Na medicina e antropologia médica, uma síndrome ligada à cultura, síndrome específica da cultura, síndrome cultural ou doença popular é uma combinação de sintomas psiquiátricos e somáticos que são considerados doenças reconhecíveis apenas em uma sociedade ou cultura específica. Geralmente considera-se que não há alterações bioquímicas ou estruturais objetivas dos órgãos ou funções do corpo, e a doença não é reconhecida em outras culturas. O termo culture-bound syndrome foi incluído na quarta versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (American Psychiatric Association, 1994), que também inclui uma lista das doenças ligadas à cultura mais comuns (DSM-IV: Apêndice I). As contrapartidas no âmbito da CID-10 (Capítulo V) são os transtornos específicos da cultura definidas no Anexo 2 dos Critérios de diagnóstico para pesquisa.Finerman, Ruthbeth. "Culture-specific disorders". In OMS (1993). Diagnostic criteria for research, p. 213–225.
Mais amplamente, uma endemia que pode ser atribuída a certos padrões de comportamento dentro de uma cultura específica por sugestão pode ser referida como uma potencial epidemia de comportamento. Como nos casos de uso de drogas ou abuso de álcool e fumo, a transmissão pode ser determinada por reforço comunitário e interações pessoa a pessoa. Por motivos etiológicos, pode ser difícil distinguir a contribuição causal da cultura sobre a doença de outros fatores ambientais, como toxicidade. O reconhecimento de condições específicas a culturas como objeto de estudo e a análise de fatores sociais levaram ao desenvolvimento da psiquiatria transcultural.
Um exemplo de sintomatologia influenciada por cultura foi a neurastenia na Europa do século XIX, cuja interpretação era baseada nas tendências da Revolução Industrial, persistindo hoje como moléstia de herança colonial em sistemas diagnósticos do Sudeste Asiático e China (por exemplo, sob o nome shenjing shuairuo).
Identificação Uma síndrome culturalmente específica é caracterizada por:
categorização como uma doença na cultura (ou seja, não é um comportamento voluntário ou uma afirmação falsa); familiaridade generalizada na cultura; a condição é geralmente reconhecida e tratada pela medicina popular da cultura.
Algumas síndromes específicas de cultura envolvem sintomas somáticos (dor ou função alterada de uma parte do corpo), enquanto outras são puramente comportamentais. Algumas síndromes ligadas à cultura aparecem com feições semelhantes em várias culturas, mas com características locais específicas, como pânicos do pênis.
Uma síndrome cultural específica não é o mesmo que uma doença localizada geograficamente com anormalidades de tecido específicas, identificáveis e causais, como kuru ou doença do sono, ou condições genéticas limitadas a certas populações. Embora possam estar envolvidos fatores totalmente sociais em alguns casos, sem anormalidades bioquímicas ou teciduais objetivamente demonstráveis (sinais), é possível que uma condição originalmente assumida como uma síndrome comportamental ligada à cultura tenha uma causa biológica; de uma perspectiva médica, seria então redefinida em outra categoria nosológica.
A CID considera em seu anexo que transtornos considerados específicos da cultura não são facilmente acomodados pelas categorias utilizadas em classificações psiquiátricas internacionais e que estão associados primariamente ou exclusivamente a uma população ou área cultural. No entanto, é notado que esse conceito é controverso: "muitos pesquisadores argumentam que eles diferem apenas em grau dos transtornos já incluídos nas classificações psiquiátricas existentes, como transtornos de ansiedade e reações ao estresse, e que, portanto, são mais bem considerados como variações locais de transtornos há muito reconhecidos. Sua ocorrência exclusiva em populações específicas ou áreas culturais também tem sido questionada". Assim, a familiaridade de uma doença em uma cultura pode ser traduzível a pessoas de outras culturas e relacionadas a doenças já existentes, compreensíveis dentro de diferentes sistemas médicos.
