O Castelo de Aljustrel é uma estrutura histórica na vila e no Município de Aljustrel, no Distrito de Beja, em Portugal. Do castelo restam apenas algumas ruínas e a Igreja de Nossa Senhora do Castelo, que é considerada como um dos principais marcos da vila. As ruínas do castelo e a Igreja formam um só conjunto, classificado como Imóvel de Interesse Público. Apesar do local ser ocupado desde a pré-história, o castelo em si só foi construído durante o período muçulmano, tendo sido tomado em 1234, como parte do processo da Reconquista cristã.CAPELO et al, 1994:36 Aljustrel foi uma destacada base militar durante o processo de reconquista do Alentejo e do Algarve, mas perdeu a sua importância após o final daquele conflito, tornando-se apenas numa simples comenda da Ordem de Santiago, pelo que o castelo entrou em declínio. A colina voltou a ganhar relevo no , com a construção do importante santuário mariano de Nossa Senhora do Castelo.
thumb|left|Topo da colina em 2025, sendo visível a igreja, o marco geodésico e o terreiro. Era neste local que se encontrava o Castelo de Aljustrel Descrição Localização e vestígios do castelo O sítio arqueológico está situado no topo de uma colina de forma sensivelmente oval, com cerca de 100 m de comprimento por 30 m de largura, e 247 m de altura, permitindo dominar toda a área em redor, e ao mesmo tempo oferecer boas condições naturais de defesa. Em termos geológicos, tanto o cerro do castelo com o da Mangancha, situado nas proximidades, possuem afloramentos de natureza manganesífera, motivo pelo qual foram alvo de explorações mineiras. O topo é parcialmente ocupado por um terreiro, onde se encontra a igreja, sendo o acesso ao local feito por um grande escadório, dividido em patamares, que parte da Rua de Nossa Senhora do Castelo, na base da colina. No topo do escadório encontra-se um arco encimado por uma sineira, decorado por volutas. Este sino era utilizado para chamar a população para os serviços religiosos, e dar o alarme em caso de incêndios. Junto ao escadório encontra-se um cruzeiro barroco, com base de planta quadrada e três registos, suportando uma cruz latina em cantaria. No local destaca-se igualmente o marco geodésico, conhecido como gurita ou guarita, e que foi instalado em 1802, sendo um dos mais antigos em território nacional.
Os vestígios do antigo castelo são principalmente compostos pelos embasamentos de duas torres de forma quadrangular, e parte de um pano de muralha, encerrando uma plataforma com cerca de 3 mil m². Os vestígios das fundações e das muralhas encontram-se nas vertentes a Noroeste, Nordeste e Sudeste, e o muro que encerra o escadório foi parcialmente construído em cima de antigas estruturas do castelo. Num dos ângulos da muralha, no lado ocidental da fortaleza muçulmana, constatou-se que tinham sido adicionadas várias camadas de alvenaria sobre as muralhas já existentes, no sentido de as tornar mais elevadas. As muralhas foram fabricadas em taipa e cal, com grandes pedras inseridas na massa, formando um tipo de betão. Este sistema não está relacionado com as tipologias de taipa em terra, de menor resistência, nem com outros sistemas de taipa em betão, estando mais próximo dos aparelhos em cal e pedra, que utiliza uma grande quantidade de cal e apresenta uma compactação bastante alta. Também não foram encontrados quaisquer indícios de fundações, nem dos sinais negativos para apoio das estruturas de cofragem, pelo que esta terá sido feita em aberto, método utilizado durante o período romano.
Também foram encontrados indícios de edifícios residenciais, e de uma lareira de forma circular, com uma estrutura de pedras de pequenas dimensões, que ainda tinha alguns restos de carvão. Alguns destes recintos habitacionais estavam anexos às muralhas no lado ocidental da muralha, tendo sido igualmente descoberto um forno para pão nesta área. Parte das estruturas islâmicas, situadas na parte mais elevada do cerro foram sobrepostas por novos edifícios construídos após a reconquista do castelo, cujas ruínas foram por seu turno parcialmente aniquiladas com a instalação do marco geodésico, em 1802. As paredes destes edifícios também foram construídas em taipa, sobre fundações em alvenaria de pedra. As muralhas islâmicas não possuíam adarve nem merlões, embora possa ter existido um caminho de ronda parcial, formado por uma estrutura de madeira sobre muros. Com efeito, o sistema defensivo islâmico de Aljustrel é considerado antiquado em relação à época, baseando-se principalmente em condições naturais de defesa, e sem estruturas avançadas que permitissem uma maior resistência contra os invasores, como barbacãs ou torres albarrãs. No espaço do antigo castelo islâmico foram descobertos igualmente vestígios de fortificações cristãs, que seria possivelmente um alcácer com uma torre de menagem.
