Hupdá (Hupd'äh), também conhecida por nomes como Hupdë, Jupdá Macú, Ubdé, entre outros, é uma das quatro línguas pertencentes ao tronco Nadahup (ou maku oriental) das línguas macus. É falada por cerca de 1500 falantes nativos entre os rios Tiquié, Uaupés e Papuri, nas regiões noroeste do estado brasileiro do Amazonas e no distrito colombiano do Vaupés.
Embora o número de falantes de Hupdá não seja muito grande, a língua não é considerada seriamente ameaçada, uma vez que é aprendida como primeira língua pelas crianças da comunidade. No entanto, a pressão de outras línguas, bem como a influência da cultura Tucano dominante na região, pode representar desafios para a sua preservação no longo prazo.
Classificação A família linguística a que hupdá pertence é a família maku, também conhecida como Vaupés-Japurá. Localizada no noroeste da Amazônia, a família macu pode ser dividida em dois grupos: línguas Naduhup (ao qual o hupdá pertence) e línguas macu do norte.
História Apesar das dificuldades impostas pela pobreza da região de campinarana e pela presença de muitas cachoeiras, que representaram obstáculos à expansão das frentes pioneiras portuguesas e espanholas disputando a área desde o século XVII, os Maku foram alvos de apresamento e escravidão. No entanto, a análise de documentos da época indica que eles foram menos afetados pelos "descimentos" ou outras formas de violência durante o ciclo da borracha, no final do século XIX. Durante esse período, os Maku se refugiaram nos territórios entre os rios Japurá, Tiquié e Papuri e aprenderam agricultura da mandioca e outras práticas culturais dos Tukano, com quem conviveram mais intensamente. Em 1914, os missionários salesianos chegaram à região, mas encontraram resistência dos Maku, que não queriam enviar suas crianças para internatos nos centros missionários. Nos anos 1970, os salesianos tentaram, sem sucesso, criar povoados-missão exclusivamente para os Maku.
Durante o período do garimpo do ouro da década de 1980 e início dos anos 1990, os Maku foram pouco afetados, pois este era praticado principalmente em áreas ribeirinhas. O único garimpo de terra firme, no extremo sul da Terra Indígena Alto Rio Negro, foi abandonado em 1986 devido à baixa produtividade. Com a popularização do movimento indígena no início dos anos 1990, a extração de ouro passou a ser realizada exclusivamente pelos povos da região. alt=Os Maku do rio Japurá.|miniaturadaimagem|374x374px|Os Maku do rio Japurá
Etimologia O nome da língua Hupdá é derivado do etnônimo dos falantes: hup é o termo utilizado para designar um ser humano (ou mais especificamente um ser humano da etnia Hupdá), já d'äh é o marcador do plural, logo, hupd'äh significaria apenas pessoas ou pessoas Hup. Os próprios Hupdá preferem chamar a sua própria língua por hup'ɨd, traduzido literalmente como língua dos Hup.
Já o nome da família linguística tem sido assunto de muita discussão. Apesar do nome Macu ser o mais utilizado para se referir à família, o termo tem conotação pejorativa por significar "sem linguagem" nas línguas tukanas e "selvagem" ou "servo" nas línguas aruaques. Esta denominação apenas é utilizada por falta de opção melhor e por consenso etnográfico.
Distribuição Geográfica Os 1500 falantes de Hupdá moram espalhados na região de floresta densa na fronteira do Brasil com a Colômbia. No lado brasileiro, a região é conhecida como Cabeça do Cachorro (devido ao seu formato no mapa), e é parte do estado do Amazonas. Dentro desta região, os Hup moram em uma área de aproximadamente 5400 quilômetros quadrados, definida pelo rio Tiquié ao sul, o rio Uaupés ao leste e o rio Papuri ao norte.
