Ana Luísa Cardoso Dias Janeira (Portugal, 1943) é uma filósofa com práticas interdisciplinares de ensino, investigação e cidadania, assumidas deliberadamente nas margens[ Valente, Lucília (2011). «Semeando ao vento: outra forma de fazer
universidade»] l. Co-fundadora do Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa e do Centro de Reflexão Cristã.
Sujeitou o pensamento de Simone Weil (tese de licenciatura, 1967) e de Pierre Teilhard de Chardin (tese de doutoramento, 1972) a um tratamento com grelhas de reflexão e categorias de tipo filosófico.
Inspirada em Michel Foucault, realizou um percurso teórico-metodológico orientado para a organização do espaço, a produção do discurso e o sistema epistémico de instituições científicas, ou sobre condições de emergência, transformação e sobrevivência dos laboratórios de Química, jardins botânicos e museus de ciências (1976-2000).
Com outras vertentes do mesmo modelo, estudou o dispositivo saber-poder nas missões jesuíticas sul-americanas e asiáticas (1983-2013) e no colecionismo moderno (2005-2008), bem como as articulações entre universidade-empresa (2008-2020) e a memória inerente a patrimónios científicos e culturais (desde 2016).
Professora na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (1976-2010), contribuiu para a implementação da área de História e Filosofia das Ciências em Portugal.
Família Ana Luísa Cardoso Dias Janeira nasceu no dia 15 de maio de 1943, em Miramar, Arcozelo, Portugal. Filha de António Ferreira da Silva Janeira, arquiteto, e de Maria Adozinda Seara Cardoso Dias Janeira, aguarelista. É a mais velha de quatro irmãos: António Manuel, Isabel Maria e Maria Clara. Também é sobrinha-neta de João Maria Ferreira Sarmento Pimentel e prima de João Paulo Seara Cardoso.
Cresceu no seio da burguesia nortenha onde, apesar dos valores rígidos inerentes e dada a personalidade rebelde, foi a primeira da família mais próxima a frequentar o ensino público (secundário e superior), usar calças, fumar, casar pelo civil e divorciar-se.
Percurso Estudou no Colégio Nossa Senhora da Paz e no Liceu Nacional da Rainha Santa Isabel, ambos instituições portuenses. No primeiro, desenvolveu o gosto pela cultura e a disciplina exigida pelo trabalho intelectual; no segundo, a importância do diferente na abertura ao país e ao mundo.
Tais foram os termos e as relações da configuração onde germinou esta portuguesa com alma de cidadã do mundo, portuense nos valores mas adorando Lisboa, filósofa com os pés no chão, católica por largos anos, tudo mapeado pelo nomadismo. Como costuma dizer: "Um misto de submissa e de rebelde, nem no sistema, nem à margem. Nas margens...".Bispo, Maria Teresa (2011). «A Primeira Viagem», l
Após ter terminado o ensino secundário foi estudar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra onde, em 1961, frequentou a licenciatura em História. De seguida, regressou ao Porto e inscreveu-se no curso de filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto que terminou em outubro de 1967, tendo sido a primeira licenciada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto renovada, como noticiou o jornal "O Comércio do Porto".
Defendeu a tese - O vazio no pensamento de Simone Weil. Ensaio de uma leitura interpretativa - que veio posteriormente a ser publicada no livro Conhecer Simone Weil.
Segue-se Paris, onde é aluna do antropólogo Claude Lévi-Strauss e do filósofo Henri Gouhier, professores no Collège de France e na Sorbonne Université, respectivamente. É nesta última que obtém o doutoramento em filosofia contemporânea em 1971. Em 1978, viu a sua tese de doutoramento - Réflexion philosophique sur l'Energétique dans la pensée de Pierre Teilhard de Chardin - ser traduzida e publicada, na Coleção Filosofia, pela antiga Livraria Cruz. Todavia, o momento-chave determinante para a sua vida futura aconteceu na vivência de Maio 68.
