miniaturadaimagem|Produção do blindado Guarani A indústria bélica do Brasil é uma das mais importantes do mundo, possuindo uma gama variada de fabricantes de diversos equipamentos militares, armas de fogo, munições, mísseis, aeronaves, blindados e explosivos. É responsável por um faturamento anual aproximado de R$ 1 bilhão e pelo emprego de cerca de 40 mil pessoas, segundo dados da Aniam (Associação Nacional da Indústria de Armas e Munições).

De 1975 a 1985 o Brasil tornou-se um dos poucos países a simultaneamente produzir aeronaves, artilharia, blindados, sistemas de navegação e radar e navios de guerra. Chegou a ser o décimo maior exportador de armamentos. A indústria entrou em crise no final dos anos 80 e início dos 90, mas algumas empresas sobreviveram e prosseguiram o desenvolvimento no século XXI.

Atualmente, o maior exportador militar do Brasil é a Embraer, que exporta anualmente seus aviões Super Tucano em versões militares e de treino, a linha ERJ com alterações militares e seus cargueiros KC-390, seguido de empresas como a Helibras (fabricante brasileira dos helicópteros da Airbus Helicopters), a Avibras (fabricante de mísseis, foguetes e sistemas de lançamento) e fabricantes de armas de fogo leves, principalmente pistolas e revólveres fabricados pela gaúcha Taurus, escopetas fabricadas pela Boito e fuzis de assalto fabricados pela estatal IMBEL com fins de exportação para mercados militares, civis e policiais em todo o mundo.

Desde 2007 o Brasil sedia a LAAD, principal feira de defesa, armamento e materiais bélicos da América Latina, recebendo visitantes, compradores e expositores de todos os continentes.

História Antecedentes miniaturadaimagem|Construção do navio de guerra Tamandaré (1890)|esquerda Existem relatos de que em 1762 surgiu a Casa do Trem, no Rio de Janeiro, com o objetivo de fazer reparos e conservar armamentos e equipamentos de tropas já existentes na época. Esta data coincide com a criação do Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro.

Oficialmente a indústria bélica surgiu no Brasil em 1808 com a criação da Fábrica de Pólvora da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, por Dom João VI. Por pertencer ao governo, durante muitos anos a fábrica de pólvora fez parte do Ministério do Exército, até finalmente em 1975 ser incorporada pela recém-criada IMBEL.

Anteriormente a isto, todo o armamento presente no Brasil era importado da Europa pelos colonizadores portugueses. Mosquetes, garruchas, bacamartes, chumbos, pólvoras e canhões eram trazidos nos porões dos navios para fins de caça, defesa da colônia, utilizado também para as expedições bandeirantes e controle dos índios e escravos na época. Muitas armas deste período ainda podem ser encontradas em diversos museus espalhados pelo Brasil.

A Marinha tinha alguns arsenais, especialmente o do Rio de Janeiro que foi estabelecido em 1763. Seu primeiro navio de guerra foi construído quatro anos depois. No período Joanino a construção naval concentrava-se na Bahia em virtude de sua madeira. De 1810 a 1822 só foram construídos sete navios de guerra. Em 1827, os arsenais construíram uma nau, três fragatas, uma corveta e oito canhoneiras. Não chegavam a formar um complexo naval industrial e não conseguiram acompanhar os avanços tecnológicos. A substituição da vela pelo motor a vapor e da madeira pelo ferro exigiam a construção industrial, não artesanal. Na Guerra do Paraguai o país projetou encouraçados em tempo recorde, mas após a custosa construção do couraçado Tamandaré em 1890 e o bombardeio e transferência dos equipamentos do Arsenal com a Revolta da Armada de 1893, a importação tornou-se o principal meio de expansão da Esquadra.

