O panda-vermelho ou panda-ruivo, também conhecido como raposa-de-fogo ou gato-de-fogo (nome científico: Ailurus fulgens; do grego ailurus, gato; e do latim fulgens, brilhante), é um pequeno mamífero arborícola e a única espécie do gênero Ailurus. Pertence à família Ailuridae, mas já foi classificado nas famílias Procyonidae (guaxinins) e Ursidae (ursos).
O panda-vermelho é nativo das regiões montanhosas do Himalaia e do sul da China, e está associado às florestas temperadas de altitude e a bambuzais. Possui uma coloração castanho-avermelhada característica, cauda comprida e felpuda e um andar gingado devido ao encurtamento dos membros dianteiros. É um animal solitário, territorialista e de hábito crepuscular e noturno. A sua alimentação é principalmente composta por bambu; entretanto, por ser omnívoro, pode ingerir ovos, pássaros, insetos e pequenos mamíferos.
Está em perigo de extinção, devido a destruição do habitat pela expansão humana, da agricultura, da pecuária e da escassez de recursos naturais. A caça ilegal também é outro importante fator que contribui para a diminuição da população de pandas. É um animal comum em zoológicos, principalmente da América do Norte e Europa, reproduzindo-se bem em cativeiro.
Nomes comuns thumb|esquerda|220px|Panda-vermelho em posição de higienização O termo panda foi aplicado por Thomas Hardwicke, quando o introduziu aos europeus em 1821. A origem do termo panda é desconhecida. Um dos poucos candidatos conhecidos para raiz da palavra panda é "pónya", possivelmente derivada de um termo da língua nepalesa para a protuberância arredondada da pata — talvez uma observação atenta de como este animal come bambu com um osso do pulso (sesamoide radial) adaptado para a função de polegar opositor e sexto dedo; outros autores acreditam que panda vem de "wah", termo nepalês para panda-vermelho, e originário do som semelhante a uma criança, que esta espécie às vezes produz.
Outros nomes utilizados em diversas línguas são: Lesser Panda, Red Panda, Cloud Bear, Bright Panda, Common Panda, Fire Cat, Fire Fox, Red Fox, Fox Bear, Himalayan Raccoon, Red Cat-bear, Small Panda (inglês); Panda Éclatant, Petit Panda (francês); Panda Chico, Panda Rojo (espanhol); Kleiner Panda, Katzenbär (alemão); Nigalya Ponya, Poonya, Wah, Ye, Sankam, Thokya, Vetri (nepalês); Wokdonka (butanês); Hun-Ho, Pinyin (chinês); Wob, Thomtra marchung (tibetano).
Classificação Frédéric Cuvier (1825) descreveu inicialmente o panda-vermelho como um parente próximo dos guaxinins (Procyonidae), embora ele tenha dado o nome Ailurus baseado em suas semelhanças superficiais com os gatos domésticos. A classificação do panda-vermelho tem sido controversa desde sua descoberta, e já foi posicionado entre os Ursidae, Procyonidae, Ailuropodidae, ou então numa família própria, a Ailuridae. Essa incerteza surgiu da dificuldade em determinar se certas características do gênero Ailurus são filogeneticamente conservativas ou são derivadas e convergentes com espécies de hábitos ecológicos similares.ROBERTS, M. S.; GITTLEMAN, J. L. (1984). Ailurus fulgens. Mammalian Species 222: 1-8.
Diversas hipóteses filogenéticas, baseadas em análises moleculares e morfológicas, têm surgido ao longo dos anos, posicionando o panda-vermelho: (1) mais próximo a Procyonidae que a Ursidae; (2) mais relacionado a Ursidae do que com a Procyonidae; (3) intermédio entre a Ursidae e a Procyonidae; (4) aparentado ao panda-gigante mas de posicionamento incerto; (5) mais relacionado a Musteloidea; ou (6) representa uma linhagem monotípica dentro da Arctoidea, porém de posicionamento não resolvido.FLYNN, J. J.; FINARELLI, J. A.; ZEHR, S.; HSU, J.; NEDBAL, M. A. (2005). Molecular Phylogeny of the Carnivora (Mammalia): Assessing the Impact of Increased Sampling on Resolving Enigmatic Relationships. Systematic Biology 54 (2): 317–337
Evidências baseadas no registro fóssil, sorologia, cariotipagem, comportamento, anatomia e reprodução refletem maior afinidade com a Procyonidae do que com a Ursidae. Entretanto, especializações ecológicas e alimentares e a distinta distribuição geográfica em relação aos modernos procionídeos apoiam a separação em uma família própria.
