Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco (Mártires, Lisboa, 16 de março de 1825 – São Miguel de Seide, Famalicão, 1 de junho de 1890) foi um escritor, romancista, cronista, crítico, dramaturgo, historiador, poeta e tradutor português. Foi o 1.º Visconde de Correia Botelho, título concedido pelo rei D. Luís. É um dos escritores mais populares, proeminentes e prolíferos da literatura portuguesa, especialmente do século XIX.
Biografia Castelo Branco teve uma vida atribulada, que lhe serviu muitas vezes de inspiração para as suas novelas. Foi o primeiro escritor de língua portuguesa a viver exclusivamente de seus escritos literários. Apesar de ter de escrever para o público, sujeitando-se assim aos ditames da moda, conseguiu manter uma escrita muito original.
Dentro da sua vasta obra, também se encontra sua colaboração na autoria em diversas publicações periódicas como O Panorama, a Revista Universal Lisbonense, A illustração luso-brasileiraA illustração luso-brasileira: jornal universal (1856-1859) cópia digital, Hemeroteca Digital (1856–1859), Revista Contemporânea de Portugal e Brasil (1859–1865), Archivo pittoresco (1857–1868), A Esperança (1865–1866), Gazeta Literária do Porto (1868) (também chamada de Gazeta de Camilo Castelo Branco devido à sua extensa colaboração como redator), a revista literária República das Letras (1875), Ribaltas e Gambiarras (1881), A illustração portuguezaA illustração portugueza : semanario : revista litteraria e artistica (1884-1890) cópia digital, Hemeroteca Digital (1884–1890), Lisboa creche: jornal miniatura (1884) e, a título póstumo, nas publicações periódicas A semana de LisboaA semana de Lisboa : supplemento do Jornal do Commercio (1893-1895) cópia digital, Hemeroteca Digital (1893–1895), SerõesSerões: revista semanal ilustrada (1901-1911) cópia digital, Hemeroteca Digital (190 1–1911), Azulejos (1907–1909) e Feira da LadraFeira da Ladra : revista mensal ilustrada (1929-1943) cópia digital, Hemeroteca Digital (1929–1943).
Vida Camilo Castelo Branco nasceu em Lisboa, numa casa da Rua da Rosa (actualmente com os n.os 5 a 13), a 16 de março de 1825. Oriundo de família da aristocracia, foi batizado a 14 de abril de 1825, na freguesia dos Mártires, em Lisboa, como filho ilegítimo de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco, nascido na casa dos Correia Botelho em São Dinis, Vila Real, a 17 de agosto de 1778 e que teve vida errante entre Vila Real, Viseu e Lisboa, onde faleceu a 22 de dezembro de 1835. A sua mãe era Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira (Sesimbra, Santiago, 27 de janeiro de 1799 – 6 de fevereiro de 1827), com quem Joaquim Botelho Castelo Branco não se casou mas de quem teve os seus dois filhos — Carolina Rita Botelho Castelo Branco, nascida a 24 de março de 1821 em Socorro, Lisboa, e Camilo. Oficialmente, eram filhos de mãe incógnita.
Ficou órfão de mãe quando tinha dois anos de idade e de pai aos dez, o que lhe criou um carácter de eterna insatisfação com a vida. Foi recolhido, em 1835, por uma tia de Vila Real e depois em Vilarinho de Samardã, em 1839, por sua irmã mais velha, Carolina, recebendo educação irregular ministrada por dois padres de província.
Na adolescência, formou-se lendo os clássicos portugueses e latinos e literatura eclesiástica e contactando a vida ao ar livre transmontana.
Com apenas 16 anos, a 18 de agosto de 1841, casou na igreja paroquial do Salvador, em Ribeira de Pena, com Joaquina Pereira de França (Gondomar, São Cosme, 23 de novembro de 1826 – Ribeira de Pena, Friúme, 25 de setembro de 1847), filha do lavrador Sebastião Martins dos Santos, de Gondomar, São Cosme, e de Maria Pereira de França, instalando-se em Friúme. O casamento precoce parece ter resultado de mera paixão juvenil e não resistiu muito tempo, embora tenha nascido uma filha, Rosa (1843-1848). No ano seguinte, prepara-se para ingressar na universidade, indo estudar com o Padre Manuel da Lixa, em Granja Velha.
