Alice Vianna Prestes (Piracicaba, 21 de outubro de 1887 — Itapetininga, 9 de junho de 1940) foi uma brasileira, esposa do advogado e político Júlio Prestes, que exerceu o papel de primeira-dama do estado de São Paulo durante a presidência estadual do marido, entre 1927 e 1930. Júlio Prestes foi eleito presidente da República em março de 1930, mas a ruptura política provocada pela Revolução de 1930 impediu sua posse, prevista para novembro daquele ano. Consequentemente, Alice não chegou a exercer o papel de primeira-dama do Brasil.
Integrada à vida pública e familiar que acompanhou a ascensão política de Júlio Prestes, Alice apareceu com frequência crescente na imprensa no fim da década de 1920 e, particularmente, durante a campanha e a transição presidencial de 1930. Naquele ano, reuniu-se ao marido durante sua viagem internacional, participando de compromissos na Europa e sendo registrada em cerimônias na França e durante a viagem marítima de retorno ao Brasil.
Após a Revolução de 1930 e a partida de Júlio Prestes para o exílio, Alice integrou-se posteriormente ao marido na Europa. A família viveu inicialmente entre Paris e outras cidades europeias e, a partir de 1931, estabeleceu residência em Monte Estoril, em Portugal. A correspondência familiar preservada pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo registra a participação de Alice nesse período e constitui uma das principais fontes documentais sobre sua vida. Depois do regresso da família ao Brasil, Alice voltou a viver no interior paulista. Morreu em 1940, aos 52 anos, na Fazenda das Araras, em Itapetininga.
Biografia
Origem e família
Alice nasceu em Piracicaba, no interior paulista, em 21 de outubro de 1887. Era filha de Abílio Vianna e Maria Isabel de Barros Vianna. Registros genealógicos indexados pelo FamilySearch identificam-na também como Alice de Barros Vianna e registram seu casamento com Júlio Prestes de Albuquerque em 3 de maio de 1906, na região da Consolação, na cidade de São Paulo. A descrição arquivística oficial do fundo pessoal de Júlio Prestes, conservado pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo, situa igualmente o casamento em maio de 1906.
thumb|esquerda|Alice Prestes a bordo do RMS Arlanza, durante seu retorno ao Brasil, em setembro de 1930. A fotografia foi publicada pela revista Vida Doméstica e encontra-se em domínio público.
Júlio Prestes pertencia a uma família tradicional da política paulista. Seu pai, Fernando Prestes de Albuquerque, havia governado São Paulo entre 1898 e 1900 e continuou a exercer influência na política estadual durante as primeiras décadas do século XX. Júlio formou-se em direito, exerceu a advocacia e iniciou sua carreira parlamentar em 1909, tornando-se progressivamente uma das figuras de maior projeção do Partido Republicano Paulista.
Alice e Júlio tiveram três filhos: Marialice, Fernando Neto e Irene. Marialice casou-se com Mário de Freitas Pitombo e Irene com Sócrates Ribeiro da Silva. Uma notícia publicada por ocasião da morte de Alice, em 1940, relacionava os três filhos e mencionava também uma neta do casal.
Primeira-dama de São Paulo
A ascensão de Júlio Prestes ao governo paulista ocorreu num momento de grande influência política do Partido Republicano Paulista na Primeira República. Ele assumiu a presidência do estado de São Paulo em 14 de julho de 1927, depois do falecimento do presidente estadual Carlos de Campos e do período interino de Antônio Dino da Costa Bueno. Com a posse do marido, Alice passou a ocupar a posição social e cerimonial tradicionalmente associada à esposa do chefe do Executivo paulista.
Embora a condição de primeira-dama não constituísse um cargo público ou uma função constitucional, as esposas dos presidentes estaduais apareciam em cerimônias, recepções e compromissos sociais relacionados à representação do governo. A projeção de Alice acompanhou a crescente importância política do marido e tornou-se particularmente visível entre 1929 e 1930, quando Júlio Prestes foi escolhido como candidato governista à Presidência da República.