Dialetos A lingua Hupdá é subdividida em três áreas dialetais principais. Estas são o dialeto ocidental, falado entre o alto Tiquié e Papuri, o dialeto central, falado entre o médio Tiquié e Papuri, e o dialeto oriental, falado entre o sul do Papuri e imediatamente a oeste do Uaupés.
Falantes das variedades centrais e orientais entendem-se sem maiores problemas. Entretanto, ambos relatam dificuldades na comunicação com falantes da variedade ocidental. Isto decorre muito provavelmente da falta de contato dos falantes orientais e centrais com os falantes ocidentais, já que os falantes ocidentais habitam na Colômbia.
Apesar de todas a variedades serem mutualmente inteligíveis, há um fenômeno na região em que os falantes só se declaram saber uma língua se possuírem um nível similar ao de um falante nativo. Na grande maioria dos casos, quando há alguma dificuldade na comunicação entre as vilas, recorre-se ao Tukano, a língua franca da região. alt=Indígenas Hupdá.|miniaturadaimagem|330x330px|Indígenas Hupdá
Fonologia A fonologia da língua Hupdá é similar à de outras línguas macus, mas apresenta alguns fatores que a distinguem. A língua Hupdá conta com alguns fenômenos fonológicos exclusivos tanto no nível das consoantes quanto no nível vocálico.
Vogais Hupdá, diferentemente da grande parte das outras línguas amazônicas, possui um sistema básico de 9 vogais contrastantes. Entretanto, o sistema de 9 vogais apenas se aplica no contexto oral (não nasalizado). Em ambientes nasais, o inventário vocálico é reduzido para 6 vogais contrastantes. Segue abaixo tabelas que demonstram suas características.
Registra nove vogais orais e seis nasais: Vogais Anteriores Central Posteriores Fechadas Médias Aberta Não há ditongos ou vogais fonemicamente longas em Hupdá, embora efeitos de alongamento fonético se apliquem na posição final das palavras em morfemas CV.
Consoantes Também contrastando com a maioria das outras línguas da região amazônica, Hupdá conta com um sistema de consoantes extenso, com 19 consoantes contrastantes (20 consoantes em certos dialetos).
Registra 19 consoantes contrastantes e uma marginal: Bilabial AlveolarPalatal Velar Glotal Plosiva Plosiva glotalizada Fricativa Aproximante Aproximante glotalizada Em Hupdá, somente três consoantes podem ser encontradas na posição final de morfemas: /j/, /g/ e /ç/. É importante destacar que /p'/ só é encontrado na posição inicial de morfemas em uma única palavra e em alguns dialetos de Hupdá ele não existe. Já todas as outras consoantes podem ser encontradas em qualquer posição de morfemas (inicial, medial e final), com exceção das restrições que se aplicam à posição inicial e medial.
Fenômenos consonantais As oclusivas desvozeadas /b/ e /d/ se pré-nasalizam no início do morfema () e, quando aparecem no final, se pós-nasalizam como bm, dn, gŋ e y ao lado de uma vogal nasal, realizando-se como as nasais m, n, ŋ. A consoante /g/ somente ocorre no final do morfema. Se uma raiz ou sílaba terminada em /d/ é seguida por outra que começa com a mesma consonante, elas se unem para se realizarem como a vibrante /ɾ/.
As consoantes glotalizadas faringealizam a vogal seguinte (CʼV). As oclusivas glotalizadas /jʼ/ e /gʼ/ tornam-se desvozeadas glotalizadas /cʼ/ e /kʼ/ no início e no final do morfema. Enquanto as consoantes /bʼ/ e /dʼ/ se realizam como desvozeadas /pʼ/ e /tʼ/ no final do morfema e pré-nasalizadas // e // no início.
A oclusiva palatal desvozeada /c/ no início da palavra varia livremente com a fricativa palatal /ʃ/ e, às vezes, com a africada /ts/ ou a palatal //. Entre vogais, a sequência /č/ pode ser realizada como /yty/. No final da palavra, a consoante /c/ é realizada como a palatal alveolar /ty/.
