Em audiologia, perda auditiva periférica é um déficit auditivo de etiologia multifatorial que pode sofrer influência de fatores ambientais ou genéticos, que se manifesta em duas classificações principais, perda condutiva e perda neurosensorial, que tem como origem porções específicas do sistema audiorreceptor. Além disso, atualmente também adota-se a caracterização para a perda auditiva mista, perda auditiva funcional e por deficiência auditiva central.
Sistema audiorreceptor alt=Imagem ilustrativa da anatomia do sistema vestibulococlear com a divisão em: ouvido externo, médio e interno.|miniaturadaimagem|388x388px|Imagem ilustrativa da anatomia do sistema vestibulococlear com a divisão em: ouvido externo, médio e interno O sistema audiorreceptor é composto pelo aparelho auditivo ou órgão vestibulococlear, e tem a função de inferir sobre a percepção aditiva e, também, sobre o equilíbrio estático-dinâmico do corpo.Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2004. Junqueira, LC; Carneiro, J. Histologia básica. ... Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013. O órgão vestibulococlear consiste em:
Ouvido externo (entrada das ondas sonoras); Ouvido médio (transformação das ondas sonoras em vibrações mecânicas); Ouvido interno (estimulação de receptores que realizam a transdução das ondas mecânicas em impulsos nervosos, que são transmitidos ao sistema nervoso central por meio do nervo vestibulococlear).
Ouvido externo O ouvido externo compreende o pavilhão auditivo, meato acústico externo e termina na membrana timpânica. Cabe ao pavilhão auditivo auxiliar na captação sonora, apresenta forma irregular composta por cartilagem e uma fina camada de tecido epitelial.
Ouvido médio Na sequência temos o ouvido médio, que se encontra inserido no osso temporal e forma a cavidade timpânica (da membrana timpânica até a cóclea). Em sua porção anterior, o ouvido médio se comunica com a laringe por meio da tuba auditiva, e posteriormente com o processo mastoide do osso temporal. A cavidade medial do ouvido médio, ou cavidade timpânica, abriga a cadeia óssea formada por martelo, bigorna e estribo. O sistema ósseo possibilita a transformação, transmissão e amplificação das ondas sensoras na forma de energia mecânica, que segue para cóclea por meio da inserção do estribo na janela oval.PENA-CASANOVA, J. et al. Manual de fonoaudiologia. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2002. 354p.
Ouvido Interno alt=Ouvido interno|miniaturadaimagem|384x384px|Ouvido interno O ouvido interno, também referido por labirinto, é uma estrutura localizada na porção pétrea do osso temporal. A estrutura interna do ouvido interno é dividida em duas parte: labirinto ósseo e labirinto membranoso. Na primeira estrutura, labirinto ósseo, encontram-se canais membranosos que preenchem parcialmente a cavidade óssea, o espaço restante origina um conjunto de canais e bolsas que formam o labirinto membranoso. Dessa forma, apresenta-se um espaço entre o labirinto membranoso e o labirinto ósseo que é preenchido por um fluido chamado perilinfa. Enquanto, a porção interior do labirinto membranoso é preenchida por um outro fluido, a endolinfa. O labirinto ósseo é constituído por três porções: escala vestibular, escala média e escala timpânica. Na escala média temos a estrutura responsável pela transdução das ondas mecânicas, o órgão de Corti. As ondas mecânicas são transmitidas pela perilinfa e repassadas, por meio da escala média, para endolinfa na membrana vestibular. alt=Órgão de Corti|miniaturadaimagem|379x379px|Órgão de Corti
Órgão de Corti Sobre a lâmina espiral e membrana óssea está disposto o órgão de Corti, uma estrutura complexa formada por células de sustentação que suportam às células sensoriais ciliadas, que são dotadas da capacidade de transformar a energia acústica em impulsos elétricos. As células sensoriais possuem em seu ápice cílios que contatam com a membrana tectorial, a partir desse contato, de maneira simplificada, temos a produção do impulso nervoso. Na sequência, o impulso nervoso segue por meio do nervo vestibulococlear até o sistema nervoso central.
