thumb|250px|Mapa russo do Cáucaso, 1882
A Geórgia foi parte do Império Russo de 1801 a 1918. Durante todo o período moderno, os impérios islâmicos Otomano e Persa lutaram por vários fragmentados reinos e principados georgianos até que, por volta do , a Rússia emergiu como o novo poder imperial na região. Dado que a Rússia era um Estado cristão ortodoxo, assim como a Geórgia, os georgianos procuraram cada vez mais a ajuda dos russos. Em 1783, o reino georgiano tornou-se um protetorado russo e abjurou qualquer dependência de seu suserano, a Pérsia. Em 1801, o país foi anexado pela Rússia, e reduzido ao status de uma região russa (Gubernia da Geórgia).
Nos próximos 117 anos, a Geórgia seria parte do Império Russo. O domínio russo ofereceu segurança aos georgianos contra ameaças externas, mas foi também muitas vezes pesado e insensível aos habitantes. Até o final do , o descontentamento com as autoridades russas levaram a um movimento nacional em crescimento. O período imperial russo, no entanto, trouxe mudanças sociais e econômicas sem precedentes para a Geórgia, com novas classes sociais emergentes, a emancipação dos servos libertados - bem como muitos camponeses - mas fez pouco para reduzir sua pobreza. O crescimento do capitalismo criou uma classe trabalhadora urbana na Geórgia. Ambos os camponeses e trabalhadores encontraram expressão para o seu descontentamento através de revoltas e greves, que culminaram na Revolução Russa de 1905. A sua causa foi defendida pelos socialistas mencheviques, que se tornaram a força política dominante na Geórgia nos anos finais do regime russo. A Geórgia finalmente alcançou sua independência em 1918.
Antecedentes: as relações russo-georgianas antes de 1801
Por volta do , o Reino da Geórgia tornou-se fraturado em uma série de Estados menores, que foram disputados pelos dois grandes impérios muçulmanos na região, Turquia otomana e os Safávidas persas. Entretanto, durante a segunda metade do século, uma terceira potência imperial surgiu ao norte, sendo o Estado russo de Grão-Principado de Moscou, que compartilhava da religião Ortodoxa da Geórgia. Contatos diplomáticos entre o reino georgiano da Caquécia e Moscou iniciaram-se em 1558, e em 1589 o czar Teodoro II ofereceu-se para colocar o reino sob sua proteção.Suny, page 49 Apesar da ajuda vinda do norte, os russos ainda estavam muito distantes da região do Cáucaso do sul para desafiar o controle e hegemonia otomana ou persa com sucesso. Só no início do a Rússia foi capaz de fazer sérias incursões militares ao sul do Cáucaso. Em 1722, Pedro, o Grande explorou o caos e tumulto no Império Persa Safávida a fim de liderar uma expedição contra este império, enquanto atingia uma aliança com Vactangue VI, o governante georgiano de Cártlia e o governador safávida nomeado da região. No entanto, os dois exércitos falharam ao vincular-se e os russos se retiraram para o norte novamente, deixando os georgianos à mercê dos persas. Vactangue VI terminou seus dias no exílio na Rússia.Suny pp.47-54
O sucessor de Vactangue, Heráclio II da Geórgia, voltou-se para a Rússia pedindo novamente proteção contra os ataques otomano e persa.Ronald Grigor Suny, pp.57-58 Os reis de outro Estado georgiano, Imerícia (no oeste da Geórgia), também contactaram a Rússia, buscando proteção contra os otomanos.Assatiani and Bendianachvili, pages 220 and 222. Alexander V sent a special embassy to Russia in 1738 and Solomon I sent one in 1768. A imperatriz russa Catarina, a Grande fez questão de ter os georgianos como aliados em suas guerras contra os turcos e os persas, mas enviou forças escassas para ajudá-los. Entre 1769 e 1772, um punhado de tropas russas, sob o comando do General Totleben, lutaram contra os