A língua cebuana ou vissaiana (em cebuano: Sinugboanon ou Binisaya) é um idioma da família austronésia e uma das línguas regionais das Filipinas, a língua franca de Mindanau e das ilhas Vissaias.

Com aproximadamente 24,3 milhões de falantes, o cebuano é a segunda língua mais falada das Filipinas e a maior do subgrupo vissaiano, sendo o idioma indígena do povo vissaiano, nativos das ilhas de Cebu, Bojol, Siquijor, Negros, Leyte e Mindanau; a maior comunidade de diáspora cebuana se localiza nos Estados Unidos. Entre o período da independência e da década de 1970, o cebuano foi a língua com o maior número de falantes nativos no país, superando o tagalo filipino. Apesar disso, o baixo prestígio histórico da língua, tanto na esfera doméstica quanto internacional, classifica o idioma como em estado potencialmente vulnerável de acordo com as métricas da UNESCO.

Estima-se que os ancestrais linguísticos do cebuano já eram falados na ilha de Cebu no quarto milênio a.C. e que o sistema de escrita Bayabayin Badlit, de influência indiana, já era utilizado para registrar o cebuano desde, ao menos, o século XVI. Contudo, nenhum texto original da literatura indígena resistiu à conquista espanhola das Filipinas e a documentação mais antiga sobrevivente da língua é uma lista de vocabulário produzida por Antonio Pigafetta em 1521, durante a expedição de Fernão de Magalhães às ilhas Molucas. Com a decadência das elites vissaianas pela colonização do arquipélago, as variantes literárias do cebuano registradas nos textos espanhóis de gramática e catequese foram fossilizadas; atualmente, suas estruturas e vocabulário são irreconhecíveis aos falantes nativos senão em contextos culturais tradicionais específicos.

Na tipologia linguística, o cebuano é caracterizado por seu inventário fonológico simples, sua estrutura silábica simples, morfologia flexiva e aglutinante, sua estrutura sintática verbo-sujeito-objeto com o alinhamento simétrico e pelo fenômeno da inclusividade nos pronomes pessoais.

Etimologia miniaturadaimagem|upright=1|Vista do crepúsculo no porto moderno da Cidade de Cebu, 2010.

O termo cebuano é um exônimo e, entre todos os nomes possíveis do idioma, é o mais internacionalmente conhecido para referenciar a língua cebuana; sua etimologia deriva do castelhano com a sufixação Cebu + -ano, transformando o nome da ilha em adjetivo. A versão em língua tagalo deriva dessa construção latina, diz-se sebwano. Por sua vez, o nome de Cebu tem sua origem no termo do cebuano antigo para «comércio», sibo, que é uma metonímia da expressão sinibu-ayng bingpit, significando «lugar para comércio pleno» em referência ao porto da cidade.

Há dois endônimos para a língua cebuana e ambos são utilizados amplamente dependendo do contexto. O nome Sinugboanon é formado pela afixação Sugbo + -in- + -anon; Sugbo é o nome cebuano da Cidade de Cebu, que significa «queimado» em cebuano antigo, remontando a lenda de fundação da cidade; o infixo -in- transforma o nome da cidade em adjetivo, sinugbo é o equivalente a «à moda de Sugbo»; por fim, o sufixo -anon indica uma outra adjetivação, sinugboanon traduz-se para «[língua] com as características à moda de Sugbo». O nome Binisaya é composto de maneira parecida, Bisaya + -in-; Bisaya é o nome cebuano para o arquipélago das Vissaias; similarmente, o infixo -in- adjetiva o substantivo próprio, significando «[língua] à moda de Bisaya». Pelo fato de os termos referenciarem diferentes localidades, os habitantes da ilha de Cebu, sobretudo os da Cidade de Cebu, são mais propensos a utilizarem o nome Sinugboanon enquanto os falantes nativos do cebuano em outras ilhas geralmente preferem Binisaya.

Distribuição miniaturadaimagem|upright=1|Dança de rua no festival Sinulog, carnaval filipino em homenagem ao Santo Niño de Cebu, 2020.