Recentemente, Flynn e colaboradores, através de análises moleculares confirmaram o posicionamento do gênero Ailurus numa família distinta aos procionídeos e aos ursídeos, e determinaram a inclusão dessa família entre a superfamília Musteloidea (Ailuridae + Procyonidae + Mephitidae + Mustelidae).FLYNN, J. J.; NEDBAL, M. A. (1998). Phylogeny of the Carnivora (Mammalia): Congruence vs incompatibility among multiple data sets. Molecular Phylogenetic Evolution 9 (3): 414–426.FLYNN, J. J.; NEDBAL, M. A.; DRAGOO, J. W.; HONEYCUTT, R. L. (2000). Whence the red panda? Molecular Phylogenetic Evolution 17 (2): 190–199.
thumb|220px|direita|Panda-vermelho em cima de uma árvore
Subespécies ou Espécies Tradicionalmente, o panda-vermelho é classificado como uma única espécie com duas subespécies: o panda-vermelho-himalaio (Ailurus fulgens fulgens F. Cuvier, 1825), encontrado nas regiões himalaias do Nepal, Assam, Sikkim e Butão, e o panda-vermelho-chinês (Ailurus fulgens styani Thomas, 1902), encontrado no sul da China e no norte de Mianmar.WOZENCRAFT, W. C. Order Carnivora. In: WILSON, D. E.; REEDER, D. M. (Eds.). Mammal Species of the World: A Taxonomic and Geographic Reference. 3. ed. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2005. v. 1, p. 532-628. A subespécie himalaia tem uma pelagem mais clara especialmente na face, enquanto a subespécie chinesa têm a pelagem facial mais avermelhada e maior contraste nos anéis da cauda, além de diferenças na morfologia craniana. Entretanto, estudos moleculares recentes sugerem que as duas subespécies deveriam ser tratadas como duas espécies, A. fulgens e A. styani, ainda que a delimitação e a distribuição geográfica das duas espécies permaneçam sendo debatidas, com o rio Siang sendo sugerido como potencial divisor entre as duas espécies e o tempo de divergência entre elas sendo estimado entre 220 mil a 300 mil anos, em resposta a flutuações climáticas do Pleistoceno. O reconhecimento da eventual existência de duas espécies implica na necessidade de reavaliar o status e os esforços de conservação, uma vez que o panda-vermelho é considerado ameaçado de extinção e vem sofrendo redução de seu hábitat.
História evolutiva Não são conhecidos fósseis congêneres do Ailurus fulgens. Entretanto, diversos fósseis de espécies relacionadas ao panda-vermelho tem sido descobertos na América do Norte, Europa e Ásia. Existem cerca de oito gêneros na família Ailuridae, entretanto, apenas o Ailurus é atual. Recentemente um fóssil, nomeado de Pristinailurus bristoli, descoberto do Mioceno da América do Norte, foi considerado o mais antigo e primitivo membro da família.WALLACE, S. C.; WANG, X. (2004). Two new carnivores from an unusual late Tertiary forest biota in eastern North America. Nature 431: 556-559. Outros registros fósseis foram feitos no leste da China e no oeste da Grã-Bretanha.HU, J. C. (1990). Proceedings of studies of the red panda. Chinese Scientific Publishing, Beijing, China [em chinês].
Distribuição geográfica e habitat 250px|thumb|esquerda|Panda dormindo em uma árvore
Os pandas-vermelhos são encontrados principalmente em florestas temperadas, entre 2 200 e 4 800 metros de altitude, nos Himalaias, principalmente na região dos contrafortes ocidentais no oeste do Nepal, sul do Tibete, Sikkim, Assam e Butão, e em montanhas do norte de Mianmar e do sul da China, nas províncias de Sichuan (Montanhas Hengduan) e Yunnan (Montanhas Gongshan). A existência de pandas-vermelhos no sudoeste do Tibete e no norte de Arunachal Pradesh é muito provável, mas ainda não foi documentada. Ele foi extinto nas províncias chinesas de Guizhou, Gansu, Shaanxi e Qinghai.
