A tecnologia stealth (também denominada tecnologia de baixa observabilidade ou tecnologia LO, do inglês low observable technology) é uma subdisciplina da tática militar e das contramedidas eletrônicas ativas e passivas. O termo abrange um conjunto de métodos aplicados para tornar combatentes, aeronaves, navios, submarinos, mísseis, satélites e veículos terrestres menos visíveis (idealmente invisíveis) ao radar, radiação infravermelha, sonar e outros métodos de detecção e rastreamento. Corresponde à camuflagem militar aplicada a essas faixas do espectro eletromagnético (camuflagem multiespectral).
O desenvolvimento da tecnologia stealth moderna nos Estados Unidos começou em 1958, após tentativas anteriores de impedir o rastreamento por radar de seus aviões de espionagem U-2 pela União Soviética durante a Guerra Fria terem fracassado. Os projetistas passaram a desenvolver formatos geométricos específicos para aeronaves destinados a reduzir a detecção pelo redirecionamento das ondas de radiação eletromagnética emitidas pelos radares. Materiais absorvedores de radiação também foram testados e fabricados para atenuar ou bloquear os sinais de radar refletidos nas superfícies das aeronaves. Tais alterações na geometria e na composição de superfície compõem a tecnologia de baixa detectabilidade empregada no bombardeiro furtivo Northrop Grumman B-2 Spirit.
O conceito de furtividade consiste em operar ou ocultar-se da observação externa. Esse princípio foi explorado inicialmente por meio da camuflagem visual, permitindo que a aparência de um objeto se mescle ao ambiente de fundo. À medida que a eficácia das tecnologias de detecção e interceptação (radares, sensores de rastreamento por infravermelho, mísseis terra-ar, etc.) aumentou, a concepção e a operação de combatentes e veículos militares foram profundamente influenciadas. Determinados uniformes militares recebem tratamentos químicos para suprimir sua assinatura infravermelha. Um veículo furtivo moderno é projetado desde o início para apresentar uma assinatura espectral controlada, com o grau de furtividade definido em função das ameaças de detecção projetadas.
História A camuflagem para auxiliar na predação ou evitar predadores antecede a própria humanidade, e caçadores utilizam vegetação para se ocultar desde tempos imemoriais. A aplicação bélica mais remota da camuflagem é impossível de precisar. Métodos para ocultação visual em operações de guerra foram documentados por Sun Tzu em seu tratado A Arte da Guerra no século V a.C., e por Frontino em sua obra Strategemata no século I d.C.
Na Inglaterra do século XVII, unidades irregulares de guardas florestais foram as primeiras a adotar vestimentas em tons acinzentados e terrosos (comuns em forças irlandesas no século XVI) como forma de camuflagem, seguindo exemplos da Europa continental.
Durante a Primeira Guerra Mundial, o Império Alemão realizou experimentos com o Cellon (acetato de celulose), um material de cobertura translúcido, na tentativa de reduzir a visibilidade de aeronaves militares. Protótipos isolados do caça monoplano Fokker E.III Eindecker, do biplano de observação de dois lugares Albatros C.I e do bombardeiro pesado Linke-Hofmann R.I foram revestidos com Cellon. No entanto, o brilho do reflexo da luz solar sobre o material aumentou a visibilidade das aeronaves. Constatou-se também que o Cellon se degradava rapidamente sob a luz ultravioleta e com as variações de temperatura em voo, levando ao abandono da ideia de produzir aeronaves transparentes.
Em 1916, os britânicos modificaram um pequeno dirigível da classe SS para reconhecimento noturno sobre as linhas alemãs na Frente Ocidental. Equipado com motor provido de abafador de ruído e um invólucro de gás pintado de preto, o aparelho tornou-se visual e acusticamente imperceptível a partir do solo, mas voos noturnos sobre território sob controle alemão produziram poucas informações úteis, fazendo com que o projeto fosse abandonado.
A técnica de camuflagem por iluminação difusa, uma modalidade embarcada de contra-iluminação, foi ensaiada pela Marinha Real Canadense entre 1941 e 1943. O conceito foi aplicado à aviação pelas forças armadas dos Estados Unidos e do Reino Unido: em 1945, um bombardeiro Grumman TBF Avenger equipado com projetores de luzes Yehudi conseguiu aproximar-se a de um navio antes de ser avistado a olho nu. Essa capacidade tornou-se obsoleta com a proliferação do radar.
O chaff foi inventado de forma independente no Reino Unido e na Alemanha no início da Segunda Guerra Mundial com o propósito de ocultar aeronaves do radar. Na prática, o chaff atuava sobre as ondas de rádio de modo análogo a uma cortina de fumaça perante a luz visível.
O submarino alemão U-480 é considerado o primeiro submarino furtivo da história. Possuía um revestimento de borracha com placas anecoicas, provido de cavidades internas circulares de ar para dissipar o sinal acústico dos sonares ativos ASDIC. Tintas e materiais absorventes de radar à base de borracha e compósitos semicondutores (codinomes: Sumpf e Schornsteinfeger) foram empregados pela Kriegsmarine em mastros e snorkels de submarinos durante o conflito. Ensaios comprovaram que essas camadas atenuavam assinaturas de radar tanto em comprimentos de onda centimétricos quanto métricos (1,5 metro). O conceito do submarino alemão Tipo XXIX-H introduziu cascos com seções anguladas facetadas e torre inclinada — soluções que seriam vistas décadas depois no caça F-117 —, concebidas para defletir feixes acústicos de sonares ativos navais.
