A Pirâmide de Neferircaré (em egípcio antigo: Ba-nefer-ir-ka-Re, significando "Ba de Neferircaré") é uma pirâmide egípcia construída em meados do para o faraó Neferircaré da Quinta Dinastia. É a estrutura mais alta da necrópole de Abusir, localizada entre Gizé e Sacará, e foi erguida no ponto mais elevado do local, podendo até hoje ser facilmente vista de qualquer lugar dos arredores A pirâmide é significativa por ter sido o local onde os Papiros de Abusir foram descobertos.

A Quinta Dinastia marcou o fim das grandes construções de pirâmides durante o Império Antigo. As pirâmides do período eram menores e mais padronizadas, porém decorações em relevo também proliferaram. A Pirâmide de Neferircaré desviou-se das convenções por ter sido originalmente construída como uma pirâmide de degraus, um estilo de projeto que tinha ficado antiquado depois da Terceira Dinastia. Esta então foi coberta com uma segunda pirâmide de degraus com alterações sendo feitas para convertê-la em uma pirâmide verdadeira de faces lisas; entretanto, a morte de Neferircaré deixou que o trabalho fosse completado por seus sucessores. As obras restantes foram completadas às pressas e usando materiais de baixa qualidade.

Por essas circunstâncias, a Pirâmide de Neferircaré não possui muitos dos elementos comuns de um complexo mortuário de seu tipo: um templo do vale, um passeio e uma pirâmide de culto. Em vez disso, eles foram substituídos por um pequeno assentamento de casas de tijolos de barro ao sul, onde sacerdotes realizavam suas atividades diárias. A descoberta dos Papiros de Abusir na década de 1890 deve-se a isso. Normalmente, arquivos de papiros estariam dentro do complexo da pirâmide onde sua destruição seria certa. A Pirâmide de Neferircaré tornou-se parte de um cemitério familiar mais amplo. Sua consorte Quentecaus II e seus filhos Neferefré e Raturés foram todos enterrados nas proximidades. Apesar da construção desses monumentos terem começado sob diferentes faraós, todos os quatro foram completados durante o reinado de Raturés.

Localização e escavação thumb|esquerda|270px|Mapa na necrópole de Abusir, mostrando a localização da Pirâmide de Neferircaré em relação às outras pirâmides da área A Pirâmide de Neferircaré está situada na necrópole de Abusir, entre os planaltos de Sacará e Gizé. Abusir assumiu grande importância na Quinta Dinastia depois do faraó Userquerés, o primeiro governante da dinastia, ter construído seu templo no local, enquanto seu sucessor Sefrés inaugurou a necrópole real com sua pirâmide. Neferircaré foi o filho e sucessor de Sefrés e reinou em meados do . Foi o segundo faraó a construir sua pirâmide e ser enterrado no local. Seu nome na língua egípcia antiga era Ba-nefer-ir-ka-Re, que significa "Ba de Neferircaré", ou ainda "Neferircaré assume forma".

A Pirâmide de Neferircaré está localizada a certa distância da Pirâmide de Sefrés. O egiptólogo Jaromír Krejčí propôs várias teorias para explicar a posição do complexo de Neferircaré em relação ao de Sefrés: que Neferircaré foi motivado a distanciar-se de seu predecessor e assim escolheu um novo cemitério e uma planta de templo mortuário redesenhada com o objetivo de se diferenciar, que as pressões geomorfológicas – particularmente a inclinação entre os dois complexos – forçaram Neferircaré a situar sua pirâmide em outro lugar, que o faraó pode ter escolhido a localização porque era o ponto mais alto da área e assim sua pirâmide dominaria os arredores, ou porque o local está em uma linha direta com Heliópolis. A Diagonal de Abusir é uma linha figurativa que conecta os cantos noroeste das pirâmides de Neferefré, Neferircaré e Sefrés. É similar ao eixo de Gizé, que conecta os cantos sudoeste das grandes pirâmides, e converge com a Diagonal de Abusir em um ponto em Heliópolis.