Concluído o doutoramento, deu início à sua carreira de docente universitária tendo trabalhado em universidades de vários países, entre eles: Canadá, Brasil, França e Grã-Bretanha.
Em Portugal, trabalhou como professora associada na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa no Departamento de Química e na Secção Autónoma de História e Filosofia das Ciências, da qual se reformou em 2011. Deu a sua última aula no dia 31 de Março de 2011.
Vários autores e investigadores prestaram-lhe homenagem, encontrando-se entre eles a escritora brasileira Maria Alzira Brum Lemos, que gravou um depoimento.
Quando se aposentou e por achar necessárias bancas para o espírito, semelhantes às que alimentam o corpo, decidiu dividir a biblioteca pessoal segundo temas, e oferecer um total de 5.000 livros à: Biblioteca Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa; Biblioteca dos Coruchéus; Centro em Movimento (CEM); Herdade do Freixo do Meio; União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), pedindo-lhes para organizarem bancas para ofertas de livros. Em 2019, sentiu que chegara a altura de dar início ao processo de encontrar uma instituição a quem doar o arquivo pessoal e profissional. Em 2022, decidiu-se pelo Ephemera. Esta preocupação correspondeu à tomada de consciência de que ele poderia ser um exemplo significativo de como eram as estruturas de investigação na era pré-digital, e assim sendo, ter uma utilidade futura num contexto da micro-História. Com efeito, na ausência de gabinetes para professores e de bibliotecas especializadas, nomeadamente em áreas novas, como era o caso da História e Filosofia das Ciências em Portugal, o material de trabalho – entre livros e documentação – estava nas casas de cada um, criando lugares imprescindíveis para a preparação de aulas ou projetos de investigação. Ambas as decisões foram e continuam a estar devidamente retratadas, por textos e imagens, no seu blog, 1950ArquivoVivido2020.
Paralelamente à sua carreira docente, Ana Luísa Janeira co-fundou, com Clara Queiroz, o Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa, com o objectivo de promover uma atitude crítica e reflexiva entre a comunidade cientifica. Fez também parte do grupo de fundadores do Centro de Reflexão Cristã em 1975.
Termos e relações estruturantes Nasceu numa família tradicional católica. Fez a primária num colégio de freiras. Cresceu, pois, formatada por essa visão do mundo. Seguiram-se largos anos na Ação Católica: Juventude Escolar Católica Feminina (JECF) e Juventude Universitária Católica Feminina (JUCF).O conjunto, alimentado por uma sequência de retiros espirituais orientados por jesuítas, criaram nela uma cultura religiosa proporcional e em harmonia com a cultura escolar. Aspetos que influenciaram as opções pelos temas das teses de licenciatura (Simone Weil) e de doutoramento (Pierre Teilhard de Chardin), ambos figuras místicas do século XX.
Integrada no Movimento de Renovação da Arte Religiosa (MRAR) no Porto e no núcleo fundador do Centro de Reflexão Cristã (CRC), foi posteriormente secretária do Pe. Jardim Gonçalves, no contexto das Jornadas Internacionais por uma Sociedade Superando as Dominações, gérmen do Fórum Social Mundial, aspetos que lhe permitiram lidar em primeira mão com estes movimentos e ajudaram a complementar a formação intelectual. De toda esta sequência, resultou não só uma forma de estar no mundo moldada pelo catolicismo, como enriquecida por duas vertentes diferentes: influência dos jesuítas (Filosofia) e dos dominicanos (Teologia); dos primeiros recebeu uma grelha intelectual para abordar problemas, dos segundos a necessidade de assumir a responsabilidade social.1. Murcho, Desidério. «Ana Luísa Janeira e outros, O regresso do sagrado»
Católica conscientemente empenhada desde a juventude - mais concretamente desde o caso de D. António Ferreira Gomes, exilado da diocese do Porto, da qual era bispo, na sequência de uma carta a Salazar denunciando os graves problemas sociais no país. Ambiguidades sobre o papel da mulher e o escândalo da pedofilia afastaram-na da instituição. Morrerá, seguramente, cristã.