invasores turcos em Imerícia e Cártlia-Caquécia.Rayfield, page 242 Em 1783, Heráclio II assinou o Tratado de Georgievsk com a Rússia, segundo a qual o Reino de Cártlia-Caquécia concordava em renunciar à fidelidade a qualquer estado, exceto a Rússia, em troca da proteção russa.Rayfield, page 250 Mas quando outra Guerra Russo-turca eclodiu, em 1787, os russos retiraram as suas tropas da região para usá-la em outro lugar, deixando o reino de Heráclio desprotegido. Em 1795, o novo xá persa, Maomé Cã Cajar, emitiu um ultimato para Heráclio, ordenando-lhe a romper relações com a Rússia ou enfrentaria a invasão persa.Rayfield, page 255 Heráclio ignorou, contando com a ajuda da Rússia, que não chegou. Aga Maomé Cã Cajar cumpriu sua ameaça e invadiu a capital do reino, Tiblíssi, deixando-a quase que completamente destruída.Suny pp.58-59
As anexações russas Geórgia Oriental Apesar do fracasso da Rússia em honrar os termos do Tratado de Georgievsk, governantes georgianos acreditavam que tinham a quem recorrer. Os persas tinham saqueado e destruído Tiblíssi, deixando mortos e levando georgianos cativos para o Irã.Rayfield (2012), page 256 Aga Maomé Cã Cajar, no entanto, foi assassinado em 1797 em Shusha, e o aperto e pressão sobre a Geórgia foi suavizado pelos iranianos após sua morte. Heráclio II morreu no ano seguinte, deixando o trono a seu doentio e ineficaz filho, .Rayfield, page 256
thumb|225px|esquerda|A entrada das tropas russas em Tiblíssi, 26 de novembro de 1799, por Franz Roubaud, 1886
Jorge XII não viveu por muito tempo, vindo a morrer em 28 de dezembro de 1800. Com sua morte, o reino foi dividido entre as reivindicações dos dois herdeiros rivais, David e Iulon. No entanto, o czar já tinha decidido que nenhum dos candidatos seria coroado rei. Em vez disso, a monarquia foi abolida e o país passou a ser administrado pela Rússia.Rayfield, page 258 Ele assinou um decreto sobre a incorporação de Cártlia-Caquécia no Império RussoGvosdev (2000), p. 85Avalov (1906), p. 186 o que foi confirmado pelo czar Alexandre I em 12 de setembro de 1801.Gvosdev (2000), p. 86David Marshall Lang (1957), p. 249 O enviado da Geórgia em São Petersburgo, Garsevan Chavchavadze, reagiu com uma nota de protesto que foi apresentada ao vice-chanceler russo Alexander Kurakin.Lang (1957), p. 251 Em maio de 1801, o general russo Carl Heinrich von Knorring removeu do poder o herdeiro do trono da Geórgia, Príncipe Davi, e implantou um governo provisório chefiado pelo general Ivan Petrovich Lazarev.Lang (1957), p. 247 Knorring tinha ordens secretas para remover alguns membros do sexo feminino da família real para a Rússia.Rayfield, page 259 Alguns membros da nobreza georgiana não aceitaram o decreto até abril de 1802, quando o general Knorring os forçou a fazer um juramento sobre a coroa imperial da Rússia. Aqueles que discordaram foram presos.Lang (1957), p. 252
Depois da Rússia ser capaz de usar a Geórgia como uma ponte para uma maior expansão no sul do Cáucaso, a Pérsia e o Império Otomano se sentiram ameaçados. Em 1804, Pavel Tsitsianov, comandante das forças russas no Cáucaso, atacou Ganja, provocando a Guerra Russo-Persa de 1804-1813. Isto foi seguido pela Guerra Russo-Turca de 1806-1812 contra os otomanos, que estavam descontentes com a expansão russa na Geórgia ocidental. Atitudes georgianas foram mistas: alguns lutaram como voluntários ajudando o exército russo, outros se rebelaram contra o domínio russo (houve uma grande revolta nas terras altas da Cártlia-Caquécia em 1804). Ambas as guerras terminaram em vitória russa, com os otomanos e persas reconhecendo reivindicações do czar sobre a Geórgia (pelo Tratado de Bucareste com a Turquia e o Tratado do Gulistão com a Pérsia).Assatiani and Bendianachvili, pages 253-4Suny, page 64
