Homo heidelbergensis é uma espécie de hominídeo extinto que surgiu há mais de 500 mil anos e perdurou, pelo menos, até há cerca de anos, tendo vivido no período conhecido como Pleistoceno médio. Essa espécie de hominídeo recebeu esse nome pelo seu local original de descoberta de seus primeiros fósseis, uma propriedade rural próxima à Heidelberg, Alemanha. Devido à sua semelhança anatômica e sítios arqueológicos convergentes com outras espécies do gênero Homo presentes no pleistoceno médio, como o H. sapiens, H. neanderthalensis e H. erectus, diversos fósseis encontrados durante as décadas de 1980 e 1990 foram classificados de forma não seletiva sob a espécie H. heidelbergensis. A continuidade dessa prática gerou diversas discussões nas décadas seguintes acerca da validade e existência da espécie e em sua filogenia. Atualmente o H. heidelbergensis é classificado como uma cronoespécie que teria evoluído de linhagens africanas do Homo erectus, sendo classificado ainda como o ancestral comum mais recente entre H. sapiens (Humano anatomicamente moderno) e o H. neanderthalensis (Neandertal).

Descobertas arqueológicas No ano de 1907, no vilarejo de Mauer, próximo à cidade de Heidelberg, na Alemanha, o escavador Daniel Hartmann encontrou a mandíbula fossilizada que seria caracterizada no ano seguinte pelo professor de antropologia alemão Otto Schoetensack, como pertencente à nova espécie de hominídeo Homo heidelbergensis.

Em 1921, outro importante fóssil foi descoberto em Broken Hill (Kabwe), na Zâmbia, pelo paleontólogo Arthur Smith Woodward. Este crânio bem preservado revela muitos aspectos da morfologia da face, caixa cerebral, e base do crânio que inaugurou a espécie H. rhodesiensis. Esse material exibe alguns caracteres arcaicos semelhantes a Homo erectus, porém apresentam um aumento do tamanho do volume cranial. Além disso, a morfologia do nariz e palato, do osso temporal e da região occipital está avançada em relação ao que se observa em Homo erectus. Esta evidência está de acordo com um episódio de especiação que ocorre no meio do Quaternário e que dá origem a populações anatomicamente mais modernas. Embora haja desacordo sobre a taxonomia, é possível argumentar que essa espécie é apropriadamente considerada Homo heidelbergensis.

A tíbia encontrada em Boxgrove, Inglaterra, no ano de 1993, está associada à fauna do Pleistoceno Médio, e à arqueologia do Paleolítico Inferior. Além disso, os sedimentos em Boxgrove foram depositados durante um episódio interglacial temperado e a fase fria que se seguiu. Restos arqueológicos escavados de todas as principais unidades estratigráficas desse sítio indicam ainda uma continuidade de ocupação para esta parte do sul de Inglaterra ao longo de um período de 104 anos, mesmo através de regimes climáticos em acentuada mudança, indicando possíveis adaptações ao clima frio. A elevada robustez da amostra indica uma resistência excepcional da diáfise e/ou proporções corporais adaptadas ao frio, paralelas às dos Neandertais. O desacordo sobre a taxonomia dos hominídeos do Pleistoceno Médio e a falta de material fóssil comparável tornam problemática uma tarefa específica para a tíbia do Boxgrove. A tíbia só pode ser atribuída ao gênero Homo, com possível referência adicional ao Homo heidelbergensis.

Foi no sítio arqueológico denominado “Sima de los Huesos”, na Espanha, que materiais de crânios datados do Pleistoceno Médio foram encontrados e relacionados com Homo heidelbergensis, conectando o fóssil típico dessa espécie, a mandíbula Mauer 1, a crânios completos. Este poço produziu um número de 28 hominídeos datados de cerca de 400 ka, sendo considerada a coleção mais completa de registros fósseis de Homo heidelbergensis em todo o mundo. Sima de los Huesos nunca foi um local de ocupação hominídea, uma vez que não foram descobertos vestígios de habitação, nem uma rede de carnívoros, devido à falta de restos de animais herbívoros. Essas características apontam para a hipótese de que o local tenha sido ocupada apenas temporariamente ao longo do período.