O seu carácter instável, irrequieto e irreverente leva-o a amores tumultuosos: em 1846 conhece Patrícia Emília do Carmo de Barros (Vila Real, 1826 – 15 de fevereiro de 1885), órfã de Luís Moreira da Fonseca e de sua mulher Maria José Rodrigues, que vivia com D. Rita Moreira, sua tia e madrinha, parente de Camilo por ser sogra de uma das suas primas. Patrícia Emília tinha então 20 anos e participava nos saraus artísticos de D. Rita em Vila Real, onde se terão conhecido. Patrícia acompanha Camilo até ao Porto, onde são capturados e enviados para a Cadeia da Relação, onde dão entrada a 12 de outubro de 1846, e são soltos a 23 de outubro do mesmo ano, Camilo acusado de raptar a companheira. Em 1847 encontram-se novamente em Vila Real, a viver maritalmente. Desta união nasce Bernardina Amélia (1848-1931), que é colocada na roda dos expostos e entregue a uma ama e posteriormente à freira Isabel Cândida Vaz Mourão do Convento de São Bento de Avé-Maria, esta também amante de Camilo por volta de 1851.
Em 1849, inicia correspondência com Maria da Felicidade do Couto Browne, anfitriã de salões literários no Porto, e casada com um mercador de vinhos. Surgem rumores que a esta troca de versos é a declaração pública de um romance entre os dois. Maria da Felicidade, cinquentenária, era bem mais velha do que Camilo, que tinha apenas 22 anos. Esta situação é alvo de controvérsia, e leva a que o filho de Maria da Felicidade, Ricardo Browne troque com o escritor "sopapos, chicotadas e bengaladas em público". Este desentendimento leva a que os dois participem num duelo que ocorre anos depois na Afurada; Camilo sai ferido na perna.
miniatura|250x250px|Camillo Castelo Branco em 1850
Ainda a viver com Patrícia Emília do Carmo de Barros, Camilo publicou n'O Nacional correspondências contra José Cabral Teixeira de Morais, Governador Civil de Vila Real, com quem colaborava como amanuense.
Esse posto, segundo alguns biógrafos, teria surgido a convite, após sua participação na Revolta da Maria da Fonte, em 1846, em que terá combatido ao lado da guerrilha miguelista. Devido a essa desavença, é espancado por «Olhos-de-Boi», esbirro do Governador Civil.
As suas irreverentes correspondências jornalísticas valeram-lhe, em 1848, nova agressão a cargo de Caçadores 3.
Camilo abandona Patrícia nesse mesmo ano, fugindo para a casa da irmã, na altura residente em Covas do Douro. Tenta então, no Porto, o curso de Medicina, que não conclui, optando depois por Direito. A partir de 1848, faz uma vida de boémia repleta de paixões, repartindo o seu tempo entre os cafés e os salões burgueses e dedicando-se entretanto ao jornalismo. Em 1850, toma parte na polémica entre Alexandre Herculano e o clero, publicando o opúsculo O Clero e o Sr. Alexandre Herculano, defesa que desagradou a Herculano.PETEIRA E., RODRIGUES G.. Portugal. Lisboa: J. Romano Torres, 1906. p. 1150.
Apaixona-se por Ana Plácido e, quando esta se casa, em 1850, tem uma crise de misticismo, chegando a frequentar o seminário, que abandona em 1852.