Perspectivas médicas A Associação Americana de Psiquiatria afirma o seguinte: O termo síndrome ligada à cultura é controverso, pois reflete as diferentes opiniões de antropólogos e psiquiatras.Perry, S. (13 de janeiro de 2012). The controversy over 'culture-bound' mental illnesses. MinnPost. Os antropólogos tendem a enfatizar as dimensões relativísticas e específicas da cultura das síndromes, enquanto os médicos tendem a enfatizar as dimensões universais e neuropsicológicas. Guarnaccia e Rogler (1999) argumentaram a favor da investigação das síndromes ligadas à cultura em seus próprios termos e acreditam que as síndromes têm integridade cultural suficiente para serem tratadas como objetos independentes de pesquisa.
Alguns estudos sugerem que as síndromes ligadas à cultura representam uma maneira aceitável dentro de uma cultura específica (e contexto cultural) entre certos indivíduos vulneráveis (por exemplo, um ataque de nervios em um funeral em Porto Rico) para expressar sofrimento após uma experiência traumática. Uma manifestação similar de angústia quando deslocada para uma cultura médica norte-americana pode levar a um resultado muito diferente, até mesmo adverso, para um determinado indivíduo e sua família. A história e etimologia de algumas síndromes, como a síndrome de "brain-fag" (estafa-mental), também têm sido reatribuída à Grã-Bretanha vitoriana do século XIX, em vez da África Ocidental.
Em 2013, o DSM 5 abandonou o termo síndrome ligada à cultura, preferindo o novo nome “Conceitos Culturais de Sofrimento” ou "de Desajustamento Psicológico/de Mal Estar" (Cultural Concepts of Distress).
Lista do DSM-IV-TR A quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais classifica as síndromes abaixo como síndromes ligadas à cultura: Nome Localização geográfica/populações Amok Brunei, Singapura, Malásia, Indonésia, Filipinas, Timor-Leste Ataque de nervos Latinos Bilis, cólera Bouffée délirante África Ocidental e Haiti Síndrome de brain fag Estudantes da África Ocidental Síndrome de Dhat Índia Falling-out, desmaio Sul dos Estados Unidos e Caribe Doença fantasma Nativos americanos Hwabyeong Coreanos Koro Populações chinesas, malaias e indonésias no sudeste da Ásia; Assam; ocasionalmente no oeste Latah Malásia e Indonésia, bem como as Filipinas (como mali-mali, particularmente entre tagalogues) Locura Latinos nos Estados Unidos e na América Latina Mal de pelea Porto Rico Nervios América Latina, latinos nos Estados Unidos, Filipinas Mau-olhado Mediterrâneo; populações hispânicas e Etiópia Piblokto Populações inuítes árticas e subárticas Zou huo ru mo (reação psicótica do Qigong) Chineses han Rootwork Sul dos Estados Unidos, nações caribenhas Sangue dormido Populações portuguesas em Cabo Verde Shenjing shuairuo Chineses han Shenkui, shen-kʼuei Chineses han Shinbyeong Coreanos Feitiço Afro-americanos, populações brancas no sul dos Estados Unidos e Etiópia Susto Latinos nos Estados Unidos ; México, América Central e América do Sul Taijin kyofusho Japoneses Zār Etiópia, Somália, Egito, Sudão, Irã e outras sociedades do Norte da África e do Oriente Médio
Lista do DSM-5 A quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais classifica as síndromes abaixo como conceitos culturais de sofrimento, um conceito intimamente relacionado: Nome Localização geográfica/populações Ataque de nervios América Latina Síndrome de Dhat Índia Khyâl cap Cambojano Doença fantasma Americano nativo Kufungisisa Zimbábue Maladi moun Haiti Nervios América Latina, latinos nos Estados Unidos Shenjing shuairuo Chineses han Susto Latinos nos Estados Unidos ; México, América Central e América do Sul Taijin kyofusho japonês
