thumb|Congresso Nacional, durante o Dia Mundial da Conscientização do Autismo em 2019 O autismo no Brasil é um conjunto de manifestações em torno do autismo no país sul-americano desde o século XX. Foi introduzido por meio da psiquiatria infantil com influência predominante da psicanálise no atendimento médico, em meados da década de 1950. O desenvolvimento de uma comunidade com base no autismo foi tardio, com a fundação da Associação de Amigos do Autista (AMA) em 1983. Desde então, o autismo se tornou um tema de interesse de familiares, profissionais da saúde e de pessoas autistas.

Antes de existirem iniciativas voltadas ao diagnóstico, o autismo surgiu em pautas de jornais traduzidas por agências de notícias. Na década de 1970, surgiram alguns dos primeiros congressos e instituições voltadas ao autismo. Na década de 1980, o transtorno começa a ganhar maior visibilidade pública com o surgimento de associações fundadas por mães e pais, como a AMA e, mais tarde, a Associação Brasileira de Autismo (Abra). Nas décadas de 1990 e 2000, a popularização do autismo se desenvolve em diferentes estados do país, ao passo que as primeiras legislações foram desenvolvidas. No final dos anos 2000, começou-se a discutir a criação de uma lei nacional sobre autismo. Nos anos 2010, foi sancionada a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, ao passo que pessoas autistas passaram a participar com maior ênfase do ativismo institucional, além da criação de mídias sobre o autismo.

O cenário do autismo no Brasil também é caracterizado por tensões e conflitos entre ativistas e organizações em temas como intervenções em saúde, educação especial e representação do autismo. Em declarações públicas, também é comum o uso da expressão "autista" como insulto por pessoas públicas. Dados do Censo demográfico do Brasil de 2022 indicaram que 2,4 milhões de brasileiros declararam ter diagnóstico de autismo.

Descrições e estatísticas Ao observarem o panorama histórico, os pesquisadores Francisco Ortega, Rafaela Zorzanelli e Clarice Rios afirmam que o autismo no Brasil representa um cenário de "guerras" que se inserem na definição do que é o autismo, nas políticas de saúde mental e nas narrativas midiáticas. Os autores também destacam que, historicamente, a psicanálise foi perdendo espaço, ao passo que abordagens comportamentais foram se tornando as principais no meio. Em 2022, o Ministério da Saúde descrevia o autismo como "um distúrbio caracterizado pela alteração das funções do neurodesenvolvimento do indivíduo, interferindo na capacidade de comunicação, linguagem, interação social e comportamento", com ênfase em diagnóstico precoce e "desenvolvimento de estímulos".

Números da Abra em 1997 estimavam 600 mil pessoas com o chamado "autismo clássico" no Brasil. Em fevereiro de 2011, foi publicado o primeiro estudo de epidemiologia de autismo da América Latina,Paula CS, Ribeiro SH, Fombonne E, Mercadante MT. Brief Report: Prevalence of Pervasive Developmental Disorder in Brazil: A Pilot Study. J Autism Dev Disord. 2011 Feb 21; com dados de 2010, liderado pelo psiquiatra da infância Marcos Tomanik Mercadante. Os números se basearam num projeto-piloto com amostragem de 20 mil pessoas num bairro da cidade paulista de Atibaia, e aferiu a prevalência de um caso de autismo para cada 368 crianças de 7 a 12 anos. Nos anos seguintes, diferentes estimativas sobre o autismo no Brasil foram apresentadas com base nos números do Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos. Em 2014, estimava-se 2 milhões de brasileiros autistas, enquanto em 2023 o número subiu para quase 6 milhões.

Em 2019, para cobrir a lacuna do número de autistas no Brasil, foi sancionada a Lei 13.861/19, que visava prover dados oficiais sobre o país. Por isso, o Censo demográfico do Brasil de 2022 foi o primeiro a conter informações sobre o autismo e indicou que 2,4 milhões de brasileiros declararam ter recebido o diagnóstico de autismo.

Em termos demográficos do Censo mais recente, a distribuição de casos de autismo é semelhante em todas as regiões do Brasil. Em relação à faixa etária, cerca de 1,1 milhão de pessoas autistas tinham de 0 a 14 anos de autismo, com um maior percentual de diagnóstico na população masculina, com uma maior equivalência de diagnóstico entre homens e mulheres a partir dos 45 anos. A prevalência de autismo também foi indicada com maior quantidade em pessoas autodeclaradas brancas. Em relação à escolarização, a taxa foi maior que na população em geral, especialmente por conta da maior concentração de pessoas diagnosticadas com autismo na infância.

História 1950–1980: Antecedentes De acordo com a historiadora Bruna Alves Lopes, há poucos registros sobre autismo no Brasil até a década de 1980. Durante a década de 1940, quando o trabalho do psiquiatra Leo Kanner inseriu o autismo enquanto diagnóstico independente, o Brasil já contava com uma influência significativa da psicanálise no atendimento infantil. O campo psicanalítico iniciou sua penetração no país nos anos 1920 e alcançou uma hegemonia dentro da própria psiquiatria em meados de 1950. Ao mesmo tempo, a ideia de que a causa do autismo era a falta de vínculo dos pais (especialmente mães) com a criança surgiu com Kanner em 1948, mas foi o psicanalista Bruno Bettelheim quem desenvolveu-a ao longo das décadas de 1950 e 1960.

No Brasil, as primeiras publicações jornalísticas sobre autismo eram formadas de matérias traduzidas por agências de notícias de países como os Estados Unidos e Reino Unido e caracterizavam o diagnóstico enquanto doença. Uma parte delas era influenciada por um viés psicanalítico, ao considerar crianças autistas como pertencentes a pais frios e distantes, outra parte abordava-o como um dos sintomas da esquizofrenia. O pensamento de Bettelheim teve influência significativa no conteúdo jornalístico destes períodos, com raras exceções que citam o trabalho de Kanner e até abordagens comportamentalistas. A maioria delas não cita papéis relevantes e positivos em relação aos familiares de autistas.

