A crise haitiana é uma crise socioeconômica e política em curso no Haiti desde 2018 marcada por protestos e distúrbios civis contra o governo haitiano, violência de gangues armadas, um surto de cólera, escassez de combustível e água potável e fome aguda generalizada. Os protestos começaram em cidades de todo o Haiti em 7 de julho de 2018 em resposta ao aumento dos preços dos combustíveis. Com o tempo, esses protestos evoluíram para demandas pela renúncia de Jovenel Moïse, o então presidente do Haiti. Liderados pelo político da oposição Jean-Charles Moïse (sem parentesco), os manifestantes afirmaram que seu objetivo era criar um governo de transição, disponibilizar programas sociais e processar funcionários supostamente corruptos. Em 7 de fevereiro de 2021, apoiadores da oposição contra o então titular Jovenel Moïse supostamente tentaram um golpe de Estado, levando a 23 prisões, bem como confrontos entre manifestantes e policiais.

No desenrolar da crise houve seis mudanças de primeiro-ministro e a Assembleia Nacional não pôde realizar as suas eleições, desaparecendo na prática. Em 7 de julho de 2021, Jovenel Moïse foi assassinado, supostamente por um grupo de 28 mercenários estrangeiros; três dos supostos assassinos foram mortos e 20 presos. Depois que o primeiro-ministro interino Claude Joseph deixou o cargo, Ariel Henry foi empossado como primeiro-ministro interino em 20 de julho de 2021. Manifestantes e defensores dos direitos civis no Haiti argumentaram que o status de Henry como primeiro-ministro é ilegítimo.

Em setembro de 2022, Henry anunciou que o governo acabaria com os subsídios aos combustíveis e que o preço dos produtos petrolíferos aumentaria; isso levou a protestos, incluindo uma manifestação em Porto Príncipe que se transformou em um motim dias depois. Em resposta ao governo, uma aliança de mais de uma dezena de gangues bloqueou o maior terminal de combustível do país. Esse bloqueio e os distúrbios ao redor levaram ao fechamento temporário de embaixadas estrangeiras no Haiti, bem como à escassez de recursos, reduções de serviços hospitalares, fechamento de escolas e trabalhadores impossibilitados de se deslocar para o trabalho. Em 11 de outubro de 2022, Henry e seu gabinete solicitaram o envio de tropas estrangeiras para se opor às gangues e manifestações antigovernamentais em Porto Príncipe. Em 15 de outubro, os Estados Unidos e o México enviaram veículos blindados e equipamentos militares para ajudar o governo haitiano. Em 21 de outubro, o Conselho de Segurança da ONU votou por unanimidade para aprovar sanções ao Haiti, ou seja, um congelamento de bens, proibição de viagens e embargo de armas contra as gangues armadas do país.

Em março de 2024, o primeiro-ministro em exercício, Ariel Henry, foi impedido de regressar ao Haiti após uma viagem destinada a garantir a ajuda da polícia do Quênia na contenção da violência dos gangues. O vácuo de poder, juntamente com o caos nas ruas, levou à marcação de uma reunião de emergência da CARICOM para 11 de março.

Contexto thumb|left|Jovenel Moïse, presidente da República a partir de 2016. Situação politica Após o término do mandato de Michel Martelly, em 7 de fevereiro de 2016, Jocelerme Privert foi eleito presidente provisório da República do Haiti pelo Senado da República e pela Câmara dos Deputados reunidos na Assembleia Nacional em 14 de fevereiro após o segundo turno de votação.. O seu mandato estava limitado a cento e vinte dias, nos termos de um acordo assinado poucas horas antes do fim do mandato do Presidente Martelly.. Privert renuncia, na sequência, ao seu assento como senador e presidente do Senado.

