O bombardeio ou bombardeamento de Berlim foi uma série de bombardeamentos militares efetuados contra a capital da Alemanha Nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Berlim foi alvo de 363 ataques aéreos entre 1940 e 1945 feitos pelo Comando de Bombardeiros da RAF, pela Oitava Força Aérea da USAAF, pela Força Aérea Francesa e pela Força Aérea Soviética como parte da campanha Aliada de bombardeios estratégicos da Alemanha. Bombardeiros britânicos lançaram 45.517 toneladas de bombas, enquanto os aviões estadunidenses lançaram 23 mil toneladas. À medida que os bombardeios continuavam, mais e mais pessoas fugiam da cidade. Em maio de 1945, 1,7 milhão de pessoas (40% da população) havia deixado Berlim.
Primeiros anos Com o início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, o Presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, fez um pedido aos países beligerantes para limitar seus ataques aéreos a alvos militares.President Franklin D. Roosevelt Appeal against aerial bombardment of civilian populations, 1º de setembro de 1939. Os franceses e os britânicos concordaram em acatar o pedido, com a condição de que fosse "sob o entendimento de que essas mesmas regras de guerra seriam escrupulosamente observadas por todos".
No começo da guerra, o Reino Unido tinha uma política de usar bombardeios aéreos apenas contra alvos militares e construções de infraestrutura de importância militar direta, como portos e ferrovias. Incialmente, o governo britânico evitou o bombardeio deliberado de propriedades civis, fora das zonas de combate. Essa política foi abandonada em 15 de maio de 1940, dois dias depois do ataque aéreo alemão a Rotterdam, quando a RAF recebeu permissão para atacar alvos civis no Ruhr, incluindo usinas de petróleo e outros alvos industriais que eram importantes para o esforço de guerra alemão. O primeiro ataque da RAF a Alemanha ocorreu na noite de 10 para 11 de maio de 1940, em Dortmund. O avião Júlio Verne, uma variante do Farman F.220 da Aviação Naval Francesa, foi o primeiro bombardeiro aliado a atacar Berlim. Na noite de 7 de junho de 1940, ele lançou oito bombas de 250 kg e oitenta de 10 kg sobre a capital alemã.
Entre 1939 e 1942, a política de bombardear apenas alvos de importância militar direta foi gradualmente sendo abandonada em favor do "bombardeio por zona". Assim, iniciaram-se bombardeios em grande escala de cidades alemãs com o objetivo de destruir também edifícios residenciais e construções de infraestrutura civil. Embora matar civis alemães nunca tenha sido um objetivo deliberado, era evidente que o bombardeio de uma região inteira causaria vítimas civis em grande escala.* Com a tecnologia disponível na época, o bombardeio de precisão de alvos militares só era possível à luz do dia (o que já era difícil). Porém, os bombardeios diurnos levavam a altas perdas de aeronaves britânicas, por isso a preferência era fazer os ataques no período noturno. O ataque noturno, todavia, também apresentava muitas dificuldades de navegação e uma alta imprecisão no lançamento das bombas.
1940 a 1943 esquerda|miniaturadaimagem|Em Londres, pessoas observam um mapa que ilustrava como a RAF atacava a Alemanha durante o ano de 1940 direita|miniaturadaimagem|Um grupo de trabalho limpa os escombros de um ataque aéreo a Berlim, 13 de outubro de 1940 Antes de 1941, Berlim (que fica a 950 quilômetros de Londres), estava no limite alcançável pelos bombardeiros britânicos então disponíveis. No verão, os dias eram mais longos e o céu claro aumentando o risco para os bombardeiros aliados. Nessa época do ano, os bombardeios eram feitos somente à noite.
O primeiro ataque da RAF a Berlim ocorreu na noite de 25 de agosto de 1940. Nessa ação, 95 aeronaves foram enviadas para bombardear o aeroporto de Tempelhof, próximo ao centro de Berlim. 81 desses aviões conseguiram cumprir seus objetivos, despejando bombas dentro e ao redor de Berlim. Embora os danos desse primeiro ataque fossem leves, o efeito psicológico causado em Hitler foi considerável. Os bombardeios em Berlim levaram o ditador nazista a ordenar que a Luftwaffe deixasse de atacar os aeródromos e defesas aéreas britânicas e passasse a bombardear as cidades da Inglaterra. Essa mudança ocorreu em um momento da Batalha da Grã-Bretanha nas quais as defesas aéreas britânicas estavam se esgotando e sobrecarregadas, e as ordens de Hitler ajudaram a aliviar a pressão sobre os alvos militares britânicos.