Sua presença nas montanhas do sul da China constitui um refúgio durante a última glaciação do Pleistoceno. Na China, o panda-vermelho e o panda-gigante são simpátricos nas montanhas de Qionglai, Minshan, Xiangling, e Liangshan na província de Sichuan.WEI, F.; FENG, Z.; WANG, Z.; HU, J. (1999). Current distribution, status and conservation of wild red pandas Ailurus fulgens in China. Biological Conservation 89: 285–291. resumo
A distribuição dos pandas é disjunta, tendo a garganta do Rio Bramaputra, que faz uma curva em torno da extremidade oriental do Himalaia, como uma divisão natural entre as duas subespécies, embora alguns autores sugiram que a variedade A. f. fulgens se estenda mais para o oriente, em Yunnan, na China.
Pandas-vermelhos habitam regiões de temperatura moderada (10-25 °C) com poucas mudanças anuais e preferem áreas montanhosas arborizadas, principalmente compostas por florestas coníferas e caducifólias, especialmente com árvores antigas de rododendro e, obviamente, com bambuzais.GLATSTON, A. R. The Red Panda, Olingos, Coatis, Raccoons, and Their Relatives. International Union for Conservation of Nature and Natural Resources, 1994.
Características físicas Ficha técnicaNOVAK, R. M.; WALKER, E. P. Walker’s Mammals of the World. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1999. 2 v. p. 1936. Comprimento 510–635 mm Cauda 280–485 mm Peso 3–6 kg Tamanho de ninhada 1-4 Gestação 114-145 dias Desmame 125-135 dias Maturidade sexual 18 meses (ambos os sexos) Longevidade 17 anos (em cativeiro)
Os pandas-vermelhos apresentam um comprimento moderado, com uma cauda relativamente longa e felpuda, marcada com cerca de 12 anéis alternando círculos vermelhos e camurças, não sendo preênsil. A cabeça é arredondada, o focinho curto, e as orelhas grandes, eretas e pontiagudas. Apresenta uma grossa pelagem sobre o corpo. Na região ventral a pelagem é macia, lanosa e densa. A face é predominantemente branca com marcações lacrimais castanho-avermelhadas abaixo dos olhos. A pelagem do dorso também é castanho-avermelhada, enquanto que ventralmente é de um negro uniforme. Os membros são negros e as solas dos pés e mãos são cobertas com pelos densos de coloração branca. Não há dimorfismo sexual na coloração e no tamanho de machos e fêmeas. Os membros torácicos são arqueados para dentro, fazendo com que seu andar seja gingado. Os seus pés são plantígrados. Também possui garras semi-retráteis e, como o panda-gigante, tem um "polegar falso" que é na verdade uma extensão do osso do pulso.
O panda-vermelho possui algumas características anatômicas próprias que caracterizam a espécie e, por conseguinte, o gênero Ailurus. O crânio é robusto com fraco desenvolvimento do arco zigomático, da crista sagital e do processo pós-orbital. O osso palatino se estende além do último molar, a fossa mesopterigoide é comprimida anteriormente, e a bula auditiva é pequena e expandida medialmente. O processo pós-glenoide é largo e curvado anteriormente, e o canal alisfenoide está presente. A mandíbula é robusta, mas relativamente curta em relação à altura dos ramos, e a sínfise mandibular é comprimida. O processo coronoide é fortemente enganchado posteriormente e os côndilos mandibulares são grandes. Possui uma dentição robusta em contraste com os procionídeos. A fórmula dentária é . As fêmeas possuem quatro pares de mamas.
Comportamento thumb|esquerda|Outra forma que o panda dorme. Encolhido com a cabeça na cauda
Os pandas-vermelhos são animais crepusculares (mais ativos ao amanhecer e ao entardecer) e noturnos, passando o dia dormindo nos ramos das árvores ou em tocas. Eles são sensíveis ao calor e sua temperatura ideal é entre 17°C e 25°C, e não toleram temperaturas acima de 25 °C. Como resultado, os pandas-vermelhos dormem durante as horas mais quentes do dia nas copas sombreadas das árvores, muitas vezes ficando esticados nos galhos bifurcados, ou então em tocas.Toronto Zoo. Red Panda . Toronto Zoo. Acessado em 28 de agosto de 2008.