Em abril, o segundo turno das eleições presidenciais é adiado para data desconhecida, em seguida, em 31 de maio, a comissão eleitoral recomenda a organização de um novo primeiro turno, ao passo que o mandato de Privert termina em 14 de junho. Em 6 de junho, a eleição presidencial foi oficialmente cancelada pelo presidente do Conselho Eleitoral Provisório, conduzindo a uma nova votação. Em 14 de junho, o Parlamento declara o fim do mandato presidencial. Três dias depois, em entrevista à AFP, anunciou que permaneceria no cargo até que o Parlamento tomasse uma decisão. No entanto, a Entente Democrática, uma coalizão de oposição liderada pelo ex-primeiro-ministro Evans Paul, pede a sua saída. Uma sessão da Assembleia Nacional é marcada para 21 de junho para decidir sobre a prorrogação ou não do mandato. No entanto, esta sessão é adiada para data indefinida, após manifestações pró-Privert. Uma nova sessão é realizada em 28 de junho, mas não leva a nenhum resultado.

Em 29 de novembro de 2016, Jovenel Moïse foi eleito Presidente da República. Em 7 de fevereiro de 2017, Jocelerme Privert deixou o cargo e transferiu o poder para o presidente eleito.

As eleições legislativas, marcadas para 2018, foram repetidamente adiadas. Essa situação permite que o presidente fortaleça seus próprios poderes. A partir de janeiro de 2020, Jovenel Moïse decide governar por decreto.

Corrupção e problemas sociais Os protestos começaram na sequência de denúncias judiciais de que altos funcionários do governo haitiano usaram fraudulentamente até US$ 3,8 bilhões em empréstimos do programa Petrocaribe da Venezuela e que o presidente Jovenel Moïse estava envolvido em casos de corrupção (bem como quinze ex-ministros e altos funcionários públicos, incluindo dois ex-chefes de governo). As empresas de Jovenel Moïse são apontadas como estando "no centro de um esquema de desfalque".

Os problemas econômicos, incluindo o aumento do custo de vida, também alimentaram protestos no país. Quase um quarto da população é afetada pela insegurança alimentar e a situação sanitária tende a se deteriorar devido à escassez de gasolina, tornando os hospitais cada vez menos operacionais.

Com a inflação galopante e a desvalorização acelerada da moeda nacional, o governo de Moïse recorreu a um empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI), que concederá ao Haiti um crédito de 229 milhões de dólares. Em contrapartida, o órgão exige do governo haitiano maior controle dos gastos fiscais e combate à corrupção. Dessa forma, influenciado pelo FMI, um aumento de até 50% nos preços dos combustíveis contribui para a indignação da população. A medida é descrita como “irresponsável e intempestiva” e “total desprezo pela população” pelo economista Camille Chalmers, Secretário Executivo da Plateforme de plaidoyer pour un développement alternatif.

right|thumb|178x178px|Jean-Charles Moïse, líder da oposição e candidato presidencial de 2016.

Crise política e protestos A oposição é liderada principalmente por Jean-Charles Moïse, líder do partido Platfom Pitit Desalin. O Presidente Moïse exortou a oposição a participar de um diálogo pacífico. A polícia nacional disse que havia “indivíduos mal-intencionados” que interromperam manifestações pacíficas no país. A oposição recusou as ofertas de diálogo do presidente e exigiu sua renúncia, em seguida, organizou uma greve geral nacional para forçá-lo a renunciar ao cargo.. Jean-Charles Moïse e deputados da oposição pediram um governo de transição para substituir Jovenel Moïse. O líder da oposição declarou: “Se Jovenel Moïse não quiser deixar o poder, nomearemos um presidente interino nos próximos dias”.. Seis militantes do partido foram assassinados.

