Jeannette Pickering Rankin (Missoula, 11 de junho de 1880 – Carmel-by-the-Sea, 18 de maio de 1973) foi uma ativista pelos direitos das mulheres e política norte-americana. Filiada ao Partido Republicano, foi a primeira mulher a ocupar um cargo público eletivo a nível federal nos Estados Unidos ao ser eleita para a Câmara dos Representantes em 1916, representando o estado de Montana.
Após ter concluído o ensino superior, Rankin morou em diversas cidades, de São Francisco a Nova Iorque, trabalhando como assistente social e organizadora. Em 1917, logo após assumir o mandato como representante, foi uma das poucas congressistas que se opuseram à entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial. Não concorreu à reeleição em 1918, trabalhando nas próximas décadas como lobista. Em 1940, foi novamente eleita representante. Em 1941, foi a única congressista a se opor à declaração de guerra contra o Japão após o ataque a Pearl Harbor.
Sufragista durante a Era Progressista, Rankin organizou e fez lobby a favor de leis que emancipavam as mulheres em vários estados, incluindo Montana, Nova Iorque e Dacota do Norte. No Congresso, propôs o direito ao voto irrestrito a todas as mulheres do país, o que ocorreu poucos anos depois. Ao fazê-lo, Rankin se tornou a única mulher no país a votar a favor de que todas as demais pudessem votar. Ela não concorreu à reeleição em 1942, mas se manteve ativa em movimentos pacifistas, organizando manifestações contra a Guerra do Vietnã.
Família e primeiros anos thumb|Rankin em 1907
Rankin nasceu em 11 de junho de 1880, próximo a Missoula, no Território de Montana, nove anos antes do território se tornar um estado. Era filha da professora Olive (née Pickering) e do imigrante escocês-canadense John Rankin, que trabalhava como carpinteiro e fazendeiro. Filha mais velha do casal, tinha cinco irmãs (uma das quais morreu ainda na infância) e um irmão, Wellington, que se tornou procurador-geral de Montana e juiz da Suprema Corte estadual.
Durante sua adolescência na fazenda da família, Rankin tinha muitas tarefas, incluindo limpeza, costura, tarefas domésticas, trabalho ao ar livre e ajudar a cuidar de seus irmãos mais novos. Rankin ajudou a manter as máquinas do rancho e construiu, sozinha, uma calçada de madeira para um prédio de propriedade de seu pai, para que pudesse ser alugado. Posteriormente, ao registrar uma observação sobre sua infância, escreveu que embora na década de 1890 as mulheres da fronteira ocidental dos Estados Unidos trabalhassem lado a lado, de forma igualitária aos homens, elas não tinham uma voz política igual—nem o direito a votar.
Em 1898, Rankin concluiu o ensino médio. Em seguida, estudou na Universidade de Montana, e se graduou em 1902 com um bacharelado (Bachelor of Science) em biologia. Antes de iniciar sua carreira política e como ativista, explorou uma variedade de carreiras, incluindo como costureira, designer de móveis e professora. Depois que seu pai morreu em 1904, assumiu a responsabilidade de cuidar de seus irmãos mais novos.
Ativismo e movimento sufragista Aos 27 anos de idade, Rankin se mudou para São Francisco para assumir um emprego em serviço social, à época uma nova profissão ainda em desenvolvimento. Confiante de que havia encontrado sua vocação, se matriculou na Escola de Filantropia de Nova Iorque, na cidade de Nova Iorque, onde estudou de 1908 a 1909. Após um breve período como assistente social em Spokane, Washington, mudou-se para Seattle para estudar na Universidade de Washington, e se envolveu no movimento pelo sufrágio feminino. Em novembro de 1910, os eleitores de Washington aprovaram uma emenda à constituição estadual para emancipar permanentemente as mulheres, sendo o quinto estado norte-americano a fazê-lo. Ao retornar para Nova Iorque, tornou-se uma das organizadoras do Partido do Sufrágio da Mulher de Nova Iorque, que se juntou a outras organizações sufragistas para promover um projeto de lei no legislativo nova-iorquino semelhante ao aprovado em Washington. Durante esse período, Rankin também viajou para Washington para fazer lobby no Congresso em nome da Associação Americana Nacional para o Sufrágio da Mulher (NAWSA).
