o caçula de seis irmãos conhecidos, crescendo em meio à união familiar e ao esforço para superar a pobreza.GATO, Matheus. “Ninguém quer ser um treze de maio”: Abolition, Race and National Identity in the Tales of Astolfo Marques (1903-1907). Novos Estudos CEBRAP, v. 37, n. 1, p. 117-140, 2018.

Durante sua infância, na década de 1880, São Luís enfrentava dificuldades econômicas com o declínio da exportação de algodão, além de conviver com tensões ligadas à escravidão e ao movimento abolicionista. Em 1885, com nove anos, Astolfo Marques ingressou na escola municipal de sua freguesia, aprendendo o básico da alfabetização. Contudo, a necessidade de ajudar no sustento da casa limitou seus estudos regulares. Desde cedo, auxiliava a mãe entregando roupas lavadas e fazendo pequenos serviços como mensageiro, o que o afastava da escola, mas não impedia sua curiosidade intelectual.

Astolfo se destacou desde jovem pela dedicação autodidata. Declarava ter aprendido a ler quase sozinho, lendo tudo o que encontrava: livros, jornais e folhetos. Essa sede de conhecimento era incomum para um jovem negro e pobre em uma sociedade ainda marcada pelo analfabetismo. Nas poucas horas livres, cultivou gosto por literatura e informação, o que mais tarde impressionaria cronistas maranhenses. O escritor Humberto de Campos destacou sua “infatigável” disciplina para estudar, apesar das adversidades raciais e sociais.

A adolescência de Astolfo coincidiu com grandes mudanças: aos 12 anos presenciou a abolição da escravidão em 1888, e aos 13 viu o fim da monarquia em 1889. Essas transformações influenciaram sua consciência social. Sua família, embora livre, enfrentava os mesmos desafios da população negra: pobreza persistente, racismo e exclusão herdados do período escravista: temas que mais tarde surgiriam em sua obra literária.GATO DE JESUS, Matheus. Tempo e melancolia: república, modernidade e cidadania negra nos contos de Astolfo Marques (1876-1918). Lua Nova: Revista de Cultura e Política, São Paulo, n. 85, p. 133-185, 2012.

Sem condições de avançar muito na educação formal, Astolfo buscou formas de se instruir por conta própria, frequentando aulas noturnas de línguas e ampliando sua cultura geral.GATO, Matheus de Jesus. “Ninguém quer ser um treze de maio”: abolição, raça e identidade nacional nos contos de Astolfo Marques (1903–1907). Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, v. 37, n. 1, p. 117-140, jan./abr. 2018. p. 120. Por volta de 1896, aos 20 anos, conseguiu uma vaga como servente na Biblioteca Pública do Maranhão, em São Luís. Esse trabalho modesto se tornou o ponto de partida de sua trajetória intelectual e profissional, aproximando-o dos livros, da leitura e dos círculos literários que marcariam sua carreira.

Em "Memórias e Memórias Inacabadas" do escritor Humberto de Campos, o autor narra como via Astolfo Marques:"Uma figura houve entretanto, no Olimpo, que permitiu a minha aproximação. Foi Raul Astolfo Marques, que se tornou conhecido, mais tarde, nas letras regionais, como Astolfo Marques, unicamente. Era homem de cor, de tez escura e embaciada [...]. De estatura mediana, a fronte larga e fugidia, boca enorme e bigode ralo, possuía dentes enormes e brancos [...] Era amanuense da Biblioteca, mas desempenhava todos os misteres de servente: varria o salão, espanava as estantes, etiquetava os livros [...] Era, segundo me disseram, filho de uma preta, lavadeira e engomadeira. E a isso devia ele, talvez, a alegria de exibir, pondo em destaque o seu terno de casimira azul-marinho, cuidadosamente passado a ferro, os mais duros e lustrosos colarinhos do Maranhão. Humilde e obscuro, mas infatigável no estudo e no trabalho, Astolfo Marques fez-se de tal modo indispensável aos homens brancos a quem servia, que, na organização da Oficina dos Novos, eles se viram forçados a dar-lhe um lugar a seu lado."

