miniaturadaimagem|Mapa do Quilombo do Catucá segundo a representação do autor Marcus Carvalho em sua obra O O "Quilombo de Malunguinho: O Rei das Matas de Pernambuco". O Quilombo do Catucá - em referência à Mata do Catucá - também conhecido como Quilombo do Malunguinho, foi um quilombo formado por escravizados na Capitania de Pernambuco no século XIX.RICCI, 1998, p. 292)
Situado historicamente no século XIX (1814-1835) e geograficamente na Capitania de Pernambuco, mais especificamente no seu litoral (Região da Mata e Região Metropolitana do Recife), já que se estendia de Recife à Goiana, teve um importante papel social, político e cultural. Foi significativo para a história afro-brasileira, e também para a história regional, com a reconstrução das diversas histórias sociais que se rearranjam a partir da criação de quilombos no cenário da época.COSTA, Robson Pedrosa. Cotidiano e resistência nas últimas décadas da escravidão, Olinda, 1817 - 1888. 2007. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal de Pernambuco, Pernambuco.
Na historiografia acerca do Brasil oitocentista, Pernambuco se encontra num quadro de destaque no que diz respeito à "profusão de movimentos sociais e políticos” (CARVALHO, 2009, p. 123)CARVALHO, Marcus Joaquim Maciel de. Movimentos sociais: Pernambuco (1831-1848). In: GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo. O Brasil imperial - vol. II - 1831-1870. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 121-183.. Tais movimentos eram resultados dessas disputas intra-elites. A resistência escrava, tendo a oportunidade, se manifestava por meio de “desobediências” dentro dos engenhos, estragando as produções ou fazendo com que elas demorassem mais para acontecer, além de auxiliar em diversas fugas e na criação de quilombos.
Nesse contexto formam-se os mocambos/quilombos - “termos africanos que significavam ‘acampamentos’ em muitas microssociedades e/ou coletivos da África centro-ocidental.” (GOMES, 2016, p. 417) - e, por si só, já explicitam o seu papel histórico, visto que representam a força combatente dos escravizados para com o sistema opressor no qual estavam inseridos. O termo enfrenta, até o dias atuais, ideias preconceituosas, que afirmam que os escravizados levavam uma vida monótona, como meros fantoches, e não como o que realmente acontecera, isto é, grupos que se posicionavam e lutavam contra a escravidão que lhes era imposta.
Malungo O conceito de Malungo aplica-se particularmente aos escravizados de nação Angola, que viviam com os nação Mina, e tinham uma ligação direta aos povos de origem bantu na diáspora. No tronco linguístico bantu, com influência das línguas Kikongo, Kimbundu e Umbundu, a palavra apresenta significado diverso, podendo ser tanto “companheiro de barco”, como também “canoa grande”. Os termos possuem origem africana nos ritos e cerimônias fúnebres comuns em povos da região do Sahel, que interpretavam a travessia do Atlântico à travessia da kalunga, o "grande lago" que separava o reino dos vivos, seu continente original, do reino dos mortos. Os que sobreviviam ao Atlântico tornavam-se "Malungos", um laço que gerava uma certa irmandade entre os sobreviventes. Na Bahia de inícios do século XIX, como aponta Lucilene Reginaldo (2005), o termo “Malungo” também foi utilizado para identificar a indivíduos que falavam Kicongo (língua da nação do Congo).
História do Catucá
A formação do Quilombo do Catucá O Quilombo do Catucá, localizado nas matas próximas das áreas urbanas de Recife e Olinda, se formou provavelmente entre os anos de 1817 e 1818. A história do Quilombo do Catucá é marcada por resistência, por tensões políticas e repressão. As florestas sempre foram locais de esconderijos de escravizados que fugiam de seus senhores, e graças a localização da Floresta ou Mata do Catucá, próxima a áreas urbanas e cortada por estradas que levavam gado e algodão de diversos distritos, fazia daquela região um local estratégico para refúgio e ataques dos quilombolas, porém também facilitou para sua localização e posterior destruição por tropas imperiais.
Não é possível datar com precisão quando ocorreu a formação do Quilombo, porém pode-se assumir que as primeiras ocupações na área ocorreram em 1817, ano que ocorreu revoltas que marcaram a Revolução Pernambucana cujos revoltosos eram basicamente plantadores de algodão e cana que circulavam pelo Catucá. A história do Quilombo do Catucá, portanto, está intimamente ligada à história da Capitania de Pernambuco, pois, graças a eventos históricos que geraram grande tensão no território da Capitania, que o Quilombo teria se formado. Tais tensões políticas contribuíram para o aumento de sua população, principalmente entre 1820 e 1821 quando os proprietários de escravizados, motivados por notícias de que ocorreria uma revolução que pretendia promover uma reforma política no Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, decidiram armar boa parte da população não-branca e também seus cativos, o que facilitou a fuga dos escravizados para o Quilombo.CARVALHO. Marcus Joaquim Maciel de. O quilombo do Catucá em Pernambuco. Caderno CRH, Bahia, n. 15, (p. 5 - 28), jul./dez., 1991. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/crh/article/viewFile/18823/12193. Acesso em: 16 de fevereiro de 2021.
