miniaturadaimagem|Gentrificação com uma típica casa de campo lado a lado com uma casa de estilo arquitetónico moderno em Dallas, Texas, EUA, em 2020. A gentrificação é um processo em que o aumento do investimento num bairro eleva os valores das habitações, comércios, indústrias, e as rendas, deslocando os habitantes de baixos rendimentos devido ao aumento dos preços, pelo que estes habitantes deixam de poder viver lá. No discurso público, o termo tem sido utilizado para descrever uma vasta gama de fenómenos, em regra, com uma conotação pejorativa.

A gentrificação é um tema comum e controverso na política e no planeamento urbano (planejamento urbano). Frequentemente, aumenta o valor económico de um bairro, mas à custa de alterar a composição demográfica e de deslocar os residentes atuais. A gentrificação é mais provável quando há escassez de habitação e aumento dos preços das habitações numa área metropolitana.

O processo de gentrificação resulta, geralmente, da crescente atração de forasteiros com rendimentos mais elevados do que os dos habitantes locais, provenientes de cidades, vilas ou bairros vizinhos. Outras medidas incluem o aumento dos investimentos comerciais na área e nas suas infraestruturas por parte de promotores imobiliários, do governo local ou de ativistas comunitários, resultando em desenvolvimento económico, maior atracção de negócios e redução dos índices de criminalidade.

Origem e etimologia miniaturadaimagem|Gentrificação simbólica em Prenzlauer Berg, Berlim, Alemanha. Os historiadores afirmam que a gentrificação ocorreu na Roma Antiga e na Grã-Bretanha Romana, onde as grandes villas substituíram as pequenas lojas no século III d.C. A palavra gentrificação deriva de gentry — que vem do francês antigo gentrise, "de nascimento nobre" (século XIV) e "pessoas de nascimento nobre" (século XVI). Em Inglaterra, landed gentry denotava a classe social, composta por gentil-homens (ou cavalheiros) e gentil-mulheres (ou damas) (como estes eram conhecidos na época).

Uma base derivacional mais direta de gentrificação é o neologismo do século XIX "gentrificar", um verbo cunhado por Samuel Laing (1780-1868). Este termo refletia a mudança de atitudes sociais — especificamente, a ideia de que se podia alcançar o estatuto de classe alta através da conduta, e não do nascimento — ao mesmo tempo que introduzia conotações de consumo ostensivo e pretensão.

A socióloga britânica Ruth Glass foi a primeira a utilizar a "gentrificação" no seu sentido atual. Ela usou o termo em 1964 para descrever o influxo de forasteiros da classe média que deslocavam os habitantes operários da classe baixa nos bairros periurbanos; o seu exemplo foi Londres e os seus bairros operários, como Islington:

Definições Nos EUA, o relatório dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças, "Efeitos da Gentrificação na Saúde", define o conceito imobiliário de gentrificação como "a transformação de bairros de baixo valor para alto valor". Uma enciclopédia imobiliária define gentrificação como "o processo pelo qual bairros urbanos centrais que sofreram desinvestimentos e declínio económico experimentam uma reversão, reinvestimento e a imigração de uma população de forasteiros abastados de classe média e média-alta".

Académicos e especialistas têm aplicado uma variedade de definições à gentrificação desde 1964, algumas orientadas para os gentrificadores, outras para os deslocados e algumas uma combinação de ambas. A primeira categoria inclui a definição de Hackworth (2002): "a produção de espaço para invasores progressivamente mais ricos". A segunda categoria inclui a definição de Kasman: "a redução do espaço habitacional e comercial acessível aos habitantes de baixos rendimentos". A última categoria inclui Rose, que descreve a gentrificação como um processo "em que os forasteiros da "nova classe média" se mudam para bairros operários centrais e os remodelam física e culturalmente".

Kennedy e Leonard (2001) afirmam, no seu relatório para a Brookings Institution, que "o termo «gentrificação» é impreciso e bastante carregado de conotações políticas", sugerindo a sua redefinição como "o processo pelo qual os forasteiros de rendimentos mais elevados forçam a deportação dos habitantes de rendimentos mais baixos de um bairro, alterando o carácter e a essência desse bairro", afastando-o, assim, do processo socioeconómico distinto e saudável de "revitalização de bairros (ou urbana)", embora os termos sejam, por vezes, utilizados ​​como sinónimos. Kitis (2024) defende que o uso original do termo por Glass emprega uma metáfora de guerra para enfatizar a "deportação dos habitantes de baixos rendimentos como central — um significado de luta de classes que corre o risco de ser marginalizado no seu uso contínuo para denotar processos de «mudança urbana» ou «melhoria».

A gentrificação tem sido descrita como um ciclo natural: os ricos preferem viver nas habitações mais recentes. A cada década de crescimento de uma cidade, é construído um novo anel exterior de habitações. Quando as habitações no centro chegam ao fim da sua vida útil e se tornam baratas, os ricos gentrificam o bairro. O movimento de expansão a partir do centro da cidade continua à medida que as habitações em cada anel chegam ao fim da sua vida económica.