Lista da CID-10 A 10ª revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID) classifica as seguintes síndromes como transtornos específicos da cultura:Diagnostic criteria for research, p. 213–225 (WHO 1993) Nome Localização geográfica/populações Amok Austronésios do sudeste asiático Síndrome de Dhat (dhātu), shen-kʼuei, jiryan Índia; Taiwan Koro, suk yeong, jinjin bemar Sudeste Asiático, Índia, China Latah Malásia e Indonésia Ataque de nervios México, América Central e América do Sul Pa-leng (frigofobia) Taiwan; Sudeste da Ásia Pibloktoq (histeria ártica) Inuítes vivendo dentro do Círculo Polar Ártico Susto, espanto México, América Central e América do Sul Taijin kyofusho, shinkeishitsu (antropofobia) Japão Ufufuyane, saka Quênia; África Austral (entre bantus, zulus e grupos afiliados) Uqamairineq Inuítes vivendo dentro do Círculo Polar Ártico Medo de Windigo Povos indígenas do nordeste da América
Fenômenos vinculados ao contexto brasileiro Estas especificações populares de culturas no Brasil já foram consideradas "síndromes culturais": Nome Localização geográfica / populações DescriçãoDom de fala (glossolalia)Grupos religiosos pentecostaisFenômeno de linguagem incompreensível, atribuído pelo crente em estado de transe ao Espírito SantoBanzo / banzaEscravos negros e índios (entidade histórica, não observável atualmente)Nostalgia, melancolia, apatia e tristeza progressiva, podendo evoluir a inapetência, estupor e morte Calundu Nordeste Disforia, irritação, mau-humor, depressão Caruara / "treme-treme" Nordeste, principalmente Bahia Histeria conversiva epidêmica; fraqueza e paralisia nas pernas, astasia-abasia, de 3 a 15 mesesEspinhela caídaPopulações ruraisApêndice xifoide é atribuído como reentrando e produzindo sintomatologia multiforme; vômitos, astenia, apatia, epigastralgiaEstados de possessãoReligiões afro-brasileiras, pentecostais e outros evangélicos, além de católicosEstados de transe, não necessariamente patológicos. Sensação de estar possuído por uma entidadeGasturaPopulações ruraisMal-estar, indisposição, aflição no corpo (ex: azia)Obsessão / encostoEspiritismo, religiões afro-brasileirasAção negativa atribuída a um espírito, podendo envolver estados afetivos, psicoses, ideação suicida, dependências químicasQuebranto / mau-olhadoPopularmente difundido, principalmente ambiente ruralCausa associada a um indivíduo maldoso por "irradiação maléfica", atribuída ao definhamento, fraqueza e tristeza; abordado por benzeduraTangolomangoCrença trazida por escravos africanos, principalmente NordesteMal-súbito por sortilégio, definhamento
Outros exemplos Embora "o preconceito etnocêntrico dos psiquiatras euro-americanos tenha levado à ideia de que as síndromes ligadas à cultura estão confinadas a culturas não ocidentais", um exemplo proeminente de uma síndrome ligada à cultura ocidental é a anorexia nervosa.
Nos Estados Unidos contíguos, o consumo de caolim, um tipo de argila, foi proposto como uma síndrome cultural de pica observada em afro-americanos no sul rural, particularmente em áreas em que a mineração da caulinita é comum. Na África do Sul, entre o povo xhosa, a síndrome de amafufunyana é comumente usada para descrever aqueles que se acredita serem possuídos por demônios ou outros espíritos malévolos. Os curandeiros tradicionais da cultura geralmente realizam exorcismos para expulsar esses espíritos. Ao investigar o fenômeno, os pesquisadores descobriram que muitas das pessoas que afirmavam ser afetadas pela síndrome exibiam traços e características da esquizofrenia.
Alguns pesquisadores sugeriram que tanto a síndrome pré-menstrual (SPM) quanto o transtorno disfórico pré-menstrual mais grave (TDPM), que têm mecanismos físicos atualmente desconhecidos, seriam síndromes ligadas à cultura ocidental.Offman, Alia; Kleinplatz, Peggy J. (2004). Does PMDD belong in the DSM? Challenging the medicalization of women's bodies. Canadian Journal of Human Sexuality, 13 (1), 17–27. Arquivado na Wayback Machine em 2011-06-28. No entanto, isso é controverso.