No que respeita os valores e modelos de comportamento - do ser ao estar passando pelo pensar - eles foram marcados por pessoas com quem conviveu, mas de igual modo pelos livros que conheceu, pois a leitura e a História acompanharam-na. Mesmo assim e, apesar de constituírem um todo, é de distinguir quais foram e como atuaram as principais influências, quer na maneira de ser e de estar, quer na maneira de pensar: duas mulheres ligadas ao mundo rural, uma analfabeta, a senhora Maria, caseira numa quinta perto de Santo Tirso, e outra com pouca literacia, a senhora Albina, costureira a dias, porque ambas a povoaram com narrativas e lendas rurais, tradições e fantasias cheias de raízes ancestrais e formativas; Marie Skłodowska na medida em que A Pedra Mágica e a Princesinha Doente de Adolfo Simões Müller, primeiro livro que leu tinha uns 7 anos, lhe alimentou o sonho de se doutorar em Paris, à imagem da cientista; Maria Carolina Furtado Martins, Maria de Lourdes Pintasilgo e Madeleine Barthélemy-Madaule moldaram-na na dimensão de mulher e na forma de assumir a responsabilidade cidadã; o tio-avô, João Sarmento Pimentel, exilado no Brasil, motivou-a pela forma como defendeu o ideal republicano e manteve coerência na oposição ao regime; Simone Weil, Ivan Illich, Michel Foucault, Gilles Deleuze, Dominique Lecourt intervieram pela vertente filosófica.1. Janeira, Ana Luísa (2014). «Memórias familiares do meu tio Capitão»
Assim, foi cimentando dentro de si um conjunto de valores / fatores que vieram a ter peso quando foi escolhida para membro do Conselho de Imprensa a representar a opinião pública (1984-86), mas também no modo de intervir no Grupo Autónomo de Mulheres e núcleo fundador da Liga dos Direitos da Mulher (1986), como ainda mais tarde, quando escolheu ser voluntária num Convento das Concecionistas ao Serviços dos Pobres em Tibar, Timor-Leste, ou no Centro de Acolhimento e Orientação da Mulher das Irmãs Oblatas (CAOMIO) na Mouraria (2012-2014).«Queixa apresentada pelo sindicato dos empregados das salas de jogo dos casinos contra o jornal "O Comércio do Porto"». Arquivo Nacional da Torre do Tombo. 1981
Ou, inclusivamente, em ligações associativas a que foi estando sucessivamente ligada: Associação de Amizade Portugal Timor-Lorosae; Sociedade Portuguesa de Filosofia; Association pour l'Etude de la Pensée de Simone Weil; Association Diderot - membro do comité internacional; Association des Amis de Pierre Teilhard de Chardin; Centre Michel Foucault, Paris - membro do comité internacional; Liga dos Amigos do Jardim Botânico; Liga dos Amigos do Museu Nacional de História Natural (Mineralogia e Geologia); Marca-ADL; Movimento Internacional para uma Nova Museologia (MINOM); Sociedade de Geografia de Lisboa.
Investigação
Quando regressada a Portugal em Julho de 1969, começou a trabalhar no Gabinete de Investigação Social (GIS) – hoje Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS), com o professor Adérito Sedas Nunes.
Todavia e pelo facto de continuar interessada pela área epistemológica, precisava de adquirir uma formação específica que só veio a ocorrer em Montpellier e Sheffield. De facto, a razão primeira porque concorreu e assumiu dois leitorados de português (1969-74) prendeu-se com o desejo de enveredar pela História e Filosofia e das Ciências sem precisar de bolsas, mas fazendo-o de posse de um trabalho efetivo: não só a subsistência garantida como a frequência de aulas e seminários sem pagar propinas.