2018 Quando a Venezuela parou de enviar petróleo para o Haiti em março de 2018, isso levou à escassez de combustível. Com a remoção dos subsídios governamentais em julho, os preços do querosene subiram mais de 50%, com aumentos igualmente acentuados em outros combustíveis fósseis. Esses aumentos nos impostos sobre gasolina, diesel e querosene, que entraram em vigor em 7 de julho de 2018, levaram os haitianos às ruas. Os voos foram cancelados para dentro e para fora do Haiti por companhias aéreas estadunidenses. O governo recuou nos aumentos de impostos e o presidente aceitou a renúncia do inexperiente Jack Guy Lafontant como primeiro-ministro em 14 de julho de 2018, substituído um mês depois por Jean-Henry Céant.

Em meados de agosto de 2018, Gilbert Mirambeau Jr. twittou uma foto de si mesmo com os olhos vendados segurando uma placa de papelão com "Kot kòb PetwoKaribe a?" ("Para onde foi o dinheiro da PetroCaribe?") escrito nela. A hashtag petrocaribechallenge logo circulou amplamente nas mídias sociais.

A indignação pelas revelações e acusações da investigação intensificaram nas mídias sociais no outono e novamente, primeiro em outubro de 2018, com cenas tensas e violência em Les Cayes, em Jacmel e em Saint-Marc. Uma semana de protestos em novembro de 2018 levou a 10 mortes, incluindo várias quando um carro do governo "perdeu uma roda e colidiu com uma multidão".

2019 Protestos significativos eclodiriam novamente em fevereiro de 2019 após um relatório do tribunal que examina o inquérito do Senado sobre a Petrocaribe.

Em 7 de fevereiro, os manifestantes atacaram e danificaram os veículos de luxo dos haitianos ricos. No dia seguinte, os prefeitos de Pétion-Ville e Porto Príncipe anunciaram o cancelamento dos eventos pré-Carnaval haitiano. Dois dias depois, manifestantes entraram em confronto com a polícia, com manifestantes atirando pedras na casa do presidente Moïse, depois que um dos seguranças de seus aliados atingiu o carro de uma mulher e começou a espancá-la. Em 12 de fevereiro, manifestantes incendiaram um mercado popular, saquearam lojas e ajudaram na fuga da prisão em Aquin que libertou todos os prisioneiros da instalação. Em Porto Príncipe, o prédio que abriga os consulados italiano e peruano foi saqueado pelos manifestantes.

O presidente Moïse dirigiu-se ao país em 14 de fevereiro, dizendo que não renunciaria e "entregaria o país a gangues armadas e traficantes de drogas". Durante um cortejo fúnebre em 22 de fevereiro, a polícia haitiana disparou gás lacrimogêneo contra uma multidão de cerca de 200 pessoas carregando o caixão de um homem morto durante protestos dias antes. O líder da oposição Schiller Louidor convocou futuros protestos, embora o tamanho geral dos protestos tenha começado a diminuir naquele dia.

Três dias depois que a câmara baixa votou uma moção de censura contra o governo do primeiro-ministro Jean-Henry Céant em 18 de março de 2019, o presidente Moïse substituiu Céant por Jean-Michel Lapin. Em meados de novembro de 2019, essa mudança não havia sido ratificada pelo Parlamento haitiano. Sem um governo devido ao impasse entre o Presidente e o Parlamento, o Haiti teve centenas de milhões em ajuda internacional – para a qual ter um governo em exercício era um pré-requisito – suspenso.

Durante a escalada de protestos em 10 de junho, o jornalista Rospide Petion foi baleado em um carro da empresa a caminho de casa da Radio Sans Fin em Porto Príncipe, onde havia criticado o governo no ar antes de deixar a estação.

Em 4 de outubro, milhares protestaram em todo o Haiti. Em Porto Príncipe, o prefeito juntou-se aos manifestantes pedindo a renúncia do presidente Moïse. Dois dias antes, a oposição enviou uma carta por delegação ao secretário-geral da ONU denunciando o papel do presidente em exercício no caso Petrocaribe e o papel do governo no massacre de La Saline. Lyonel Trouillot escreveu em L'Humanité que "[s]em mergulhar na teoria da conspiração, há algo preocupante sobre o silêncio da comunidade internacional sobre a situação haitiana."