As contribuições de mulheres para o campo de estudo das mudanças climáticas têm recebido atenção crescente no início do século XXI. A importância das percepções femininas sobre as consequências desproporcionais dos problemas climáticos às mulheres foi pontuada pelas Organização das Nações Unidas. Um relatório da Organização Mundial da Saúde concluiu que a incorporação de análises sobre mudanças climáticas e gênero forneceria, de forma mais eficaz, uma mitigação das mudanças climáticas.
ligação=https://en.wikipedia.org/wiki/File:Christiana_Figueres_in_London_-_2018_(39536174340)_(cropped).jpg|miniaturadaimagem|Christiana Figueres, antropóloga e economista costa-riquenha.|184x184px As mulheres deram contribuições importantes para a pesquisa e a política de mudanças climáticas e para uma análise mais ampla das questões ambientais globais. Muitas mulheres cientistas, bem como políticas e ativistas. Mulheres pesquisadoras contribuíram significativamente para as principais avaliações científicas sobre mudanças climáticas, como as do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas e da Avaliação do Ecossistema do Milênio.
Contudo, no Brasil, existe uma dissonância entre a capacidade das mulheres em resolver mudanças climáticas e a realidade dos cargos ocupados pelas mesmas. Em espaços de estudo e tomadas de decisão sobre o clima, a presença de mulheres não é minoritária somente no GT Adaptação, nos demais seis setores analisados (Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima, Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima, Grupo Executivo sobre Mudança do Clima, Rede Brasileira de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais e Fórum Brasileiro de Mudança do Clima) a participação feminina aparece em menor número, especialmente nos cargos de liderança.
As mulheres desempenharam papéis importantes de liderança na política climática internacional. Por exemplo, Christiana Figueres liderou as negociações internacionais sobre o clima como Secretária Executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC).Christina Figueres: precisamos colocar mais mulheres nas decisões sobre clima. Disponível em <https://climainfo.org.br/2020/12/16/christina-figueres-precisamos-colocar-mais-mulheres-nas-decisoes-sobre-clima/>. Acesso em: 15 nov. 2024h.ONU escolhe nova líder para o clima. Disponível em: <https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/349911/noticia.htm?sequence=1&isAllowed=y>. Acesso em: 15 nov. 2024i. Susan Solomon presidiu o grupo de trabalho 1 de ciência do clima do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas em 2007.
Sub-representação das mulheres na ciência As mulheres geralmente são pouco representadas na ciência e enfrentaram muitas barreiras para seu sucesso e reconhecimento. Após a revolução científica no século XVII, as mulheres europeias envolveram-se na ciência observacional, incluindo astronomia, história natural e observações meteorológicas, embora muitas universidades não admitissem mulheres até o final do século XIX.
Apesar do relativo avanço na pós-graduação de mulheres no século XX e XXI, nos Estados Unidos, as mulheres ocupam menos de 25% dos cargos docentes em ciências e ganham menos do que os homens de mesmo nível.
As mulheres negras, indígenas e do Sul Global têm mais probabilidade de serem invisibilizadas e pouco representadas na pesquisa e liderança acadêmica. Isso está associado a um legado de discriminação, falta de oportunidades educacionais, barreiras linguísticas e falta de esforço para identificá-las e citá-las.
Mulheres nas pesquisas sobre mudança climática miniaturadaimagem| Susan Solomon, química atmosférica estadunidense.|201x201pxAs mulheres estão sub-representadas nas principais disciplinas do estudo das mudanças climáticas. Por exemplo, as mulheres são uma minoria nas ciências da natureza, na qual pesquisas revelam que menos de 20% dos meteorologistas e geocientistas são mulheres. As mulheres são ligeiramente melhor representadas nas ciências ecológicas. Um estudo relata que as mulheres são 55% dos alunos de pós-graduação em ecologia. Apesar disso, apenas cerca de 33% dos professores efetivos são mulheres, enquanto 75% dos artigos da principal revista internacional - Ecology - são escritos por homens. As mulheres receberam proporcionalmente menos financiamento para pesquisa e foram menos propensas a serem citadas por seus colegas.
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura publica dados sobre as mulheres na ciência em todo o mundo. No geral, as mulheres estão melhor representadas no total de pesquisadores científicos na América Latina, Oceania e Europa (+30%) e menos na Ásia (19%).
O Homem-tropoceno miniaturadaimagem|Kate Raworth, economista britânica. Um apelo à ciência internacional para dar mais atenção à inclusão de mulheres acadêmicas foi feito pela economista britânica Kate Raworth. Em seu artigo "Must the Anthropocene be the Manthropocene?" (O Antropoceno deve ser o homem-tropoceno?, em tradução livre), ela destacou que o grupo de trabalho de 36 cientistas e acadêmicos que se reuniu em Berlim em 2014 para começar a avaliar as evidências de que a humanidade estava entrando em uma nova época, o Antropoceno, era composto quase inteiramente de homens. Ela afirmou: "Cientistas importantes podem ter o intelecto para reconhecer que nossa era planetária é dominada pela atividade humana, mas eles ainda parecem alheios ao fato de que suas próprias deliberações intelectuais são bizarramente dominadas por vozes masculinas brancas do norte".