Ao longo do século XIX havia produção de pólvora, fundição de canhões e construção naval, sob controle estatal e próximos ao centro de poder. Em algumas regiões estratégicas a produção privada de armas leves e munição seria estimulada. No início da República, o Exército tinha uma Fábrica de Cartuchos e Artefatos de Guerra (Rio), duas Fábricas de Pólvora (Rio e Mato Grosso), três Arsenais de Guerra (Rio, Rio Grande do Sul e Mato Grosso) e Laboratórios Pirotécnicos (Rio Grande do Sul), de Bacteriologia, Químico e Farmacêutico (Rio).

Desenvolvimento (até os anos 60) miniaturadaimagem|Construção da Companhia Siderúrgica Nacional (1941) Na anos 30, surgiram mais cinco fábricas do Exército. No governo de Getúlio Vargas a centralização, industrialização e adesão das elites políticas e industriais abriram caminho para a causa da autonomia militar. O capital privado tinha pouco interesse no setor e a produção estatal limitava-se a armamentos de pequeno calibre e explosivos, mas a partir desse período surgiu a indústria de base necessária para agregar valor aos itens militares, marcadamente com a Companhia Siderúrgica Nacional, de 1941. As políticas de substituição de importações dos governos subsequentes também foram importantes. A dependência externa para os equipamentos militares era considerável, especialmente com o Acordo Militar Brasil-Estados Unidos. O armamento norte-americano predominou de 1946 a 1970, permitindo criar uma divisão blindada e outra aeroterrestre. A livre entrada do armamento estrangeiro inibiu projetos nacionais.

Até 1960 quase toda a produção militar ocorria na Base do Galeão e nas fábricas e arsenais do Exército e da Marinha. Enquanto isso a indústria como um todo crescia, de forma que quando o setor militar se diversificou, já tinha fornecedores e recursos humanos à disposição, com indústrias metalúrgica e automobilística estabelecidas. Isso o diferenciou da indústria bélica argentina, desenvolvida mais cedo e usada para alavancar o crescimento da indústria civil; no Brasil ela somente alavancou a sofisticação das indústrias já articuladas.

Para a Marinha miniaturadaimagem|Construção do navio contratorpedeiro Acre (1941)|esquerda A política nacionalizante de Vargas foi aplicada na Marinha. A alteração em 1934 do Programa Naval de 1932 previa o restabelecimento da construção naval militar. Conforme o ministro da Marinha, Aristides Guilhem, isso seria possível pela adaptação prévia dos estaleiros para trabalhar com peças importadas. Para afastar as ofertas industriais da Alemanha, entre as quais a construção de um porto e um arsenal naval, os Estados Unidos, com quem ela disputava por influência econômica no país, apoiaram a Marinha brasileira. Além das ofertas da construção ou cessão de contratorpedeiros americanos, a Missão Naval deu sua assistência à construção naval brasileira, para a qual os planos dos contratorpedeiros classe Mahan foram vendidos a preço simbólico e usados na construção de três contratorpedeiros brasileiros de classe M. Até 1945, também foram montados dois monitores, três caça submarinos e seis corvetas. Os planos de construir submarinos não se concretizaram.

Embora ainda dependente dos pré-fabricados importados, essa indústria já tinha quadros técnicos experientes e conseguia cobrir parte da demanda por canhões, munições, torpedos e equipamento eletrônico. A importação continuou e ganhou volume na Segunda Guerra Mundial com o Lend-Lease. Os EUA cessaram seu apoio à construção naval brasileira quando sua própria já permitia ceder excedentes aos aliados e sua política externa para a América do Sul tornou-se equilibrar as forças entre os países. O material importado continuou barato no pós-guerra. Após a deposição de Vargas, a atitude de suspeita com todas as medidas da administração anterior esvaiu os ganhos realizados. A construção de navios de guerra desacelerou bastante. Porém, no governo de Juscelino Kubitschek, o investimento em engenheiros navais e o estabelecimento da base industrial para a produção de componentes navais permitiriam seu ressurgimento posterior.

