O Jesuíta é uma peça teatral escrita por José de Alencar, tida como a "peça maldita" de sua produção para o teatro. Foi escrita em 1861, por encomenda do ator e empresário teatral João Caetano, que a pretendia levar à cena no espetáculo comemorativo da Independência de 7 de setembro daquele ano; ao ler o texto, porém, João Caetano recusou-se a encená-lo.
O drama histórico é dividido em quatro atos e ambientado no Rio de Janeiro em 1759, recriando o ambiente político que antecedeu a expulsão dos jesuítas do território português, ocorrida naquele mesmo ano, e apresentando o protagonista, Dr. Samuel, e a Companhia de Jesus como os agentes mais capazes de implantar um projeto de nação livre e independente no Brasil.Eliane Cristina Deckmann Fleck e Mauro Dillmann Tavares , Um Apóstolo da Independência do Brasil: O projeto de Estado-Nação em O Jesuíta de José de Alencar, p. 2, Revista do Programa de Pós-Graduação em História, 2017
A peça só foi encenada em 18 de setembro de 1875, no Teatro São Luís, e somente então publicada; catorze anos após ter sido escrita, foi um fracasso de público. A recepção negativa da estreia deu início à ferrenha contenda literária entre Alencar e seu jovem crítico Joaquim Nabuco: a polêmica começou quando Alencar publicou no jornal O Globo, do Rio de Janeiro, uma resposta às críticas feitas à peça, dando início a uma troca de ataques, muitas vezes em tom satírico, que se estendeu por três meses e acabou por expor divergências mais amplas entre os dois escritores sobre os rumos do romantismo e da ideia de nacionalismo no Brasil.
Enredo A ação se passa no Rio de Janeiro em 1759, nos meses que antecederam a expulsão da Companhia de Jesus dos domínios portugueses. O protagonista é Dr. Samuel, um médico italiano que se revela, ao final, jesuíta. Ele planeja, em segredo, valer-se da influência e da estrutura da Ordem para promover um projeto de emancipação política do Brasil, autodefinindo-se como "o arquiteto obscuro de uma obra grandiosa". Ao enredo político somam-se elementos de folhetim romântico e de "capa e espada" pouco usuais no restante da produção teatral de Alencar, mais voltada a temas domésticos e de salão: catacumbas, passagens secretas e corredores subterrâneos, um índio que mata uma donzela e um cigano que rapta outra figuram entre os episódios da trama, ao lado do conflito entre Samuel e o Conde de Bobadela, governador do Rio de Janeiro e representante da Coroa que promove a perseguição aos jesuítas.
Personagens Dr. Samuel: médico italiano. Conde de Bobadela: governador do Rio de Janeiro. Estêvão de Mendonça: pupilo de Samuel. Fr. Pedro da Luz: feitor dos Jesuítas. José Basílio da Gama: noviço da Companhia. D. Juan de Alcalá: aventureiro espanhol. Miguel Correia: alferes. Garcia: índio. Daniel: cigano. D. Constança de Castro: filha natural do Conde. Inês: caseira de Samuel.
Análise Um estudo sobre a peça, de Eliane Cristina Deckmann Fleck e Mauro Dillmann Tavares, sustenta que Alencar constrói, ao longo dos quatro atos, uma associação estreita entre a "causa independentista", um projeto de Estado-Nação e a própria Companhia de Jesus, apresentada como modelo de organização capaz de gerir riquezas, promover políticas de interesse geral e sustentar práticas caritativas e solidárias, qualidades que, na leitura dos autores, Alencar projeta como necessárias à construção de uma nação brasileira livre e independente.
Os mesmos autores retomam a avaliação do crítico teatral Décio de Almeida Prado, para quem O Jesuíta representa, em relação às peças anteriores de Alencar, um "afresco histórico concebido à maneira romântica, com os elementos patrióticos de praxe em comemorações festivas", um "drama feito sob medida" para a comemoração da Independência a que originalmente se destinava, e que se distanciava tanto do teatro de costumes praticado por Alencar quanto do repertório mais realista que, àquela altura de 1875, já vinha conquistando o público do Ginásio Dramático. Essa distância em relação ao gosto do público fluminense da década de 1870, então mais afeito às operetas de Offenbach e Lecocq do que aos dramas históricos de capa e espada, é apontada por Fleck e Tavares como um dos fatores explicativos do fracasso da peça em cena, catorze anos depois de escrita para um contexto teatral e político distinto.
Sob uma perspectiva de crítica literária e estudos pós-coloniais, a pesquisadora Leila Lehnen, em artigo publicado na revista Espéculo (Universidade Complutense de Madrid), analisa O Jesuíta como uma narrativa fundacional que busca legitimar um projeto de nação por meio da figura do jesuíta, personagem que, na peça, ocuparia o lugar antes reservado ao índio nos romances indianistas de Alencar como símbolo de uma identidade brasileira autônoma diante de Portugal.
Do ponto de vista dramatúrgico, a peça é tradicionalmente classificada, ao lado de Mãe, entre os dramas do conjunto teatral de Alencar, distinguindo-se das "comédias amenas" (como O Demônio Familiar e Verso e Reverso) e das "comédias crispadas" (como As Asas de um Anjo e A Expiação).MARTINS, Eduardo Vieira. Dez estudos (e uma pequena bibliografia) para conhecer José de Alencar. Guia bibliográfico da FFLCH. Tradução . São Paulo: FFLCH/USP, 2016. . Disponível em: http://fflch.usp.br/sites/fflch.usp.br/files/Jose%CC%81%20de%20Alencar.pdf. Acesso em: 25 jul. 2026. Sendo a última peça escrita pelo autor para o teatro, e um fracasso retumbante em sua única temporada em cena, O Jesuíta é descrita por parte da crítica como uma obra "maldita" dentro da dramaturgia alencariana, mais estudada, hoje, por historiadores interessados nas ideias políticas do escritor do que integrada ao repertório do teatro brasileiro.
Referências
Ligações externas O Jesuíta, Wikisource, 25 de setembro de 2017 O Jesuíta: drama em quatro actos, Senado Federal, 25 de setembro de 2017
Categoria:Obras de José de Alencar