A invasão abássida da Ásia Menor em 806 foi a maior operação realizada pelo Califado Abássida contra o Império Bizantino. A expedição foi comandada em pessoa pelo califa Harune Arraxide , que desejava retaliar os sucessos bizantinos na zona califal fronteiriça no ano anterior e exibir o poderio abássida sobre o imperador . Um enorme exército abássida, segundo fontes árabes compreendendo mais de 135 mil homens, atacou através da Capadócia sem oposição, capturando várias cidades e fortalezas, mais notadamente Heracleia, e forçando Nicéforo a buscar a paz em troca de tributo.

Após a partida de Harune, contudo, Nicéforo violou os termos do tratado e reocupou os fortes fronteiriços que havia sido obrigado a abandonar. A preocupação de Harune com uma rebelião no Coração e sua morte três anos depois evitou uma reprise de tamanha escala. Além disso, a guerra civil abássida que eclodiu após 809 e a preocupação bizantina com o Primeiro Império Búlgaro contribuíram para o cessar de conflito árabe-bizantino em larga escala pelas duas décadas seguintes.

Antecedentes

Após a deposição da imperatriz Irene de Atenas em outubro de 802 e a ascensão de em seu lugar, uma fase mais violenta nas prolongadas guerras bizantino-árabes eclodiu. Após uma série de raides anuais destrutivos através da Ásia Menor pelo Califado Abássida, Irene parece ter assegurado um acordo com o califa Harune Arraxide em 798 em troca do pagamento anual de tributo, repetindo os termos acordados por uma trégua de 3 anos após a primeira campanha em larga escala de Harune em 782. Nicéforo, por outro lado, foi mais guerreiro — uma fonte siríaca registra que quando ele soube da ascensão de Nicéforo, um renegado bizantino alertou o governador árabe da Jazira (Alta Mesopotâmia) a "jogar sua seda e colocar sua armadura". Além disso, ele estava determinado a reabastecer o tesouro imperial por, entre outras medidas, cessar o tributo.

thumb|upright=1.05|esquerda|Soldo da imperatriz Irene thumb|upright=1.05|esquerda|Dirrã de Harune Arraxide

Harune retaliou de uma só vez, lançando um raide sob seu filho Alcácime na primavera de 803. Nicéforo não poderia responder a isso, pois lidou com uma revolta em larga escala do exército bizantino da Ásia Menor sob seu comandante-em-chefe, . Após a deposição de Vardanes, Nicéforo reuniu seu exército e marchou para encontrar uma segunda invasão ainda maior liderada pelo próprio califa. Após Harune invadir a região fronteiriça, os dois exércitos confrontaram-se por dois meses na Ásia Menor Central, mas não chegaram a uma batalha campal; Nicéforo e Harune trocaram cartas, até o imperador organizar a retirada e uma trégua para o resto do ano em troca do pagamento único de tributo.

No ano seguinte, 804, uma força abássida sob Ibraim ibne Jibril cruzou os montes Tauro na Ásia Menor. Nicéforo decidiu enfrentar os árabes, mas foi surpreendido e pesadamente derrotado na Batalha de Craso, onde mal conseguiu escapar com vida. Preocupados com os problemas no Coração, Harune novamente aceitou tributo e fez a paz. Uma troca de prisioneiros foi também arranjada e ocorreu durante o inverno na fronteira entre os dois impérios no rio Lamo, na Cilícia: aproximados muçulmanos foram trocados pelos bizantinos levados cativos nos anos anteriores. Harune então partiu para o Coração, deixando Alcácime para vigiar a fronteira bizantina.

