miniaturadaimagem|Gravura retratando a sociedade de ordens|364x364px Sociedade de ordens ou sociedade estamental é o modelo de estruturação da sociedade vigente na Europa, desde o feudalismo da Idade Média até, pelo menos, o fim da Idade Moderna, convencionalmente marcado pela Revolução Francesa e pelo advento da sociedade capitalista. Caracteriza-se pela estratificação social baseada em três estamentos principais: Primeiro Estado, Segundo Estado e Terceiro Estado, correspondendo respectivamente ao Clero, à Nobreza e ao Povo, representativos de todos os súditos dos respectivos monarcas.Comparação entre as abordagens de classe marxiana e weberiana edisciplinas.usp.brCOSTA, Fernando Nogueira da. Estamento/Ordem X Classe, fernandonogueiracosta.wordpress.com, 23 de fevereiro de 2017.
A divisão desses grupos baseava-se em hierarquias bem definidas, além de haver uma divisão vertical dentro da própria ordem (ou estamento) conforme a classe social, como é possível observar no relato: "Como o povo é um corpo com várias cabeças, ele é dividido por ordens, propriedades ou ocupações específicas. Alguns são dedicados particularmente ao serviço de Deus, outros a proteger o Estado com seus braços, outros a nutrir e mantê-lo através de ocupações pacíficas. Estas são nossas três ordens ou Estados Gerais da França: o clero, a nobreza e o Terceiro Estado."
Entretanto, esses grupos não eram os únicos presentes na Idade Média ou na Idade Moderna. As relações entre esses estratos sociais eram mais complexas do que sugere a divisão dos estamentos. As bases para a manutenção dessa sociedade eram filosóficas mas sobretudo teológico-religiosas, segundo uma cosmovisão cristã. Como descrito em Gênesis: havia uma ordem na criação do mundo. Ou seja, tudo na natureza existiria graças a uma ordem estabelecida por Deus, desde a Criação. Os indivíduos agiam como membros do corpo humano, com suas funções e especificidades. Assim, os seres humanos seriam incapazes de existirem isolados, pois o que caracterizava o "instinto" humano para aquela sociedade era a sociabilidade e interdependência dentro da ordem. António Manuel Hespanha, sintetiza esse pensamento cristão: "Como existe uma ordem entre as criaturas que cria dívidas recíprocas entre elas, pode dizer-se que as relações estabelecidas nessa ordem constituem deveres. E, logo, que a ordem institui um direito, um direito natural. E como a soma dos deveres das criaturas entre si é também devida à ordem, ou seja, a Deus, o cumprimento dos deveres recíprocos é, em certa medida, um dever para com Deus e, logo, o tal direito natural acaba por ser direito divino."No que corresponde à Filosofia, São Tomás de Aquino ao interpretar os Escritos de Aristóteles, afirma que o mundo estava organizado de modo fixo. Ou seja, as desigualdades sociais e políticas eram consideradas imutáveis e necessárias à ordem. Deste modo, a estratificação social foi baseada nas premissas religiosas do Cristianismo, a partir da Bíblia e da filosofia cristã. Novamente, as palavras de Hespanha: "a diferença não significaria (...) a imperfeição ou menos perfeição de uma parte em relação às outras. Significaria antes uma diferente inserção funcional, uma cooperação, a seu modo específico, no destino final do mundo.(...) subordinação não representaria menor dignidade, mas antes apenas um específico lugar na ordem do mundo (...)”.É nesse contexto que os indivíduos eram socialmente caracterizados e hierarquizados em um grau de importância estabelecido previamente. Sendo assim, as pessoas não existiam em sua individualidade. Além do pensamento da época, outra parte importante para compreender a sociedade de ordens são as relações com as terras: “Cada propriedade tinha um senhor. Dizia-se comumente do Período Feudal que não havia “senhor sem terra, nem terra sem um senhor.” Em média, três a quatro dias por semana, o trabalhador tinha que produzir para o seu senhor, sem pagamento por isso. Este trabalhador recebia uma pequena parte de terra dentro dos domínios do senhor, mas a prioridade, em todos os sentidos, era em relação à terra de seu suserano.
Dinâmica miniaturadaimagem|Trabalhadores do Campo|alt=|esquerda|339x339px
O historiador Johan Huizinga apresenta a complexidade e amplitude da sociedade de ordens. Os estratos sociais não se restringiam aos três mais conhecidos: Clero, Nobreza e Terceiro Estado. Quer dizer, haviam outros grupos e subgrupos que possuíam suas características especificas. É notório o caráter coletivo para caracterização dos indivíduos dentro da sociedade de ordens. Ou seja, essa divisão era ampla e complexa, onde cada estamento possui seu propósito e representa uma instituição divina, isto é, um Plano de Deus para que a sociedade pudesse funcionar. Sendo assim, cada estado era legítimo como a hierarquia dos anjos.''O conceito de divisão da sociedade em estamentos está na raiz de todas as reflexões políticas e teológicas e não se resume aos três estamentos consagrados: clero, nobreza e terceiro estado. O conceito de estamento tem valor mais forte e alcance muito maior. Em geral, cada grupo, função, profissão é vista como um estamento, de forma que, ao lado da divisão da sociedade em três estamentos, também seria possível dividi-la em doze. Pois estamento é estado estat ou ordo, termos que remetem a uma entidade ditada pela vontade de Deus.''A sociedade de ordens possui leis específicas para cada camada da sociedade que não contempla necessariamente as riquezas do indivíduo, mas sim o status do indivíduo. Ou seja, os indivíduos eram definidos por alguma ordem e as ordens tinham seus direitos e privilégios definidos, havendo diferenças perante a justiça nas aplicações das leis. A diferença entre a sociedade de ordens e sociedades de classes, é devido à segunda hierarquizar os indivíduos a partir das riquezas individuais e não pela funcionalidade de cada coletivo. Isto é, as ordens não se referem a uma divisão por classes diferentes ou riquezas, mas pela finalidade e função de cada grupo.