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Trajetória Profissional Em paralelo à sua formação contínua, Astolfo Marques firmou-se como jornalista,escritor e servidor público durante as primeiras décadas do século XX. Após cerca de dez anos trabalhando na Biblioteca Pública do Maranhão, percebeu que, mesmo promovido a amanuense e depois a auxiliar de direçãoGATO, Astolfo Marques e as festas populares maranhenses, p. 341, seu progresso na carreira era limitado pelas barreiras sociais da época. Por volta de 1907, já ocupando funções de confiança na biblioteca, passou a dedicar-se ainda mais à produção literária e à colaboração regular em periódicos de São Luís.GATO, Astolfo Marques e as festas populares maranhenses, p. 339 Nesse período, Astolfo Marques era reconhecido não apenas como funcionário aplicado, mas como um intelectual de destaque, o que o estimulou a ampliar sua atuação na imprensa e na literatura. Sua produção de contos, crônicas e artigos cresceu significativamente a partir de meados da década de 1900. Colaborou com revistas e jornais de circulação influente, como a Revista do Norte, o diário A Pacotilha, o jornal O Maranhão (ou O Jornal), o Boletim da Oficina dos Novos e outras publicações locais. Nessas páginas, abordava o cotidiano da cidade, escrevia contos, ensaios críticos e entrevistas, consolidando-se como cronista e jornalista respeitado pela opinião pública da capital maranhense. Paralelamente às colaborações em jornais, lançou suas primeiras obras em livro. Em 1905, publicou A Vida Maranhense, coletânea de contos que retrata personagens e costumes de São Luís. No ano seguinte, em 1906, saiu De São Luís a Teresina, relato de viagem inspirado em uma excursão que fizera ao Piauí. Já em 1907, escreveu O Maranhão por dentro, definido como uma “revista de acontecimentos maranhenses”, peça de teatro satírico-musical elaborada em parceria com o músico Inácio Cunha, misturando crônica, música e encenação. Seguiu publicando com regularidade: em 1908, lançou Natal (Quadros)BIBLIOTECA PÚBLICA BENEDITO LEITE. Acervo digital. São Luís: Governo do Estado do Maranhão., conjunto de cenas natalinas em prosa poética; em 1909, apresentou Esboços e quadros, reunindo textos curtos que aprofundavam seu retrato da vida local. Em 1910, publicou o ensaio biográfico O Dr. Luís Domingues, destacando a figura do então governador do Maranhão. Essa homenagem aproximou-o ainda mais do meio político. No mesmo ano, Luís Domingues nomeou Astolfo para o cargo de Secretário Interino da Instrução Pública e diretor do Liceu Maranhense, cargo que exerceu até outubro de 1911, participando da gestão educacional em um período de reformas republicanas.GATO, Astolfo Marques e as festas populares maranhenses, p. 343 Em 1912, passou a servir como oficial na Secretaria Geral do Governo, por nomeação do vice-governador Frederico Figueira. Após a extinção desse órgão em 1915, foi transferido para a Secretaria do Interior, permanecendo como servidor de confiança. Nesse período, dirigiu também a Imprensa Oficial do Maranhão, foi amanuense da Associação Comercial e secretário da Escola de Comércio de São Luís, demonstrando sua versatilidade e prestígio no funcionalismo. Mesmo assumindo funções administrativas, não abandonou a literatura. Em 1912, publicou seu romance histórico A Nova Aurora, que aborda os primeiros anos do regime republicano no Maranhão e episódios como o Massacre de 17 de Novembro de 1889, quando libertos foram reprimidos em São Luís logo após a Proclamação da República. O livro, dividido em capítulos, mescla narrativa ficcional e crônica histórica para questionar os rumos do novo regime. Astolfo continuou escrevendo textos avulsos para a imprensa. Em 1912, publicou no Diário Oficial a crônica A comemoração dos Reis sobre as festividades de Dia de Reis em São Luís. Em 1916, publicou o conto Reis republicanos, onde retomou o tema do 13 de Maio e o destino da população negra no pós-abolição. Seu vínculo com o serviço público se encerrou em 1918, quando, devido a problemas de saúde, obteve aposentadoria com proventos integrais e o título de chefe de seção da Secretaria do Interior. Até seu falecimento, ainda em 1918, Astolfo Marques era reconhecido como um dos principais homens de letras do Maranhão e figura de influência nos círculos culturais e burocráticos. Sua trajetória, da biblioteca modesta aos altos cargos do governo e às páginas da literatura, tornou-se testemunho de superação pessoal e registro crítico de uma época em transição no Maranhão.

Produção Intelectual A obra de Astolfo Marques refletiu de forma coerente suas vivências e preocupações, voltando-se especialmente para as transformações sociais do Maranhão no período pós-Abolição e para as desigualdades que continuaram a atingir a população negra.GATO, Matheus. “Ninguém quer ser um Treze de Maio: Abolição, raça e identidade nacional nos contos de Astolfo Marques (1903-1907)”, 2018, p. 117-120.Grande parte de sua produção literária pode ser entendida como um esforço sistemático de interpretar as esperanças e frustrações dos ex-escravizados e seus descendentes diante da liberdade formal obtida em 1888 e da cidadania restrita oferecida pela República.

Seus contos e crônicas exploraram as relações entre raça, nacionalidade e Abolição, permitindo analisar como os negros foram, em grande parte, excluídos da sociedade brasileira moderna, a partir de uma perspectiva elaborada por um intelectual negro atuante no pós-Abolição.CARVALHO, M. A. 2008. “Intelectuales negros en el Brasil del siglo XIX” Astolfo destacou-se por trazer para o centro de suas narrativas personagens negros comuns, trabalhadores, professores, artífices, discutindo criticamente a realidade racial da Primeira República. Essa condição de homem negro conferia autenticidade e urgência a sua voz, destacando-o em um cenário literário então dominado por escritores brancos.GATO, Matheus. “Ninguém quer ser um Treze de Maio: Abolição, raça e identidade nacional nos contos de Astolfo Marques (1903-1907)”, 2018, p. 121-128.

Um núcleo expressivo de sua obra são os contos do pós-Abolição, publicados entre 1903 e 1907, sempre próximos à data de 13 de Maio. No conto “O treze de maio (recordações)”, divulgado na Revista do Norte em 1º de junho de 1903, Astolfo Marques criticou a apatia das comemorações oficiais da Abolição, contrastando o caráter burocrático da festa com a ausência de celebrações populares.MARQUES, Astolfo. “O treze de maio (recordações)”. Revista do Norte, ano 2, n. 23, 1 jun. 1903 Na narrativa, três personagens negros humildes, o quitandeiro Joaquim Matias, o professor Geraldo e o operário Maneco, demonstram indignação pelo fato de, quinze anos após a Lei Áurea, não haver mais entusiasmo popular em comemorar a data.GATO, Matheus. “Ninguém quer ser um Treze de Maio: Abolição, raça e identidade nacional nos contos de Astolfo Marques (1903-1907)”, 2018, p. 118.“Vejam vocês como se comemora entre nós o maior dia nacional!”comenta o professor, enquanto Maneco lamenta: “Ninguém foi treze; (...) falta no Maranhão o patriotismo!”.O conto já antecipava o cerne de sua crítica: a emancipação legal não se converteu em cidadania real, e a memória da Abolição corria o risco de virar um ritual vazio.