A língua resígaro é uma língua da família linguística aruaque e do subgrupo linguístico Japurá-Colômbia falada pelo povo resígaro, também conhecido como ricigaros, rezígaros ou "rˆˆā(h)panihīn", na região de Loreto, no Peru. A língua recebe as denominações de resigaro, rosigaro ou do nome nativo rrahanihin.

Acredita-se que os resígaros faziam parte do complexo multilíngue conhecido como Pessoas do Centro (People of the Center, tradução literal), cujo território se localizava entre os rios Caquetá (Japurá) e Putumayo (Içá), no sudeste da Colômbia. Além do resígaro, o complexo conta com outras seis línguas: Bora, Muinane, Witoto, Ocaina, Nonuya e Andoke.

Estima-se que a documentação da língua tenha se iniciado no começo do século XX, quando os resígaros eram uma minoria próxima aos boras e aos witotos. A língua bora, por exemplo, influenciou o resígaro com alguns morfemas gramaticais e empréstimos lexicais.

O estudo da língua foi dificultado pela dispersão e declínio demográfico dos resígaros, causados em meados do século XIX pela exploração dos povos indígenas da região para extração de borracha. Tal cenário foi seguido da deportação parcial dos resígaros para o Peru.

Atualmente, o resígaro é uma língua em risco de extinção, com apenas um falante fluente, Pablo Andrade Ocagane, residente da comunidade ocaina Nueva Esperanza, no rio Ampiyacu. Sua irmã, Rosa Andrade, a última mulher falante de resígaro, foi assassinada em novembro de 2016. A família se tornou a principal consultora para Trevor Reginald Allin e Frank Seifart, importantes pesquisadores da área. Há, também, resígaros que integraram a comunidade bora, mas não falam resígaro fluentemente.

Etimologia Sabe-se pouco sobre as origens das denominações da língua resígaro. Além da língua ter vários nomes, por exemplo, resigaro, rosigaro ou rrahanihin, o povo resígaro também é mencionado em diversos trabalhos com nomeações distintas, embora parecidas, são elas: ricigaro, risigaro, resigero, ressígaro, rosiggaro, resegaro e rezígaros.

Há, apenas, uma menção ao nome nativo do povo resígaro, sendo ela “rˆˆā(h)panihīn" (daápemiíɯ, em resígaro contemporâneo). Essa denominação foi exposta em uma lista de palavras em resígaro compilada por Robert de Wavrin e é referenciada pelas pesquisas posteriores que mencionam nomes nativos do idioma e do povo. Entretanto, o próprio trabalho em que a lista foi publicada declara a insuficiência dos documentos coletados.

Dessa forma, não é possível saber ao certo a origem e significado do endônimo, rrahanihin, nem do exônimo, resígaro.

Classificação alt=Robert de Wavrin, homem com barba longa, fumando cachimbo. |miniaturadaimagem|202x202px|Robert de Wavrin A língua resígaro foi classificada como pertencente à família Arawak por Paul Rivet e Robert de Wavrin. Anteriormente, os resígaros eram mencionados apenas como subdivisões dos witotos, considerados o povo indígena com maior população entre as Pessoas do Centro. Há trabalhos que afirmaram que todos os povos da região falavam línguas parecidas, conclusão provavelmente equivocada baseada em depoimentos de pessoas que não dominavam as línguas estudadas.

Estudos mais recentes afirmam que a estrutura gramatical do resígaro é essencialmente herdada do arawak, principalmente a ordem fixa das palavras, os objetos obrigatórios e os prefixos de sujeito nos verbos. alt=Árvore da família Japurá-Colômbia|esquerda|miniaturadaimagem|381x381px|Família Japurá-Colômbia Henri Ramirez, concordando com o posicionamento de Rivet e Wavrin, classificou o resígaro dentro da família Arawak na divisão Japurá-Colômbia, composta de sete línguas vivas e cinco extintas, faladas na Colômbia, no Brasil, no Peru e no Chile, sendo elas: Piapoco, Achagua, Baniwa-Curripaco-Tariano, Warekena, †Mandawaka, Kabiyari, Yukuna, †Wainuma-Mariate, †Kauixana e Resígaro, com destaque para as línguas não classificadas: †Yumana e †Passé.

