thumb|upright=1.33|Mapa da Caxemira histórica com o Ladaque a violeta
thumb|upright=1.33|Palácio e mosteiro de Shey, residência do rei do Ladaque antes do
O Ladaque ) é uma região histórica no topo norte da Índia, com fortes influências culturais e étnicas tibetanas. Foi uma entidade política independente durante vários séculos, até à primeira metade do , quando foi integrada no estado principesco de Jamu e Caxemira.
Há muito poucos dados históricos sobre o Ladaque anteriores à criação do respetivo reino em meados do . Antes disso dificilmente se pode considerar o Ladaque uma entidade política separada. Após pelo menos dois séculos de domínio ou forte influência tibetana, o reino independente surgiu após o colapso do Império Tibetano, na primeira metade do , quando as regiões fronteiriças se tornaram reinos independentes, a maior parte deles governados por monarcas aparentados com a família real tibetana. O quinto rei da primeira dinastia chegou a conquistar parte do Baltistão, Kulu e Mustang (atualmente parte do Nepal). Apesar da sua ascendência tibetana, os reis da primeira dinastia estreitaram as relações religiosas com o noroeste da Índia, nomeadamente Caxemira. Essa situação mudou na sequência das invasões muçulmanas cerca do , que tiveram como consequência a substituição do budismo pelo islão como religião predominante nas regiões vizinhas a oeste, noroeste e sul. Os monarcas ladaques reaproximaram-se novamente em termos religiosos do Tibete budista.
Ao longo da sua história, a região sofreu vários ataques, quer provenientes dos vizinhos dominados por governantes e saqueadores muçulmanos a oeste e noroeste, quer dos vizinhos budistas tibetanos ou chineses a leste, o que pode ter contribuído para o declínio e fragmentação do reino, que chegou a estar dividido em dois, cada um deles com o seu próprio rei: o Ladaque Inferior e o Ladaque Superior. O reino foi reunificado por Bhagan, fundador da dinastia Namgyal que perdura até à atualidade embora não reine desde 1834. O período áureo do reino do Ladaque foi provavelmente o do reinado de Sengge Namgyal , que mudou a capital para Lé, onde construiu um palácio, conquistou Zanskar e Spiti e reconstruiu vários mosteiros budistas.
Durante o reinado de Sengge Namgyal ocorreram confrontos com o Império Mogol, que entretanto tinham ocupado Caxemira e o Baltistão. O Ladaque foi derrotado, mas logrou ficar independente fazendo algumas cedências e ficando aliado dos mogóis, que ajudaram a repelir uma tentativa de invasão tibetana no último quartel do . A queda de facto do Império Mogol, no início do , privou o Ladaque do seu aliado mais poderoso e em 1834, o general rajapute conquistou o Ladaque, que passou a integrar os domínios do marajá , apesar de gozar de bastante autonomia. Em 1846, o Ladaque foi formalmente incorporado no principado de Jamu e Caxemira, do qual Gulabe Singue foi o primeiro monarca, passando assim a fazer parte da Índia britânica. Após a independência da Índia, grande parte do principado, com o Ladaque incluído, passou a constituir o estado indiano de Jamu e Caxemira. Quando este estado foi dissolvido, em 2019, o Ladaque passou a ser um Território da União.
Antiguidade thumb|left|Petróglifos em Stakna, que atestam que o Ladaque pertenceu ao Império Cuchana
thumb|left|Estátua gigante de Avalokiteshvara no mosteiro budista de Alchi, do final do ou início do , um dos únicos mosteiros do Ladaque anteriores ao que chegou aos nossos dias
thumb|left|Gravura da gompa (mosteiro budista) de Hemis publicada em 1870
Os primeiros habitantes do Ladaque foram provavelmente (). Heródoto menciona duas vezes um povo chamado dadikai, primeiro com os gandarioi e depois na lista da invasão da Grécia por Xerxes . O historiador grego também mencionou os escavadores de ouro da Ásia Central, os quais também são mencionados em ligação com os dardos por Nearco, o almirante de Alexandre, o Grande, e Megástenes.
