O letão (latviešu valoda), também conhecido como letoniano, leto, letonês, Academia Brasileira de Letras é uma língua báltica oriental pertencente ao ramo báltico da família indo-europeia, sendo uma das poucas línguas bálticas atualmente em uso.
Considerada o idioma oficial da Letônia, é a língua mais falada do país com 62% da população tendo-a como primeira língua, sendo seguida pelo russo (37%), bielorrusso, ucraniano, lituano e polonês. De acordo com o Ethnologue, 1,84 milhão de habitantes da Letônia falam letão, sendo 1,39 milhão como primeira língua (2021) e 450 mil como segunda língua (2012). Além disso, estima-se que haja entre 120 e 160 mil falantes em outras localidades, principalmente na Alemanha, Suécia, Canadá, Estados Unidos, Austrália e Reino Unido. No Brasil, a comunidade leta está concentrada nas regiões sul e sudeste, provinda de ondas migratórias iniciadas em 1889 devido à ocupação pelo Império Russo e intensificadas na década de 1920 com o fim da Primeira Guerra Mundial.
Etimologia
Em letão, latviešu valoda significa 'língua letã', sendo o termo originado a partir de latvis 'letão' declinado no genitivo e valoda 'língua'. Latvis e Latvija 'Letônia' são palavras derivadas da denominação dos antigos Latgalianos, uma das quatro tribos bálticas que habitavam a região no final do primeiro milênio da era comum.
A primeira menção escrita à Letônia de que se tem registro foi feita por Henricus de Lettis () entre 1225 e 1227, em uma crônica sobre a cristianização de tribos pagãs do Báltico. Nesse texto, escrito em latim, Henricus denomina o atual território da Letônia e então área habitada pelos Latgalianos como "Lettigalia" e "Lethia", termos que inspiraram muitas das variações românicas e germânicas do nome do país e da língua letã.
Distribuição Apesar de o letão ser majoritariamente falado no território da Letônia, muitas famílias letas deixaram seu país de origem com as ocupações decorrentes da ocupação russa, Primeira Guerra Mundial e Segunda Guerra Mundial, no movimento conhecido como diáspora leta. Formaram-se assim comunidades dispersas cuja língua materna é muitas vezes o letão e em que se praticam os costumes e tradições da Letônia. A partir da restauração da independência em 1991, muitos emigrantes estão revisitando sua terra natal e se restabelecendo no território letão.Abaixo estão listadas algumas das maiores comunidades letas ao redor do mundo:
Reino Unido: cerca de 43 mil letões (censo de 2021) vivem principalmente na Inglaterra e na Escócia. Entre 1946 e 1950, muitos refugiados letos foram levados para a o Reino Unido para suprir a falta de mão de obra decorrente das perdas da guerra.
Alemanha: cerca de 40 mil letões (censo de 2020) vivem no país, que foi um dos principais destinos das primeiras ondas migratórias letas e de onde muitas famílias partiram para outras localidades após o período nos campos de deslocados.esquerda|miniaturadaimagem|240x240px|Selo postal da URSS representando instrumentos letões tradicionais.
Estados Unidos: cerca de 14 mil letões (censo de 2019) vivem principalmente em Nova Iorque, Massachussets, Illinois, Flórida e Califórnia, tendo imigrado principalmente após a Segunda Guerra Mundial. No censo de 1990, cerca de 13% daqueles com descendência letã afirmaram não falar inglês muito bem.