Nas duas semanas seguintes, houve mais cinco ataques de tamanho semelhante, todos visando alvos específicos, mas com as dificuldades da navegação noturna, as bombas lançadas se espalharam por diversos pontos. Durante 1940, houve outros ataques a Berlim, todos com poucos danos. Os bombardeios tornaram-se mais frequentes em 1941, mas tiveram pouca eficácia em atingir alvos importantes. O chefe do Estado-Maior da RAF, Charles Portal, justificou essas incursões dizendo que "tirar quatro milhões de pessoas da cama e colocá-las nos abrigos" compensava a perda de algumas aeronaves.
A União Soviética iniciou uma campanha de bombardeio de escala limitada em Berlim em 8 de agosto de 1941, que se estendeu até o início de setembro. Saindo da ilha de Saaremaa, bombardeiros soviéticos conduziram dez ataques a capital alemã com 3 a 12 aeronaves em cada missão. Bombardeiros pesados da Força Aérea Soviética, operando desde Leningrado, executaram um ataque a Berlim em 11 de agosto, com apenas alguns aviões chegando ao objetivo. No total, em 1941, as aeronaves soviéticas lançaram 36 toneladas de bombas em Berlim. Os soviéticos perderam em combate 17 aeronaves e 70 pilotos e tripulantes foram mortos.
Em 7 de novembro de 1941, Richard Peirse, chefe do Comando de Bombardeiros da RAF, lançou uma grande ofensiva a Berlim, enviando mais de 160 bombardeiros à capital. 21 foram abatidos ou caíram e poucos danos foram causados à cidade, principalmente devido ao mau tempo que dificultava a navegação aérea. Esse fracasso levou à demissão de Peirse e sua substituição, em fevereiro de 1942, por Arthur Travers Harris, que acreditava na eficácia e na necessidade de bombardeios por zona. Harris afirmou: "Os nazistas entraram nesta guerra com a ilusão, um tanto infantil, de que iriam bombardear todo mundo e ninguém iria bombardeá-los. Em Rotterdam, Londres, Varsóvia e meia centena de outros lugares, eles colocaram em prática sua teoria ingênua. Eles semearam o vento e agora vão colher o vendaval".
Ao mesmo tempo, novos bombardeiros com alcance mais longo estavam entrando em serviço, particularmente o Avro Lancaster, que se tornou disponível em grande número em 1942. Durante a maior parte de 1942, no entanto, a prioridade do Comando de Bombardeiros foi atacar os portos de submarinos alemães como parte do esforço da Grã-Bretanha para vencer a Batalha do Atlântico. Durante todo o ano de 1942, houve apenas nove ataques aéreos em Berlim, nenhum deles de grande proporção. Somente em 1943, Harris teve os meios e a oportunidade de colocar em prática sua convicção da utilidade do bombardeio por zona.
A batalha aérea de Berlim
A chamada "batalha aérea de Berlim" foi uma ofensiva aérea britânica iniciada em novembro de 1943 contra a capital alemã. Além da capital. outras cidades continuaram ser atacadas para evitar que os alemães concentrassem suas defesas em Berlim. O comandante da RAF, Arthur Harris, acreditava que esse poderia ser o golpe que quebraria a resistência alemã: “Isso vai nos custar entre 400 e 500 aeronaves” afirmou, "Mas também vai custar a Guerra à Alemanha". A essa altura, os britânicos já tinham a sua disposição 800 bombardeiros de longo alcance, equipados com novos e mais sofisticados dispositivos de navegação, como o radar H2S. Entre novembro de 1943 e março de 1944, o Comando de Bombardeiros fez dezesseis ataques de grandes proporções a Berlim.