Mulheres e Impactos Climáticos Os impactos climáticos afetam mais as mulheres do que os homens. Como indicou Alok Sharme em seu discurso durante a COP 26, na Escócia, em Glasgow, oitenta por cento dos deslocados por mudanças climáticas são do sexo feminino. Segundo Lisa Schipper, coautora de um relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), a mudança do clima exerce pressão sobre quem não tem poder, em outras palavras, a Mudança do Clima não crise a desigualdade social, mas acentua.
Ainda em concordância com o IPCC, setenta e dois por cento das mulheres vivem em extrema pobreza no mundo; apenas vinte por cento tem acesso a propriedades rurais, além de terem acesso desigual à educação. Dessa forma, as mulheres prevalecem em maior número nos grupos considerados vulneráveis às mudanças climáticas.
O fator econômico, racial e identitário influencia tanto nos modos de "defesa" ante as circunstâncias climáticas distintas quanto na incidência da problemática. Por exemplo, no que diz respeito ao surgimento dos problemas climáticos, a violência sexual contra mulher, após crises climáticas provocadas pelo furacão Katrina em Mississipi, EUA, aumentou quarenta e cinco por cento. Houve outrossim um aumento de trezentos por cento na violência doméstica no período posterior aos ciclones na província de Tafea, em Vanuatu, Oceania.
A primeira situação repete-se no Rio Grande do Sul, com as enchentes de 2024.Os impactos das mudanças climáticas têm gênero: justiça climática e mulheres é tema no G20. Disponível em: <https://www.g20.org/pt-br/noticias/os-impactos-das-mudancas-climaticas-tem-genero-justica-climatica-e-mulheres-e-tema-no-g20>. Acesso em: 16 nov. 2024. Cida Gonçalves, ministra das mulheres, argumenta que a violência sofrida pelas mulheres no dia a dia fica mais evidente na situação das enchentes no sul do Brasil. No entanto, a relação entre os extremos climáticos e o aumento da violência doméstica pode não ser óbvia, afinal as mulheres, em contraposição ao primeiro caso, permanecem com o mesmo convívio familiar (afinal, violência doméstica). Vale lembrar para tanto que no Brasil sessenta e oito por cento da totalidade feminina já sofreu ou possuem uma amiga, familiar, ou conhecida que já sofreu violência doméstica. Assim, mais uma vez, a violência demonstra-se preexistente, e as mudanças climáticas intensificam quadros implícitos na sociedade.
Sob esta ótica, a violência psicológica em lares domésticos, uma forma "sútil" da violência contra a mulher, dá porta de entrada para outros tipos de violência, como a agressão física ou sexual. Com a vinda de eventos climáticos tais quais enchentes, tempestades severas e deslizamentos de terra, a situação de instabilidade econômica tende a crescer, assim como o stress e a insegurança alimentar, fatores que podem desencadear casos de violência familiar, é o que aponta pesquisa da University College London, realizada entre 1993 e 2019. A Universidade de Cambridge também faz pesquisa separada e leva aos mesmos resultados (estresse, instabilidades econômicas e alimentares).
As mulheres são as principais responsáveis pela coleta de alguns recursos naturais, como exemplo, a água. Na medida que sobe a frequência de secas por conta das mudanças dos seres humanos no clima, a consequência cai, também, sobre as mulheres de famílias rurais empenhadas de buscar a água em lugares distantes para o abastecimento da família. Cabe a elas a tarefa de lavar as roupas, lavar os filhos, lavar as louças, enquanto o sol quente e o aumento da temperatura gradual infligem dor. E não para por aí, os parceiros do sexo masculino costumam sair para tentar uma condição de vida melhor na cidade, deixando elas completamente responsáveis pelas atividades da casa.
Conquanto seja uma atividade dolorosa, já é o normal de algumas comunidades do semiárido da África, Ásia, e do nordeste brasileiro. Todavia, com a estiagem de rios mais próximos, como na região Amazônica, onde os igarapés secaram na seca de 2023, os moradores locais precisaram caminhar distâncias muito maiores. Além do mais, caso desacompanhadas dos seus maridos as mulheres estão vulneráveis a perigos de violência sexual nas partes mais escuras do trajeto. No município de Mata Grande, em Alagoas, as moças caminham quinze quilômetros no total para ter acesso à água bebível, traduz-se em oito horas de trajeto, um terço de um dia, ou um terço do ano.
Apesar das mudanças climáticas afetarem as mulheres globalmente, elas não assumem locais suficientes de poder e tomada de decisão no Brasil. Quanto mais se filtra o fator socioeconômico, nas classes de menor capacidade aquisitiva, menor é a representação nos grandes eventos; dessa maneira, as comunidades tradicionais— quebradeiras de coco Babaçu, quilombolas, ciganas, povos e comunidades de matriz africana, entre outras— precisam ser ouvidas em mesas de debate.Povos e Comunidades Tradicionais. Disponível em: <https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/equidade-em-saude/povos-e-comunidades-tradicionais>. Acesso em: 17 nov. 2024. A presença das comunidades tradicionais em mesas redondas e quaisquer variado tipo de debate traz lucidez para essas discursões pois estes são os grupos mais impactados, “pensar desde as margens: sendo possível melhorar as condições daqueles que habitam as margens, é possível que esse bem-estar reverbere para toda a sociedade”, defende Díaz-Benítez e Mattos.9. Díaz-Benítez, M. E. e Mattos, A. (2019) ‘Interseccionalidade: zonas de problematização e questões metodológicas’ in Rocha de Siqueira, I. et al. (eds.) Metodologia e Relações Internacionais: Debates Contemporâneos Vol. II. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio, pp. 67-94.