Ao mesmo tempo, o campo profissional em torno do autismo estava alinhado ao atendimento da psiquiatria infantil e da deficiência infantil, de forma geral. Em 1956, era criada a Associação Paulista de Psiquiatria Infantil e Higiene Mental, e em 1965 a Associação Brasileira de Deficiência Mental. Na cidade de Porto Alegre (RS), surgiu em 1963 a Comunidade Terapêutica Leo Kanner. Para grande parte da população, o atendimento de autistas ocorria em instituições não especializadas, como a Sociedade Pestalozzi, fundada em 1932, e a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), com unidades em todo o país, e organizada em 1962.

Durante a década de 1970, as discussões sobre o autismo no Brasil começam a se intensificar, o que culminaria, anos depois, na formação de uma comunidade. Ainda em junho de 1970, o Centro de Estudos da Casa de Saúde Dr. Eiras, no Rio de Janeiro, promoveu um debate sobre o diagnóstico a partir de um filme. Eventos similares começaram a ocorrer ao longo dos anos em instituições pelo país, como rodas de conversas baseadas em filmes sobre o autismo, palestras, congressos e cursos promovidos por profissionais nacionais e internacionais da psiquiatria e de outros campos do conhecimento, bem como a publicação das primeiras pesquisas nacionais sobre o autismo. As publicações jornalísticas deste período passaram a mencionar mais frequentemente a contribuição familiar no tratamento do autismo. No Rio de Janeiro, em 1978, foi fundada a Casa Azul, provavelmente a primeira organização de atendimento terapêutico exclusivo à crianças autistas no Brasil, com influência psicanalítica. No mesmo ano e na mesma cidade, também foi fundado o Centro de Educação Especial Casarão por uma mãe de uma criança autista.

1980–1993: Primeiras associações e movimentos de familiares O autismo, enquanto movimento, começa a se consolidar no Brasil a partir da década de 1980. Foi neste período que familiares, especialmente mães, descontentes com a culpa recebida pela condição dos filhos, começaram a se organizar para conseguir acesso a serviços de saúde. Especialmente em grandes capitais, como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, familiares passaram a escrever cartas para grandes jornais, como o Jornal do Brasil, e chamar a atenção do poder público para a causa do autismo.

Em abril de 1980, a Rede Globo exibiu o filme Son-Rise: a Miracle of Love, que foi um sucesso de audiência e motivou a emissora a reprisá-lo várias vezes ao longo da década. Alguns familiares de autistas chegaram a afirmar que o filme teria sido um marco para o conhecimento do autismo na década. O filme, no entanto, destaca um programa terapêutico chamado Son-Rise, que ao longo dos anos foi demonstrado como ineficaz no tratamento do autismo. thumb|esquerda|Marisa Furia (em foto de 2013) foi uma das fundadoras da AMA A primeira associação de autismo do Brasil legalizada foi a Associação de Amigos do Autista (AMA), fundada em 1983 por Marisa Fúria e Ana Maria Ros de Melo e formada por clientes do médico Raymond Rosenberg, que tinham em comum a angústia de não ter informações mais aprofundadas sobre o diagnóstico e tratamento de seus filhos. As primeiras reuniões se deram no consultório de Rosenberg e, pouco tempo depois, a organização mantinha uma escola cujo funcionamento se dava no quintal de uma Igreja Batista. Também há relatos de familiares ativistas de que, no mesmo período, em cidades como Belo Horizonte e Rio de Janeiro já existiam associações de autismo sem registro legal.

A partir da segunda década de 1980, as organizações pioneiras de autismo tinham, como característica em comum, uma busca pela internacionalização e também pela divulgação do autismo em território nacional. A AMA conseguiu o apoio do ator Antônio Fagundes, que gravou gratuitamente em 1987 um comercial televisivo de circulação nacional sobre o diagnóstico. Neste período, familiares ativistas viajavam para países do exterior para aprenderem novas formas de tratamento e buscar recursos. Os pais tinham vários pesquisadores referenciais. Um deles era Bernard Rimland. Além disso, o trabalho de Ole Ivar Lovaas com a Análise do comportamento aplicada também começou a ser disseminado. Originalmente, o movimento do autismo esteve concentrado na figura de mães e pais de autistas, uma tendência que se seguiu ao longo das décadas. Outros fenômenos também começaram a contribuir para a fomentação do cenário do autismo no Brasil durante a criação da Nova República, como a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) com a Constituição brasileira de 1988 e a reforma psiquiátrica.

Em 1988, era fundada em Belo Horizonte a Associação Brasileira de Autismo (Abra), com a adesão inicial de pequenas organizações de outros estados do Brasil com o objetivo de consolidar um movimento de representação nacional. Sob este mesmo caráter unificador, a Associação Terapêutica Educacional para Crianças Autistas (Asteca) promoveu em 1989 o I Congresso Nacional de Autismo juntamente com outras organizações (com um público de cerca de 1300 pessoas). Naquele ano, já existiam 23 associações de autismo no país. Em 1991, a segunda edição do congresso contou com mais de 2000 pessoas, palestrantes nacionais e figuras internacionais como o psiquiatra e psicanalista René Diatkine e também Eric Schopler, criador do programa em inglês Treatment and Education of Autistic and Related Communication Handicapped Children (TEACCH). Durante o evento, Schopler, com base nas pesquisas da época, promoveu críticas ao uso da psicanálise para tratamento de autismo. A AMA implantou TEACCH pelos anos subsequentes, com a supervisão de profissionais estrangeiros.