Na língua Hupdá existem dois tons: ascendente, e alto com um alofone descendente, que só aparecem em substantivos e adjetivos. Os morfemas átonos tem um tom baixo por padrão.
Sílabas As sílabas de Hupdá possuem somente 3 formas diferentes nativas da língua, ordenadas da mais frequente para a menos frequente: ComposiçãoCVCCVVC É comum em Hupdá uma forte correspondência entre sílaba e morfema, mas a língua também permite palavras com mais de uma sílaba. No entanto, quase todas essas palavras são limitadas a duas sílabas. Com exceção dos ideófonos, apenas algumas palavras têm três ou mais sílabas. A maioria dessas palavras são nomes de pássaros ou criaturas voadoras, e provavelmente têm uma origem onomatopeica ou ideofônica (algumas podem ser emprestadas).
Características prosódicas O Hupdá tem como principais características prosódicas a nasalização e a tonicidade da palavra, que combina tom contrastivo e estresse lexical. Ambos são fonêmicos e têm a sílaba (e, em geral, o morfema) como seu principal domínio.
Nasalização Em Hupdá, a nasalização é uma característica que se aplica ao nível de morfema ou, no mínimo, ao nível de sílaba. Isso significa que cada sílaba e praticamente todo morfema são descritos como completamente nasalizados ou completamente orais. Assim, a nasalidade afeta todos os segmentos dentro desse domínio de maneira igual, e não pode ser considerada uma propriedade de cada segmento individualmente.
Todos os fonemas segmentais - com exceção dos obstruentes sem voz, que não são afetados pela nasalização - possuem variantes nasalizadas e orais, dependendo do valor nasal ou oral do morfema/sílaba em que ocorrem. Os alofones incluem [m], [n], [ñ] e [ŋ] da série de oclusivas sonoras /b/, /d/, /j/, /g/, e [m'], [n'], [ñ'] e [ŋ'] glotalizadas das oclusivas glotalizadas. Além disso, as semivogais /w/ e /y/ e as fricativas /h/ e /ç/ também são nasalizadas em contextos nasais. O mesmo acontece com as vogais, embora o sistema de nove vogais seja reduzido a seis em ambientes nasais.
Vale ressaltar que apesar de quase todos os morfemas do Hupdá serem totalmente nasais ou orais, existem alguns exemplos de palavras que são (pelo menos sincronicamente) monomorfêmicas, mas combinam uma sílaba nasal com uma sílaba oral. A maioria ou todas provavelmente são derivadas historicamente de dois morfemas, embora sincronicamente sejam lexicalizadas como um único morfema unitário.
Propagação de nasalização A propagação nasal é extremamente limitada em Hupdá. Em geral, a propagação nasal não ocorre entre os limites dos morfemas. As únicas exceções envolvem os sufixos de cópia de vogal, nos quais a vogal copiada assume a qualidade nasal ou oral da vogal da raiz juntamente com suas outras características, e casos nos quais uma forma historicamente bimorfêmica é lexicalizada novamente para formar uma forma sincronicamente monomorfêmica. Caso contrário, a propagação nasal não ocorre, mesmo entre uma raiz e um sufixo de vogal inicial não copiador.
Quando a propagação nasal ocorre como parte do processo de lexicalização - no qual ao longo do tempo uma forma bimorfêmica (geralmente um composto de substantivo ou verbo) desenvolve uma identidade como um item lexical unitário ou até monomorfêmico - ela geralmente ocorre da direita para a esquerda. Essa direcionalidade provavelmente tem a ver com o fato de que o elemento final da frase é normalmente a cabeça sintática (e semântica) do composto, e/ou com a tendência da última sílaba da palavra de carregar o acento lexical primário. Na maioria dos casos, a propagação nasal simplesmente acompanha a harmonização vocálica (que também ocorre da direita para a esquerda). Em alguns casos, no entanto, ela se aplica mesmo na ausência de qualquer processo de harmonização.
Tonicidade