Os taglibitas (), também conhecidos como Banu Taglibe () e Taglibe ibne Uail (, Taghlib b. Wāʾil), foram uma importante tribo árabe rebiaíta, tradicionalmente incluída entre os nizaritas adenanitas. Descendiam de Taglibe ibne Uail, irmão de Becre, ancestral dos becritas, com os quais mantiveram estreita relação genealógica e uma longa rivalidade. Originalmente beduínos estabelecidos no Négede e em outras regiões da Arábia, expandiram-se gradualmente para o norte, alcançando o Iraque, a Síria e sobretudo a Jazira, onde se concentraram em Diar Rebia, nas regiões de Moçul, Sinjar e Nísibis. Entre as maiores e mais poderosas tribos árabes da época pré-islâmica, estiveram sucessivamente envolvidos nas esferas de influência sassânida, quindaíta e lácmida e adotaram amplamente o cristianismo.
Os taglibitas desempenharam papel destacado nos conflitos tribais da Arábia pré-islâmica. Seu chefe Culaibe ibne Rebia alcançou supremacia entre grupos rebiaítas e modaritas, mas seu assassinato por Jassas ibne Murra desencadeou a prolongada Guerra de Albaçus contra os becritas. Posteriormente participaram das disputas sucessórias do Reino de Quinda e combateram ao lado dos sassânidas contra os becritas na Batalha de Di Car. Com o surgimento do islão, uma delegação taglibita visitou Maomé em 630, mas grande parte da tribo permaneceu cristã. Segmentos taglibitas resistiram inicialmente à expansão muçulmana e combateram nas fileiras sassânidas e bizantinas, enquanto outros aderiram aos conquistadores. Sob o califa Omar , os taglibitas cristãos receberam um regime tributário especial que lhes permitiu conservar sua religião sem pagar a jizia na forma aplicada normalmente aos demais cristãos.
Durante os períodos omíada e abássida, os taglibitas conservaram importância política e militar, especialmente na Jazira. Em geral favoráveis aos omíadas, participaram da Segunda Guerra Civil Muçulmana e travaram prolongados conflitos com os caicitas, enquanto diversos membros da tribo posteriormente exerceram governos e comandos militares sob os abássidas. A islamização da tribo ocorreu gradualmente e tornou-se mais ampla no . Seu ramo politicamente mais destacado na fase posterior foram os hamedânidas, que no estabeleceram dinastias em Moçul e na Jazira sob Nácer Adaulá e no norte da Síria sob Ceife Adaulá, fazendo dos descendentes dos taglibitas uma das principais potências regionais do período.
Origens
Os taglibitas foram originalmente uma tribo beduína (árabe nômade) que habitava o Négede. Seu nome derivava de seu ancestral epônimo, Taglibe ibne Uail, cujo nome original teria sido Ditar; segundo a tradição genealógica, seu pai lhe teria dado o nome Taglibe como expressão do desejo de que triunfasse sobre seus inimigos. Pertenciam ao grande agrupamento dos rebiaítas e, por meio de Rebia, eram incluídos pelos genealogistas no ramo nizarita dos adenanitas. Segundo a genealogia registrada por Lecker, sua linhagem remontava por Uail ibne Cácite ibne Himbe ibne Afexa ibne Dumi ibne Jadila ibne Açade ibne Rebia ibne Nizar ibne Maade ibne Adenane. Becre, irmão de Taglibe e ancestral epônimo dos becritas, era igualmente filho de Uail, razão pela qual as duas tribos eram tradicionalmente consideradas irmãs. Kindermann também situa becritas e taglibitas entre os principais agrupamentos da descendência de Uail no ramo rebiaíta. Apesar dessa proximidade genealógica, as duas tribos mantiveram uma longa rivalidade entre si.