No , Plínio, o Velho voltou a mencionar os dardos como grande produtores de ouro. Estas menções podem estar relacionadas com um vago conhecimento de atividades de garimpo de ouro no Ladaque e Baltistão. Ptolomeu situa os daradrai nas partes mais a montante do rio Indo e o nome Darada é usado em listas geográficas dos Puranas.
O primeiro vestígio de história política encontra-se na inscrição em caroste de Uvima Kavthisa, descoberta perto da ponte K'a-la-rtse (Khalatse) do rio Indo, pela qual se sabe que cerca do o Ladaque fazia parte do Império Cuchana. Outras inscrições curtas em brami e em caroste foram também descobertas no Ladaque.
O monge peregrino chinês Xuanzang, descreve uma viagem de Chuluduo (Kūluta, atualmente Kulu) a Luohuluo (Lahul) e informa que «daqui, a estrada, em direção a norte, por mais de ou 'li' por caminhos perigosos e atravessando montanhas e vales, leva ao país de Lāhul. Indo mais para norte por mais de mil 'li' ao longo de uma estrada cheia de dificuldades e obstáculos, com ventos frios e flocos de neve a flutuar, pode alcançar-se o país de Marsa (também conhecido como Sanbohe)». Este reino de Mar-sa ou Moluosuo parece ser um sinónimo de Mar-yul, um nome comum do Ladaque. Noutra parte, o texto informa que Mo-lo-so, também chamado San-po-ho faz fronteira com Suvarnagotra ou Suvarnabhumi ("Terra do Ouro") e com o Reino das Mulheres (Strirajya). Segundo o tibetólogo Giuseppe Tucci, o reino de Zhangzhung, ou pelo menos as suas províncias meridionais, era conhecido por aquele nome pelos indianos do . Em 634 ou 635, Zhangzhung reconheceu pela primeira vez a suserania tibetana e em 653 foi nomeada para lá um comissário (mnan) tibetano. A administração regular tibetana estabeleceu-se em 662 e em 677 estalou uma rebelião que fracassou.
No , o Ladaque viu-se envolvido nos conflitos entre a expansão tibetana, vinda de leste, e a influência exercida pela China a partir da Ásia Central. Em 716 foi realizado um censo e em 724 a administração foi reorganizada. Em 737 os tibetanos lançaram um ataque contra o rei de Bru-za (Gilgit), que pediu ajuda aos chineses mas acabou por ser forçado a prestar vassalagem ao Tibete. O monge coreano (em pinyin: Hui Chao; chegou à Índia por mar e voltou à China em 727 através da Ásia Central. Ele menciona três reinos situados a nordeste de Caxemira que eram vassalos do Tibete:
Janet Rizvi salienta que esta passagem confirma não só que no início do o Ladaque estava sob suserania tibetana como a população não era de origem tibetana.
Em 747, o domínio tibetano enfraqueceu devido à campanha militar do general chinês , que tentou restabelecer as comunicações diretas entre a Ásia Central e Caxemira. Depois da derrota de Gao frente aos carlucos e árabes no rio Talas em 751, a influência chinesa declinou rapidamente e a influência tibetana foi retomada.
O tratado de geografia “” (982), escrito em por um autor desconhecido afegão, menciona o "Tibete Boloriano" (Bolor = Bolu, Baltistão), onde os habitantes eram principalmente comerciantes e viviam em cabanas. A existência de cruzes nestorianas (usada pelos seguidores da Igreja Assíria do Oriente) esculpidas em rochedos, aparentemente devidas a mercadores sogdianos cristãos encontradas em Drangtse (Tangtse; 115 km a leste de Lé), e de inscrições em da mesma época comprovam a importância do comércio na região. Depois do colapso da monarquia tibetana em 842, a suserania tibetana desvaneceu-se rapidamente.