A localização do complexo afetou o processo de construção. O egiptólogo Miroslav Bárta afirmou que um dos principais fatores que influenciavam a localização da pirâmide era sua posição em relação à capital administrativa do Império Antigo, que na época era a cidade de Inbu-Hedj, conhecida hoje como Mênfis. Contando que a localização da antiga Mênfis esteja atualmente correta, a necrópole de Abusir estaria não mais do que quatro quilômetros de distância do centro da cidade. O benefício da proximidade entre os dois era melhor acesso a recursos e mão de obra. Os trabalhadores poderiam explorar uma pedreira de calcário ao sudoeste de Abusir com o objetivo de reunirem recursos para a alvenaria dos blocos usados na pirâmide. O calcário era particularmente fácil de se extrair considerando-se que cascalho, areia e camadas de tafl imprensavam o calcário em segmentos de aproximadamente sessenta por oitenta centímetros de espessura, facilitando muito seu transporte.

O egiptólogo britânico John Shae Perring limpou em 1838 a entrada das pirâmides de Sefrés, Neferircaré e Raturés. O egiptólogo prussiano Karl Richard Lepsius explorou a necrópole de Abusir cinco anos depois e catalogou a Pirâmide de Neferircaré como a de número XXI. Foi Lepsius quem propôs a teoria do método da camada de acreção de construção aplicado nas pirâmides da Quinta e Sexta Dinastias. Um importante desenvolvimento foi a descoberta dos Papiros de Abusir, encontrados no templo de Neferircaré durante escavações ilícitas em 1893. O egiptólogo alemão Ludwig Borchardt, à trabalho pela Sociedade Oriental Alemã, inspecionou novamente as mesmas pirâmides e seus templos adjacentes, escavando também os passeios. Suas descobertas foram publicadas em 1909 no livro Das Grabdenkmal des Königs Nefer-Ir-Ke-Re. O Instituto Tcheco de Egiptologia tem realizado desde a década de 1960 um projeto de escavação de longa duração no local.

Complexo mortuário Traçado thumb|250px|Modelo tridimensional do complexo da Pirâmide de Neferircaré As técnicas de construção de pirâmides passaram por uma transição no decorrer da Quinta Dinastia. A monumentalidade das pirâmides diminuiu, o projeto dos templos mortuários mudou e a subestrutura das pirâmides foi padronizada. Por outro lado, as decorações em relevo proliferaram e os templos foram enriquecidos com maiores complexos de armazenamento.

Essas mudanças conceituais já tinham se desenvolvido até pelo menos a época do reinado de Sefrés. Seu complexo mortuário indica que a expressão simbólica por meio das decorações foi favorecida em detrimento de magnitude da construção. Por exemplo, o complexo da Pirâmide de Quéops na Quarta Dinastia tinha um total de cem metros reservados para decoração, enquanto o templo de Sefrés tinha por volta de 370 metros lineares dedicados a decorações em relevo. Bárta salientou que o espaço de armazéns nos templos mortuários cresceu consistentemente do reinado de Neferircaré em diante. Isto foi o resultado de uma centralização do foco administrativo no culto funerário em conjunto com o aumento do número de sacerdotes e oficiais envolvidos na manutenção do culto, além do aumento de suas rendas. A descoberta de uma grande quantidade de recipientes, a maioria quebrados ou incompletos, nos templos das pirâmides de Sefrés, Neferircaré e Neferefré corrobora esse desenvolvimento.

Complexos mortuários do Império Antigo eram formados por cinco componentes essenciais: um templo do vale, um passeio, um templo mortuário, uma pirâmide satélite ou de culto e a pirâmide principal. O complexo mortuário de Neferircaré tinha apenas dois desses elementos: um templo mortuário construído rapidamente com madeira e tijolos de barro de má qualidade e a maior pirâmide da necrópole. O templo do vale e passeio que originalmente fariam parte do complexo de Neferircaré foram apropriados por Raturés para sua própria pirâmide. Uma pirâmide de culto nunca foi construída, uma consequência da pressa para completar o monumento depois da morte do faraó. Seu substituto foi um pequeno assentamento de alojamentos construídos com tijolos de barro ao sul do complexo onde os sacerdotes viviam. Um grande muro de tijolos foi construído ao redor do perímetro da pirâmide e templo mortuário a fim de completar o monumento de Neferircaré.

