O Paradigma de Dicas Preditivas é um método de psicologia experimental usado para estudar e medir a atenção. Este paradigma foi formulado pelo psicólogo americano Michael Posner e publicado em revista científica em 1980 Posner, M. I. (1980). "Orienting of attention".Quarterly Journal of Experimental Psychology. 32 (1): 3–25. PMID 7367577 (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/7367577). doi:10.1080/00335558008248231(https://doi.org/10. 1080%2F00335558008248231). É usado para avaliar a capacidade de um indivíduo em realizar uma mudança ou deslocamento do foco da atenção no espaço.
Método miniaturadaimagem|572x572px|Representação esquemática da sequência de eventos do paradigma de dicas preditivas de Posner, com exemplos de dicas endógenas e exógenas, válidas e inválidas. O sujeito fixa o olhar no ponto central da tela e deve detectar o alvo o mais rápido possível. Os intervalos de tempo entre cada um dos eventos podem variar e são manipulados pelo experimentador. A tarefa de dicas espaciais de Posner é usada para medir os tempos de reação manual e de movimentos oculares a estímulos-alvo, com o intuito de investigar os efeitos da orientação da atenção em resposta a diferentes condições de dicas. Nesse paradigma, os sujeitos sentam-se em frente de uma tela de computador situada na altura dos olhos e são instruídos a fixar o olhar em um ponto central na tela, marcado por uma cruz ou ponto. Uma dica é apresentada rapidamente na tela; após o desaparecimento da dica e um breve intervalo de tempo, um estímulo-alvo (normalmente uma forma geométrica) aparece à esquerda ou à direita do centro da tela. O observador deve responder o mais rápido possível em qual dos lados da tela apareceu o alvo. Para medir o tempo de reação (TR), um mecanismo de registro das respostas é colocado em frente ao sujeito, normalmente um teclado de computador que é pressionado quando da detecção do alvo. O procedimento é repetido num número de vezes predeterminado pelo
experimentador.
Em seus primeiros experimentos, Posner usou intervalos de tempo entre a dica e o aparecimento do estímulo-alvo que variavam entre 100 e 800 ms. Este paradigma experimental é muito efetivo em mudar a direção da alocação da atenção do sujeito Bashinski H. S., Bacharach V. R. (1980). Enhancement of perceptual sensitivity as the result of selectively attending to spatial locations. Perception & Psychophysics, 28(3):241-248. .
Dicas endógenas e exógenas
Dois grandes tipos de dicas são usados na tarefa de Posner para analisar a orientação da atenção: dicas exógenas e dicas endógenas. Essa classificação binária baseia-se no grau de controle volitivo do observador sobre a alocação de seus próprios recursos atentivos. A atenção endógena é aquela que pode ser direcionada voluntariamente pelo observador, a partir de suas metas ou objetivos; já a atenção exógena é aquela que é “capturada” involuntariamente por eventos no ambiente (e.g. movimentos, aparecimento ou desaparecimento repentino de estímulos presentes numa cena, sons) e não requer controle consciente do sujeito Theeuwes, J. (1994). Endogenous and exogenous control of visual selection. Perception, 23, 429–440. PMID 23015426 (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23015426). DOI: 10.1523/JNEUROSCI.1772-12.2012 (http://www.jneurosci.org/content/32/39/13352). As dicas endógenas são direcionais e a resposta do sujeito a elas é voluntária, passível de controle consciente; considera-se que seu mecanismo de funcionamento envolve processamento top-down. Já dicas exógenas são conduzidas pelo próprio estímulo ambiental e ativam processos bottom-up de modo mais automático e independente do controle consciente do sujeito Hauer, B. & McLeod, C. (2006). Endogenous versus exogenous attentional cuing effects on memory. Acta Psychologica, 122 (3) pp. 305-320. DOI: 10.1016/j.actpsy.2005.12.008 . No paradigma de Posner, setas apresentadas no centro da tela são consideradas como dicas endógenas, pois precisam ser interpretadas semanticamente pelo sujeito antes do direcionamento do foco da atenção para o local indicado. Estas dicas consistem em inputs sensoriais no centro do campo visual. Já as dicas exógenas consistem no aparecimento rápido de estímulos (e.g. traços sublinhados) na periferia do campo de visão, no próprio local do alvo ou próximos a ele.
Dicas válidas e inválidas
Posner concebeu um esquema de uso de dicas válidas e inválidas ao longo das provas de seu experimento. Nas provas com dicas válidas, o estímulo-alvo é apresentado na área assinalada pela dica. Por exemplo, se a dica consistir em uma seta apontando para a direita, o estímulo subsequente de fato aparecerá no lado direito da tela. Contrariamente, em provas com dicas inválidas, o estímulo-alvo aparecerá no lado oposto ao indicado pela dica. Neste caso, a seta aponta para a direita (direcionando a atenção do sujeito para este lado), mas o alvo aparece no lado esquerdo da tela. Posner usou a razão de 80% de provas com dicas válidas e 20% de provas com dicas inválidas em seu estudo original .
O observador aprende que normalmente a dica é válida, reforçando a tendência de direcionar a atenção ao lado indicado. Esta razão torna vantajoso ao participante orientar sua atenção ao lado apontado pela dica, já que ela seria um preditor confiável da localização do alvo na maioria das vezes, o que gera uma detecção do alvo mais eficiente, com respostas subsequentes mais rápidas e precisas.Posner M I, Nissen M J, Ogden W C (1978). Attended and unattended processing modes: the role of set for spatial location. In H.L. Pick and E.J. Saltzman (Eds.), Modes of Perceiving and Processing Information (pp. 137- 157). Hillsdale, NJ: Erlbaum. Em algumas tarefas há provas com dicas neutras, que não dão ao participante qualquer informação sobre o local provável do aparecimento do alvo. Uma seta dupla (com duas pontas) é um exemplo de dica neutra .