Durante as escavações arqueológicas de 2007 a 2010 foram identificadas duas ruas que se cruzavam em ângulo recto, sendo uma destas curva e perpendicular à muralha, com um pavimento em lajes de médias dimensões, e um canal para esgoto no centro. Este canal foi concebido de forma a ter um declive ligeiro, de forma a permitir o escoamento das águas pluviais, e ligava-se a um outro canal aberto na base da muralha. A outra rua seguia junto a um afloramento de jaspe, que foi escavado no sentido de servir como parede traseira para alguns compartimentos, sendo ainda visíveis os restos dos muros de alvenaria que foram construídos para colmatar as falhas no afloramento rochoso. Estes compartimentos seriam provavelmente residências de uma só divisão, embora tenham sido construídas com um aparelho bem elaborado, em forma de espinho e com umbrais bem definidos. Neste local foram encontrados indícios da reocupação após a conquista do castelo, uma vez que os compartimentos foram entulhados e depois reutilizados como lixeira, onde foram descobertas peças de cerâmica do período baixo-medieval cristão. Ambas as artérias eram ladeadas por edifícios, destacando-se um que tinha uma planta de planta de forma rectangular, e uma porta para a rua com soleira e o umbral formados por lajes. A ideia geral que se obtém com as escavações arqueológicas permite concluir que o povoado islâmico, apesar das suas reduzidas dimensões, estava muito bem organizado e concentrado, aproveitando ao máximo o espaço num local de orografia difícil, deixando apenas pequenos espaços disponíveis entre os afloramentos de jaspe, nas cotas mais elevadas, e os declives abruptos. Estas dificuldades foram vencidas através da instalação de edifícios adaptados às cotas do terreno, nalguns casos sobre plataformas artificiais, e divididos por uma malha de ruas em rampa. As reduzidas dimensões da povoação islâmica, e o relativo atraso tecnológico do castelo para a época, podem sugerir que nessa altura Aljustrel era mais importante do ponto de vista administrativo ou militar do que económico, controlando uma vasta região de interesse estratégico, por se situar num ponto central, entre os rios Sado e Guadiana, no percurso entre Mértola e a foz do Rio Tejo, e entre Beja e a costa atlântica.
O espólio encontrado nas escavações arqueológicas inclui um elemento de mó, uma lúnula, uma colher em cerâmica, vários vidrados do período islâmico e posteriores, fragmentos de osso, além de várias peças líticas, como lâminas em silex, lascas em quartzo, e um fragmento de enxó em pedra polida.
thumb|Arco de acesso à igreja, em 2013 Santuário Sobre as ruínas da antiga fortaleza encontra-se o Santuário de Nossa Senhora do Castelo, uma igreja de peregrinação, que se integra no estilo barroco. O imóvel é composto por uma só nave, capela-mor, sacristia e uma antiga casa para romeiros. A fachada principal está dividida em duas partes, uma correspondente à nave, enquanto que ao lado encontra-se a casa dos romeiros. A fachada da nave tem um só pano ladeado por pilastras, terminando numa empena com uma cruz no topo e decorada com volutas, enquanto que nos vértices das pilastra, encontram-se acrotérios rematados por pináculos. Nesta fachada abrem-se um portal e uma janela de verga recta. A fachada lateral esquerda é pontuada por contrafortes de configuração diferente. Na frontaria está inscrito o ano de 1946, para comemorar a cerimónia de coroação de Nossa Senhora de Fátima por parte de um legado do papa Pio XII.LOBATO, 1983:94-95
No interior, a nave possui duas áreas distintas, correspondendo ao espaço primitivo e a uma antiga galilé que foi fechada e integrada no corpo da igreja, sendo ambas ligadas por um arco de volta perfeita. Esta última tem uma abóbada de berço, enquanto que a nave original termina numa abóbada de cruzaria sobre mísulas de configuração troncocónica, podendo esta estrutura ser uma das poucas partes sobreviventes da destruição causada pelo Sismo de 1755. No lado da Epístola encontra-se um púlpito, enquanto que na parede oposta abre-se uma capela. A nave está decorada com azulejos do , polícromos e com motivos de maçarocas, simulando o estilo de uma tapeçaria. O investigador Santos Simões, na sua obra Azulejaria Portuguesa, destacou estes azulejos pelo seu «impecável estado de conservação e pela meticulosa colocação».
Originalmente a cobertura da nave também estava ornamentada com pinturas murais, mas estas foram quase totalmente ocultas por várias camadas de cal. A capela-mor está dividida da nave por um arco triunfal de volta perfeita assente sobre pilastras, e tem uma cobertura em abóbada de berço. O altar apresenta influências barrocas, e o retábulo-mor está decorado com talha branca e dourada, com nichos ornamentados no estilo rococó, encontrando-se no central uma imagem de roca do orago da igreja. Junto à capela-mor e da lateral é visível uma parte do solo rochoso onde está assente o edifício, e que segundo a lenda terá sido o sítio onde apareceu Santa Maria. Segundo uma lenda relatada por frei João de Santa Maria, quem encostar o ouvido à rocha ouve o ruído de um mar situado alegadamente nas profundezas, e se alguma vez esta for arrancada daquele local, sairá dali uma grande quantidade de água, que irá inundar a vila. O padre João Rodrigues Lobato, na sua obra Aljustrel Monografia de 1983, calculou que poderá ter havido uma cisterna subterrânea nas imediações da igreja, estrutura normalmente encontrada nos castelos, e que o movimento do ar por túneis subterrâneos e o fenómeno natural de formação de condensação sobre a pedra poderão ter sido a origem destas lendas.