''O conceito de ''estado'' ou ''ordem'' define-se em todos esses casos pela noção de que cada um desses grupos representa uma instituição divina, é um elemento na arquitetura, tão essencial e tão hierarquicamente digno quanto os tronos e os poderes da hierarquia dos anjos''.
Embora seja uma sociedade muito ampla e estratificada, as principais divisões, que são conhecidas como os três estados, eram compostas por: Clero O Primeiro Estado, composto pelos representantes religiosos, o clero era dividido entre clero secular e clero regular. A Igreja foi uma das maiores organizações durante a Idade Média e início da Idade Moderna. Dessa maneira, a Igreja possuía tanto o poder religioso como político, pois o pensamento da época era fortemente influenciado e moldado conforme os ideais eclesiásticos. É possível reconhecer a importância da Igreja na sociedade a partir, por exemplo, da doação de parte do trabalho semanal dos camponeses e servos à Igreja em forma de porcentagens de sua renda como dízimo. Outro exemplo, durante a Idade Média os nobres doavam terras em busca da salvação. Isto significa que a Igreja através da Bíblia, do pecado e do medo do destino depois da morte conseguiam controlar a vida social. ''É preciso reconhecer aqui o papel representado pela Igreja e pelo papado na ordem europeia; eles foram, com efeito, factores essenciais de unidade; a diocese, a paróquia, confundindo-se frequentemente com o domínio, foram, durante o período de decomposição da Alta Idade Média, as células vivas a partir das quais se reconstituiu a nação.''Da mesma forma que o Estado reforçava o poder da Igreja, dentro dos limites, a Igreja tinha o dever de fazer a manutenção do Estado. Dessa forma, a Igreja não possuía apenas o poder religioso, mas também um poder político. Ressaltando assim a influência da Igreja sobre a nobreza ou até mesmo na vida do Terceiro Estado.
“Se é dever daqueles que dirigem os Estados salvaguardar os direitos e a independência da Igreja, é também dever daqueles que detêm o governo eclesiástico tudo fazer para que os reis e os príncipes possuam a plenitude da sua autoridade.”
Nobreza ''Como é de justiça, exige-se da nobreza mais dignidade e retidão moral que dos outros membros da sociedade. Por uma mesma falta, a pena infligida a um nobre será muito superior à que é destinada a um plebeu.''A nobreza era composta pelos Duques, Príncipes e pelos Cavaleiros. A historiadora Régine Pernoud apresenta a imagem da nobreza como um modelo moral e agente da virtude e da justiça. Os nobres eram responsáveis pela proteção de todos os estratos sociais. Por exemplo, contra invasões, muito frequentes principalmente durante a Idade Média. A nobreza recebia privilégios através da justiça, por exemplo, a isenção de impostos, assim como o clero. Apesar da nobreza ser uma camada rica da sociedade, era comum nobres empobrecidos, pois o que definia o status do indivíduo como nobre, na maioria das vezes, era a partir do nascimento.
Terceiro Estado O Terceiro Estado era a divisão mais ampla, pois reunia a maioria da sociedade, desde os servos, camponeses, artesãos, comerciantes, produtores, etc. Cada ordem possuía sua função. Ou seja, o clero ou oradores eram os que rezavam; A nobreza ou bellatores eram os que lutavam; E o Terceiro Estado ou laboradores eram os que trabalhavam. Isto significa que os participantes do Terceiro Estado vivam pelo trabalho e labuta. Dessa forma, constituíam o pilar que sustentava a sociedade, seja na alimentação, vestimentas. O historiador Johan Huizinga então cita a função desse estrato: ''Deus criou o povo para trabalhar, arar o solo e cuidar da subsistência por meio do comércio.''
''O Terceiro Estado esteve sempre em uma condição intermediária entre a Liberdade própria e a Servidão, muitas vezes servindo a um senhor Feudal em troca de proteção ou sendo algum comerciante independente para o ganho do próprio produto de seu trabalho. Mostrando assim como era vasta a esfera do Terceiro Estado.''
O Terceiro Estado constituía a camada mais miserável da sociedade, devido às más condições de vida, como a fome, saúde precarizada, leis desiguais ou até mesmo a super-exploração. Essa densa camada populacional era oprimida constantemente pelos estratos superiores, essa relação foi retratada na obra ''Le Quadrilogue Invectif'' escrita pelo poeta Alain Chartier mostrando um diálogo entre os três estados com uma personificação da França.
No entanto, assim como haviam nobres empobrecidos, era possível encontrar, ainda que raramente, comerciantes enriquecidos. E tal como os nobres, o status de quem vivia nesse estamento era definida pelo nascimento e as chances de mobilidade eram praticamente nulas. As chances de ascender de estrato dependia muito mais de graças, concedidas pelo Rei do que do trabalho e riquezas do indivíduo.
Relações Sociais miniaturadaimagem|289x289px|Representação dos Três Estados