Distribuição Os resígaros eram uma minoria quando comparados aos outros povos da região em que viviam já no século XX. Em 1909, a estimativa era de que haviam 1.000 resígaros nas margens do rio Caquetá e ao norte do rio Cahuinari, na Colômbia. Os outros povos componentes do grupo Pessoas do Centro contavam com os seguintes dados: 15.000 boras, 15.000 witotos, 2.000 ocainas, 2.000 muinanes, 1.000 nonuyas, e 10.000 andokes.

Já no final de 1930, estima-se que havia apenas 10 resígaros dispersos ao redor do Caquetá e Putumayo, incluindo nas cabeceiras do rio Pama, na foz do rio Meta, no alto rio Cahuinari e em El Encanto no baixo rio Caraparaná.

Sabe-se que os resígaros foram parcialmente deportados do sudeste da Colômbia, local onde viviam originalmente, para o lado peruano. Isso ocorreu em decorrência da escravização do povo para a extração de borracha no século XIX.

Os sobreviventes passaram a viver nas margens de um afluente do norte do Amazonas, no nordeste do Peru. Esses resígaros vivem com os ocainas e boras, nas comunidades Puerto Isango e Brillo Nuevo, respectivamente, às margens do rio Yaguasyacu, afluente do rio Ampiyacu que deságua no rio Amazonas, em Pebas. Atualmente, muitos deles não são fluentes em resígaro, tendo adotado as línguas das comunidades em que vivem e o espanhol. alt=Bandeira predominantemente verde com as palavras Governo Regional e Loreto.|miniaturadaimagem|Bandeira da região de Loreto|esquerda|275x275px

O único falante fluente de resígaro vive na comunidade ocaina Nueva Esperanza, no rio Yaguasyacu, em Loreto, no Peru. Ele se chama Pablo Andrade Ocagane e também se comunica em Bora. Sua irmã, Rosa Andrade, era a última mulher falante de resígaro no mundo e foi assassinada em 2016. O resto de sua família fala apenas a língua ocaina e o espanhol.

Línguas relacionadas Há muitas evidências do compartilhamento de características etnográficas entre os resígaros e outros povos indígenas do grupo Pessoas do Centro. As semelhanças são ainda mais pronunciadas quando os resígaros são comparados aos boras. Por exemplo, há menções sobre ambos terem lábios finos, se esfregarem com areia para realizar a limpeza e casarem entre si.

Acredita-se que, por causa dessa proximidade, a língua resígaro tenha sido influenciada pelo bora, principalmente com empréstimos de palavras culturalmente importantes, tais como: nomes de alguns animais, utensílios, festivais, técnicas de construção de casas e de processamento de alimentos.

Após concluir que o parentesco histórico entre os povos e suas línguas é inegável, e que o bora tem semelhanças com o ocaina e o witoto, além de outras línguas da família Arawak, é possível afirmar que o resígaro também está relacionados a essas língua em menor grau, embora não sejam mutuamente inteligíveis. +Evidência de empréstimos de outras línguasResígaroBoraMuinanePortuguêsheʔe-eʔ-hóʔo-aquiloháákɯdɯ́iáákɯrɯ́ihákɨrɨ́ipassárohamaánɯ́amánahámanagolfinho História As Pessoas do Centro, cujo território tradicional compreendia a região do rios Caquetá (Japurá) e Putumayo (Içá), compartilham muitas características etnográficas, entre elas os rituais de ingestão de folhas de coca trituradas e tabaco em forma líquida, diferenciando-os do resto dos povos amazônicos, que cheiram ou fumam o tabaco. Os festivais e cerimônias também são semelhantes embora cada povo tenha suas próprias músicas. Além disso, os mitos e lendas que apresentam personagens em comum existem em cada uma das línguas.alt=Foto de casas de barro e madeira com poucas pessoas ao redor.|esquerda|miniaturadaimagem|Foto presente na obra The Putumayo de Hardenburg (1912) , uma das primeiras a mencionar os resígaros.|278x278pxAcredita-se que a primeira menção aos resígaros aconteceu em 1912, em relatórios presentes na obra de Walter Ernest Hardenburg. Esses documentos tratavam de uma investigação sobre os maus tratos aos povos indígenas da região do rio Putumayo que trabalhavam na coleta de borracha para a , também conhecida com Anglo-Peruvian Amazon Rubber Co. Neles, os resígaros, chamados de ricigaros, são descritos como um povo de comum origem com os witotos.