Rankin retornou a Montana e subiu na hierarquia das organizações sufragistas, tornando-se presidente da Associação para o Sufrágio das Mulheres de Montana e secretária nacional de campo da NAWSA. Em fevereiro de 1911, tornou-se a primeira mulher a discursar perante a legislatura de Montana, argumentando em apoio à concessão de direitos às mulheres no estado. Em novembro de 1914, Montana se tornou o sétimo estado a conceder às mulheres direitos irrestritos de voto. Rankin coordenou os esforços de várias organizações de base para promover suas campanhas de sufrágio em Nova Iorque e Montana (e posteriormente em Dacota do Norte). Mais tarde, se baseou na mesma infraestrutura de base durante sua campanha para o Congresso de 1916.
Posteriormente, Rankin comparou seu trabalho no movimento pelo sufrágio feminino à promoção da política externa pacifista que definiu sua carreira no Congresso. Ela acreditava, assim como muitos sufragistas daquele período, que a corrupção e a disfunção do governo dos Estados Unidos eram resultado da falta de participação das mulheres. Conforme afirmou em uma conferência pelo desarmamento ocorrida no período entreguerras, "o problema da paz é um problema da mulher."
Câmara dos Representantes Primeiro mandato thumb|Rankin discursando da sacada da Associação Americana Nacional para o Sufrágio da Mulher, em abril de 1917.
Em 1916, Rankin decidiu se candidatar a uma das duas vagas que o estado de Montana elegia para a Câmara dos Representantes. Sua campanha foi patrocinada por seu irmão Wellington, um membro influente do Partido Republicano de Montana. Rankin viajou longas distâncias para alcançar a população amplamente dispersa do estado, reunindo apoiadores em estações de trem, esquinas de ruas, jantares em fazendas e em escolas afastadas que possuíam apenas uma sala de aula. Com uma mensagem progressista, enfatizou seu apoio ao sufrágio feminino, bem-estar social e à lei seca. Na primária republicana, recebeu o maior número de votos entre oito candidatos. Na eleição geral de 7 de novembro, os dois candidatos mais votados eram eleitos. Rankin acabou em segundo lugar, derrotando Frank Bird Linderman, entre outros, sendo assim a primeira mulher a ser eleita e integrar o Congresso norte-americano. Em seu discurso da vitória, declarou: "Estou profundamente consciente da responsabilidade que recai sobre mim" como a única mulher no país com poder de voto no Congresso. Sua eleição gerou considerável interesse em todo o país, incluindo, supostamente, vários pedidos de casamento.
Logo após o início de seu mandato, o Congresso foi convocado para uma sessão extraordinária de abril de 1917 em resposta à declaração alemã de guerra submarina irrestrita a todos os navios do Atlântico. Em 2 de abril, o presidente Woodrow Wilson, discursando em sessão conjunta, pediu ao Congresso que "tornasse o mundo seguro para a democracia" declarando guerra à Alemanha. Após intenso debate, a resolução da guerra foi votada na Câmara às 3 horas da manhã de 6 de abril; Rankin deu um dos 50 votos contrários, afirmando: "Desejo defender meu país, mas não posso votar pela guerra." Anos depois, acrescentou: "Senti que a primeira vez que a primeira mulher teve a chance de dizer não à guerra, ela deveria dizer." Embora 49 representantes homens e seis senadores também tenham votado contra a declaração, Rankin foi alvo de críticas. Alguns consideraram seu voto um descrédito ao movimento sufragista e sua autoridade no Congresso, mas outros o aplaudiram, incluindo Alice Paul, do Partido Nacional da Mulher, e o representante Fiorello LaGuardia, de Nova Iorque.
thumb|esquerda|Retrato de Rankin, por Sharon Sprung.