Aéreo miniaturadaimagem|Montagem de Focke-Wulf Fw 58 na Base Aérea do Galeão Tentativas de implantar a indústria aeronáutica, inclusive a militar, datam dos anos 30. Tinham sucesso limitado, como a produção do Muniz M-7 ou o FW 58, fruto de um acordo entre a Marinha e a Focke-Wulf. A Força Aérea Brasileira tornou-se independente em 1941, mesmo ano do Ministério da Aeronáutica, também responsável pela aviação civil. Sua criação expressava uma ambição de desenvolvimento nacional que incluía um complexo industrial aeronáutico. Este, porém, estaria apenas no futuro, pois o país era agrário e não tinha uma indústria avançada. O instrumento para a executar a ambição foi o estabelecimento do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em 1950 e do Centro Técnico da Aeronáutica (CTA), difundindo o conhecimento técnico e impulsionando o nascimento de indústrias. O CTA é considerado marco da indústria de armamentos moderna. A Base do Galeão produzia pequenos aviões de treino com tecnologia estrangeira, chegando a produzir um por dia durante a guerra. Muitos aviões importados foram submetidos à engenharia reversa.

Para o Exército esquerda|miniaturadaimagem|Submetralhadora INA Para o fornecimento de armas leves para o Exército, surgiam a Rossi e a Taurus, respectivamente nos anos de 1889 e 1937, ambas sediadas no Rio Grande do Sul. Já a Companhia Brasileira de Cartuchos surgiu em São Paulo em 1926 e ganhou mercado com a venda de munições para as tropas paulistas na Revolução de 1932 e anos mais tarde, para a Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial. No período pós-guerra surgiram muitos fabricantes de armas, como a Indústria Nacional de Armas (INA) que foi fundada em 1949 por um militar que teria recebido os direitos de fabricação da metralhadora dinamarquesa Madsen M1946, após realizar uma missão técnica do Exército Brasileiro e ajudar a Dinamarca a evitar que alguns projetos de armas chegassem às mãos dos nazistas. A INA, junto à CBC e à Fábrica de Itajubá (fabrica de armas pertencente ao Ministério do Exército, incorporada em 1975 pela IMBEL), foram as principais fabricantes e fornecedores de armas de fogo para as forças militares e policiais entre as décadas de 50 e 60.

Uma questão tecnológica crucial era a adoção dos veículos motorizados e mecanizados. Entre os argumentos pela permanência parcial do cavalo, estavam o alto custo da substituição, a insuficiente rede de transporte, a necessidade de importar combustível, a limitada industrialização e a inexistência de uma indústria bélica capaz de produzi-los (embora a importação fosse uma possibilidade). Um acordo com os EUA permitiu alguma moto-mecanização, mas nos anos 60 seu nível ainda era baixo: a infantaria era a pé e grande parte da cavalaria era hipomóvel.

Apogeu (anos 60 a 80)

A preocupação com a dependência na importação de armamento estrangeiro já existia com João Goulart e continuou entre os militares e estrategistas geopolíticos após o golpe de 1964: havia interesse em modernizar as Forças Armadas com o mesmo nível de armamento e equipamentos das demais potências, livrar-se de pressões de fornecedores externos, ganhar influência geopolítica no Terceiro Mundo e demonstrar a competência da elite dirigente. Com isso, empresas variadas começaram a adaptar e desenvolver projetos totalmente nacionais, baseados nos de sucesso no exterior. Os programas de desenvolvimento armamentista datam dos anos 60, com um grande desenvolvimento do parque industrial até seu apogeu nos anos 80. Nos anos 60, surgiram a Avibras (1961), Engesa (1963) e Embraer (1969), empresas que representariam mais de 90% da exportação de armamentos daquele período.

O crescimento ocorreu paralelo às restrições norte-americanas às exportações militares ao Brasil nos anos 60, seguidas da ruptura do Acordo Militar em 1977, ao avanço da indústria de bens de capital nos anos 70, ao milagre econômico brasileiro e em seguida à década perdida, que não a impediu de crescer rapidamente em meio à recessão do início dos anos 80.