O próximo estudo que menciona os resígaros, embora não com detalhes da língua, foi publicado em 1915 por Thomas Whiffen. Além de afirmar que resígaros e bora casam entre si, o trabalho menciona lutas dos resígaros, boras e ocaina contra os witotos, e práticas canibais desses povos e dos andokes. Whiffen também descreve o caso em que um chefe resígaro reuniu guerreiros para punir aqueles de seu próprio povo que se submeteram aos brancos, visando impedir a rendição de outros membros resígaros.

Em 1930, Rivet e Wavrin publicaram o primeiro trabalho com informações sobre a língua resígaro. A obra dispõe de uma lista de palavras coletadas por Wavrin, que não possuía extenso conhecimento de linguística ou fonética. alt=Foto da flora amazônica presente em The Putumayo de Hradenburg (1912)|miniaturadaimagem|311x311px|Foto da flora amazônica presente em The Putumayo de Hardenburg (1912) O estudo do resígaro foi dificultado pela grave baixa demográfica do povo decorrente das práticas brutais da Peruvian Amazon Company, que pertencia ao império comercial conhecido como Casa Arana e era comandada pelo político peruano Júlio César Arana. A companhia começou a invadir o território das Pessoas do Centro por volta do final do século XIX, escravizando as populações indígenas da região para a extração de borracha. Em 1930, quando o governo colombiano declarou posse da região ao norte do rio Putumayo, a companhia realocou os indígenas para o lado sul do rio, em território peruano.

Em 2017, uma comunidade nativa na província de Mariscal Ramón Castilla, em Loreto, se identificou como resígaro. Porém, há apenas um falante fluente da língua, motivo pelo qual o governo do Peru declarou o resígaro como em sério risco de extinção.

Apesar das divergências nos estudos ao longo do tempo, o alfabeto resígaro foi oficializado pelo governo peruano em 2020, com 33 letras.

Fonologia

Consoantes Os estudos fonológicos sobre o resígaro chegaram a diferentes conclusões ao longo dos anos, sempre dificultados pela dispersão e pequena quantidade dos falantes fluentes. A maior parte das conclusões sobre o tema se originou de listas de palavras publicadas por pesquisadores da área em suas obras.

Para Allin, por exemplo, a língua conta com 5 vogais: , , , , e 30 fonemas consonantais. Por outro lado, Henri Ramirez afirma que a quantidade de fonemas consonânticos pode ser reduzida à metade, pois alguns deles são diferentes realizações fonéticas de um só fonema e as consoantes aspiradas ou ensurdecidas se reúnem em grupos consonânticos. As tabelas abaixo contam com os fonemas consonânticos de Allin mencionados por Ramirez:

+Fonemas consonantais do Resígaro BilabialLabiodentalAlveolarPós-alveolarPalatalVelarGlotal Plosiva Africada Fricativa Nasal +DígrafosAspiradosPalatalizadosDesvozeados

Vogais A quantidade de fonemas vocálicos do resígaro também é controversa. Alguns estudos mencionam cinco , , , , , outros incluem também a vogal arredondada , e há, ainda, o trabalho de Frank Seifart, que considera a posterior como vogal do resígaro em decorrência dos empréstimos da língua bora. +Vogais do Resígaro Anterior Posterior Fechada Semifechada Média Semiaberta Aberta

Tons O resígaro tem dois tons: alto, representado por /´/, e baixo, indicado pela ausência de /´/. Esses tons ocorrem na vogal(is) no núcleo da sílaba. Se houver duas vogais na mesma sílaba, um tom acontece em cada uma, podendo ser ambos iguais (baixos ou altos) ou diferentes (alto+baixo e baixo+alto), causando variações na entonação. Algumas das possibilidades de sequência desses tons são: +Exemplos de tons do ResígaroResígaroInglêsPortuguêsfoogikhúhe makes a fireele faz uma fogueirafóogikhúhe blowsele sopra peegisparrow-hawkgaviãopeégístarchamido náagífriend (m)amigo naágíangerraiva

Fonotática