A comparação do desempenho sob as condições de dica válida, inválida e neutra permite analisar se as dicas estão direcionando a atenção para uma localização específica no campo visual e se beneficiam ou prejudicam a performance atencional do sujeito. Em algumas aplicações do paradigma de dicas preditivas, o participante não pode movimentar os olhos em resposta à dica. Neste caso, diferenças nos tempos de reação ao estímulo-alvo sob as três condições de dica indicam que sujeito empregou orientação encoberta da atenção .
Orientação aberta e encoberta da atenção
A orientação aberta da atenção corresponde às mudanças de foco atencional que podem ser constatadas por um observador externo, por exemplo quando o sujeito executa movimentos sacádicos ou de cabeça. Por sua vez, a orientação encoberta corresponde puramente a mecanismos centrais de controle atencional, independentes de respostas motoras. É possível diferenciar a orientação aberta e encoberta da atenção no paradigma de dicas preditivas ao rastrear o movimento ocular dos sujeitos. Isto pode ser feito por sistemas de vídeo ou eletrodos posicionados ao redor dos olhos.
Quando atentamos para uma localização, mesmo sem olhar diretamente para ela, o processamento de estímulos naquele dado local é facilitado e o tempo necessário para responder a eles diminui. Na tarefa de dicas preditivas, isto resulta em tempos de reação menores para alvos indicados por dicas válidas e em tempos de reação mais lentos em resposta a alvos que sucedem dicas inválidas: “As latências de detecção são reduzidas quando sujeitos recebem uma dica que indica o sinal vai ocorrer no campo visual” (Posner, Snyder & Davidson, 1980) Posner, M. I., Snyder, C. R., Davidson, B. J. (1980). Attention and the detection of signals. Journal of Experimental Psychology, 109(2):160-174.. Mudanças encobertas do foco atencional não só diminuem os tempos de reação, mas também resultam no processamento mais intenso de estímulosPrinzmetal, W.; McCool, C. & Park S. (2005). Attention: Reaction time and accuracy reveal different mechanisms. Journal of Experimental Psychology-General, 134(1):73-91. e aumentam a probabilidade do sujeito detectar um evento de intensidade próxima ao limiar sensorial na periferia do campo visual (tal como um pequeno aumento de luminância que não seria notado se a atenção estivesse alocada para outro lugar).
Stimulus onset asynchrony (SOA) O intervalo de tempo entre o aparecimento da dica e o aparecimento do estímulo-alvo é chamado de stimulus onset asynchrony (SOA, assincronia do início de estímulo, em tradução livre). Estudos prévios que usaram esta tarefa de dicas espaciais encontraram que, em adição à validade da dica, as reações comportamentais dos sujeitos também foi afetado pelo SOA. O efeito do SOA varia de acordo o uso de dicas centrais ou periféricasPosner M I, Cohen Y (1984). Components of visual orienting. In H. Bouma & D. G. Bouwhuis (Eds.), Attention and Performance X: Control of language processes (pp.531-556). Hillsdale, NJ: Erlbaum..
História 591x591px|Explicação esquemática do experimento de J. Alfred Leonard (1958). O sujeito deve detectar quando uma das lâmpadas se apaga e pressionar a chave correspondente à lâmpada correta. O acender e piscar de lâmpadas de um braço da estrutura funciona como uma dica preditiva, informando o local da alvo ao sujeito.|alt=Explicação esquemática do experimento de J. Alfred Leonard (1958). O sujeito deve detectar quando uma das lâmpadas se apaga e pressionar a chave correspondente à lâmpada correta. O acender e piscar de lâmpadas de um braço da estrutura funciona como uma dica preditiva, informando o local da alvo ao sujeito.|miniaturadaimagem Em artigo publicado em 2014 Posner, M. I. (2014). Orienting of attention: Then and now, The Quarterly Journal of Psychology. DOI: 10.1080/17470218.2014.937446 (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4345129/ ), Posner diz que a inspiração para o paradigma de dicas preditivas veio do trabalho de J. Alfred Leonard, publicado em 1958Leonard, J. A. (1958). Partial advance information in a choice reaction time task. British Journal of Psychology, 49(2), 89–96. DOI: 10.1111/j.2044-8295.1958.tb00644.x. Leonard estava interessado em estudar o tempo necessário para um humano processar um bit de informação. Para tal, usou um aparato que continha seis lâmpadas de neon presas em uma estrutura preta de metal, formada por dois braços metálicos unidos no formato de “V” invertido, cada qual com três lâmpadas. Esta estrutura era conectada a um painel de controle com uma chave correspondente a cada lâmpada. O aparelho usado no experimento foi construído por Leonard e ele mesmo foi o único sujeito do estudo. Na condição controle, o experimento se iniciava com seis ou três lâmpadas (de um único braço) sendo acesas ao mesmo tempo; depois de 100 milissegundos, uma das lâmpadas acesas era apagada e o sujeito devia pressionar o mais rápido possível a chave correspondente àquela lâmpada. A pressão da chave correta acarretava no desligamento das demais lâmpadas acesas. Na condição experimental, as três lâmpadas de um único braço (direito ou esquerdo) piscavam juntas; após um intervalo de tempo manipulado pelo experimentador, as seis lâmpadas se acendiam e então uma das três localizadas no braço que piscou se apagava. Novamente, o sujeito deveria pressionar a chave correspondente à lâmpada apagada o mais rápido possível. O desempenho do sujeito foi medido em número de acertos (pressões corretas às chaves) e tempo de reação.