A primeira dinastia tibetana
thumb|325px|O Palácio de Lé, construído pelo rei Sengge Namgyal
thumb|325px|Mapa de 1885 com a Caxemira oriental, Ladaque, vale de Karakash em Aksai Chin (historicamente parte do Ladaque)
Depois da divisão do Império Tibetano em 842, Nyima-Gon, um representante da antiga casa real tibetana fundou a primeira dinastia do Ladaque. O reino de Nyima-Gon tinha o seu centro bastante a leste do atual Ladaque. Foi durante essa época que o Ladaque foi "tibetizado", o que resultou num país habitado por uma população mista, onde as etnias tibetanas eram predominantes. No entanto, pouco depois da conquista, na tentativa de estabelecer o budismo a dinastia virou-se não para o Tibete para para o noroeste da Índia, particularmente para Caxemira. Este evento é conhecido como a "Segunda Difusão do Budismo" na região (a primeira difusão ocorreu no Tibete). Um dos primeiros reis, Lde-dpal-hkhor-btsan fez um juramento de desenvolver a religião Bön no Ladaque e fundou oito mosteiros, entre os quais o do Alto Manahris, além de encorajar a produção em massa de escritos Hbum para espalhar a religião. Pouco se sabe sobre a dinastia fundada por Nyima-Gon. O quinto rei da linhagem tinha um nome sânscrito — Lhachen Utpala — e conquistou Kulu, Mustang (atualmente parte do Nepal) e parte do Baltistão.
Devido às mudanças políticas resultantes das invasões muçulmanas, cerca do , a Índia deixou de ter interesse para o budismo e o Ladaque começou a procurar e aceitar orientação do Tibete para assuntos religiosos.
Dinastia Namgyal Raides sucessivos ao Ladaque dos estados saqueadores da Ásia Central levaram ao enfraquecimento e conversão parcial da população ao islão. O reino foi dividido em dois, com o Ladaque Superior governado pelo rei Takpabum, de Basgo, e o Ladaque Inferior governado pelo rei Takbumde, de Lé e Shey. Bhagan, um rei tardio de Basgo, reuniu novamente o país derrubando o rei de Lé. Tomou o sobrenome de Namgyal (que significa vitorioso) e fundou uma nova dinastia que ainda existe atualmente. O rei Tashi Namgyal conseguiu repelir a maior parte dos saqueadores e construiu um forte real no cimo do monte Namgyal de Lé. Um dos seus sucessores, Tsewang Namgyal , estendeu temporariamente o seu reino até ao Nepal.
Durante o reinado de Jamyang Namgyal , o Ladaque foi invadido pelo soberano do Baltistão Ali Sher Khan Anchan em resposta à matança de alguns governantes baltis muçulmanos por parte de Jamyang. Muitas gompas budistas foram danificadas durante essa invasão e atualmente existem muito poucas gompas anteriores a esse período. O sucesso da campanha militar de Ali Sher Khan impressionou os seus inimigos. Segundo alguns relatos, Jamyang firmou um tratado de paz e deu a sua mão da sua filha em casamento a Ali Sher Khan. Por sua vez, Jamyang desposou uma princesa muçulmana, Gyal Khatun. Desse casamento nasceu Sengge Namgyal , conhecido como o rei-leão.
Sengge Namgyal empenhou-se afincadamente em restaurar a antiga glória do reino, empreendendo uma enérgico programa de reconstrução de várias gompas e santuários, a mais famosa delas a de Hemis. Além disso, transferiu a sede real do Palácio de Shey para o Palácio de Lé e expandiu o reino para Zanskar, Spiti e Guge, mas foi derrotado pelos mogóis, que já tinham ocupado Caxemira e o Baltistão. O seu filho, Deldan Namgyal teve que aplacar o imperador mogol Aurangzeb construindo uma mesquita em Lé. Mais tarde, durante a Guerra Tibete–Ladaque–Mogol , derrotou a invasão do nas planícies de Chargyal, situada entre Nimo e Basgo, com a ajuda do exército mogol comandado por Fidai Khan, filho do vice-rei de Caxemira Ibrahim Khan.
Durante essa época, após o casamento de Jamyang e Gyal Khatun, houve muitos muçulmanos baltis que se instalaram no Ladaque e numerosos missionários propagaram o islão no país, convertendo muitos locais. Foram convidados muçulmanos a fazerem comércio e o exercerem outras atividades na região.
Idade Contemporânea