Taxonomia Historicamente, a classificação de uma ampla gama de fósseis do pleistoceno médio, ditos de Homo heidelbergensis, a partir da década de 1980 foi alvo de diversas críticas em razão da heterogeneidade que essa prática causou dentro do que se considerava parte da espécie. Devido ao constante debate e dificuldade de classificação dos hominídeos desse período, o pleistoceno médio é popularmente referido como “muddle in the middle”, traduzido livremente para a “desordem média”.

Desafios de classificação A natureza fragmentária e pouco informativa da mandíbula Mauer 1, o fóssil tido como tipo nomenclatural dessa espécie, ou seja, que serve como o padrão de comparação para outros fósseis candidatos a essa espécie, também contribuiu com a dificuldade de classificação do H. heidelbergensis. Mandíbulas, como a Mauer 1, não oferecem informações suficientes para delimitar requisitos rígidos para a classificação de outros candidatos em potencial, seja porque apresentam poucos mudanças anatômicas que permitam discernir entre espécies ou pela dificuldade de encontrar mandíbulas intactas entre outros possíveis fósseis candidatos do mesmo período do H. heidelbergensis.

A classificação do Homo erectus e a ascensão da teoria sintética da evolução, ambos na década de 1950, acabaram por reagrupar diversos hominídeos propostos e reduzir o número de espécies identificadas. Esse evento levou a classificação da mandíbula de Mauer como uma subespécie de H. erectus (H. erectus heidelbergensis). Na década de 1970, a introdução dos métodos de cladística à evolução humana levou a uma nova classificação do H. erectus, que repercutiu na determinação do H. heidelbergensis como uma espécie independente. Por conta das dificuldades de comparação do Mauer 1 com novos fósseis do pleistoceno médio encontrados na Ásia, Europa e África ao longo das décadas de 1980 e de 1990, o termo H. heidelbergensis gradualmente se tornou um sinônimo também da classificação “Homo sapiens arcaico” e “Homo sapiens sensu lato” (do latim “sentido abrangente”) um termo genérico no qual se encaixavam os fósseis do pleistoceno médio não atribuídos a Homo erectus.

A própria discussão acerca da classificação do H. heidelbergensis abrange também a discussão de pilares centrais da taxonomia, sua evolução como campo do conhecimento e sua herança filosófica. Na taxonomia prevalece o debate entre o realismo, pensamento pautado nas ideias de Aristóteles e que considera a existência de espécies como parte da natureza intrínseca dos seres vivos, e o nominalismo, outra corrente de pensamento pautada nas ideias de John Locke e outros pensadores mais recentes de que o conceito de espécie seria fundamentalmente um construto humano, algo artificial. A abordagem realista de tratar o conceito de espécie como algo fixo e parte da essência dos organismos, apesar de ser uma ferramenta prática para a taxonomia por permitir divisões claras entre os objetos de estudo, falha em reconhecer a nuances que existem entre organismos classificados em uma mesma espécie e o modo gradual em que a evolução acontece. Perante a isso, a abordagem nominalista propõe uma visão mais abrangente e mutável acerca da classificação dos organismos, uma visão que adiciona mais complexidade ao estudo taxonômico.