Oeste da Geórgia Salomão II de Imerícia estava zangado com a anexação russa de Cártlia-Caquécia. Ele ofereceu um acordo: ele iria fazer de Imerícia um protetorado russo se a monarquia e autonomia de seu vizinho foi restaurada. A Rússia não respondeu. Em 1803, o governante de Mingrélia, uma região pertencente à Imerícia, rebelou-se contra Salomão e reconheceu a Rússia como sua protetora. Quando Salomão recusou a fazer da Imerícia um protetorado russo também, o general russo Tsitsianov invadiu o reino e em 25 de abril de 1804, Salomão assinou um tratado fazendo-o um vassalo da Rússia.Assatiani and Bendianachvili, pages 247-248
No entanto, Salomão estava longe de ser submisso. Quando irrompeu a guerra entre os otomanos e Rússia, Salomão iniciou negociações secretas com os otomanos. Em fevereiro de 1810, um decreto russo proclamou que Salomão devia ser destronado e ordenou que os imerícios jurassem lealdade ao czar. Um grande exército russo invadiu o país, mas muitos imerícios fugiram para as florestas para iniciar um movimento de resistência. Salomão esperava que a Rússia, distraída por suas guerras contra os otomanos e persas, permitiria que a Imerícia se tornasse autônoma. Os russos finalmente esmagaram a revolta guerrilheira, mas não conseguiram capturar Salomão. Por fim, tratados de paz da Rússia com a Turquia otomana (1812) e Pérsia (1813) pôs fim às esperanças de Salomão em obter apoio estrangeiro (ele também tinha tentado contactar Napoleão Bonaparte). Salomão morreu no exílio em Trebizonda, em 1815.Assatiani and Bendianachvili, pages 250-252
Entre 1828 e 1829, outra guerra Russo-Turca terminou com a Rússia adicionando o principal porto de Poti e as cidades Ajaltsije e Ajalkalaki às suas possessões na Geórgia. A partir de 1803-1878, como resultado de inúmeras guerras russas agora contra a Turquia otomana, vários dos territórios anteriormente perdidos da Geórgia - como Ajária - também foram incorporadas ao império russo. O Principado de Gúria foi abolido e incorporado ao Império em 1829, enquanto a Alta Suanécia foi gradualmente anexada até 1858. Mingrélia, embora um protetorado russo desde 1803, não foi absorvido até 1867.Allen F. Chew. "An Atlas of Russian History: Eleven Centuries of Changing Borders", Yale University Press, 1970, p. 74
Os primeiros anos de domínio russo
Integração no império Durante as primeiras décadas de domínio russo, a Geórgia foi colocado sob um governo militar. A região estava na linha da frente da guerra da Rússia contra a Turquia e a Pérsia, e o comandante-em-chefe do exército russo na região era também o governador da mesma. A Rússia gradualmente expandiu seu território na Transcaucásia, em detrimento de seus rivais, obtendo grandes áreas de terra no resto da região, compreendendo o conjunto da moderna Arménia e Azerbaijão (dominadas pelo Império Cajar), através da Guerra russo-persa de 1826–1828 e o resultante Tratado de Turcamanchai. Timothy C. Dowling Russia at War: From the Mongol Conquest to Afghanistan, Chechnya, and Beyond pp 728 ABC-CLIO, 2 dec. 2014 ISBN 1598849484 Ao mesmo tempo, as autoridades russas tinham como uma de suas prioridades a integração da Geórgia com o resto de seu império. As sociedades russa e georgiana tinham muito em comum: a religião principal era o cristianismo ortodoxo e em ambos os países uma aristocracia latifundiária governou sobre uma população de servos. Inicialmente, o governo russo se mostrou arrogante, arbitrário e insensível às leis locais e aos costumes georgianos. Em 1811, o estatuto independente da Igreja Ortodoxa da Geórgia foi abolido, foi deportado para a Rússia e a Geórgia tornou-se um Exarcado da Igreja Ortodoxa Russa.Suny pp.84-5