A Bacia Sanfranciscana (Sgarbi, 1989Sgarbi, G. N. C. 1989. Geologia da Formação Areado, Cretáceo Médio a Inferior da Bacia do São Francisco, oeste do Estado de Minas Gerais. Inst. de Geociências, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Dissertação de Mestrado, 324p.) é uma bacia sedimentar brasileira intracratônica localizada na porção centro-leste do Brasil, com uma área de 150.000 km2 e abrangendo os estados de Tocantins, Bahia, Goiás e Minas Gerais. Corresponde ao registro Fanerozóico da Bacia do São Francisco, com rochas de idade entre 300m.a e 70m.a, ou seja, do período Permo-carbonífero até o Cenozoico inferior (Éon Fanerozoico), representando o último megaciclo geodinâmico da Bacia São Francisco.
Limita-se a sul pelo Alto do Paranaíba, que a separa da Bacia do Paraná, e a norte pelo Alto do São Francisco, que a separa da Bacia do Parnaíba (Campos e Dardenne, 1997bCampos, J. E. G.; Dardenne, M. A. 1997b. Origem e evolução tectônica da Bacia Sanfranciscana. Revista Brasileira Geociências, 27(3): 283-294.). As faixas Brasília e Araçuaí/Espinhaço Setentrional limitam, respectivamente, as bordas ocidental e oriental da bacia.
Devido à diferenças tectônicas, estratigráficas e ambientais a bacia pode ser dividida em duas sub-bacias: Sub-Bacia Abaeté, a sul, e Sub-Bacia Urucuia, a norte, separadas por um alto estrutural do embasamento denominado de Alto do Paracatu (Campos & Dardenne 1997aCampos, J. E. G.; Dardenne, M. A. 1997a. Estratigrafia e sedimentação da Bacia Sanfranciscana: uma revisão. Revista Brasileira Geociências, 27(3): 269-282).
A Bacia está em contato discordante, principalmente, com as rochas do Grupo Bambuí (considerado o topo da Bacia do São Francisco) em sua porção central, e, em porções mais restritas, com rochas metamórficas de baixo grau no extremo sul da bacia, com rochas granitóides do embasamento regional no meio norte e, em sua porção setentrional, com a seção Paleozóica da Bacia do Parnaíba.
Estudos pioneiros Os estudos pioneiros do Cráton São Francisco, na qual está inserida a Bacia Sanfranciscana iniciaram ainda no século XIX, com o Barão de Eschwege, Gorceix e Derby .
A denominação Bacia Sanfranciscana, foi introduzida por Sgarbi, em 1991,Sgarbi, P. B. de A. 1991. Petrografia e Geoquímica da Formação Mata da Corda na região de Carmo do Paranaíba, MG. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Dissertação de Mestrado, 214p. para denominar a cobertura fanerozóica que recobre o Cráton São Francisco. Outros nomes também foram dados, como Bacia do São Francisco (Sad et al, 1971Sad, J.H.G.; Cardoso, R.N. & Costa, M.T. 1971. Formações Cretáceas em Minas Gerais: uma revisão. Revista Brasileira de Geociências, 1:2-13.) e Bacia do Alto São Francisco (Hasui & Haralyi, 1991Hasui, Y.; Haralyi, N. L. E. 1991. Aspectos lito-estruturais e geofísicos do soerguimento do Alto Paranaíba. Geociências, 10: 57-77.). O primeiro termo não é indicado devido à frequente confusão com a denominação “Bacia do São Francisco” Campos & Dardenne (1997a). Já o segundo termo perde seu sentido quando é associado aos limites da bacia hidrográfica do alto Rio São Francisco.
Os trabalhos que objetivam a compreensão da evolução tectônica da Bacia Sanfranciscana só se iniciaram com os artigos de Hasui & Haralyi (1991) e Sawasato (1995Sawasato, E.Y. 1995. Estruturação da porção meridional da bacia Alto-Sanfranciscana, Cretáceo do Oeste de Minas. Gerais. Dissertação de Mestrado, Departamento de Geologia, Escola de Minas, Universidade Federal de Ouro Preto, 127 p.).
A unidade estratigráfica do Grupo Santa Fé foi proposto pelos trabalhos de Dardenne et al (1991Dardenne, M. A.; Gonzaga, G. M.; Campos, J. E. G. 1991. Descoberta de pavimentos estriados de origem glacial sobre os arcóseos da Formação Três Marias na região de Santa Fé de Minas. REMRevista da Escola de Minas,43(4):65-66), Campos (1992Campos, J.E.G.; Dardenne, M.A.; Gonzaga, G. M. 1992. Sobre a idade cretácea inferior dos conglomerados diamantíferos da região de Canabrava - MG. In: CONOR. BRAS. GEOL., 37. São Paulo, 1992. Boletim de Resumos Expandudos. São Paulo, SBG.) e Campos & Dardenne (1994Campos, J. E. G.; Dardenne, M. A. 1994. A glaciação neopaleozóica na porção meridional da Nacia Sanfranciscana. Revista Brasileira de Geociências, 24(2): 65-76.), com esse trabalhos apresentando uma série de registros da glaciação neopaleozóica.