A candidatura de Prestes provocou uma ruptura no arranjo político que sustentava a sucessão presidencial. Em oposição à candidatura governista, setores políticos de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba organizaram a Aliança Liberal, que lançou a chapa de Getúlio Vargas e João Pessoa.
Durante a campanha, a família Prestes passou a receber cobertura frequente da imprensa nacional. Fotografias e reportagens apresentavam Alice em eventos sociais e cerimônias vinculadas à projeção política do marido, prática comum na cobertura das elites políticas brasileiras da época.
Eleição presidencial de 1930
A eleição presidencial foi realizada em 1.º de março de 1930. Júlio Prestes foi declarado vencedor e presidente eleito da República, derrotando Getúlio Vargas. Segundo o verbete biográfico da Fundação Getulio Vargas, Prestes recebeu mais de um milhão de votos e foi reconhecido como vencedor do pleito, embora a oposição tenha contestado aspectos do processo eleitoral.
A vitória colocou Alice na posição de esposa do presidente eleito, mas não lhe conferiu formalmente a condição de primeira-dama. A posse estava prevista para 15 de novembro de 1930 e, até então, Sofia Pais de Barros, esposa do presidente Washington Luís, permanecia vinculada à Presidência da República. A sucessão, entretanto, jamais seria concluída.
Júlio deixou o governo paulista em maio de 1930, antes da posse presidencial. Em 21 de maio embarcou para uma viagem internacional acompanhado inicialmente pelo filho Fernando Prestes Neto. A viagem teve como primeiro grande destino os Estados Unidos, onde o presidente eleito foi recebido pelo presidente Herbert Hoover, seguindo posteriormente para a Europa.
Alice e as filhas Marialice e Irene reuniram-se a Júlio durante a etapa europeia da viagem. De acordo com a documentação organizada pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo, a permanência europeia ocorreu entre o fim de junho e julho de 1930 e incluiu compromissos em países como França, Reino Unido, Espanha e Portugal.
Na França, a imprensa registrou a presença de Alice em cerimônias relacionadas à visita de Júlio Prestes. Uma fotografia publicada por A Gazeta mostra-a entre os participantes de um almoço realizado no Palácio do Eliseu, oferecido pelo presidente francês Gaston Doumergue em homenagem ao presidente eleito brasileiro. Na mesma ocasião estavam as filhas Irene e Marialice Prestes Pitombo.
Outra reportagem registrou Alice e familiares em Longchamp, durante o Grande Prêmio, acompanhando Júlio Prestes e o embaixador brasileiro Luís Martins de Sousa Dantas.
A viagem foi também documentada iconograficamente pela imprensa ilustrada. A revista Vida Doméstica publicou, em setembro de 1930, uma fotografia de Alice a bordo do transatlântico RMS Arlanza, durante o retorno ao Brasil. Esses registros constituem algumas das principais imagens conhecidas de Alice e ajudam a documentar sua presença nas atividades que cercaram a condição de Júlio Prestes como presidente eleito.
Ainda naquele período, a imprensa registrou Alice em cerimônias de caráter público. Uma reportagem publicada em 1930 descreveu sua recepção por representantes de associações de trabalhadores e estudantes durante uma solenidade, na qual compareceu acompanhada das filhas e foi recebida por dirigentes associativos e representantes oficiais.
Revolução de 1930
O cenário político alterou-se radicalmente nos meses seguintes à eleição. Em 3 de outubro de 1930 teve início um movimento armado liderado por forças oposicionistas em diferentes regiões do país. Em 24 de outubro, antes do término do mandato presidencial, Washington Luís foi deposto por chefes militares no Rio de Janeiro. Uma junta governativa assumiu provisoriamente o poder e, em 3 de novembro, transferiu-o para Getúlio Vargas.