Em 1956, a CIA iniciou pesquisas para reduzir a seção reta radar (RCS) do avião de reconhecimento U-2. Três sistemas foram desenvolvidos: o Trapeze (um arranjo de fios com esferas de ferrite ao longo do bordo da aeronave), mantas com circuitos de placas impressas integradas e tintas absorventes de radar. Testados em campo nos protótipos conhecidos como dirty birds, os resultados revelaram-se insatisfatórios, pois o peso agregado e o arrasto aerodinâmico não compensavam as discretas reduções nas taxas de detecção. Mais eficaz foi a aplicação de camuflagem sobre o metal polido, adotando-se um tom azul-escuro profundo. O peso da tinta custou de teto de serviço máximo, mas dificultava a identificação visual por caças interceptores.
Em 1958, a CIA solicitou verbas para um avião de reconhecimento estratégico em substituição ao U-2, concedendo o contrato à Lockheed Corporation. Clarence "Kelly" Johnson e sua equipe na divisão Skunk Works da Lockheed foram encarregados de projetar o A-12 (programa OXCART), que operava em altitudes de e velocidades de Mach 3,2 para evitar defesas por radar. Formas geométricas voltadas a atenuar ecos de radar foram avaliadas em modelos em escala (A-1 a A-11). O A-12 incorporou características furtivas, incluindo formulações especiais de combustível para reduzir a assinatura térmica da pluma de exaustão, estabilizadores verticais inclinados para dentro, compósitos estruturais em áreas críticas e acabamento em tinta absorvente de radar.
Em 1960, a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) reduziu a seção reta radar dos drones-alvo Ryan Q-2C Firebee por meio de telas metálicas instaladas sobre as entradas de ar, materiais absorventes de radiação na fuselagem e tintas antirradar.
O Exército dos Estados Unidos emitiu em 1968 uma especificação demandando uma aeronave de observação acusticamente inaudível a partir do solo quando em voo noturno a de altitude. O projeto deu origem ao Lockheed YO-3A Quiet Star, empregado no Vietnã do Sul entre junho de 1970 e setembro de 1971.
Durante a década de 1970, o Departamento de Defesa dos EUA lançou o projeto Lockheed Have Blue com o objetivo de desenvolver um caça de ataque furtivo. Uma disputa acirrada ocorreu entre a Lockheed e a Northrop Corporation para garantir o contrato bilionário. A proposta da Lockheed utilizou um tratado teórico publicado pelo físico soviético Pyotr Ufimtsev em 1962, intitulado Método das Ondas de Borda na Teoria Física da Difração (Moscou, 1962), traduzido para o inglês pela Divisão de Tecnologia Estrangeira da USAF em 1971. Essa teoria desempenhou papel determinante na concepção de aeronaves como o Lockheed F-117 Nighthawk e o Northrop Grumman B-2 Spirit. As equações descritas no artigo quantificavam a influência do formato do veículo sobre sua detectabilidade por radar (RCS). Como a União Soviética não dispunha à época de capacidade em supercomputadores para calcular essas matrizes para projetos práticos, a Lockheed aplicou as fórmulas em simulação digital, projetando a geometria facetada conhecida como Hopeless Diamond e garantindo os direitos de desenvolvimento do F-117 Nighthawk a partir de 1975. Em 1977, a Lockheed construiu dois protótipos em escala de 60% sob o programa Have Blue, que se estendeu de 1976 a 1979. A aeronave experimental Northrop Tacit Blue também contribuiu para o avanço de compósitos estruturais, superfícies curvas, baixa observabilidade e comandos fly-by-wire. O sucesso dos ensaios conduziu à criação do programa confidencial Senior Trend, que produziu o F-117 operacional.
No início do século XXI, a tecnologia de baixa detectabilidade expandiu-se para além dos Estados Unidos. A Rússia e a China realizaram voos de ensaio de suas aeronaves furtivas em 2010: a Rússia produziu protótipos de ensaio do caça de quinta geração Sukhoi Su-57, enquanto a China desenvolveu o Chengdu J-20 e o Shenyang FC-31. Em 2017, a China tornou-se o segundo país do mundo a comissionar operacionalmente um caça furtivo, alterando o equilíbrio militar estratégico no continente asiático.
Princípios A tecnologia stealth (ou LO, de baixa observabilidade) não constitui uma solução técnica única, mas um conjunto integrado de tecnologias aplicadas para reduzir substancialmente as distâncias nas quais combatentes ou veículos podem ser detectados, com ênfase primordial na atenuação da seção reta radar, mas abrangendo também assinaturas acústicas, térmicas (infravermelhas) e de radiofrequência.
Redução da seção reta radar (RCS)
Praticamente desde a invenção do radar, métodos foram testados para minimizar a reflexão de sinais. O rápido aperfeiçoamento dos sistemas de radar durante a Segunda Guerra Mundial impulsionou o desenvolvimento simultâneo de contramedidas eletrônicas, destacando-se o uso de chaff. Abordagens modernas incluem técnicas de interferência e despistamento de radar.
O termo stealth, quando associado a aeronaves com assinatura de radar reduzida, popularizou-se na década de 1980 com a divulgação pública do F-117 Nighthawk. A primeira operação em larga escala e de conhecimento público do modelo ocorreu durante a Guerra do Golfo em 1991, embora os aparelhos já tivessem sido empregados em combate pela primeira vez na Operação Just Cause, no Panamá, em 1989. Aeronaves furtivas são projetadas para registrar seções retas radar ordens de magnitude menores do que aparelhos convencionais. Pela equação do alcance do radar, mantidos os demais fatores constantes, a distância de detecção é proporcional à raiz quarta da RCS (); logo, diminuir a distância de detecção por um fator de 10 exige uma redução na RCS por um fator de 10.000 (−40 dBsm).
Geometria do veículo
Aeronaves
miniatura|As portas do compartimento do trem de pouso do caça F-35 Lightning II possuem bordas com dentes serrilhados para dispersar reflexões de radar