Etiologia A perda auditiva periférica pode ter várias origens, mas destacam-se algumas possibilidades, como o trauma acústico, que leva a degeneração das fibras do nervo vestibulococlear. Outras possibilidades são a perda de células ciliadas internas (CCI), caracterizando uma perda secundária, ou por danos nas sinapses das CCI, configurando uma perda primária. Ainda se destaca a neuropatia auditiva como causa para perda auditiva periférica, apresentando um forte componente genético, na forma de um distúrbio do processamento temporal auditivo.
Classificação da perda auditiva A perda auditiva, resumidamente, pode ser classificada em tipo e grau, servindo para definição do diagnóstico clínico.
Tipo da perda auditiva A classificação do tipo da perda auditiva serve para identificação topográfica da alteração, como pela descrição de Silman e Silverman (1997), que define a perda auditiva como: condutiva, neurossensorial (sensorioneural) e mista.SILMAN, S.; SILVERMAN, C. A. Basic audiologic testing. In SILMAN, S.; SILVERMAN, C. A. Auditory diagnosis: principles and applications. San Diego: Singular Publishing Group. p. 44-52, 1997.
Grau da perda auditiva Para a classificação da perda auditiva quanto ao grau, comumente usa-se de referência os valores dos limiares auditivos para as frequências de 500, 1.000 e 2.000 Hz, que são obtidos por meio do exame de audiometria tonal. Como exemplo temos os quadros organizados por Lloyd e Kaplan (1978) e Davis (1970,1978).LLOYD, L. L.; GLADSTONE, V.; KAPLAN, H. Audiometric interpretation: manual of basic audiometry. 2 ed. Massachusett: Allyn and Bacon Needhan Heights. 1993..DAVIS, H. Hearing Handicap, Standards for Hearing, and Medicolegal Rules. In Hearing and Deafness. DAVIS, H. et al., 1978. p. 271.
Perda condutiva A partir do conhecimento anatômico e fisiológico do sistema audiorreceptor, especificamente das estruturas relativas à orelha externa e média, torna-se possível a compreensão das alterações no processo da transmissão sonora, que resultam em agravos à audição na forma das perdas auditivas condutivas.Hyppolito MA. Perdas auditivas condutivas. Medicina (Ribeirão Preto) 2005;38 (3/4): 245-252 Abaixo seguem os principais tipos de perda auditiva condutiva.
Distúrbios do pavilhão auricular e meato A ocorrência de patologias na orelha externa pode ocasionar perda auditiva em função da obstrução mecânica à condução do som. Dessa forma, temos como principais etiologias para os distúrbios do pavilhão auricular e meato: processos inflamatórios, alterações congênitas, que podem evoluir à malformações do pavilhão auricular, e atresia ou agenesia do meato acústico externo (MEA), que promovem o impedimento da chegada de ondas sonoras à orelha média.Hungria H. Anatomia. In: Hungria H. Otorrinolaringologia. Rio de Janeiro: Revinter; 2000. p.243-363. Cabe destaque ainda às malformações do primeiro arco sulco branquial, que resultam na formação atípica do pavilhão auricular.
Malformações congênitas da orelha As malformações congênitas da orelha podem ser classificas em três grupos.Albernaz PLM. Elementos de psicoacústica. In: Munhoz MSL, Caovilla HH, Silva MLG, ed. Audiologia clínica. São Paulo: Atheneu; 2003. Série Otoneurolgia, v. 2, p 11-102.
Anomalias menores: presença de canal auditivo externo estreito, mas permeável, com possibilidade de a cadeia ossicular estar fixa (tipo menos comum de malformação). Anomalias maiores: o pavilhão auricular apresenta malformações evidentes e o meato acústico externo é ausente; presença de anormalidade variadas da orelha média. Anomalias na pneumatização: malformação na pneumatização do osso temporal e da orelha interna.