Com a deposição de Washington Luís, a posse de Júlio Prestes tornou-se inviável. O presidente eleito procurou abrigo no consulado britânico e posteriormente deixou o Brasil rumo à Europa. Dessa forma, Alice nunca chegou a ocupar o papel de primeira-dama do Brasil.
A mudança política afetou diretamente a vida da família Prestes. A documentação preservada pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo registra dificuldades financeiras temporárias associadas ao bloqueio de bens e a separação inicial dos membros da família durante os primeiros meses do exílio.
No fim de 1930, Júlio Prestes chegou a Paris acompanhado inicialmente apenas do filho Fernando. Alice permanecia separada do marido. Segundo a descrição arquivística do Fundo Júlio Prestes, ela escreveu-lhe informando que estava economizando recursos para poder juntar-se a ele na Europa. A correspondência é uma das poucas fontes preservadas que registram diretamente a participação de Alice nos acontecimentos posteriores à Revolução.
Exílio na Europa
No início de 1931, Alice, as filhas e uma neta já haviam se reunido novamente a Júlio na Europa. A descrição institucional do Arquivo Público paulista informa que o núcleo familiar passou novamente a conviver em conjunto naquele período.
A partir de 1931, a família transferiu sua residência para Monte Estoril, localidade costeira próxima de Lisboa, em Portugal. A escolha relacionava-se, segundo o arquivo paulista, às condições climáticas e à facilidade proporcionada pelo idioma. Durante o exílio, os Prestes mantiveram intensa correspondência com parentes, amigos e aliados que permaneceram no Brasil, por meio de cartas, telegramas e cartões-postais.
A presença de Alice em território europeu também é confirmada pela imprensa contemporânea. Em 8 de dezembro de 1931, o jornal carioca A Noite noticiou que Júlio Prestes viajara de Boulogne-sur-Mer, na França, para Lisboa a bordo do navio Cap Arcona, acompanhado da família, identificando expressamente Alice entre os passageiros.
O exílio europeu prolongou-se durante os primeiros anos do governo Vargas. A correspondência preservada no fundo documental da família mostra que assuntos privados e familiares coexistiam com avaliações sobre a situação política brasileira, permitindo acompanhar simultaneamente a dimensão pública e doméstica daquele período.
Retorno ao Brasil e últimos anos
A promulgação da Constituição de 1934 e a reconstitucionalização do país criaram condições para o retorno de antigos adversários políticos do novo regime. Júlio Prestes regressou ao Brasil em 1934, depois de aproximadamente quatro anos afastado, e passou a dedicar-se principalmente às propriedades rurais da família em Itapetininga.
Nos anos que se seguiram, Alice permaneceu ligada à vida familiar no interior de São Paulo. Diferentemente da intensa exposição pública verificada em 1930, a documentação disponível sobre seus últimos anos é predominantemente de natureza familiar e privada.
Júlio Prestes, por sua vez, manteve-se afastado da vida partidária durante a maior parte do período do Estado Novo, voltando à atividade política apenas na década de 1940. Alice não viveu para acompanhar essa retomada.
Morte
Alice Prestes morreu em 9 de junho de 1940, aos 52 anos, na Fazenda das Araras, propriedade localizada no município de Itapetininga. Sua morte foi noticiada pela imprensa paulista nos dias seguintes.
O Correio Paulistano publicou em 11 de junho uma nota intitulada D. Alice Prestes, enquanto outros periódicos registraram a repercussão do falecimento e identificaram seus familiares sobreviventes. O jornal O Tempo informou que Alice deixava os filhos Marialice Prestes Pitombo, Fernando Prestes Neto e Irene Prestes da Silva, além de uma neta, e registrou que o sepultamento ocorreu em Itapetininga.
Fontes contemporâneas indicam que seu corpo foi sepultado no Cemitério do Santíssimo Sacramento, em Itapetininga.
Júlio Prestes sobreviveu à esposa por quase seis anos. Morreu em São Paulo em 9 de fevereiro de 1946, aos 63 anos.
Acervo documental