O cebuano é uma língua de distribuição geograficamente limitada, sendo principalmente um idioma étnico associado ao povo vissaiano e à macrorregião do arquipélago Malaio. São aproximadamente 24,3 milhões de falantes distribuidos nas regiões filipinas de Bicol, Vissaias Ocidentais, Vissaias Centrais, Vissaias Orientais, Península de Zamboanga, Mindanau Setentrional, Davau, Soccsksargen, Caraga e Bangsamoro. Em 2020, o governo filipino estimou que 95,5% da população dessas regiões é alfabetizada no alfabeto abakada.

As principais comunidades de falantes de cebuano fora das Filipinas estão localizadas no Havaí, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, somando aproximadamente cem mil falantes.

Dialetos miniaturadaimagem|upright=1|Vista das colinas do Chocolate em Bojol, 2009. Os falantes de cebuano, distribuídos no arquipélago filipino, se dividem em dialetos de acordo com as separações geográficas. O dialeto da Cidade de Cebu é considerado a variante padrão da língua, sendo a mais prestigiada e a única disseminada fora de sua ilha natal. Tanangkingsing (2009) classifica a seguinte divisão: as ilhas de Leyte, Bojol e Negros têm seus próprios dialetos; o dialeto de Zamboanga é separado da variante falada no restante da ilha de Mindanau. +Comparação entre os dialetos vissaianos (Blake 1905)Grupo vissaianoCebuanoda Cidade de Cebusi Juan ug akoBojolanosi Juan ug akode Zamboangakami ni Juande Mindanaukami kan JuanLíngua hiligaynonkami ni JuanLíngua waray-waraysi kami ng̃an si JuanEquivalente em língua portuguesaJuan e eu

Línguas relacionadas miniaturadaimagem|upright=1|Mapa da família austronésia. O cebuano integra o mesmo subgrupo do malaio, do maori e do malgaxe.

Como uma língua austronésia do subgrupo das malaio-polinésias, o cebuano tem uma forte relação com a maioria dos grandes idiomas falados nas ilhas do oceano Índico e do Pacífico; especificamente línguas indígenas da Malásia, da Indonésia, de Madagascar, das Filipinas, de Taiwan e da Oceania insular em geral.

+Comparação entre cognatos malaio-polinésios (UH Mānoa)CebuanoTagaloMalásioIndonésioJavanêsPaiwanMalgaxeSignificadobabuybaboybabibabibabivavuy -porcoba-bayiba-baʔe - - -va-vai-anvávymulher, femininokahuykahoykayukayukayu -házomadeira, árvoreparaypalaypadipadiparipaday -planta do arrozliʔugliʔigleherleher -liqu -pescoçoitumitimhitamhitamitem -ma-intypreto miniaturadaimagem|upright=1|Mapa da distribuição das línguas vissaianas.

Além disso, o idioma cebuano faz parte de um contínuo dialetal que compreende a região geográfica das Vissaias, sendo ele o grupo dialetal intermediário entre os conjuntos meridional e central. Tanangkingsing (2009) descreve a seguinte organização das línguas vissaianas:

Fonologia miniaturadaimagem|upright=1|Fachada da Catedral Metropolitana de Cebu, 2024. Assim como outras línguas malaio-polinésias, o cebuano possui um inventário de fonemas relativamente pequeno de somente 19 fones plenamente distintos. Por se tratar de um idioma com pouca institucionalização e alta variação dialetológica, o conteudo desta seção se refere, em geral, à variante formal da Cidade de Cebu, entendida academicamente como a variante padrão do cebuano.

Consoantes miniaturadaimagem|upright=1|Vista da praia de Salagdoong, Siquijor, 2017. O inventário consonantal do cebuano é composto de 16 fones, dos quais nenhum é particular ao idioma. As principais diferenças em relação ao português são: a presença explícita da parada glotal; a ausência de fones comuns como as demais sibiliantes; e a dentalização.

A vibrante múltipla pode ser substituída por outros sons róticos, como ou , sem prejuízo à compreensão, fenômeno especialmente frequente entre falantes influenciados pelo uso do inglês. +Inventário consonantal do cebuanoBilabialDentalAlveolarPalatalVelarGlotalPlosiva⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀Nasal⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀Vibrante⠀⠀⠀Fricativa⠀⠀⠀⠀⠀⠀Glide⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀Lateral⠀⠀⠀

Vogais miniaturadaimagem|upright=1|Vista do Parque do Capitólio em Bacolod, Negros, 2019. O inventário vocálico do cebuano é composto de somente três fonemas plenamente distintos. São eles: a vogal , que pode variar em (padrão), em e em ; a vogal , que pode variar em (padrão), em e em ; e a vogal , que não varia na pronúncia padrão, mas é alófona de .