Doenças adquiridas da orelha externa Quanto às doenças adquiridas da orelha externa, destacam-se as otites externas que levam a perda auditiva pela ocorrência de edemas do meato acústico.Guatimosim MHE. Doenças da orelha externa. In Campos CAH, Olival HO, ed. Tratado de otorrinolaringologia. São Paulo: Roca; 2003. v. 2, p. 3-20Guatimosim MHE. Doenças do ouvido externo. In: Bento RE, Miniti A, Marone SAM. Tratado de otologia. São Paulo: EDUSP;1998. p. 149-67. Além disso, existem outras possibilidades como:
Corpos estranhos do meato acústico externo (podem ser inertes ou vivos, chegando ao meato acústico de forma voluntária ou involuntária); Traumas e ferimentos do pavilhão e meato acústico (ocorre por edema e ou lacerações); Otoematoma (trauma espontâneo em portadores de discrasias sanguíneas); QueimadurasSampaio AP, Castro RM, Rivitti EA. Dermatologia básica. 3ª ed. São Paulo: Artes Médicas, 1983. cap 20, p. 271- 278. (pode levar a estenose, lesão da membrana timpânica ou infecção secundária); PericondriteSperling N, Howard R, Angeli RD, Santos LEG, Costa SS. Doenças da orelha externa. In: Cruz OLM, Costa SS. Otologia clínica e cirúrgica. Rio de Janeiro: Revinter; 1999. cap. 5, p. 121-36. (infecção localizada na cartilagem da orelha externa); Tampões de cerume ou epidérmicos (compostos por restos epiteliais queratinizados, aderidos às paredes do MAE); Colesteatoma de MAECaldas N. Otite média colesteatomatosa. In: Sih T. Otologia e Audiodiologia em Pediatria. Rio de Janeiro: Revinter; 1999. p. 99-105. (otorreia e erosão óssea do MAE); Dermatites (formação de prurido, hiperemia, edema, vesículas e exsudatos, reduzindo a luz do MAE); Otomicose (comprometimento do MAE e da membrana timpânica por fungos (Aspergillus e Candida); Tuberculose e LeishmanioseRussell JD, Donnelly M, McShane DP, Alun-Jones T, Walsh M. What causes acute otitis externa? J Laryngol Otol 1993; 107: 898-901. (lesões granulomatosas que podem comprometer o MAE e orelha média); Otite externa difusa agudaBecker W, Naumann HH, Pfaltz CR. Aspectos clínicos de doenças do ouvido externo. In: Becker W, Naumann HH, Pfaltz CR, ed. Otorrinolaringologia prática – diagnóstico e tratamento. Rio de Janeiro: Revinter; 1999. p.71-82. (compromete os folículos pilosos e sebáceos do terço externo da orelha externa, sendo causada por estafilococos); Otite externa granulosa (inflamação do terço interno do MAE, caracterizado por tecido de granulação na pele); Otite externa maligna (doença infecciosa grave causada pela Pseudomonas aeruginosae, uma doença necrosante do MAE); Estenose adquirida do MAE (com origem idiopática ou secundária a um trauma, é uma inflamação crônica associada a estenose térmica ou pós-operatória do MAE); Exostose do MAE (a hiperplasia do periósteo na porção óssea do MAE).
Otite média aguda (OMA) A OMA (otite média aguda) é uma inflamação da orelha média, que pode ser classificada em viral, bacteriana com ou sem supuração e necrosante. O curso da OMA pode ser marcado por febre, mal-estar geral e irritabilidade, hipoacusia e desequilíbrio, queda do estado geral, cefaléia e otorréia. Os principais agentes causadores da OMA são: Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae, Moraxella catarrhalis, Streptococcus pyogenes e Staphilococcus aureus. A OMA apresenta alta prevalência com incidência centrada em indivíduos entre 6 e 24 meses e entre os 4 e 7 anos.Bluestone CD, Klein JO. Otitis media in infants and children. Philadelphia: W. B. Saunders; 1995- Almeida CIR, Almeida CR. Otite média aguda. In Campos CAH, Olival HO, ed. Tratado de otorrinolaringologia. São Paulo: Roca; 2003. v. 2, p. 21-7.
Otite média crônica (OMC) A OMC (otite média crônica) se caracteriza por um processo inflamatório da orelha média associado a alterações teciduais irreversíveis, podendo ser classificada em não-específicas (não colesteatomatosa, colesteatomatosa e OMC silenciosa) e específicas (tuberculosa, actinomicótica, luética entre outras).
Interrupção ossicular