Os estudos dos sedimentos pertencentes ao Eocretáceo iniciaram com Arrojado Lisboa (1906Arrojado Lisboa, M.A.R. 1906, Ocorrência de seixos facetados no Planalto Central do Brasil. Anais Esc. Minas de Ouro Preto, 8:25-74), descrevendo seixos facetados que posteriormente foram colocados como pertencentes ao conglomerado Abaeté, por Freyberg (1932Freyberg, B. 1932. Erbnisse geologischer Froschungem in Minas Gerais (Brasilien). Neus Jb. Min. Paleon., II, 401. In: SBG, COngr. Bras. Geol., 19, Rio de Janeiro, 1965, Anais, (Traduzido por Campos, J.M. para o Simpósio das Formações Eopaleozoicas do Brasil).). Estes sedimentos foram tratados como Formação Areado, composta por três membros (Abaeté, Quiricó e Três Barras), por Barbosa (1965Barbosa, 0.1965. Formação Areado. In: CONOR. BRAS. GEOL., 19. Rio de Janeiro, 1965. Anais, Rio de Janeiro, SBG), Braun (1970Braun, O.P.G. 1970. A Formação Areado e a Formação Serra Negra. Revista Escola MInas Ouro Petro, 28 (3): 100-106.), Cardoso (1971Cardoso, R. N. 1971. Contribuição ao estudo da Formação Areado: estratigrafia e descrição dos filódopos fósseis. Arquivos Museu Natural, UFMG, v. 1, 54p), Barcelos & Suguio (1980Barcelos, J.H. & Suguio, K. 1980. Distribuição regional e estratigráfica das formações cretácicas do oeste mineiro. In: Congresso Brasileiro de Geologia, 31, Camboriú, 1980. Anais.Camboriú, SBG. Vol. 2 p. 683-690.) e Sgarbi (1989) e tratados como Grupo por Ladeira & Brito (1968Ladeira, E. A.; Brito, O. E. A. de. 1968. Contribuição à Geologia do Planalto da Mata da Corda. In: SBG, Congr. Bras. Geol., 22, Belo Horizonte, AnaisI, 181-199.), Hasui & Penalva (1970Hasuy, Y. & Penalva, F. 1970. O problema do diamante do Alto Paranaíba, Estado de Minas Gerais. SBG Núcleo São Paulo. Boi. 19 (l):71-78.) e Kattah (1994Kattah, S.S. 1994. Pegadas de dinossauros no Grupo Areado, porção meridional da Bacia Sanfranciscana, Oeste de Minas GeraisAnais da Academia brasileira de Ciências, 66:181-187).
O Grupo Mata Da Corda foi descrito desde basanitos vesiculares, até rochas de origem explosivas, com granulação variando de cinza até blocos e bombas por Moraes et al (1986Moraes, L. C. de; Seer, H. J.; Fogaça, A. C. C.; Sgarbi, P. B. de; Sgarbi, G. N. C. 1986. Geologia das unidades cretácicas da área compreendida entre Lagoa Formosa e Carmo do Paranaíba, MG. In: SBG, Congr. Bras. Geol., 34, Anais, 1: 337-345.). Moraes et al (1987Moraes, L.C.; Seer, H.J. & Kattah, S.S. 1987. Aspectos petroquímicos das rochas vulcânicas alcalinas cretáceas da porção meridional da Bacia Sanfranciscana, MG. In: Congresso Brasileiro de Geoquímica, l, Porto Alegre, 1987. Anais.... Porto Alegre, SBG, Vol. 1. p.315-318.) classificou em termos composicionais, como kamafugitos. Leonardos & Ulbrich (1987Leonardos, O.H. & Ulbrich, M.N.C. 1987. Lamproítos de Presidente Olegário, Minas Gerais. In: Reunião Anual SBPC, 36. Brasília.) designou como associações madupíticas/lamproíticas.
Origem e evolução da bacia A evolução tectônica da Bacia Sanfranciscana é constituída por cinco ciclos tectossedimentares, de acordo com Sgarbi et al. (2001). O primeiro ciclo relaciona-se ao início do preenchimento da bacia, com as glaciações no final do Paleozóico, isto é, no Permo-Carbonífero, que deram origem ao sistema glacial do Grupo Santa Fé.