Rankin usou seu cargo para pressionar por melhores condições de trabalho para os trabalhadores. Em 8 de junho de 1917, o desastre da mina Speculator em Butte deixou 168 mineiros mortos. Os trabalhadores convocaram uma greve em massa como protesto por conta das condições de trabalho. Rankin tentou intervir, mas as empresas de mineração se recusaram a se reunir com ela ou os mineiros, e sua proposta de legislação para encerrar a greve não teve êxito. página não especificada Rankin teve maior sucesso pressionando por melhores condições de trabalho no Departamento de Gravura e de Impressão. Ela ouviu as queixas dos trabalhadores federais no departamento, que incluíam longas horas e um ritmo de trabalho excessivamente exigente. Também contratou a repórter Elizabeth Watson para investigar a situação. Como resultado de seus esforços para chamar a atenção às condições de trabalho da agência, o secretário do Tesouro, William McAdoo, organizou sua própria investigação e acabou limitando a rotina de trabalho a oito horas diárias.
Em 1917, as mulheres possuíam algum nível de direito ao voto em cerca de quarenta estados. Rankin continuou a liderar o movimento de acesso universal e irrestrito ao voto pelas mulheres. Ela foi fundamental na criação do Comitê do Sufrágio da Mulher e tornou-se um de seus membros fundadores. Em janeiro de 1918, o comitê entregou seu relatório ao Congresso, e Rankin abriu o debate no Congresso sobre uma emenda constitucional que concederia sufrágio universal às mulheres. A resolução foi aprovada na Câmara, porém derrotada pelo Senado. No ano seguinte—após o término de seu mandato como representante—resolução com proposta análoga foi aprovada nas duas casas legislativas. Após a ratificação por três quartos dos estados, tornou-se a 19.ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos, permitindo que as mulheres de todo o país tivessem direito ao voto.
Durante o mandato de Rankin, a legislatura estadual de Montana votou pela substituição do modelo de eleição de seus representantes: ao invés de dois serem eleitos a nível estadual, Montana passou a ter dois distritos, com cada um elegendo um representante. Com poucas chances de reeleição em seu distrito, esmagadoramente democrata, Rankin optou por concorrer ao Senado em 1918. Seu slogan de campanha era "Vença a Guerra Primeiro", prometendo ajudar o presidente Wilson a ter um desempenho mais eficiente perante o conflito. Na primária republicana, foi derrotada pelo representante estadual Oscar M. Lanstrum por uma pequena diferença: 18.805 votos (41,59%) a 17.091 (37,80%). Rankin aceitou a nomeação do Partido Nacional e manteve sua candidatura para a eleição geral, em parte por, alegadamente, refutar as alegações de que os republicanos haviam tentado suborná-la para que desistisse de sua candidatura. Em novembro, acabou na terceira colocação, com 23% dos votos. Sua candidatura, entretanto, havia sido levada a sério pelos demais candidatos, com o senador Thomas J. Walsh, candidato à reeleição que acabou vencendo a disputa, afirmando: "se tivesse algum partido para apoiá-la, ela seria perigosa." Já para a eleição em seu distrito na Câmara, venceu—ironicamente—o candidato republicano por uma pequena vantagem.
Entre os mandatos thumb|Rankin argumentando contra a fortificação de Guam perante o Comitê de Assuntos Naval da Câmara, em 1939.
Depois de deixar o Congresso, Rankin trabalhou como secretária de campo para a Liga Nacional dos Consumidores e como lobista de várias organizações pacifistas. Rankin defendeu a aprovação de uma emenda constitucional que proibisse o trabalho infantil e apoiou a Lei Sheppard-Towner, o primeiro programa federal de assistência social criado explicitamente para mulheres e crianças. A legislação foi promulgada em 1921, mas revogada oito anos depois, embora muitas de suas principais disposições tenham sido incorporadas à Lei de Seguridade Social de 1935.