Pirâmide thumb|270px|esquerda|Os três estágios da construção da Pirâmide de Neferircaré. Cinza claro: o núcleo original de seis degraus. Cinza escuro: projeto de extensão com dois degraus extras. Bege: cobertura externa lisa de granito. O corredor interno e o teto empenado de calcário da câmara mortuária e antecâmara também são visíveis O monumento foi originalmente projetado como uma pirâmide de degraus, uma escolha incomum dado que a era de pirâmides de degraus tinha se encerrado com a Terceira Dinastia um ou dois séculos antes, dependendo da fonte acadêmica. Não se sabe ao certo o motivo disso. O egiptólogo Miroslav Verner considerou uma conexão especulativa entre a listagem de Neferircaré no Cânone de Turim como "fundador de uma nova dinastia" e o projeto original, porém também contempla a possibilidade de motivos religiosos e políticos. A pirâmide original possuía seis degraus cuidadosamente construídos a partir de blocos de pedra de alta qualidade, alcançando uma altura de 52 metros. Uma cobertura de calcário branco foi aplicada na estrutura, porém muito pouco desse trabalho foi completado, apenas o primeiro degrau. Ela então foi reprojetada para tornar-se uma "pirâmide verdadeira". Verner descreveu a arquitetura de pirâmides da Quinta Dinastia:

Toda a estrutura foi expandida para fora em aproximadamente dez metros e elevada em mais dois degraus com o objetivo de convertê-la em uma pirâmide genuína. O projeto de expansão foi completado grosseiramente com pequenos fragmentos de pedra que seriam cobertos por granito vermelho. A morte prematura do faraó paralisou o projeto depois de apenas a cobertura inferior da estrutura ter sido finalizada. A base final media 105 metros em cada lado; sua altura final caso os trabalhos tivessem sido completados seria de aproximadamente 72 metros com uma inclinação de 54 graus. Apesar da pirâmide nunca ter sido completada, ela tem um tamanho comparável ao da Pirâmide de Miquerinos em Gizé e domina os arredores dado sua posição no alto de uma colina 33 metros acima do Delta do Nilo.

Subestrutura O corredor descendente perto do meio da face norte da pirâmide serve de entrada para sua subestrutura. O corredor começa aproximadamente dois metros sobre o solo e termina em uma profundidade semelhante debaixo da superfície do deserto. Suas proporções são de 1,87 metros de altura e 1,27 de largura. Ele é reforçado na entrada e na saída com uma cobertura de granito. O corredor termina em um vestíbulo, que por sua vez leva a um corredor ainda mais longo que é guardado por rastrilhos. Este segundo corredor possui duas curvas, porém mantém o sentido leste e termina em uma antecâmara que está separada da câmara mortuária. O teto do corredor é único: o teto reto possui acima de si um segundo teto empenado feito de calcário, que por sua vez está abaixo de um terceiro teto feito a partir de uma camada de juncos.

Os tetos da câmara mortuária e da antecâmara foram construídos com três camadas empenadas de calcário. As vigas de sustentação dispersavam o peso da superestrutura para as laterais da passagem, prevenindo um colapso. Ladrões saquearam todo o calcário das câmaras internas, tornando impossível reconstruí-las adequadamente, porém alguns detalhes ainda podem ser discernidos. Isto é, que ambas as câmaras eram orientadas em um eixo leste–oeste, ambas tinham a mesma largura, a antecâmara era a mais curta das duas, que ambas tinham o mesmo estilo de teto e há em ambas uma camada faltante de calcário.

A subestrutura de forma geral está muito danificada. O colapso de uma camada das vigas de calcário cobriu toda a câmara mortuária. Nenhum vestígio de uma múmia, sarcófago ou qualquer outro equipamento funerário foi encontrado dentro. A seriedade dos danos à subestrutura impedem escavações mais profundas.

Templo mortuário