Rússia: cerca de 8,6 mil letões (censo de 2020) vivem no país, onde muitos imigrantes formaram comunidades no que hoje é o território do Bascortostão. No final do século 19, muitos letões migraram para essa região em busca de lotes de terra por preços mais acessíveis, formando com o tempo cooperativas agrárias prósperas. Com a Segunda Guerra Mundial, houve uma onda de retorno à Letônia, mas algumas famílias mantiveram-se em território russo. Canadá: cerca de 6 mil letões (censo de 2021) vivem principalmente em Ottawa, nas pradarias canadenses e na Colúmbia Britânica. Em uma primeira onda de imigração anterior à 1939, muitos letões se fixaram em zonas rurais; já a partir de 1945, imigrantes começaram a optar pelos grandes centros urbanos à procura de melhores condições de emprego. miniaturadaimagem|220x220px|Grupo de danças folclóricas letas em Brisbane, Austrália (1953) Suécia: cerca de 6,5 mil letões (censo de 2020) vivem no país, que recebeu a primeira onda migratória vinda de barcos. A comunidade se distingue por ser majoritariamente composta por trabalhadores da intelligentsia e, devido à proximidade entre a Suécia e a Letônia, permitir que muitos imigrantes tenham a oportunidade de participar da vida social e cultural de sua terra natal. Austrália: cerca de 2,3 mil letões (censo de 2021) vivem principalmente em Victoria, onde aproximadamente 60% das famílias letas afirma falar letão em casa. A maioria dos refugiados chegou no país na década de 1950, sendo compelidos a trabalhar em empregos fisicamente desgastantes para cumprir o contrato de imigração.
Línguas Relacionadas miniaturadaimagem|260x260px|Pessoa falando em letão Tanto o letão quanto o lituano pertencem ao ramo báltico da família indo-europeia, sendo as últimas línguas bálticas ainda em uso. Dessa forma, as duas línguas compartilham muitos traços morfológicos, sintáticos e semânticos, apesar de não serem mutualmente inteligíveis. Tendo se separado por volta dos séculos 6 e 7 da era comum, a formação do letão se deu pelo contato ao norte com povos fino-úgricos e a do lituano pelo contato ao sul com povos eslavos, de forma que a proximidade báltica-eslava fez com que o lituano sofresse menos transformações em comparação ao letão.
Ambas as línguas apresentam dois gêneros gramaticais (com exceção de alguns dialetos), sete casos gramaticais e três tempos verbais, entre outras semelhanças. Quanto aos traços que as diferem, alguns exemplos incluem a flexibilidade no posicionamento da sílaba tônica no lituano em oposição à tônica fixa na primeira sílaba de palavras em letão, além das seguintes transformações fonéticas que aconteceram no letão mas permaneceram inalteradas e semelhantes ao prussiano antigo e demais línguas bálticas extintas no lituano: +Quadro comparativo de transformações fonéticasTransformação fonéticas no letãoLituanoLetãoPortuguêsan → uorankàrùokamãoen → iepeñktaspiekt(ai)squintoin → īpìntipīttecer, entrelaçarun → ūjùngasjūgsjugomonotongação dos ditongos ai, ei, au (em posição final)vedeĩvedivocê liderouvogal longa → vogal curta (em palavras polissilábicas)pelėpeleratovogal curta → sem vogal (em palavras polissilábicas)dáiktasdaiktscoisaconsoantes velares palatais → africadas dentais gertidzertbebida
Dialetos O agrupamento de dialetos e variações no letão é um tópico ainda em debate, mas uma das correntes mais aceitas pelos linguistas é a que afirma a existência de três dialetos principais no letão, distinguidos pelas diferenças prosódicas, fonéticas e morfológicas: dialeto central (vidus dialekts), dialeto livoniano (lībiskais dialekts) e alto letão (augšzemnieku dialekts). Cada dialeto possui suas próprias variações que não devem ser confundidas com as línguas livoniano, curônio, semigálico e selônio.esquerda|miniaturadaimagem|260x260px|Distribuição geográfica dos dialetos letões. Em azul o dialeto livoniano (Lībiskais dialekts), em verde o dialeto central (Vidus dialekts) e em laranja o alto letão (Augšzemnieku dialekts).
Dialeto Central O dialeto central é falado do centro e sudoeste da Letônia, sendo o dialeto mais conservador e base para a variedade padrão do letão.Pode ser subdividido em três variações: a variação vidzeme (vidzemes izloksnes), caracterizada pela inserção de /i:/ em construções no futuro; a variação semigálica (zemgaliskas izloksnes), caracterizada pela tendência de inserção de vogais entre ⟨r⟩ e ⟨l⟩ e a próxima consoante; e a variação curônia (kursiskas izloksnes), mais arcaica que as outras duas e caracterizada, por exemplo, pela preservação de /u/ anterior a /b/ e /v/ em oposição à transformação /u/ → /i/ em outras variações.