Nicéforo usou a oportunidade para, na primavera, reconstruir os muros destruídos das cidades de Safíçafe (Safsaf), Tébasa e Ancira, e no verão lançou o primeiro raide bizantino em duas décadas contra os distritos fronteiriços árabes (tugur) na Cilícia. O exército bizantino invadiu o território circundante das fortalezas de Mopsuéstia e Anazarbo e levou muitos prisioneiros. A guarnição de Mopsuéstia atacou a força bizantina e recuperou muitos prisioneiros e espólio, mas os bizantinos marcharam contra Tarso, que foi refortificada e repovoada sob ordens de Harune em 786 para fortalecer o controle muçulmana na Cilícia. A cidade caiu e a guarnição inteira foi levada cativa. Ao mesmo tempo, outra força bizantina atacou os tugur da Alta Mesopotâmia e sem sucesso sitiou a fortaleza de Melitene, enquanto uma rebelião instigada pelos bizantinos contra a guarnição árabe local iniciou no Chipre.

thumb|upright=1.05|Soldo de e Estaurácio thumb|upright=1.05|Zona de fronteira bizantino-árabe no sudeste da Ásia Menor, com as principais fortalezas

Esse ressurgimento súbito da atividade ofensiva bizantina alarmou enormemente Harune. Além disso, ele recebeu relatos que Nicéforo estava planejando ataques similares para o ano seguinte, o que desta vez visava a recuperação total destes territórios fronteiriços. Como o historiador Warren Treadgold escreve, se os bizantinos tivessem sido bem sucedidos neste esforço, "guarnecer Tarso e Melitene teria parcialmente bloqueado as principais rotas de invasão árabe através do Tauro em direção ao coração bizantino, para o maior benefício dos bizantinos". Por outro lado, Nicéforo esteve certamente preocupado com a enorme superioridade dos homens e recursos califais, e é mais provável que pretendeu esta campanha simplesmente como demonstração de força e um teste de determinação do seu inimigo.

A campanha

Tendo resolvido os problemas no Coração, Harune retornou para o ocidente em novembro de 805 e preparou uma enorme expedição retaliatória para 806, reunindo homens da Síria, Palestina, Pérsia e Egito. Segundo Atabari, seu exército compreendia 135 mil tropas regulares e voluntários e libertos adicionais. Estes números — e mesmo as alegações mais fantásticas de 300 mil homens do cronista bizantino — são facilmente os maiores registrados para o período abássida inteiro e maiores que a força estimada do exército bizantino inteiro. Embora são certamente exagerados, são no entanto indicativo do tamanho da força abássida. Ao mesmo tempo, uma força naval sob seu almirante Humaide ibne Maiufe al-Hajuri foi preparada para atacar o Chipre.

O enorme exército invasor partiu da residência de Harune em Raca ao norte da Síria em 11 de junho de 806, com o califa como seu comandante, alegadamente trajando uma capa com a inscrição "guerreira da Fé e Peregrino" (em árabe "gazi, haje"). Os abássidas cruzadas a Cilícia, onde Harune ordenou que Tarso fosse reconstruída, e entrou na Capadócia bizantina através dos Portas da Cilícia. Harune marchou para Tiana, que pelo tempo parece ter sido abandonada. Lá, começou a estabelecer sua base de operações, ordenando a que refortificasse a cidade e erigisse uma mesquita.

O tenente de Harune, Abedalá ibne Maleque Alcuzai tomou Siderápalo, de onde o primo de Harune, Daúde ibne Issa ibne Muça, com metade do exército abássida, aproximados 70 mil segundo Atabari, foi enviado para devastar a Capadócia. Outros dos generais de Harune, , capturou a então chamada "Fortaleza dos Escravos" ("Hicine Alçacaliba" - Hisn al-Saqalibah) e a recentemente reconstruída cidade de Tésaba, enquanto capturou o "Forte da Salgueiro" (Alçafiçafe) e Malacopeia. Andrasso foi capturada e Cizistra foi sitiada, enquanto os invasores alcançaram tão longe quanto Ancira, que eles não capturaram. Harune com a outra metade de suas forças foi para oeste e capturou Heracleia após cerco de um mês em agosto ou setembro. A cidade foi saqueada e arrasada, e seus habitantes escravizados e deportados para o califado. Ao mesmo tempo, no Chipre, Humaide atacou a ilha e capturou 16 mil cipriotas, incluindo o arcebispo, que foram levados para a Síria, onde foram vendidos como escravos.