Causas Palen & London (1984) compilaram cinco explicações para a gentrificação desde a década de 1970:

demográfico-ecológicas: as famílias com dois assalariados de colarinho branco e menos filhos queriam viver mais perto do trabalho e, por isso, mudaram-se para o centro da cidade; socioculturais: as famílias de classe média e média-alta desenvolveram visões mais pró-urbanas, optando por viver em áreas urbanas; político-económicas: a diminuição da disponibilidade de solos urbanizáveis nos subúrbios, devido à crescente política de restrições dos zoneamentos, levou mais indivíduos com rendimentos elevados a viver em áreas urbanas; redes comunitárias: os avanços tecnológicos nos transportes e na comunicação incentivam mais pessoas a viver em comunidades de grande escala; movimentos sociais: quando as elites e as instituições de elevado estatuto procuraram revitalizar os centros urbanos, mais indivíduos com rendimentos elevados se mudaram para as cidades.

Outras explicações sugerem que, à medida que os forasteiros se cansam do estilo de vida do alastramento suburbano dependente do automóvel, mudam-se para as áreas urbanas, em particular para as habitações perto das estações de transportes públicos. O aumento de empregos profissionais nos bairros comerciais centrais aumentou a procura de habitação nas áreas urbanas, de acordo com Ley (1980). Os geógrafos críticos argumentam que os fluxos de capital e as empresas de construção têm sido fundamentais para causar a gentrificação.

A desindustrialização das cidades dos países desenvolvidos também tem provocado deportações, reduzindo o número de empregos operários disponíveis, que existiam nas cinturas industriais das cidades, para a classe operária e para a classe média baixa urbanas.

Alguns argumentam que o movimento da contracultura na década de 1960 criou desprezo pela "padronização (estandardização) de subúrbios idênticos", levando as pessoas a viver em áreas urbanas. Outros defendem que o desejo de viver perto de atrações culturais estimula a gentrificação.

Efeitos

Crime De acordo com uma revisão sistemática da investigação existente de 2020, a gentrificação nos Estados Unidos levou a uma redução a curto prazo do crime em bairros gentrificados. No entanto, observou-se que existem poucas evidências de redução de criminalidade a longo prazo e que, em regra, a gentrificação amplia as disparidades sociais relacionadas com o crime.

Deslocamento forçado miniaturadaimagem|Uma casa unifamiliar na Cidade do México, no México, foi deixada propositadamente pelo senhorio (proprietário) sem pintura para incentivar os seus inquilinos a mudarem-se, junto a uma torre de lofts ultramoderna. O deslocamento forçado é frequentemente visto como um efeito chave da gentrificação. No Reino Unido, estudos recentes sugerem que a gentrificação leva a uma deslocação excludente – ou seja, impede as famílias de baixos rendimentos de se mudarem para uma área devido aos elevados preços de arrendamento/imóveis.

Em Vancouver, no Canadá, Hogan’s Alley era uma área etnicamente diversa e predominantemente negra no Downtown Eastside, que foi demolida na década de 1960 para a construção do Viaduto Georgia. Como um distrito historicamente operário e a primeira e única comunidade negra de Vancouver, Hogan’s Alley albergava muitos habitantes que foram deslocados, resultando em perturbações na comunidade. Isto reflete a forma como a gentrificação impactou desproporcionalmente as comunidades racializadas em muitas cidades norte-americanas. Desde a década de 1970, o Downtown Eastside tem sofrido uma transformação urbana contínua. O afluxo de restaurantes e bares de luxo em comunidades historicamente marginalizadas contribuiu para a polarização dos residentes, o desinvestimento em habitações a preços acessíveis e as tensões entre diferentes grupos socioeconómicos.

Mudanças sociais miniaturadaimagem|Habitantes locais protestam contra o sobreturismo em La Rambla, Barcelona, ​​Espanha. Muitos dos efeitos sociais da gentrificação basearam-se em extensas teorias sobre a forma como o estatuto socioeconómico do bairro de um indivíduo irá moldar o seu comportamento e o seu futuro. Estes estudos levaram à ampla adopção de "políticas de mistura social" por parte dos governos de países de todo o mundo para promover o processo e os seus efeitos positivos, como a redução da pressão sobre os recursos públicos associada à desconcentração da pobreza. No entanto, pesquisas mais específicas mostraram que a gentrificação não se correlaciona com a "mistura social" e que os efeitos da nova composição de um bairro gentrificado enfraquecem toda a coesão comunitária.

A habitação confere estatuto social, e as mudanças nas normas que acompanham a gentrificação traduzem-se numa mudança na hierarquia social. O processo de gentrificação mistura pessoas de diferentes estratos socioeconómicos, congregando, assim, uma variedade de expectativas e normas sociais. A mudança que a gentrificação traz na distinção de classes também demonstrou contribuir para a polarização habitacional por rendimento, educação, composição familiar e raça. Transmite uma ascensão social que traz novos padrões de consumo, particularmente sob a forma de excesso e superfluidez, para a área, que não eram adotados pelos habitantes preexistentes. Estas normas divergentes levam a conflitos, que servem potencialmente para dividir as comunidades em transformação. Frequentemente, isto acarreta um custo social mais elevado para os habitantes originais da área gentrificada, cuja deslocação é recebida sem qualquer preocupação pela elite ou pelo governo local. Os conflitos que resultam numa maior vigilância policial, por exemplo, afetam mais negativamente as minorias jovens, que também têm maior probabilidade de serem os habitantes originais da área.