Dialeto Livoniano O dialeto livoniano é falado no noroeste da Livônia e da Curlândia, originado pelo contato da língua fino-úgrica dos povos indígenas livônios com a língua letã. Algumas de suas especificidades incluem: redução de vogais átonas em posições finais (fenômeno que acontece no livoniano, sendo considerado um aspecto de substrato do letão por alguns linguistas); processo de indistinção entre os gêneros masculino e feminino (também relacionado com a não existência de gênero gramatical em línguas fínicas); e algumas palavras diferentes do letão padrão, como liblana 'borboleta' em oposição à tauriņš no dialeto central.
Alto Letão O alto letão é falado na parte oeste da Letônia, principalmente na Lategália e na Selônia. Alguns traços que distinguem o dialeto são: articulação de vogais mais anteriores que as do dialeto central no caso de a próxima sílaba não conter fator palatal; palatalização de consoantes antes de vogais frontais; marcação do objeto de uma oração no caso genitivo e não no acusativo, provavelmente por influência de línguas eslavas. O alto letão costuma ser subdivido em duas ou quatro variações, com destaque para a variação latgalia que é alvo de debates a respeito de sua classificação como dialeto do letão ou como língua independente.
História
Formação da língua Por volta de 2000 antes da era comum, os proto-Baltos se assentaram entre o atual território polonês e os montes Urais russos, tendo também contato com outras línguas que eram faladas nessa região. A língua dos proto-Baltos então se dividiu no báltico ocidental, cujo último descendente foi o já extinto Prussiano Antigo, e o báltico oriental, que originou as línguas leta e lituana. A separação entre o letão e lituano ocorreu por volta dos séculos VI e VII da era comum, em que o letão teve mais contato com tribos fino-úgricas e o lituano com tribos eslavas.
Algumas camadas do atual vocabulário da língua remontam a esses processos. Como língua indo-europeia, o letão compartilha cognatos presentes em outras línguas da família, como māte 'mãe', saule 'sol' e diena 'dia'. Em seguida, existem termos de estrato balto-eslavo, como galva 'cabeça' (em lituano galva, em russo golova e em polonês głowa) - no entanto, a existência do ramo balto-eslavo é um tópico em debate entre os linguistas, de forma que alguns argumentam que a semelhança entre as línguas bálticas e eslavas se deram pelo contato prolongado entre elas. Quanto ao grupo báltico, muitas palavras do letão e do lituano possuem as mesmas raízes, como a palavra leta kōja e a lituana koja 'pé, perna'. Finalmente, a separação das línguas bálticas pode ser observada em vocabulários com origens distintas, como a palavra leta mati e a lituana plaukai 'cabelo'.
Influências externas esquerda|miniaturadaimagem|230x230px|Jornais escritos em russo vendidos na Letônia (2007). O território letão passou por diversas ocupações ao longo da história que influenciaram a língua leta, sendo a intervenção eslava uma das principais influências. Antes do século XIII, muitas tribos bálticas foram submetidas aos principados russos de Polock e Pskov, o que resultou nos mais antigos termos letos voltados para a religião cristã, como baznīca 'igreja' (do russo antigo božǐnica) e grēks 'pecado' (do russo antigo grĕchǔ). Com a ocupação de toda a Letônia pelo Império Russo séculos depois, e mais tarde com a incorporação do país à União Soviética em 1940, o processo de russificação da região se intensificou com a língua russa tornando-se a língua oficial do Estado e a língua leta assumindo a posição de ameaçada a se tornar uma língua minoritária. Diante disso, não apenas muitas palavras letas possuem origem russa, mas também parte significativa da população que hoje reside na Letônia é etnicamente russa e tem como o russo sua primeira língua.