Acerca das variações, a diferença nas realizações / e / é sutil, esses pares são alófonos internos para fins de análise fonêmica. A inclusão dos fones e ocorre mediante palavras de empréstimo e certas transformações fonológicas específicas, essas vogais possuem suas próprias notações ortográficas ⟨e⟩ e ⟨o⟩ respectivamente. Apesar disso, a tolerância a essas variações é suficiente para que as diferentes realizações não prejudiquem o entendimento das palavras; Nelson (1964) e Endriga (2010) postulam que os três fonemas estão em variação livre interna. +Inventário vocálico do cebuanoAnteriorCentralPosteriorFechadaMédiaAberta

Transformações fonológicas miniaturadaimagem|upright=1|Paisagem da baía de Tacloban, Leyte, 2009. Devido à alta variação dialetológica e ao espaçamento geográfico entre os grupos dialetais, alguns sons específicos são realizados de maneira diferente da variante padrão em ambientes fonéticos específicos.

Na Cidade de Cebu e em Bojol, o fone é realizado como um em ambiente intervocálico entre e , e vice-versa, de forma que o é deletado. Exemplo: [pʊˈlʌ] → [ˈpwʌ] «vemelho». Há também, na Cidade de Cebu e em Bojol, o caso em que o intervocálico é deletado quando ocorre entre duas vogais iguais; nessa situação, a vogal sempre se torna longa quando o deletado não é o ataque da antepenúltima sílaba. Exemplo: [kʌˈlʌjɔ] → [kʌːˈjɔ] «fogo»; [kʌˌlʌˈmʊŋgʌj] → [kʌˈmʊŋgʌj] «moringa».

Particularmente no dialeto bojolano, o fone é sempre realizado como o fone em ambiente intervocálico. Além disso, no bojolano, o fone se transforma em sempre que ocorre como ataque de uma sílaba. Exemplo: [ˈjʊtʌ] → [ˈd͡ʒʊtʌ] «terra, solo».

Fonotática miniaturadaimagem|upright=1|Monte Apo, o ponto mais alto das Filipinas, visto de Davao, Mindanau, 2021. Assim como a maioria das línguas austronésias, o cebuano possui uma estrutura silábica simples de padrão (C)(C)V(C). Os tipos mais comuns são a sílaba aberta CV (consoante-vogal) e a sílaba fechada CVC (consoante-vogal-consoante). Apesar de seram raramente atestados em palavras nativas, encontros consonantais do tipo C1C2V(C) são mais comuns em empréstimos do espanhol e do inglês, nos quais C2 é uma semivogal ou uma rótica.

Ortografia miniaturadaimagem|upright=1|Placa histórica da Catedral Metropolitana de Cebu escrita em língua tagalo no novo Alfabeto Filipino. Assim como a maioria dos idiomas austronésios, o cebuano é atualmente grafado com o alfabeto latino. Contudo, a escrita já era conhecida no arquipélago desde, pelo menos, o século XVI. Até a introdução de missionarios espanhóis, o cebuano era escrito com o sistema Baybayin, um alfassilabário; ou seja, um sistema no qual cada símbolo representa uma sílaba que possui uma consoante dominante e sua vogal alterada de acordo com a aplicação de diacríticos.

Abakada O sistema Abakada é uma adaptação do alfabeto latino para as línguas filipinas; ele possui somente 20 letras, excluindo ⟨c⟩, ⟨f⟩, ⟨j⟩, ⟨k⟩, ⟨q⟩, ⟨v⟩ e ⟨z⟩, mas incluindo o dígrafo ⟨ng⟩.

Originalmente, o Abakada foi desenvolvido por Lope K. Santos em 1939, durante a ocupação estadunidense do arquipélago, para a escrita da «língua nacional» das Filipinas, uma variante padronizada do tagalo. A iniciativa substituiu o alfabeto espanhol nas demais línguas nativas, mas ele não é mais utilizado nacionalmente desde 2013, quando a Comissão sobre a Língua Filipina publicou uma reforma na ortografia nacional.