Essa discussão é de grande importância na classificação do H. heidelbergensis, já que a prática de adotar um fóssil tipo, como a Mauer 1, é arraigada na visão realista de conectar espécimes em uma mesma categoria de acordo com sua “essência”. No caso do H. heidelbergensis, devido à escassez de informações que seu fóssil tipo atual pode prover, teóricos consideram abandonar a nomenclatura original e classificar esse hominídeo do pleistoceno médio com a alcunha de Homo rhodesiensis sob outro fóssil tipo, o crânio Kabwe 1, cuja riqueza maior de informações auxiliaria na resolução do problema de classificação. O crânio Kabwe 1, encontrado junto a outros fragmentos de fósseis em 1921 na atual Zâmbia e identificado pelo paleontólogo britânico Arthur Smith Woodward, exibe traços similares aos crânios de H. sapiens, como o volume cranial esperado, além de apresentar outros aspectos, como o supercílio espesso e largo, característicos de hominídeos mais antigos. Ambos os registros fósseis foram posteriormente ligados, juntamente aos crânios encontrados em Petralona, à indústria Cromeriense, sugerindo uma proximidade entre esses registros.

Classificação atual e histórico evolutivo Por convenção, hoje, o H. heidelbergensis é considerado o último ancestral comum entre o H. sapiens e o H. neanderthalensis, já que essa é a época em que se considera ter ocorrido a divergência entre essas duas linhagens e devido às semelhanças anatômicas dos fósseis de H. heidelbergensis com ambas as espécies. Mesmo com essa determinação, ainda há discussão acerca da extensão geográfica que corresponde ao H. heidelbergensis, que consideram distinguir as nomenclaturas de linhagens africanas e europeias. Caso essa divisão fosse aceita, espécimes europeias do atual H. heidelbergensis continuariam sob o mesmo fóssil tipo e nomenclatura, enquanto linhagens encontradas em sítios africanos seriam classificadas como Homo rhodesiensis, seguindo a associação feita com o crânio Kabwe 1. Em 2010, foi sugerido que espécies asiáticas de Homo heidelbergensis também fossem mantidas sob essa classificação. No entanto, a identificação recente e sequenciamento do material genético de H. denisova levaram à proposição de que talvez esses fósseis pertençam ao grupo dos denisovanos, ao invés de Homo heidelbergensis. Esse consenso, no entanto, termina na tentativa de explicar a ancestralidade do H. heidelbergensis, e dois novos argumentos surgem para explicá-la. O primeiro se pauta nas semelhanças entre essa espécie e o H. erectus, colocando o Homo heidelbergensis como uma cronoespécie que representa a linhagem européia/africana do H. erectus e o último ancestral comum entre o H. sapiens e o H. neanderthalensis. Outros teóricos sugerem ainda uma segunda hipótese, em que esse hominídeo seria uma cronoespécie apenas do ramo neanderthal, o que o colocaria como uma versão “arcaica” do H. neanderthalensis. Assim, é possível ver que a discussão da classificação do H. heidelbergensis não só é um tópico de discussão complexo, como também continua central para desvendar o emaranhado de fósseis e classificações do pleistoceno médio. Alguns teóricos atribuem essa dificuldade ainda ao fato de que, possivelmente, o H. heidelbergensis seja a espécie que mostra a transição que deu origem às linhagens de H. sapiens, H. neanderthalensis e, mais recentemente, aos denisovanos.

Habitat A divergência na paleoarqueologia em relação à classificação do H. heidelbergensis se reflete também nos possíveis habitats e regiões geográficas pelas quais esse hominídeo tenha migrado. Independentemente de sua classificação, o continente europeu, mais especificamente as baixas latitudes na Europa mostram sinais de ocupação por H. heidelbergensis, conforme observado nos sítios arqueológicos no norte da Grécia (Petralona), península ibérica (Sima de los Huesos e Gran Dolina, na Serra de Atapuerca) e em Aragon, onde diversas ferramentas de pedra e ossos desse hominídeo foram observado, por vezes em localidades sobrepostas a outros fósseis que denotam ocupação de H. neanderthalensis. Ademais, sítios arqueológicos de maior latitude como na Alemanha (Mauer e Steinheim), o local de sua descoberta inicial, e nas Ilhas Britânicas (Swanscombe, Happisburgh e Boxgrove) ainda durante o período de glaciação, indicam alguma aptidão a ambientes de menores temperaturas.