A informação sobre os ramos taglibitas foi em grande parte baseada nos registros do genealogista taglibita pré-islâmico . Taglibe ibne Uail teve três filhos, Ganme, Inrane e Auce, embora sua descendência tenha se perpetuado sobretudo através de Ganme. Na literatura genealógica árabe, apenas os descendentes de Ganme são discutidos extensivamente. De Ganme vieram os alaracimitas (Alaracime), descendentes dos seis filhos de Becre ibne Alhubabe ibne Anre ibne Ganme — Juxame, Maleque, Anre, Talaba, Alharite e Moáuia —, que constituíram os principais ramos da tribo. Segundo a tradição, todos possuíam olhos semelhantes aos de araqim (cobras salpicadas, sing. al-Arqam), de onde teria derivado a denominação coletiva. Os alaraquimitas foram o grupo mais importante dos taglibitas, e grande parte da história genealógica da tribo concentra-se neles. Suas seis divisões eram os juxamitas, a maior, os malequitas, a segunda maior, os anritas (Anre), talabaítas (Talaba), alharititas (Alharite) e moauiaítas (Moáuia). Devido a seu tamanho e força, os juxamitas e malequitas eram coletivamente denominados arraucanitas (al-Rawkān), "os dois cornos" ou "as duas companhias mais numerosas e fortes", enquanto os anritas, a menor divisão dos alaracimitas, eram conhecidos como anacabicaítas (an-Nakhābiqa).
Da divisão juxamita veio o ramo zuairita (Zuair), do qual descendia grande parte das subtribos taglibitas, incluindo as linhagens atabita (Atabe), otebaíta (Oteba), itebanita (Itebane), aufita (Aufe) e cabita (Cabe), fundadas pelos filhos epônimos de Sade ibne Zuair ibne Juxame. Os atabitas, otebaítas e itebanitas formavam os alutabitas (Alutabe), enquanto os aufitas e cabitas constituíam os alauaditas (Banu Alauade). Outro importante ramo zuairita eram os alharititas, cujo ancestral epônimo era um filho de Murra ibne Zuair. Entre outras subdivisões importantes dos taglibitas, Avcı menciona os xubaítas (Banu Xuba) e os hamedanitas (Banu Hamedane). A divisão malequita também compreendia numerosos grupos tribais, entre eles os alazimitas (descendentes de Aufe ibne Maleque), alabenaítas (descendentes de Rebia, Aide e Inru Alcaice, filhos de Time ibne Uçama ibne Maleque), alcuritas (descendentes de Maleque e Alharite, filhos de Maleque) e Rixe Alubara (descendentes de Cuaine ibne Maleque). A dinastia hamedânida remontava sua ascendência à divisão malequita através de seu ancestral Adi ibne Uçama ibne Maleque.
História
Período pré-islâmico
Na era pré-islâmica, os taglibitas estiveram entre as maiores e mais poderosas tribos beduínas da Arábia, sendo particularmente conhecidos por sua capacidade guerreira. Seu elevado grau de solidariedade tribal refletia-se nas grandes formações que organizavam durante as batalhas. Originalmente estabelecidos em Tiama, espalharam-se posteriormente pelo Hejaz, Négede e Barém e, num processo que prosseguiu depois do advento do islã, migraram para o norte, alcançando o Iraque, a Síria e a Jazira, sobretudo Diar Rebia, nas regiões de Moçul, Sinjar e Nísibis. Essa expansão colocou-os em contato com os impérios Bizantino e Sassânida e com seus respectivos aliados árabes, os gassânidas e lácmidas. Já no , os taglibitas encontravam-se na esfera de influência sassânida. Durante o reinado do xá , territórios da tribo foram atacados durante uma campanha do soberano na região da Síria, e numerosos taglibitas foram capturados e transferidos para Darim, Barém e regiões próximas. Nos séculos V e VI, os taglibitas estiveram submetidos ao Reino de Quinda, que dominava partes da Arábia Central e Setentrional, e auxiliaram o rei quindaíta Alharite ibne Anre Alquindi a estabelecer seu domínio sobre Hira em 525.