Nicéforo, excedido em número e ameaçado pelos búlgaros na retaguarda, não poderia resistir à investida abássida. Ele fez campanha como chefe de seu exército e aparentemente venceu alguns pequenos conflitos contra destacamentos isolados, mas permaneceu bem longe das principais forças abássidas. No final, com a angustiante possibilidade dos árabes invernares no solo bizantino em Tiana, Nicéforo enviou três clérigos como embaixadores: o bispo Miguel de Sínada, o abade Pedro do Mosteiro de Gúleo e o mordomo Gregório da Metrópole de Amástris. Harune concordou com os termos, que incluíam um tributo anual (30 mil nomismas de ouro segundo Teófanes ou 50 mil segundo Atabari) e o humilhante pagamento pessoal da jizia pelo imperador e se filho e herdeiro Estaurácio no valor de 3 moedas de ouro cada para o califa (quatro e duas respectivamente, na versão de Atabari), assim reconhecendo-se como súditos do califa. Além disso, Nicéforo prometeu não reconstruir os fortes desmantelados. Raxide então reconvocou suas forças de seus vários cercos e evacuou o território bizantino.

Rescaldo

thumb|upright=1.05|Grécia bizantina nos séculos IX-X

Os termos do acordo de paz foram seguidos por uma troca surpreendentemente amigável entre os dois governantes, relatada por Atabari: Nicéforo pediu a Harune que ele enviasse uma garota de Heracleia, uma das candidatas a esposa de seu filho Estaurácio, e um pouco de perfume. Segundo Atabari, Harune "ordenou que a escrava fosse procurada; ela foi trazida de volta, adornada com elegância e colocada num assento na tenda, junto com seus conteúdos, vasos e acessórios, foram entregues ao enviado de Nicéforo. Ele também enviou para Nicéforo o perfume que havia requerido, e ainda enviou-lhe tâmaras, pratos de doces gelatinosos, passas e drogas curativas". Nicéforo retornou o favor ao enviar um cavalo carregado com 50 mil moedas de prata, 100 vestes de cetim, 200 vestes de fino brocado, 12 falcões, 4 cães de caça e mais três cavalos. Mas tão longo os árabes se retiraram, o imperador novamente restaurou os fortes fronteiriços e cessou de pagar tributo. Teófanes relata que Harune inesperadamente retornou e tomou Tébasa em retaliação, mas isso não é corroborado pelas demais fontes.

Os árabes lançaram uma série de raides retaliatórios no ano seguinte, mas o raide da primavera sob Iázide ibne Maclade Alubairi Alfazari foi pesadamente derrotado, com Iázide caindo no campo de batalha. O maior raide de verão sob Hartama ibne Aiane foi encontrado por Nicéforo em pessoa, e após uma batalha indecisiva ambos os lados se retiraram. Os bizantinos em resposta atacaram a região de Marache, enquanto no final do verão Humaide lançou um grande raide naval, que pilhou Rodes e alcançou tão longe quanto o Peloponeso, onde fomentou uma rebelião entre os eslavos locais. Em seu retorno, contudo, Humaide perdeu vários navios numa tempestade, e no Peloponeso, a revolta eslava foi suprimida após falhar em capturar Patras. O fracasso dos esforços abássidas deste ano foi agravado por outra revolta no Coração, que forçou Harune a partir novamente para oriente. O califa concluiu uma nova trégua, e outra troca de prisioneiros foi realizada em Lamo em 808. Nicéforo foi assim deixado com seus ganhos, a restauração das fortificações fronteiriças e o cessar do tributo, intactos.

Impacto

thumb|esquerda|upright=1.05|Dracma de Alamim thumb|esquerda|upright=1.05|Dirrã de Almamune