Ana Plácido tornara-se mulher do negociante Manuel Pinheiro Alves, um brasileiro de torna-viagem que o inspira como personagem em algumas de suas novelas, muitas vezes com carácter depreciativo. Camilo seduz e rapta Ana Plácido. Depois de algum tempo a monte, são capturados e julgados pelas autoridades. Naquela época, o caso emocionou a opinião pública, pelo seu conteúdo tipicamente romântico de amor contrariado, à revelia das convenções e imposições sociais. Foram ambos enviados para a Cadeia da Relação, no Porto, onde Camilo conheceu e fez amizade com o famoso salteador Zé do Telhado. Com base nessa experiência, escreveu Memórias do Cárcere. Depois de absolvidos do crime de adultério pelo juiz José Maria de Almeida Teixeira de Queirós (pai de José Maria de Eça de Queirós), Camilo e Ana Plácido passaram a viver juntos, contando ele 38 anos de idade.
Em 1857 passou dois meses em Arga de São João, na Serra da Arga, freguesia serrana de Caminha, altura em que escreve os romances "Carlota Ângela" e "Cenas da Foz", assim como assume o lugar de redactor principal no jornal A Aurora do LimaAssociação critica demolição da "casa de Camilo", por Agência Lusa, RTP Notícias, 6 Junho 2005 e é quando surge Ana Plácido.
Em 1858, por proposta de Alexandre Herculano, foi eleito sócio-correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.
Em 1860, aos 35 anos, refugia-se na Casa do Ermo, situada na Freguesia de Paços, concelho de Fafe.
Em 1864, após a morte do ex-marido de Ana Plácido (falecido a 15 de julho de 1863), o casal vai viver para uma casa, em São Miguel de Seide, que o pretenso filho do comerciante recebera por herança do pai — ao que tudo indica, era, na verdade, filho de Camilo.
Em fevereiro de 1869, recebeu do governo da Espanha a comenda de Carlos III.
Em 1870, devido a problemas de saúde, Camilo vai viver para Vila do Conde, onde se mantém até 1871. Foi aí que escreveu a peça de teatro «O Condenado» (representada no Porto em 1871), bem como inúmeros poemas, crónicas, artigos de opinião e traduções.
Outras obras de Camilo estão associadas a Vila do Conde. Na obra «A Filha do Arcediago», relata a passagem de uma noite do arcediago, com um exército, numa estalagem conhecida por Estalagem das Pulgas, outrora pertencente ao Mosteiro de São Simão da Junqueira e situada no lugar de Casal de Pedro, freguesia da Junqueira (Vila do Conde). Camilo dedicou ainda o romance «A Enjeitada» a um ilustre vilacondense seu conhecido, o Dr. Manuel Costa.
No ano seguinte, em 1872 e até 1886, corresponde-se com António Pereira da Cunha, igualmente poeta e miguelista.Camilo Epistolar, cartas de Camilo Castelo Branco a António Pereira da Cunha, por Rui do Amaral Leitão, Lisboa, 2021, Edições Colibri
Entre 1873 e 1890, Camilo deslocou-se regularmente à vizinha Póvoa de Varzim, perdendo-se no jogo e escrevendo parte da sua obra no antigo Hotel Luso-Brazileiro, junto do Largo do Café Chinês. Reunia-se com personalidades de notoriedade intelectual e social, como o pai de Eça de Queirós, José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, magistrado e Par do Reino, o poeta e dramaturgo poveiro Francisco Gomes de Amorim, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, António Feliciano de Castilho, entre outros. Sempre que vinha à Póvoa, convivia regularmente com o Visconde de Azevedo no Solar dos Carneiros.
Francisco Peixoto de Bourbon conta que Camilo, na Póvoa, «tendo andado metido com uma bailarina espanhola, cheia de salero, e tendo gasto, com a manutenção da diva, mais do que permitiam as suas posses, acabou por recorrer ao jogo na esperança de multiplicar o anémico pecúlio e acabou, como é de regra, por tudo perder e haver contraído uma dívida de jogo, que então se chamava uma dívida de honra».
A 17 de setembro de 1877, Camilo viu morrer na Póvoa de Varzim, aos 19 anos, Manuel Plácido Pinheiro Alves, primeiro filho de Ana Plácido, que foi sepultado no cemitério do Largo das Dores. Vários biógrafos argumentam que Manuel Plácido não seria filho de Camilo nem de Pinheiro Alves, aventando a hipótese de ser resultado duma relação de Ana Plácido com António Ferreira Quiques.