Durante o Cretáceo Inferior ocorreu um novo ciclo tectossedimentar. Esse novo ciclo relaciona-se à formação do Atlântico Sul, ou seja, na separação das Placa Sul-Americana e Africana. Esse evento acarretou na formação da Depressão do Abaeté (Hasui et al. 1975,Hasui,Y.; Sadowski, G.R.; Suguio, K.; Fuck, G.F. 1975. The Phanerozoic tectonic evolution of the Western Minas Gerais State. Anais Academia Brasileira Ciências, 47: 431-438 Hasui & Haralyi 1991) ou Sub-Bacia Abaeté (Campos & Dardenne 1997b) no qual recebeu a sedimentação Cretácea da Bacia Sanfranciscana. A sedimentação eocretácea de um sistema desértico instalado na região deu origem ao Grupo Areado.
No Cretáceo Superior houve um ciclo tectossedimentar relacionado à reativação tectônica, que através de descontinuidades pré-cambriana, que serviram de condutos, levou ao magmatismo alcalino kamafugítico. Esse magmatismo deu origem ao Grupo Mata da Corda, que assenta-se sobre o Grupo Areado como uma discordância erosiva.
Ainda no Cretáceo Superior, um novo ciclo sedimentar ocorreu, agora ao norte, na denominada Sub-bacia Urucuia (Campos & Dardenne 1997b). A sub-bacia Urucuia é separada da Sub-bacia do Abaeté pelo Alto Estrutural do Paracatu. Essa sub-bacia recebeu sedimentação eólica, fluvial e lacustre que deu origem ao Grupo Urucuia.
Por fim, no Cenozóico, ocorreu o último ciclo tectossedimentar da Bacia Sanfranciscana. Esse ciclo é representado pela Formação Chapadão que recobre alguns litotipos da Bacia.
Estratigrafia e sedimentação miniaturadaimagem|329x329px|Localização das áreas estudadas da sedimentação glaciogênica do Grupo Santa Fé. Campos & Dardenne, 2000
Grupo Santa Fé O Grupo Santa Fé representa o primeiro ciclo de preenchimento da Bacia Sanfranciscana. O grupo é o representante do sistema glacial instalado nas médias e altas latitudes do Gonduana durante o Permo-Carbonífero. Constitui-se de depósitos de zona pró-glacial, com fácies relacionadas à base de geleiras, fluvio-glaciais, glacio-lacustres e fácies pró-glaciais eólicas. As evidências do sistema deposicional glacial que originou esse grupo, consistem, principalmente, no pavimento estriado sobre a Formação Três Marias (Grupo Bambuí), na presença de clastos pingados, além de clastos estriados em diamictitos.
O Grupo Santa Fé é dividido em duas formações: Formação Floresta (basal) e Formação Tabuleiro (topo). Tais formações apresentam passagem gradual entre si.
A Formação Floresta é formada por três membros fortemente interdigitados, tanto de modo lateral quanto vertical. Eles são: Membro Brocotó, Brejo do Arroz e Lavado.
O Membro Brocotó são diamictitos com matriz silto-argilosa-carbonatada, com clastos as vezes estriados. Os clastos, são, em sua maioria, de arcósios da Formação Três Marias (Grupo Bambuí), ocorrendo também clastos de granitos, quartzitos, rochas carbonáticas e gnaisses. Esse membro é interpretado como tiilitos depositados em áreas restritas e tiilitos ressedimentados, com ocorrência mais ampla.
O Membro Brejo do Arroz são folhelhos vermelhos, bem laminados, com ocorrência subordinada de arenitos e conglomerados estratificados. Nesses folhelhos ocorre clastos pingados. Tais clastos tem composição variada, como quartzitos, rochas carbonáticas, gnaisses, granitos, itabiritos, xistos. Os ritmitos com laminação regular de siltitos e argilitos são interpretados como varvitos, ou seja, produto de sedimentação sazonal. Os arenitos e conglomerados, por sua vez, são interpretados como depósitos de outwash glacial.
O Membro Lavado são um conjunto heterogêneo de arenitos, arcósios e grauvacas, tendo como estruturas sedimentares estratificações cruzadas acanaladas e planar-paralelas. São interpretados como produtos de um sistema de rios entrelaçados, fluvio-gacial, alimentados pela água de degelo.
A Formação Tabuleiro é caracterizada por um pacote de arenitos médios, calcíferos, apresentando, comumente, intercalações finas de argilitos e folhelhos. A análise de seções delgadas dos arenitos permitem identificá-los como de origem eólica. Os pelitos são interpretados como originados em um sistema pró-glacial eólicos-lacustre.
Grupo Areado miniaturadaimagem|414x414px|Sedimentação na Bacia Sanfranciscana. (Modificado de Campos e Dardenne, 1997b in: Sgarbi et. al. 2001)