Um prelúdio dos grandes ataques de 1943 foi feito por bombardeiros De Havilland Mosquitos que atacaram a capital alemã em 30 de janeiro de 1943, data do décimo aniversário da ascensão nazista ao poder. Naquele dia, Göring e Goebbels fizeram discursos transmitidos ao vivo pelo rádio. Precisamente às 11h, os De Havilland Mosquitos do esquadrão 105 da RAF chegaram a Berlim a tempo de interromper o discurso de Göring. Mais tarde, o esquadrão 139 da RAF repetiu a ação com Goebbels. Esses ataques tiveram um enorme impacto de propaganda, gerando um enorme embaraço para a liderança alemã. 20 de abril de 1943 era o aniversário de 54 anos de Hitler. O Comando de Bombardeiros da RAF decidiu que deveria "celebrar" a ocasião com uma incursão em Berlim. Os De Havilland Mosquitos foram os escolhidos para o trabalho. Assim, o esquadrão 105 da RAF foi enviado para a capital alemã, tendo sucesso em alcançar a cidade com a perda de apenas uma aeronave. direita|miniaturadaimagem|A Igreja da Reforma em Moabit, danificada na noite de 22-23 de novembro de 1943 O primeiro bombardeio da batalha ocorreu na noite de 18 para 19 de novembro de 1943. Berlim era o alvo principal e foi atacada por 440 Avro Lancasters, auxiliados por quatro De Havilland Mosquitos. A cidade estava com céu encoberto por nuvens e os danos não foram graves. O segundo grande ataque ocorreu na noite de 22 para 23 de novembro. Esse foi o ataque mais destrutitivo da RAF em Berlim. Os bombardeios causaram grandes danos nas áreas residenciais na parte ocidental da cidade, deixando quase destruídos os bairros de Tiergarten, Charlottenburg, Schöneberg e Spandau. Devido às condições de tempo seco, tempestades de fogo se iniciaram. A Igreja Memorial Kaiser Wilhelm ficou em ruínas. Vários outros edifícios importantes ficaram danificados ou destruídos, incluindo as embaixadas britânica, francesa, italiana e japonesa, o Palácio de Charlottenburg e o Zoológico de Berlim, assim como o Ministério de Armamentos e Munições, o Colégio Administrativo da Waffen SS, o quartel da Guarda Imperial em Spandau e várias fábricas de armas.
Em 17 de dezembro, grandes danos foram causados ao sistema ferroviário de Berlim. A essa altura, o efeito cumulativo da campanha de bombardeio havia deixado mais de um quarto do total de residências de Berlim inutilizáveis. Houve outro grande ataque em 28 e 29 de janeiro de 1944, quando as regiões oeste e sul de Berlim foram severamente atingidas. Nos dias 15 e 16 de fevereiro, importantes indústrias de guerra foram atingidas, incluindo a grande região de Siemensstadt, com os distritos do centro e sudoeste sofrendo a maior parte dos danos. Esse foi o maior ataque da RAF a Berlim. Os ataques continuaram até março de 1944. direita|miniaturadaimagem|Um bombardeiro B-17 é atingido por um lançamento de bomba mal calculado em Berlim, em maio de 1944. Todos os 11 tripulantes morreram. Essas ofensivas causaram grande destruição e perda de muitas vidas em Berlim. O ataque de 22 de novembro de 1943 matou dois mil berlinenses e deixou outros 175 mil desabrigados. Na noite seguinte, mil foram mortos e cem mil ficaram desabrigados. Entre dezembro e janeiro, ataques quase diários mataram centenas de pessoas e deixaram entre vinte mil e oitenta mil desabrigados em cada noite de bombardeio. No total, quase 4 mil morreram, dez mil se feriram e 450 mil ficaram desabrigados.
Os dezesseis ataques a Berlim deixam cerca de 500 aviões da RAF destruídos, com seus tripulantes mortos ou capturados. Foi uma taxa de perda de 5,8%, que ficou acima dos 5%, que era a taxa máxima de perda operacional sustentável desejada pela RAF. Em dezembro de 1943, por exemplo, onze tripulantes do Esquadrão No. 460 RAAF foram perdidos em operações contra Berlim; e em janeiro e fevereiro, outras catorze tripulações foram mortas. Se continuassem com essa taxa de perdas, o Comando de Bombardeiros teria sido aniquilado antes da queda de Berlim. Foi amplamente reconhecido que a batalha aérea de Berlim fracassou. Para a RAF, historiadores oficiais britânicos afirmaram que "em um sentido operacional, A batalha aérea de Berlim foi mais do que um fracasso, foi uma derrota".
Março de 1944 a abril de 1945