Repressões O fato dos negros estarem armados gerou muita tensão entre a elite pernambucana, o que fez com que o governador da Junta Pernambucana em 1821, Gervásio Pires, tornasse o tema pauta de algumas reuniões do governo. Foi publicada uma portaria em fevereiro de 1822, que determinava a extinção do Quilombo e autorizando o Capitão-mor da vila de Igarassu a armar qualquer um que se dispusesse a combater o ajuntamento de negros fugidos. A portaria também previa multas para os proprietários dos escravizados que fossem encontrados. A partir de março do mesmo ano o governo decidiu aumentar a repressão, autorizando a execução sumária dos negros que ocupavam o Quilombo. Esse aumento da repressão é fruto do crescente número de queixas da população que alegava ataques por parte dos negros, além de um levante de negros contra seus senhores em locais próximos ao Quilombo.
Combater fugas em massa de escravizados ou seus agrupamentos não era algo fácil, era necessário alto investimento financeiro, algo que nem todo senhor de escravos poderia ofertar, além de todo um aparato de tropas (imperiais ou financiadas por senhores de escravos) e de armas. Para garantir o necessário para enfrentar os escravizados reunidos em quilombos, como do Catucá, era necessário que a Elite estivesse unida, pois assim não só teriam maior aparato do Estado, como também melhor colaboração entre os escravistas, o que permitia mais investimentos nas políticas de repressão. Portanto, as disputas e tensões políticas na Capitania, e posteriormente na Província de Pernambuco e no Brasil como um todo, levaram a uma divisão na elite pernambucana o que causou uma desorganização dos aparelhos repressivos, facilitando a fuga de escravizados e a formação de quilombos na província, incluindo o Quilombo do Catucá.
Em 1822, o Quilombo havia sobrevivido aos golpes de Gervásio Pires, mas o novo governo, a Junta dos Matutos, continuou a política de repressão contra o Quilombo, mas desta vez com foco em cercar as matas e cortar o acesso dos quilombolas à suprimentos. O novo governo conseguiu prender muitos negros que faziam parte do Quilombo, mas em 1823 uma boa parte desses negros foram soltos durante a chamada Pedrosada, uma revolta do militar Pedro Pedroso. Ele fez questão de soltar muitos não-brancos e de prender os europeus. Porém na metade de 1823, o Quilombo volta a ser alvo de uma pesada repressão que dura seis dias, em que poucos negros conseguiram escapar. Em 1824, no contexto das lutas entre o governo brasileiro e a Confederação do Equador, o Quilombo vivenciou um novo crescimento populacional, mas findado o movimento, voltou a ser o foco de repressão e dessa vez até com apoio de alguns indígenas.
A partir de 1825, a classe senhorial, com apoio do General Lima e Silva, Presidente da Província de Pernambuco, utilizou a mesma tropa com que combateu os confederados no Equador para combater os quilombolas. Foi a repressão mais eficaz até então, porém não destruiu por completo o quilombo. A proximidade do Catucá com o Recife e com os relatos de vítimas, além da prisão de quilombolas nas freguesias próximas às matas, fez com que as autoridades levassem o problema ao conselho do governo após uma representação feita por diversos senhores de engenho. O Conselho de governo reconheceu a necessidade de combater o Quilombo do Catucá e para isso dispôs de diversos recursos do Estado, como armas do exército e pagamento de soldo para milicianos e às ordenanças (posteriormente guardas-nacionais). Todo o aparato disponibilizado pelo Estado permitiu repressões mais duras, entre 1826 a 1837. Os quilombolas de Catucá eram organizados e representavam uma "resistência formal”, inspirada na rebelião que ocorreu em Salvador em 1826. De acordo com documentos do Conselho de Governo, os quilombolas pretendiam atacar o Recife, o que fez com que uma operação de grande porte fosse realizada.
Os guerrilheiros negros conheciam a floresta e graças a informações de fora conseguiam se adiantar as tropas senhoriais e imperais. Eles desenvolveram técnicas como se esconder na mata fechada, nas grotas, nos mangues próximos à costa e nas ilhotas dos rios da área, e algumas vezes até saiam da mata, o que aumentava a preocupação das diligências de cercar as matas. Em 1829, os quilombolas estavam fortes o suficiente para tomarem a iniciativa na guerra de guerrilhas; por duas vezes realizaram ataques surpresa contra tropas mandadas para as matas. Os quilombolas resistiram às investidas dos senhores de engenho e até mesmo ao desmatamento de colonos alemães, que acabou por revelar alguns de seus esconderijos.
Estilo de vida dos quilombolas Um oficial que comandou a operação encontrou muitas lavouras, casas e mucambos, o que mostra que houve a oportunidade dos rebeldes de construírem uma vida semi-sedentária, com formação de famílias, uma unidade básica para a formação da noção de liberdade dos escravizados. Mas as fortes e constantes repressões a partir de 1826 tornou muito difícil essa sedentarização e a prática de uma agricultura mais variada, indo além da mandioca. A partir de 1826, os quilombolas tornaram-se mais móveis e passaram a se deslocar em grupos menores, sendo importante destacar o fato de que as mulheres participavam das operações.
Liderança Apesar dos constantes ataques, foi possível aos quilombolas construir uma hierarquia mais ou menos sólida em várias épocas, o que evidencia a complexidade alcançada pelo Catucá. Em uma ou outra diligência, menciona-se a captura de uma pessoa descrita como chefe dos demais em 1835. Após a mais destrutiva diligência contra o quilombo, um documento afirma que dois dos líderes do Catucá foram presos, sendo que um deles era filho de um antigo chefe que morreu em batalha. Esse documento foi o mais revelador a respeito da formação de uma hierarquia estável. A liderança passada de pai para filho confirma a relativa estabilidade do Quilombo, apesar dos constantes ataques das tropas senhoriais.