No mesmo período, os taglibitas desempenharam papel destacado nos conflitos entre as tribos do norte da Arábia. Sob a liderança de Culaibe ibne Rebia, chefe taglibita, os rebiaítas e modaritas derrotaram forças associadas ao domínio iemenita no , vitória após a qual Culaibe foi reconhecido como líder dessas tribos. Segundo a tradição, seu comportamento posterior provocou crescente oposição, e Culaibe acabou assassinado por seu cunhado Jassas ibne Murra, destacado membro dos becritas, depois que Culaibe feriu uma camela pertencente a Albaçus binte Munquide, tia de Jassas, por esta ter entrado em suas pastagens. O assassinato desencadeou a Guerra de Albaçus, um dos mais célebres conflitos dos Dias Árabes, travado entre taglibitas e becritas durante várias décadas. O irmão de Culaibe, Almualhil, poeta e guerreiro, assumiu a liderança taglibita e procurou vingar sua morte. O conflito terminou com uma derrota decisiva dos taglibitas no Dia de Quida, após a qual grande parte da tribo deixou o Négede em direção ao baixo Eufrates, embora alguns taglibitas já estivessem estabelecidos nessa região. Segundo Avcı, a paz foi finalmente estabelecida por intervenção do rei lácmida , mediante um acordo celebrado entre as duas tribos em .
A disputa entre taglibitas e becritas também se entrelaçou às lutas pela sucessão no Reino de Quinda. Quando Alharite ibne Anre perdeu o controle de Hira e dividiu seus domínios entre seus filhos, Xurabil recebeu autoridade sobre os becritas, enquanto Salama foi designado rei dos taglibitas. Após a morte de Alharite, a rivalidade entre os dois irmãos levou as respectivas tribos a combaterem em lados opostos. No , travado em 530 numa localidade entre Cufa e Baçorá, Xurabil foi morto pelo taglibita . Os taglibitas posteriormente voltaram a apoiar os lácmidas quando estes recuperaram o controle de Hira. Em período posterior, os taglibitas migraram mais ao norte ao longo do Eufrates em direção à Alta Mesopotâmia depois que seu chefe Anre ibne Cultume, da divisão juxamita, matou o rei lácmida em 568. Já no , chefes tribais taglibitas celebravam Anre ibne Cultume como um dos mais proeminentes árabes da era pré-islâmica, destacando suas habilidades poéticas, seus confrontos com os reis de Hira e seus feitos nas guerras contra os becritas. Pouco antes do surgimento do islã, taglibitas e becritas voltaram a combater em campos opostos na Batalha de Di Car, na qual os taglibitas se alinharam aos sassânidas contra os becritas. Segundo Fred Donner, os taglibitas figuravam, juntamente com os iaditas e os anamiritas, entre os contingentes tribais iraquianos que integravam o exército sassânida enviado de Hira.
Período muçulmano inicial
A influência política taglibita recuou consideravelmente durante o advento do islão no . Embora sua distância de Meca e Medina tenha limitado sua participação nos primeiros acontecimentos relacionados à expansão da nova religião, os taglibitas estabeleceram contato direto com Maomé ainda durante sua vida. No nono ano da Hégira (630), uma delegação de dezesseis membros da tribo dirigiu-se a Medina e reuniu-se com Maomé. Parte de seus integrantes converteu-se ao islão, enquanto os que desejavam permanecer cristãos solicitaram autorização para conservar sua religião; segundo a tradição citada por Avcı, Maomé consentiu sob a condição de que seus filhos não fossem batizados. Após a morte de Maomé, segmentos dos taglibitas apoiaram durante as Guerras da Apostasia a profetisa Sajá, que reivindicou a condição de profeta na Jazira e que, segundo uma tradição, possuía ascendência materna taglibita. Durante as primeiras conquistas muçulmanas, taglibitas cristãos combateram nas fileiras dos exércitos sassânida e bizantino. Depois da conquista de Ambar, em 12 A.H. (633–634), Calide ibne Alualide infligiu uma pesada derrota aos numairitas, taglibitas e iaditas que apoiavam as forças sassânidas. Em sua marcha posterior em direção à Síria, Calide também combateu um contingente de taglibitas apóstatas reunido sob o comando de , enviando os despojos e prisioneiros capturados ao califa Abu Becre . Entre os grupos taglibitas que combateram os muçulmanos no Iraque e na Alta Mesopotâmia encontrava-se particularmente a linhagem otebaíta do ramo zuairita. Uma filha de Rebia ibne Bujair, chamada Ume Habibe, foi levada cativa e enviada a Medina, onde foi adquirida por Ali, de quem teve os gêmeos Omar Alquibir e Rucaia.